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31.1.05

Team America



Os criadores da série mais politicamente incorrecta de sempre, South Park, trocaram os desenhos recortados por marionetas, mas mantêm o humor escatológico e subversivo de sempre. De um lado temos o Team America, os policias do mundo, prontos a tratar dos terroristas em qualquer canto da terra, provocando inconsciente e alegremente alguns danos colaterais pelo caminho, como a destruição da torre Eiffel, do Louvre, ou de umas quantas piramides do Egipto. Do outro, terroristas árabes e tchetchenos, liderados por Kim Jung Il (que troca os r pelos l como é da praxe, e é apresentado como um psicopata solitário) tendo como seus aliados as estrelas 'liberais' de Hollywood, lideradas por Alex Baldwin, que se acham a consciência do mundo e são o maior bombo da festa. O filme não consegue manter o ritmo o tempo todo, abusa dos interlúdios musicais sendo por vezes algo chato, mas tem momentos muito divertidos (como o ataque suicida de Michel Moore- a doninha socialista), verdadeiros achados (a marioneta de Matt Damon só sabe dizer o próprio nome) e tem uma imparcialidade verdadeiramente democrática: ninguém, mas mesmo ninguém, fica bem na fotografia.

28.1.05

Nathalie



Catherine é uma ginecologista de meia-idade, que um dia descobre que o marido, Bernard, tem uns 'casos' ocasionais. Ele jura-lhe que a ama, que nunca lhe contou nada por ser tão banal, que ela o pode esquecer pois não tem qualquer importância. Mas Catherine não o consegue, e toma uma decisão algo insólita: contrata uma prostituta sofisticada para o seduzir. As suas intenções não são muito claras: tem esperança que o marido rejeite os avanços daquela, para assim ficar mais descansada, apesar de ele lhe ter confessado os seus affaires? Ao início talvez, mas depois de um ou dois encontros Nathalie - nome sugerido por Catherine à prostituta - lhe dizer que foram para a cama, Catherine quer saber todos os detalhes e continua-lhe a pagar para ela manter os encontros com o marido e lhe contar todos os pormenores. Para Nathalie, as coisas são claras: em vez dos habituais clientes homens, tem aqui uma cliente especial, uma mulher que se excita ao ouvir os relatos dos encontros sexuais do marido com a amante. Para o espectador, não é assim tão claro. Tanto Catherine como Bernard são seres fechados, que pouco falam, que pouco se deixam conhecer. As motivações de Catherine tanto podem ser as que Nathalie pensa, como poderão ser mais complexas. Um escape ao casamento rotineiro. Um pretexto para ela própria ter um caso. Uma vontade deliberada de se humilhar. Nunca temos a certeza sobre o que ela pensa ou sente. Mesmo o final do filme, um final surpreendente, diz-nos mais sobre Nathalie e Bernard do que sobre Catherine. Sobre ela não sabemos nada. Ou sabemos alguma coisa: sabemos que foi ela que escolheu o nome de Nathalie; que sugeriu a sedução ao marido; que encorajou a que todos os pormenores lhe fossem contados; que foi quem viveu mais intensamente aquele romance; que Nathalie, no fundo, é Catherine.

27.1.05

Closer/Perto demais



Dan/Jude Law, um escritor de obituários com aspirações a escritor conhece na rua, e devido a um acidente, Alice/Natalie Portman, uma striper americana acabada de aterrar em Londres. Resultado: amor à primeira vista. Larry/Clive Owen, um dermatologista, conhece Anna/Julia Roberts, uma fotógrafa, num oceanário devido a uma partida que lhe pregaram. Resultado: amor à primeira vista. Mas isto não se fica por aqui: Jude Law vai-se sentir atraído por Julia Roberts e vice-versa, Clive Owen por Natalie Portmana e vice-versa...A regra da atracção domina o filme, com as personagens a não resistirem em envolver-se umas com as outras, entrando às tantas o argumento um tanto ao quanto na inverosimilhança com o agora deixo-te, agora volto para ti. Ou pelo menos não nos é mostrado o suficiente para percebermos estas voltas e reviravoltas. Tudo a ver com sexo? Aparentemente sim, pelo menos as personagens passam a vida a falar disso, em excelentes diálogos em que tudo é dito e em que tudo é perguntado. Curiosamente quem mais reticências tem em falar de sexo é Alice, a striper, que é também a personagem mais forte do filme - e Natalie Portman, que ganhou o Globo de Ouro, arranca a melhor interpretação de todas. Clive Owen (que também ganhou o globo) tem uma voz magnifica e deve ser um excelente actor de teatro, mas aqui dá a impressão de passar o filme a declamar. Quanto a Julia Roberts tem a personagem mais fraca para defender (ou ela não lhe consegue dar a espessura suficiente) e Jude Law, bom, ainda não é desta que prova ser um actor a sério...Seja como for, numa altura em que 90% da produção de Hollywood se destina a teenagers, sabe bem ver um sólido filme para adultos.

