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29.7.05

Cinema a céu aberto



O tempo não está a ajudar muito, mas vale a pena ver:

"CINEMA A CÉU ABERTO" 28 A 31 DE JULHO DE 2005 PARQUE CENTRAL DA MAIA, 22h - ENTRADA GRATUITA
Organização: Câmara Municipal da Maia - Pelouro da Cultura
Produção: 80Azul, Cooperativa Cultural, Crl
Colaboração: INATEL, Delegação do Porto

Programa:Quinta 28, 22h - "Na Maior!/Purely Belter", Mark Herman
Sexta 29, 23h - "Estranhos de Passagem/Dirty Pretty Things", Stephen Frears
Sábado 30, 22h - "Lost In Translation/O Amor É Um Lugar Estranho", SofiaCoppola
Domingo 31, 22h - "Amor e Vacas/The Price Of Milk", Harry Sinclair

**em caso de chuva as sessões passarão para o Auditório do Fórum daMaia sem alterar a programação anunciada.

http://aceuaberto.planetaclix.pt

27.7.05

Johnny Guitar



Johnny Guitar - How many man have you forgotten?
Vienna - As many woman as you've remembered.
J.G. - Don't go away.
V. - I haven't moved.
J.G. - Tell me something nice.
V. - Sure. What do you want to hear?
J.G. - Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
V. - All these years I've waited.
J.G. - Tell me you've died if I hadn't come back.
V. - I would have died if you hadn't come back.
J.G. - Tell me you still love me like I love you.
V. - I still love you like you love me.
J.G. - Thanks. Thanks a lot.

26.7.05

Os bravos não têm descanso



Basile sonha com Faftao-Laoupo, o que quer dizer que morrerá se tornar a sonhar. Vai daí resolve chacinar toda uma terreola, após o que começa a ser perseguido por uma das suas vítimas, Johnny Got, através de uma série de terras com nomes como Buenozères, Glasgaud, Ongue Congue, Manfis...
Até um certo ponto o filme promete, é uma espécie de cruzamento de David Lynch de farsa com Renoir na França profunda, filmado com cores berrantes em cenários bizarros. Mas às tantas aparecem uns traficantes de 'bolinhas vermelhas', o filme concentra-se totalmente nessa história e esquece-se do espectador, que começa ficar um pouco entediado, ao princípio, bastante sonolento no final. Seja como for, não há como negar a originalidade a Alain Guiraudie...o leitor que veja por sua conta e risco.

25.7.05

Lolita



"Se, no entanto, todos os próximos filmes baseados em livros meus forem tão encantadores como o de Kubrick, não resmungarei demasiado."

Vladimir Nabokov, 'Opiniões fortes'

21.7.05

Feux Rouges/Sinais Vermelhos





A primeira parte do filme fez-me recordar dois artigos que li num jornal.O primeiro relatava que muitas das confissões e discussões entre duas pessoas têm lugar num carro durante uma viagem. A privacidade, a ausência de contacto ocular que impossibilita o julgamento imediato, a sensação de impunidade, o efeito narcótico das luzes e da estrada transformam o carro no divã dos tempos modernos. O segundo artigo mencionava que muitas das separações de casais acontecem a seguir às férias. De repente duas pessoas que vivem ocupadas durante um ano percebem que não se conhecem, que não têm uma relação saudável sem a muleta do trabalho e das obrigações que partilham.

Assim começa o filme. Um casal parte para férias. O marido descarrega as suas frustrações, e torna a viagem perigosa e insuportável para a sua esposa. O casal separa-se de forma intempestiva. A partir daqui o nosso road-movie-confessional, transforma-se num thriller intenso e oferece-nos do melhor cinema que vimos nos últimos tempos. Jean-Pierre Darroussin é fabuloso na pele de um homem comum que se vê preso numa situação limite provocada pela sua raiva.
Inspirado num livre de Georges Simenon.

19.7.05

The last picture show



"Jacy's just the kinda girl that brings out the meanness in a man."

