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31.3.05
29.3.05
O assassínio de Richard Nixon
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Unknown

Todos sabemos que Nixon nunca foi assassinado, e por este simples facto 'O assassínio de Rixard Nixon' recebe desde já o prémio de melhor título do ano.
Este é um bom filme do qual é fácil dizer mal.
Pode ser acusado de ser mais um filho menor de 'Taxi Driver' (um solitário revoltado com a podridão do mundo que o rodeia e que procura um escape violento) ou de ser uma crítica simplista da sociedade contemporânea (embora se passe nos anos 70, não é difícil extrapolar para o presente - Samuel Bicke/Sean Penn planeia desviar um avião para o fazer explodir contra a Casa Branca...o que é que isto nos faz lembrar?).
Mas o que eu vi, acima de tudo, foi o retrato de um homem a caminho do desespero: um homem angustiado a telefonar à ex-mulher que não vai recuperar mais, a ter que engolir sapos no emprego, a querer ser honesto e a não conseguir, a ditar os seus monólogos revoltados para um gravador afim de os enviar para o seu ídolo Leonard Bernstein, prova irreversível da sua alienação.
Fazer-me sentir tudo isto, envolver-me no ambiente paranóico em que em que este homem vivia, não é tarefa de somenos por parte do realizador, o estreante Niels Mueller, e por isso este filme, que apesar do tema ‘pesado’ consegue ser despretensioso, merece a minha simpatia.
Mas o que eu vi, acima de tudo, foi o retrato de um homem a caminho do desespero: um homem angustiado a telefonar à ex-mulher que não vai recuperar mais, a ter que engolir sapos no emprego, a querer ser honesto e a não conseguir, a ditar os seus monólogos revoltados para um gravador afim de os enviar para o seu ídolo Leonard Bernstein, prova irreversível da sua alienação.
Fazer-me sentir tudo isto, envolver-me no ambiente paranóico em que em que este homem vivia, não é tarefa de somenos por parte do realizador, o estreante Niels Mueller, e por isso este filme, que apesar do tema ‘pesado’ consegue ser despretensioso, merece a minha simpatia.
28.3.05
Kinsey
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Allen Douglas

É um filme bastante mais interessante do que se poderia supor.
Kinsey tinha um mundo limitado e obsessivo. Era um cientista determinado, que queria responder a uma pergunta básica no que diz respeito ao sexo: “O que é normal?”.
Para Kinsey as necessidades fisiológicas primárias (em que o sexo está incluído) deveriam sobrepor-se às inibições causadas pelas regras sociais estabelecidas, e a frustração causada por essas inibições seria a causa de insucesso de grande parte das relações. Ele aplicava essas ideias a si, à sua família, e aos seus colaboradores. O choque entre o que ele considera ser um entrave à felicidade individual, e outros consideram ser necessário à confiança mútua numa relação é um dos pontos interessantes do filme.
Outro aspecto interessante é o seu Método de recolha da Vida Sexual dos milhares de intervenientes no projecto de elaboração de estatísticas de comportamento sexual, que preconizava absoluta imparcialidade e nenhum julgamento moral.
Era também sua intenção desmistificar, e libertar comportamentos desviantes por força de um novo padrão moral ditado pelas suas estatísticas.
Os resultados do seu projecto chocaram uma América puritana, no auge da Guerra Fria e da Caça às Bruxas. O efeito do seu segundo livro, em que se dedicava de forma particular à sexualidade feminina foi ainda maior por revelar que as donas de casa, mães e irmãs Americanas também tinham e buscavam prazer nas relações sexuais.
Kinsey tinha um mundo limitado e obsessivo. Era um cientista determinado, que queria responder a uma pergunta básica no que diz respeito ao sexo: “O que é normal?”.
Para Kinsey as necessidades fisiológicas primárias (em que o sexo está incluído) deveriam sobrepor-se às inibições causadas pelas regras sociais estabelecidas, e a frustração causada por essas inibições seria a causa de insucesso de grande parte das relações. Ele aplicava essas ideias a si, à sua família, e aos seus colaboradores. O choque entre o que ele considera ser um entrave à felicidade individual, e outros consideram ser necessário à confiança mútua numa relação é um dos pontos interessantes do filme.
Outro aspecto interessante é o seu Método de recolha da Vida Sexual dos milhares de intervenientes no projecto de elaboração de estatísticas de comportamento sexual, que preconizava absoluta imparcialidade e nenhum julgamento moral.
Era também sua intenção desmistificar, e libertar comportamentos desviantes por força de um novo padrão moral ditado pelas suas estatísticas.
Os resultados do seu projecto chocaram uma América puritana, no auge da Guerra Fria e da Caça às Bruxas. O efeito do seu segundo livro, em que se dedicava de forma particular à sexualidade feminina foi ainda maior por revelar que as donas de casa, mães e irmãs Americanas também tinham e buscavam prazer nas relações sexuais.
Destaque para Peter Sarsgaard, ao mesmo nível do trabalho feito em Garden State
Sylvia
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Allen Douglas