24.1.05

A rapariga santa



Tal como explicava o título do filme anterior de Lucrecia Martel, todas as suas personagens viviam num 'pântano' existencial: os adultos levavam vidas narcóticas e frustradas, os adolescentes viviam angustiados e com duvidas. 'A rapariga santa' mantém estas características, mas concentra mais o espaço e o argumento. Dito de outra maneira, enquanto o tema do filme anterior era o próprio ambiente pesado e sufocante em que as personagens se moviam, aqui há uma 'história' para contar: a da relação entre uma adolescente, Amalia, que vive no hotel de que a mãe é proprietária (e onde se passa todo o filme), e um médico, o Dr.Jano, que participa numa conferência no hotel e um dia se 'encosta' nada inocentemente a ela. É-nos mostrada a perturbação que isto provoca em Amalia - que faz parte dum grupo coral com outras adolescentes, onde discutem os chamamentos divinos, com uma catequista que não está à altura, ou não tem paciência, para estas questões (Amalia e a amiga acham que ela está sempre a pensar no namorado). O tema do filme é, portanto, este conflito entre os apelos da fé e o despertar da sexualidade. Um tema familiar em cineastas de países com forte componente católica (basta pensar em Almodovar, que aliás é produtor do filme), mas que Lucrecia Martel não desenvolve linearmente. Vai andando às voltas, mostrando-nos a obsessão da mãe de Amalia pelo ex-marido, o seu tio Freddy a tentar telefonar para os filhos que estão no Chile com a ex-mulher, as pequenas histórias dos médicos que estão na conferência, deixando a câmara deambular pelos quartos, pela cozinha, pela piscina do hotel, envolvendo-nos neste ambiente onde está sempre presente a doença, algum mal estar, mas também o impulso sexual, o desejo. Por vezes faz lembrar o sanatório da 'Montanha mágica', devido a este microcosmos, a esta atmosfera estranha em que tudo é ampliado. Aliás, penso que vém daqui o maior mérito da realizadora: a sua capacidade de nos fazer respirar este ar sufocante em que vivem as suas personagens. O seu contraponto é a incapacidade que temos de nos envolver com elas, de nos identificarmos com qualquer uma delas. O lado frio e analítico da realizadora sobrepõe-se às suas personagens, mantendo-nos à distância admirando o 'espectáculo' mas impedindo-nos de lhe aderir totalmente.

21.1.05

Livraria (I)



'Os filmes-chave do cinema' reúne 200 filmes (entre 1895 e 1986) seleccionados por Claude Beylie, crítico cinematográfico francês. Na introdução o autor expõe as premissas do livro: não pretende ser um 'catálogo exaustivo '; foram seleccionados 'filmes-etapas que marcaram uma viragem', 'produções votadas por um vasto consenso 'e filmes que são 'expressão original, até mesmo subversiva do pensamento de um homem'; por fim, 'a limitação de um filme por cineasta, dois raramente, três no máximo'. Comecemos por esta última, que me parece ser a mais discutível. O autor justifica-se escrevendo que teria sido 'um absurdo privilegiar abusivamente os grandes em detrimento dos pequenos'. No entanto esta opção implica excluir um sem número de reconhecidas obras-primas. Vejamos: temos uma vintena de realizadores com 2 filmes seleccionados (de um modo geral os nomes são pacificos) e apenas 2, se não me falham as contas, com 3 filmes - Jean Renoir e Fritz Lang, escolha sem duvida muito pessoal e curiosa, pois se são dois dos maiores, talvez não fossem a escolha mais óbvia, principalmente o segundo. O problema são os outros, os que têm apenas um filme. Dois exemplos: apenas um Dreyer (A paixão de Joana D'Arc) e um Kazan (America America). Não é fácil justificar a exclusão, mesmo numa selecção de apenas 200 filmes, de 'Esplendor na relva' ou de 'Um eléctrico chamado desejo’, para não falar d´'A palavra'... Poder-se-á pensar: para entrar qualquer um destes teria que sair outro, e agora estar-se-ia a criticar a ausência desse. Bom, não é bem assim, especialmente quando notamos que cinquenta dos filmes descritos são...franceses! É difícil acreditar que um quarto dos filmes-chave do cinema sejam franceses, especialmente quando só temos um Bresson, um Truffaut e por aí fora...Posto isto, e não obstante alguma pobreza gráfica, este é um livro que se devora num ápice. É descrito um filme por página, tendo um resumo do argumento e uma análise da obra, quase sempre interessante e informada. Além disso temos alguns textos mais detalhados sobre alguns temas ('o nascimento da industria do filme' e o 'expressionismo alemão', por ex.), bem como algumas belas fotografias (a preto e branco) de cenas dos filmes.