14.7.05

Clean




Olivier Assayas é um mestre na manipulação de ambientes urbanos sofisticados com banda sonora a condizer. Às vezes leva essa sofisticação a níveis exagerados que desvirtuam e plastificam o resultado final. No caso de Clean a insistência no pequeno papel ridículo de Tricky ou de colocar David Roback dos Mazzy Star a produzir um disco de Maggie Cheung quando ela mal sabe cantar são exemplo. De qualquer maneira Clean assenta numa base sólida muito por mérito das interpretações de Cheung (Emily Wang) e Nick Nolte (Albrecht Hauser) e resiste a alguns abalos. O filme coloca uma pessoa com uma vida singular - mulher de uma estrela de rock, ex apresentadora da MTV e cantora underground - em situações comuns derivadas da morte do marido por overdose. Emily Wang debate-se com a sua inaptidão e repulsa para levar uma vida normal e a necessidade de abandonar as drogas para ter esperança em recuperar a custódia do filho a cargo do avô. A estória podia ser um cliché mas Assayas desenvolve-a num mundo desconhecido e apelativo mostrando-nos os meandros do meio musical. Depois vêmos Cheung exposta e vulnerável como nunca a tínhamos visto nos filmes de Wong Kar-wai, o que talvez se explique por Cheung ter sido casada com Assayas e de a personagem de uma mulher entre culturas, sem raízes e que viveu em vários países (o filme passa-se em Vancouver, Londres e Paris) se assemelhar à sua vida. A interpretação deu-lhe o prémio para Melhor Actriz no Festival de Cannes. O contraste da insegurança e revolta de Emily com a figura paternal - firme mas generoso e justo - de Albrecht nos diálogos entre os dois é o melhor do filme. Tecnicamente Assayas é irrepreensível. A fotografia é lindíssima e a banda sonora criteriosamente escolhida. Nesse capítulo lamento nunca ter visto Demonlover, filme de Assayas de 2002 com música dos Sonic Youth. Como foi possível ter deixado passar isso?

12.7.05

Curtas de Vila do Conde (III)



Das poucas curtas-metragens em competição que tive oportunidade de ver este ano, gostaria de destacar Dimmer, de Talmage Cooley, que venceu o Grande Prémio Documentário. Sob a banda sonora ofuscante dos Interpol, são-nos mostradas meia dúzia de cenas da vida de um teenager dos subúrbios de Buffalo, Mike, e dos seus amigos. Formam uma espécie de gang e têm vidas e conversas semelhantes a milhares de outros adolescentes de subúrbio: falam da melhor maneira de acertar um soco, do rompimento com a namorada infiel, mas que não importa assim tanto porque era feia, etc., etc. A particularidade é que Mike e os seus amigos são cegos.
São apenas 12 minutos, mas o suficiente para nos provocar um certo fascínio e estranheza que muitas vezes só os (bons) documentários conseguem.

11.7.05

Seres Queridos/Querida Família



Seres queridos é provavelmente o filme com as críticas mais dissonantes do ano. Apelidado de confuso, primário, insuportável, antiquado e estereotipado mas também de inteligente, mordaz e hilariante. Em que ficamos? O filme é confuso e primário como os filmes dos irmãos Marx, antiquado e estereotipado como 'Negros Habitos' ou 'Que fiz eu para merecer isto' de Almodovar, inteligente e hilariante como 'Nem guerra nem paz' ou 'Os dias da rádio' de Woody Allen. As referências são óbvias, não fazem de Seres Queridos um filme ao nível dos seus mestres, mas não os envergonha. Os gags sucedem-se a um ritmo alucinante, o timing é perfeito. Não é original mas é muito divertido.

10.7.05

Curtas de Vila do Conde (II)



Depois da desilusão de 6ª feira (ver post abaixo), eis que ontem tivemos oportunidade de ver um filme-concerto que redimiu a organização do festival de tudo o que possa ter corrido mal, só pelo facto de o ter trazido até nós: "I was born, but..." (1932) de Yasujiro Ozu. Para quem está a 350km da Cinemateca é uma benção ter uma oportunidade de ver um filme de Ozu, ainda para mais quando é um dos mais desconhecidos e menos exibidos do mestre japonês. Acontece ainda que o filme é uma obra-prima absoluta, uma história muito divertida de dois rapazinhos traquinas que um dia descobrem que o pai é um ser humano de carne e osso com as suas próprias fraquezas, e que na vida há destinos a que não podemos fugir.



O acompanhamento musical esteve a cargo do grupo de Erik Truffaz, e embora a banda sonora que criaram fosse um pouco impositiva para o meu gosto, o grupo esteve à altura do espectáculo. Para mim, o acontecimento cinematográfico do ano.

9.7.05

Nota zero...