Sylvia deveria retratar a vida de Sylvia Plath, uma das maiores referências da literatura do séc. XX e ícone do movimento feminista nos Estados Unidos, mas é apenas uma compilação de clichés. A ideia com que fiquei, apesar de conhecer pouco da obra e vida de Sylvia Plath e do seu marido Ted Hughes, foi que o argumentista escreveu um guião genérico acerca da vida de um casal de poetas e ficou à espera de um título. Estão lá todos os lugares comuns: a poetisa que procura a depressão para conseguir escrever, o poeta boémio e sedutor, a dona de casa explorada e enganada, o marido perseguido por uma mulher ciumenta e possessiva.
Constantine
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Allen Douglas

Depois de “A semente do diabo” de Roman Polanski, filme maior de um género que terá inaugurado, surgiram vários descendentes. Alguns com relativo sucesso, casos de “O exorcista”, “O advogado do diabo” ou o mais recente “Dogma”, outros como “Estigma”, “Os dias do fim” ou este Constantine, nem por isso.
Todos estes filmes têm uma estrutura comum:
O protagonista (ou exorcista) - é uma espécie de anti-herói, de mal com a vida, em dúvidas com a sua fé, com um segredo que o atormenta, à procura da redenção. Quanto mais canastrão for o actor que desempenha este papel melhor.
A miúda - Escolhida no meio de milhões de mulheres pelo simples facto de todos os dias comer uma banana chiquita por exemplo, para carregar no útero o filho do Diabo.
Vai-lhe acontecer de tudo: chagas, convulsões, cabeça a rodopiar, vómito em catadupa, voz de bagaço, etc. No fim sai disto tudo como se tivesse estado 15 dias num spa.
O Padre – Pode ser também o protagonista, mas aí perde-se uma personagem para sacrificar em prol do espectáculo, e também é mais difícil de explicar porquê que no fim do filme ele anda enrolado com a miúda.
Os ajudantes do Diabo/Deus – personagens secundárias que tentam quebrar o equilíbrio milenar. Normalmente do lado de Deus são anjos caídos em desgraça, com um sentido de humor duvidoso, que tentam comprar de volta as asinhas com boas acções. A puxar pelo Diabo são os mesmos bonecos usados no Alien.
Deus/Diabo – Normalmente só aparece um deles, e é quase sempre o Diabo - sempre faz um efeito mais espectacular - Deus para igualar o efeito tem que aparecer como mulher ou afro-americano.
Todos estes filmes têm uma estrutura comum:
O protagonista (ou exorcista) - é uma espécie de anti-herói, de mal com a vida, em dúvidas com a sua fé, com um segredo que o atormenta, à procura da redenção. Quanto mais canastrão for o actor que desempenha este papel melhor.
A miúda - Escolhida no meio de milhões de mulheres pelo simples facto de todos os dias comer uma banana chiquita por exemplo, para carregar no útero o filho do Diabo.
Vai-lhe acontecer de tudo: chagas, convulsões, cabeça a rodopiar, vómito em catadupa, voz de bagaço, etc. No fim sai disto tudo como se tivesse estado 15 dias num spa.
O Padre – Pode ser também o protagonista, mas aí perde-se uma personagem para sacrificar em prol do espectáculo, e também é mais difícil de explicar porquê que no fim do filme ele anda enrolado com a miúda.
Os ajudantes do Diabo/Deus – personagens secundárias que tentam quebrar o equilíbrio milenar. Normalmente do lado de Deus são anjos caídos em desgraça, com um sentido de humor duvidoso, que tentam comprar de volta as asinhas com boas acções. A puxar pelo Diabo são os mesmos bonecos usados no Alien.
Deus/Diabo – Normalmente só aparece um deles, e é quase sempre o Diabo - sempre faz um efeito mais espectacular - Deus para igualar o efeito tem que aparecer como mulher ou afro-americano.
24.3.05
Fausto 5.0
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Unknown