Melinda e Melinda



A última obra-prima de Woody Allen data de 1989. Desde aí, pode-se dizer que tem andado sempre a fazer o mesmo filme: uns a puxarem mais para o drama, outros para a comédia, uns mais inspirados, outros menos, mas o facto é que sempre com uma qualidade média muito, muito aceitável. Esperemos que Woody ainda realize muitos e bons filmes, mas 'Melinda e Melinda' funciona excelentemente como um resumo da sua obra, um somatório de todas as suas virtudes aqui reunidas de um modo particularmente feliz: excelentes actores e ainda melhores actrizes (Radha Mitchell, Chloe Sevigny), diálogos topo de gama, as dificuldades das relações entre casais (a rotina, a infidelidade, a falta de paixão) filmadas como só ele sabe, excelentes piadas, grandes momentos trágicos, uma banda sonora intocável, um ritmo perfeito. No mesmo filme mostra-nos que a vida pode ser uma merda (como descobre a Melinda do 'segmento tragédia') ou, não direi um conto de fadas, mas algo que vale a pena (como descobre a Melinda do 'segmento comédia'); que podemos acreditar nas pessoas e há sempre uma segunda oportunidade (como descobre a 'segunda' Melinda e Chloe Sevigny - no 'segmento tragédia', porque à custa da felicidade de Melinda) ou que não se pode contar com ninguém, nem com a melhor amiga, nem com o namorado (como descobre a 'primeira' Melinda). Talvez este filme não seja uma obra-prima, mas anda lá perto. E é o melhor filme de Woody Allen desde, pelo menos, 'As faces de Harry'.

16.1.05

Maria cheia de graça



Maria é uma rapariga colombiana de dezassete anos que está farta da vida que tem, do chefe prepotente, do emprego mal pago, do namorado que não ama, da irmã e da mãe com quem vive. Para mudar de vida, aceita fazer de 'correio' de droga para os Estados Unidos. Joshua Marston filma esta viagem num estilo realista, quase como se estivesse a realizar um documentário, mostrando-nos todos os pormenores sobre como jovens colombianas transportam droga no próprio corpo para os Estados Unidos. O género 'realista' não costuma trazer grandes obras primas à sétima arte, não obstante ultimamente terem surgido alguns sucessos nesta área, como o fraquinho mas muito sobrevalorizado 'Cidade de Deus' . 'Maria cheia de graça' está muito acima da média do género, evitando conscienciosamente quer o choradinho quer o folclore, encontrando sempre o tom 'documental' certo e introduzindo até momentos de verdadeiro 'suspense' Hitchcockiano. No entanto (e até o titulo o denuncia), o filme tem outras ambições: para o realizador, tão importante como a viagem de avião Bogotá-New Jersey, é a viagem interior de Maria, a transformação da adolescente insatisfeita do início do filme, na mulher determinada que temos no final. Aqui, falta qualquer coisa ao filme para chegar lá, para nos tocar, nos comover, nos despertar do interesse curioso (perante uma realidade que nos é desconhecida) para um interesse real pela personagem. Isto apesar do magnífico desempenho de todas as actrizes, com natural destaque para Catalina Sandino Moreno, que compõe uma magnifica Maria cheia de força.

15.1.05

Estatísticas



Olho para os meus filmes na prateleira e sinto-me como aquelas pessoas que tinham centenas de discos de vinil quando apareceram os CD's...é que só cerca de 20% da minha videoteca é composta de DVD's, sendo a restante fatia constituída pelas velhinhas cassetes VHS. Ainda por cima, muitas delas gravadas da TV, com a qualidade que se imagina! Bom, de qualquer maneira resolvi-me a fazer (finalmente) uma base de dados dos ditos filmes. E já cheguei a uma conclusão inesperada: a década mais representada é a de 90!
Os filmes que possuo, estão assim distribuidos por década:

Década............... Número de filmes
20........................ 2
30....................... 17
40....................... 43
50....................... 32
60....................... 27
70....................... 29
80........................ 7
90....................... 59
00....................... 16

Bastante surpreendente, pelo menos para mim! Já agora, para os mais curiosos que tiveram a paciência de chegar até aqui posso dizer que os 2 representantes da década menos representada, a de 20, são 'A quimera do ouro' de Charles Chaplin (1925) e 'Dia de cólera' de Carl Dreyer (1928). Em VHS, claro.