Este filme, Grande Prémio do Fantasport0 2002 e Méliès d'Or 2002 (melhor filme europeu de cinema fantástico) é uma co-realização de Isidro Ortiz, Alex Ollé e Carlos Padrissa, sendo os dois últimos membros do colectivo catalão La Fura dels Baus. A história do filme é uma versão livre do mito de Fausto, tema recorrente dos Fura, que a partir dele já fizeram um espectáculo teatral e uma ópera. Tendo este grupo um imaginário tão marcante, sendo os seus espectáculos caracterizados pelo forte aparato pirotécnico, pela obsessão pelos corpos, e dum modo geral pela recusa dos cenários e formas tradicionais do teatro, a sua incursão no cinema levantava logo à partida uma expectativa: conseguiriam transpor para um novo meio o seu universo, ou usá-lo-iam para criar uma linguagem nova, para fazerem algo diferente?
Começamos a seguir o filme, a história de um médico (o Dr.Fausto) especialista em casos terminais que reencontra um antigo paciente que lhe promete realizar os seus desejos, e somos surpreendidos pela quase ausência de marcas reconhecíveis dos seus realizadores. Há um ou outro pormenor, como as cores metálicas com que é filmada uma Barcelona futurista e irreconhecível, o hotel onde decorre uma conferência onde participa o Dr.Fausto completamente tapado, parecendo uma obra de Christo, e mais explicitamente uma festa onde todo o ambiente é familiar aos espectadores de La Fura del Baus. Mas tudo isto é secundário, interferindo pouco com o desenrolar da história e marcando pouco ou nada a nossa percepção do filme. Se ao principio este efeito de surpresa é agradável, este vai-se desvanecendo quando percebemos que se o universo dos catalães está quase ausente deste Fausto 5.0, em seu lugar não está... nada! De facto, o filme vai decorrendo dentro de uma certa mediania competente, não sendo desinteressante, mas também nunca conseguindo entusiasmar, até pela forma previsível e simplista com que nos é apresentada a moral da história.
Resumindo, Alex Ollé e Carlos Padrissa conseguiram um feito que seria totalmente imprevisível para quem conhece minimamente a sua obra extra-cinema: realizar um filme completamente indistinto.
23.3.05
O segredo dos punhais voadores
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Unknown

Há duas maneiras de encararmos este filme: a primeira é esquecermo-nos que Zhang Yimou realizou ‘O Herói’ há três anos. Neste caso deslumbramo-nos perante um filme formalmente muito belo, começando no exuberante uso cromático, desde as paisagens ao guarda-roupa, continuando nas espectaculares coreografias dos combates que desafiam a lei da gravidade (a da floresta de bambus é espantosa) e acabando nos actores com destaque para a belíssima Ziyi Zhang. Se adicionarmos uma história de amor muito bem contada, com dois capitães a disputarem a mesma mulher, membro da seita rebelde ‘Casa dos Punhais Voadores’ que eles combatem (sendo que esta rejeita o que se sacrifica por ela há 3 anos, para se apaixonar pelo D.Juan que conheceu há 1 semana – a ficção a imitar a vida real!) o resultado é um filme quase perfeito. Mas há a outra maneira de encarar o filme, virtualmente a única possível para quem viu 'O Herói’, que é comparar as duas obras. Neste caso temos uma indisfarçável sensação de ‘déja vu’, que se não retira ao filme as qualidades atrás apontadas, tira ao espectador muito do deslumbramento ao vê-lo…
20.3.05
The Machinist
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Allen Douglas

É seguro apostar que o Maquinista gerará um pequeno fenómeno de culto nos videoclubes, depois de ter passado quase despercebido nas salas.
O Maquinista é um clone de Memento, e tal como acontecia com Memento, não há uma forma neutral de relembrar o filme, e esse é o primeiro ponto a favor.
Christian Bale É O Maquinista. Ele está presente em todas as cenas do filme. A extrema decadência física de Bale causa fascínio e agarra-nos.
A fotografia sombria, e com grandes contrastes ajuda ao tom sufocante e angustiado do filme.
O filme tem a estrutura convencional dos thrillers, vai-nos dando algumas pistas, e ainda longe do final acontece o tradicional twist e a revelação pouco espectacular na forma, mas avassaladora na sua simplicidade.
E é essa simplicidade, que poderá deixar uma sensação de anticlímax em muitos espectadores que é marcante.
18.3.05
Oldboy
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Unknown

Depois da ‘descoberta’ das cinematografias de Hong Kong e da China, chegou agora a vez da Europa se abismar com o cinema da Coreia do Sul. O ano passado estreou entre nós ‘Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera’ de Kim Ki-duk (realizador que já tinha passado pelo Fantasporto), este ano chega-nos ‘Oldboy’ de Park Chan-Wook. Este filme tem como cartão de visita o Grande Prémio do Júri de Cannes 2004, júri esse presidido por Quentin Tarantino. Começamos a visionar o filme e a primeira referência que nos vem à cabeça é... Tarantino. Não só pela violência (que inclui arrancar os dentes de uma personagem, um a um, com um martelo), como por todo o 'estilo' envolvente, pelo modo elaborado com que essa violência é encenada.
Mas vamos ao argumento: é a história de um homem que passa 15 anos preso num quarto sem fazer ideia porquê. Quando é libertado só pensa em descobrir quem lhe fez isso e o seu motivo. Pelo que já foi dito, vê-se que esta busca é violenta. Mas é também solitária, e temos longos planos da personagem apenas secundada pela música ou por uma voz off, elementos que nos remetem para os filmes de Wong Kar-Wai. A certa altura somos até levados a pensar que o filme não é muito mais do que uma mistura de elementos 'pilhados' de outros realizadores (e poder-se-iam citar outros além destes dois), mas eis que é desvendado o 'mistério' e o filme é relançado. Não só a solução é inesperada, algo bizarra, mas lógica e fascinante, como provoca uma cena assombrosa de auto-humilhação, de desespero, de angústia da personagem principal, de uma intensidade raramente vista. A concluir é-nos dado o 'happy end' mais estranho de há longo tempo. Ou seja, se as partes deste filme são facilmente referenciadas, o seu todo é um filme que não se parece com nenhum outro.
16.3.05
14.3.05
Vanity Fair
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Allen Douglas

Mira Nair realiza mais uma adaptação ao cinema do romance de William Makepeace Thackeray!
O argumento constrói um retrato implacável da Inglaterra dos anos 40 do século XIX.
A nobreza ociosa, empobrecida e cada vez mais ignorante tenta manter o seu estilo de vida através de casamentos de conveniência com membros da burguesia subitamente enriquecidos fruto do comércio com as colónias.
Para os comerciantes com dinheiro mas sem ‘berço’, comprar um título, ou adquiri-lo através do casamento é o único modo de ascensão social. Os nobres apreciam o dinheiro, mas nunca reconhecem esses novos membros das suas famílias como seus pares.
A primeira hora do filme é brilhante. O tom é leve mas pertinente, os diálogos são rápidos e mordazes, as tiradas espirituosas sucedem-se. Faz lembrar as melhores peças de Oscar Wilde.
Mas no pior estilo das fábulas de La Fontaine, depois da diversão vem o castigo. Os dramas de cordel aborrecem, os diálogos vulgarizam-se, a trama engorda, o filme arrasta-se até um final semi feliz (que não existe no livro) ao jeito de Bollywood.
Ainda assim o filme é simpático, interessante e tem um naipe de actores secundários fabuloso: Gabriel Byrne, Jim Broadbent, Bob Hoskins, Eileen Atkins, entre outros.
O argumento constrói um retrato implacável da Inglaterra dos anos 40 do século XIX.
A nobreza ociosa, empobrecida e cada vez mais ignorante tenta manter o seu estilo de vida através de casamentos de conveniência com membros da burguesia subitamente enriquecidos fruto do comércio com as colónias.
Para os comerciantes com dinheiro mas sem ‘berço’, comprar um título, ou adquiri-lo através do casamento é o único modo de ascensão social. Os nobres apreciam o dinheiro, mas nunca reconhecem esses novos membros das suas famílias como seus pares.
A primeira hora do filme é brilhante. O tom é leve mas pertinente, os diálogos são rápidos e mordazes, as tiradas espirituosas sucedem-se. Faz lembrar as melhores peças de Oscar Wilde.
Mas no pior estilo das fábulas de La Fontaine, depois da diversão vem o castigo. Os dramas de cordel aborrecem, os diálogos vulgarizam-se, a trama engorda, o filme arrasta-se até um final semi feliz (que não existe no livro) ao jeito de Bollywood.
Ainda assim o filme é simpático, interessante e tem um naipe de actores secundários fabuloso: Gabriel Byrne, Jim Broadbent, Bob Hoskins, Eileen Atkins, entre outros.
12.3.05
Un Long Dimanche de Fiancailles
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Allen Douglas