14.1.05

The Ghost and Mrs. Muir




'O Fantasma apaixonado' foí o titulo português deste filme, e de facto é disso que se trata: da paixão entre o fantasma de um irascível lobo do mar (Rex Harrison) e a jovem viúva (Gene Tierney) que vai habitar a sua antiga casa, por ele assombrada. Mais de cinquenta anos depois de ter sido realizado por Joseph L. Mankiewicz, permanece um dos filmes mais românticos da história do cinema.

12.1.05

Ocean´s Twelve



'Ocean´s Twelve' é a sequela de 'Ocean´s Eleven', que por sua vez era um remake do filme do mesmo nome de 1960, realizado por Lewis Milestone. Geralmente os remakes são piores que o original, e as sequelas piores que os filmes que lhe dão origem. 'Ocean´s Eleven', o remake, contrariava esta regra: era um 'heist movie' bastante divertido e bem feito, um filme-pipoca acima da média, que não envergonhava o original. Desta sequela esperava-se, no mínimo, mais do mesmo, assim como sucede com os filmes do 007, em que a história é sempre a mesma, mas ninguém está à espera de mais, desde que o argumento se aguente minimamente, tenha umas boas cenas de acção e a Bond girl seja competente...Infelizmente destes três requisitos, 'Ocean´s Twelve' só cumpre o terceiro: Catherine Zeta-Jones é a Bond girl com que James sempre sonhou mas nunca teve. Quanto ao argumento, é bastante débil e desinteressante. Quanto às cenas de acção, nem vê-las. Em vez disso temos muita auto-citação, auto-paródia, reflexões sobre isto e aquilo, experimentalismos e tiques de autor. Ou seja, o lado Soderbergh-full-frontal em dose acima do recomendado. O resultado é a primeira grande desilusão do ano.

10.1.05

História de Marie e Julien



Em 2004 estrearam em Portugal dois filmes de proeminentes realizadores da Nouvelle Vague: 'Agente triplo' de Eric Rohmer (84 anos) e este filme de Jaques Rivette (76 anos). Uma dúzia de anos depois d´'A bela impertinente' o realizador volta a filmar com Emmanuelle Béart, a Marie do título, uma mulher misteriosa que reaparece de repente na vida de um relojoeiro chantagista (Julien/Jerzy Radziwilowikz). Durante as primeiras duas horas, filmadas no peculiar estilo lento e demorado de Rivette, assistimos à história de amor de Marie e Julien. O que mais fica são as belas cenas de sexo entre os dois (muito carnais, mas muito pudicas), havendo também por lá uma história de chantagem, o MacGuffin deste filme. Quando a história parece não ter mais para dar, e os espectadores mais impacientes ou menos familiarizados com Rivette já estarão exasperados com o arrastar do enredo, eis que nos é revelada a surpresa que o argumento nos reservava (e diremos apenas que é bastante surpreendente e desconcertante). O problema é que nesta fase já a nossa atenção está algo adormecida, e a 'reviravolta' não tem o impacto que teria uma hora antes... Não seremos nós a criticar Rivette, um grande realizador, mas o cineasta 'Nouvelle Vague' cá da casa continua ser Rohmer.

5.1.05

Finding Neverland



Este filme é a ilustração da célebre frase de Flaubert, aplicada a J.M.Barrie: 'Peter Pan c'est moi'. Às tantas é dito "cada vez que alguém afirma que não acredita em fadas, morre uma". Nem mais: é este espírito que é preciso ter ao ver o filme. Se acreditarmos em fadas, é um filme perfeito.

3.1.05

5x2



Cinco cenas na vida de um casal, começando no dia da assinatura formal do divórcio e acabando na altura em que se conheceram. Ou seja, sabemos desde logo que o casal se separou, e vemos assim os restantes 4 episódios à procura dos motivos para tal, o que justifica a opção de filmar do fim para o início. A ele (Stéphane Freiss) nunca o conhecemos bem, é reservado e misterioso nas suas acções. A ela, temos a sensação que a conhecemos há muito, é a Valeria Bruni-Tadeschi de outros filmes, simpática, sensual, um pouco perdida. Cinco cenas para explicar o fim de uma relação de meia dúzia de anos são pouco? Talvez, mas cinquenta ou cem também não chegariam de certeza. O que fica entre elas cabe à imaginação do espectador, e se ao fim não temos a certeza de perceber o porquê da cena inicial (o divórcio), talvez Marion e Gilles também não o saibam explicar muito bem. Há pistas, há sintomas, mas o resto depende dos sentimentos de cada um. François Ozon sem perder o lado cerebral que lhe é caracteristico, desta vez comove-nos amiúde, talvez porque tudo isto nos é familiar, porque saibamos que a vida é assim mesmo.