Jean Pierre Jeunet conta uma estória que está no pólo oposto de Amélie - a comparação é inevitável.
Amélie era luminoso, alegre e intimista. Em Um longo Domingo de Noivado os planos abrem para tentar conter uma tristeza imensa, as cores diluem-se num tom sépia, o estilo é grandioso.
A música embaladora de Yann Tiersen dá lugar ao tom épico de Angelo Badalamenti, e a fábula a um realismo devastador, ainda que encantador em alguns momentos.
Jeunet continua a fazer uso de um narrador e de pequenos flashbacks para nos apresentar episódios da vida das várias personagens, e justificar o rumo da estória.
As suas personagens continuam a ter uma pureza quase infantil (não confundir com ingenuidade): Mathilde (Audrey “Amélie” Tautou), faz frequentemente pequenos jogos mentais - "Se eu chegar mais rapidamente àquela curva a correr do que o carro (que leva Manech, o grande amor de Mathilde para a guerra) então ele voltará".
Manech desaparece durante a guerra. Mathilde perde sempre estes jogos, mas nunca a esperança de voltar a encontrar Manech vivo.
O filme vai mostrando as cenas de horror da guerra das trincheiras à medida que Mathilde vai seguindo as pistas e montando o puzzle.
O ritmo do filme é inconstante, chega a ser confuso e enfadonho, e a investigação de Mathilde chega a fazer-nos pensar que estamos a ver mais um episódio de Miss Marple.
Jodie Foster e Marion Cotillard (Tina Lombardi) têm pequenas mas interessantes participações no filme, por se distanciarem das habituais personagens de conto de fadas - unidimensionais e assépticas - de Jeunet.
Quem odiou Amélie tem aqui uma boa notícia. Mathilde não provoca tantos anticorpos. Quem adorou Amélie poderá ficar desiludido com o tom mais realista deste filme.
Um Longo Domingo de Noivado não é um filme imprescindível, principalmente numa época com tantos filmes de qualidade, mas daqui a uns meses, quando chegar a silly season será certamente um filme a recuperar no clube de vídeo.
Amélie era luminoso, alegre e intimista. Em Um longo Domingo de Noivado os planos abrem para tentar conter uma tristeza imensa, as cores diluem-se num tom sépia, o estilo é grandioso.
A música embaladora de Yann Tiersen dá lugar ao tom épico de Angelo Badalamenti, e a fábula a um realismo devastador, ainda que encantador em alguns momentos.
Jeunet continua a fazer uso de um narrador e de pequenos flashbacks para nos apresentar episódios da vida das várias personagens, e justificar o rumo da estória.
As suas personagens continuam a ter uma pureza quase infantil (não confundir com ingenuidade): Mathilde (Audrey “Amélie” Tautou), faz frequentemente pequenos jogos mentais - "Se eu chegar mais rapidamente àquela curva a correr do que o carro (que leva Manech, o grande amor de Mathilde para a guerra) então ele voltará".
Manech desaparece durante a guerra. Mathilde perde sempre estes jogos, mas nunca a esperança de voltar a encontrar Manech vivo.
O filme vai mostrando as cenas de horror da guerra das trincheiras à medida que Mathilde vai seguindo as pistas e montando o puzzle.
O ritmo do filme é inconstante, chega a ser confuso e enfadonho, e a investigação de Mathilde chega a fazer-nos pensar que estamos a ver mais um episódio de Miss Marple.
Jodie Foster e Marion Cotillard (Tina Lombardi) têm pequenas mas interessantes participações no filme, por se distanciarem das habituais personagens de conto de fadas - unidimensionais e assépticas - de Jeunet.
Quem odiou Amélie tem aqui uma boa notícia. Mathilde não provoca tantos anticorpos. Quem adorou Amélie poderá ficar desiludido com o tom mais realista deste filme.
Um Longo Domingo de Noivado não é um filme imprescindível, principalmente numa época com tantos filmes de qualidade, mas daqui a uns meses, quando chegar a silly season será certamente um filme a recuperar no clube de vídeo.
11.3.05
Fantasporto (III)
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Unknown

Nothing, de Vincenzo Natali, foi o vencedor do Grande Prémio Fantasporto 2005. Natali, aliás, é um repetente nestas andanças, tendo já ganho este prémio em 1999 com Cube, e o Prémio Especial do Júri o ano passado, com Cypher. Nothing é a história de dois freaks, Dave e Andrew, que moram juntos numa casa por baixo de 2 auto-estradas. Apesar de serem totalmente inofensivos, acabam por se meter, sem saberem muito bem como, numa série de encrencas que levam a que um dia tenham a casa cercada pela policia e por uma empresa de demolições. Estão em pânico a pensar no que fazer à vida, quando tudo à sua volta desaparece! Literalmente. Fora da casa só há o…nada, uma superfície branca semelhante a uma cama-elástica. A partir daqui temos apenas os dois actores neste cenário despido, quase como se estivéssemos a assistir a uma peça de teatro. Por vezes parecem duas personagens Becketianas, filosofando num cenário desolado, por vezes parecem personagens burlescas, fazendo desaparecer aquilo de que não gostam (é esta a explicação de tudo), mas a maior parte do tempo parecem aquilo que na realidade são: duas personagens de um filme ‘low budget’ à procura de um argumento. De facto, Natali e o seu argumentista Andrew Miller não conseguem desenvolver a (boa) ideia original, e grande parte do tempo é passado a encher pneus, sem saberem muito bem o que fazer com as suas personagens. Talvez Nothing tivesse dado uma boa curta-metragem, mas para hora e meia de filme era preciso muito mais.
Como conclusão diga-se apenas que o facto deste filme, que não é mau mas não ultrapassa a mediania, ter ganho o Fantas diz muito sobre o festival. É que tenho o palpite que o problema não foi uma má escolha do júri, se calhar não havia era muito melhor por onde escolher…
Como conclusão diga-se apenas que o facto deste filme, que não é mau mas não ultrapassa a mediania, ter ganho o Fantas diz muito sobre o festival. É que tenho o palpite que o problema não foi uma má escolha do júri, se calhar não havia era muito melhor por onde escolher…
8.3.05
Mar Adentro
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Allen Douglas

Este filme é quase perfeito do ponto de vista formal. O problema é que não se trata de um filme de ‘suspense’, em que normalmente as explicações são escassas e a acção se sobrepõe ao conteúdo. Alejandro Amenábar não deixa respirar as relações, evita o confronto, tem pânico de causar algum desconforto, e prefere o vídeo-clip de 30 segundos com banda sonora a condizer para passar a mensagem mais rapidamente.
E simplifica. Muito. Dum lado a Espanha inculta rural e católica, do outro, os cultos, liberais e urbanos. Dum lado as pessoas a quem Ramon Sampedro dá uma justificação maior às suas pequenas vidas, do outro as que o querem ajudar a cumprir a sua vontade.
Dum lado as pessoas que podem amar do outro Ramon.
Somos demasiado dirigidos, e quando termina e deixamos de sentir a mão do realizador, o feitiço vai embora. Ficam várias interpretações femininas magníficas. Fica o retrato ainda que esboçado de uma família rural galega com que certamente muitos portugueses encontrarão pontos de identificação, a começar pela Língua. Fica o humor de Ramon.
Fica Julia (Belén Rueda), no seu primeiro papel em cinema.
E simplifica. Muito. Dum lado a Espanha inculta rural e católica, do outro, os cultos, liberais e urbanos. Dum lado as pessoas a quem Ramon Sampedro dá uma justificação maior às suas pequenas vidas, do outro as que o querem ajudar a cumprir a sua vontade.
Dum lado as pessoas que podem amar do outro Ramon.
Somos demasiado dirigidos, e quando termina e deixamos de sentir a mão do realizador, o feitiço vai embora. Ficam várias interpretações femininas magníficas. Fica o retrato ainda que esboçado de uma família rural galega com que certamente muitos portugueses encontrarão pontos de identificação, a começar pela Língua. Fica o humor de Ramon.
Fica Julia (Belén Rueda), no seu primeiro papel em cinema.
4.3.05
Sideways
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Unknown

A propósito de Garden State, já aqui falei de 'pequenos filmes' cuja qualidade advém dos actores e do argumento. O realizador pega num grande argumento (muitas vezes escrito ou adaptado por ele próprio), escolhe os actores à medida, agita muito devagarinho e o resultado é um filme muito cá de casa. Acontece que de vez em quando o resultado sai tão bem, tão bem, que o filme transcende o mero estatuto de filme-que-não-é-uma-obra-prima-mas-do-qual-gostamos-muito, e atinge o estatuto de quase-quase-obra-prima ou mesmo obra-prima-e-pronto. Exemplos recentes? É fácil: Punch Drunk Love e The Royal Tenenbaums. E Sideways, pois claro (os dois primeiros são comédias melancólicas; Sideways é mais um filme melancólico com momentos cómicos). O ponto de partida é simples: Miles e Jack tiram umas férias pela California vinhateira. O objectivo do primeiro, um professor e escritor não publicado que anda deprimido desde o divórcio, é apreciar vinhos (é um enófilo, embora às vezes carregue demais nos copos), o do segundo, um actor de séries e anúncios, é aproveitar a ultima semana antes do casamento para dar umas quecas. A partir daqui temos um dos melhores filmes deste início de ano (já de si invulgarmente bom), baseado, pois então, num argumento em que todos os diálogos e todas as cenas são perfeitos, e no fantástico quarteto de actores: Thomas Haden Church, Virginia Madsen (que não via há longos anos, desde Hot Spot), Sandra Oh e, dominando todo o filme, Paul Giamatti, cujo facto de não ter sido sequer nomeado, fica como a maior barbaridade dos Óscares deste ano.
Fantasporto (II)
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Allen Douglas

karen Black, actriz principal de Firecracker, subiu ao palco antes da exibição do filme.
A senhora que tem 10 anos em cada ruga disfarçada com botox, fez dezenas de papéis em filmes de série B e ficou conhecida pela participação em Easy Rider e Nashville. Parece que também ganhou dois globos de ouro e foi nomeada para os Óscares.
Foi o grande momento da noite. Comportou-se como uma verdadeira diva decadente, daquelas que tomam dois valiuns com vodka ao pequeno-almoço.
Convidou os fotógrafos a deslocarem-se para o outro lado do palco para lhe apanharem o melhor lado e cantou depois de bater com a cabeça no microfone.
O filme deixa uma forte impressão... negativa. É uma mistura oxidada de Twin Peaks com Freaks com Fargo.
Numa comunidade fortemente religiosa e supersticiosa (sinónimos?) do interior dos estados unidos, dois irmãos procuram a redenção e a libertação da mãe, nos braços de uma cantora de um espectáculo itinerante, aonde habitam as tais figuras do filme de Tod Browning. A mãe e a cantora são interpretadas por Karen Black, numa óbvia alusão ao complexo de Édipo. Acontece um crime. Entra a sheriff da cidade saída do filme dos irmão Cohen (máscula, integra e provavelmente republicana). O realizador alterna entre o preto-e-branco nas cenas de tensão familiar e religiosa, e a cor saturada para as cenas de Freak Show. O truque barato acentua o enjoo.
Mike Patton tem também dois papéis no filme. Não é um grande actor. Devia-se limitar a usar a voz poderosa de crooner em anúncios de lixívia.
Uma palavra para a organização do Fantas: A impressão que fica nos últimos anos é que tem vergonha do festival que faz.
Queria ter um festival com filmes “sérios”, mas como não pode competir com Cannes ou Berlim, nem com o festival independente de Sundance, transformou o Fantas num produto híbrido. Continuam a aparecer os filmes gore, de terror ou de ficção científica que justificaram o festival, mas aparecem também estes filmes medianos (ou mesmo maus) com pretensões arty. Também começou a privilegiar as antestreias, como se trouxesse algum valor acrescentado a um festival como o Fantas exibir um filme duas semanas antes de entrar no circuito comercial.
A palavra final vai para o público do Fantas. É sem dúvida um público em permanente êxtase. Faz lembrar os concertos em que o público está em delírio antes do primeiro acorde da banda. No Fantas o público fica louco por poder bater palmas num cinema, usar uma credencial ao pescoço, e assistir a um filme, mesmo que muito mau, num festival com alguma projecção internacional
Brevemente...
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Unknown
...allen_douglas vai começar a colaborar neste blog! Depois de muita insistência e árduas negociações, finalmente podemos anunciar esta contratação de inverno, garantidamente mais eficaz que o Mota e o Delibasic (ou lá como é que ele se chama) juntos!
3.3.05
2.3.05
1.3.05
Topmania
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Unknown
Com a devida vénia à inspiradora desta secção (a quem pago uma fortuna em direitos de autor), eis o primeiro Top, o de VILÕES:

1. Reverend Harry Powell (Robert Mitchum) - The Night of the Hunter
2. Frank Booth (Dennis Hopper) - Blue Velvet
3. Hans Beckert (Peter Lorre) - M
4. Hall 9000 (voz de Douglas Rain) - 2001: A space odyssey
5. Alex (Malcolm McDowell) - Clockwork orange
6. Eve Harrington (Anne Baxter) - All about Eve
7. Marl Lewis (Karlheinz Bohm) - Peeping Tom
8. Maddalena-Anna Paradine (Alida Valli)+ Juíz Lord Horfield (Charles Laughton) - The Paradine Case
9. Henry (Michael Rooker) - Henry: Portrait of a serial killer
10. Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) - The silence of the lambs

1. Reverend Harry Powell (Robert Mitchum) - The Night of the Hunter
2. Frank Booth (Dennis Hopper) - Blue Velvet
3. Hans Beckert (Peter Lorre) - M
4. Hall 9000 (voz de Douglas Rain) - 2001: A space odyssey
5. Alex (Malcolm McDowell) - Clockwork orange
6. Eve Harrington (Anne Baxter) - All about Eve
7. Marl Lewis (Karlheinz Bohm) - Peeping Tom
8. Maddalena-Anna Paradine (Alida Valli)+ Juíz Lord Horfield (Charles Laughton) - The Paradine Case
9. Henry (Michael Rooker) - Henry: Portrait of a serial killer
10. Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) - The silence of the lambs
Brevemente...
Posted by
Unknown

...será inaugurada uma nova secção neste blog: 'Topmania'. Sendo eu um bocadinho viciado em tops de todo o tipo, resolvi partilhar alguns com os amáveis leitores. O primeiro será um Top de Vilões! Como é óbvio comentários, tops alternativos, etc. serão sempre bem vindos.
Fantasporto (I)
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Unknown

Como prometido, eis o primeiro relato do Fantas. Este ano não tenho tido oportunidade de ver muitos filmes, tendo-me ficado até agora por uma única jornada - infelizmente pouco frutuosa! O primeiro filme que vi foi Oseam de Sung Baek-yeop, um filme de animação 2D Sul Coreano, nos antípodas do que se faz em Hollywood: o estilo é simples e despojado, a história tristíssima. O filme, que ganhou o Grande Prémio de 2004 do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy, é bonito e bem feito, mas não me despertou grande entusiasmo. Saído deste filme, entrei logo noutro, One Missed Call de Takashi Miike, um realizador Japonês com um certo culto nestas bandas, principalmente devido ao seu filme de 1999 'Audition'. Estamos aqui no verdadeiro espírito Fantas: um filme de terror com muito sangue mas também humor (nem sempre voluntário), enésima variação do tema ‘telemóvel assassino'. Só para fãs do género, e mesmo esses...Para terminar, e já que estavamos num dia 'oriental', vi Parasite Dolls de Naoyuki Yoshinaga e Kasutto Nakazawa (Japão), uma animé de ficção cientifica, envolvendo humanos e andróides, competente mas não mais do que isso.
Resumindo, e embora a amostra seja extremamente pequena, reforcei a ideia dos últimos anos, de que o grande cinema tem andado arredado do Fantas. Anyway, o ambiente fantástico (passe a redundância) que se respira, traduzido por verdadeiras enchentes em todas as sessões, aliado ao facto de permitir a visão de cinematografias de outro modo dificilmente acessiveis, mais que justifica, torna obrigatória, uma passagem por lá.
Resumindo, e embora a amostra seja extremamente pequena, reforcei a ideia dos últimos anos, de que o grande cinema tem andado arredado do Fantas. Anyway, o ambiente fantástico (passe a redundância) que se respira, traduzido por verdadeiras enchentes em todas as sessões, aliado ao facto de permitir a visão de cinematografias de outro modo dificilmente acessiveis, mais que justifica, torna obrigatória, uma passagem por lá.