...para a organização do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde, pela substituição à última da hora da curta-metragem (41 minutos) de Jean Vigo 'Zéro de conduite' que iria passar ontem na secção filme-concerto, acompanhada dos músicos e dj's fanceses Troublemakers. A justificação lacónica dada pelos organizadores foi que a filha de Jean Vigo, e detentora dos direitos do filme, não gostou da projecção feita em Paris há umas semanas do mesmo acompanhado da banda sonora dos Troublemakers, e por isso não autorizou a sua passagem neste Festival. Bom, é difícil acreditar que só no próprio dia da exibição se tenha sabido disto em Vila do Conde, mas o mais incrível foi a resolução do problema: já que não havia 'Zéro de conduite' passaram um filme...dos Troublemakers! Que nem é bem um filme, mas um conjunto de imagens que acompanharam a sua actuação musical! O que está em causa não são as qualidades musicais do grupo francês, que executaram uma excelente banda-sonora para o seu próprio 'filme', aguçando-nos o apetite para como seria a que compuseram para o filme de Jean Vigo (e o facto da filha do realizador não ter gostado dos ambientes electrónicos dos Troublemakers não quer dizer muito, principalmente se pensarmos que a senhora deve ter mais de 70 anos...); a questão é que substituir mesmo em cima da hora um filme-concerto de uma obra chave da história do cinema por uma sessão de vj-eing é, no minimo, uma falta de respeito pelos espectadores...
ps: para aumentar a confusão, no site do festival (e impresso nos bilhetes!) pode-se ver que o filme concerto de dia 8 foi...SHORT FILMS WITH CHARLEY CHASE, LEO MCCAREY!

My voyage to Italy/A minha viagem a Itália




Começou a ser exibido esta semana no canal 2 um documentário em quatro episódios de Martin Scorcese dedicado ao cinema Italiano que o realizador admira. No primeiro episódio Scorcese falou sobre a fase neo-realista surgida a seguir à II Guerra Mundial, em que realizadores com poucos meios, muitas vezes com actores amadores, sem cenários, filmados com luz natural, capturavam pequenos momentos sobre a vida real e as emoções reais de pessoas comuns. Exemplos maiores do neo-realismo apontados pelo realizador: Ladri di biciclette de Vittorio De Sica e Germania anno zero de Roberto Rossellini.

The Upside of Anger/O lado bom da fúria



"Here we are now, entertain us"
Felizmente a famosa frase de Kurt Cobain não se aplica a este filme. Nada é fácil nem adquirido quando somos confrontados com uma estória com personagens de carne e osso em que nos projectamos em muitas situações. Podemos não gostar do que sentimos, mas é difícil ficarmos indiferentes.

6.7.05

Sin City



Eis em filme a cidade do pecado de Frank Miller. Uma cidade a preto e branco, em que só há lugar para o vermelho do sangue (muito sangue) ou do vestido duma femme fatale, o verde ou o azul duns olhos ou dum descapotável (com a mala grande para caberem muitos cadáveres). Em que os heróis são na verdade uns anti-heróis, violentos, brutais, assassinos até, mas incapazes de tocar numa mulher (fatal); os vilões? bom, temos um pedófilo masoquista, um canibal sorridente, policias corruptos, um senador, um cardeal...
Primeira pergunta: conseguiria Robert Rodriguez passar para a tela este universo tão marcante? Resposta: com distinção. O filme é de uma fidelidade canina à BD, havendo uma transposição quase prancha a prancha do fantástico universo gráfico e estético de Frank Miller. É quase como se estivéssemos a ler os livros na tela. Não há aqui grandes densidades psicológicas, personagens de carne e osso? Who cares? A estética aqui é tudo. Como bom film noir que é, a principal personagem é o ambiente: a podridão, a decadência, as mulheres fantásticas, os carros rápidos, os heróis espirituosos, a hiper-violência; a cidade do pecado, em resumo.

4.7.05

Home at the End of the World/Uma Casa no Fim do Mundo


Há personagens que marcam de forma tão indelével a carreira de um actor que põem em causa o seu futuro. Aconteceu com Malcolm McDowell em Clockwork Orange, só o voltámos a ver esporadicamente em papéis tipificados de psicopata, aconteceu com John Travolta que depois de Grease e Saturday Night Feaver gravitou em filmes menores até ser recuperado por Tarantino em Pulp fiction. Ainda hoje Travolta não se livra de dar um pezinho de dança em quase todos os filmes em que participa. Aconteceu com Sissy Spacek, uma das actrizes deste filme. É impossivel vê-la sem que as imagens de um arsenal de facas de cozinha a voarem na sua direcção em Carrie não abram umas janelas de 'pop-up' no nosso cérebro. Fica o desafio a quem nos visita de deixar mais exemplos de que se lembrem.

Mas vamos ao filme: Acompanhamos três décadas na vida de Jonathan e Bobby desde a infância e adolescência na pacata Cleveland dos anos 60 e 70 até à fervilhante Nova Iorque dos anos 80. Três actores interpretam cada uma dessas fases das duas personagens principais. Acompanhamos também um pouco da evolução do comportamento sexual e social - e essa é a parte mais interessante do filme - desde o amor livre e as festas de swinging de final dos anos 60, passando pelo flower power e o movimento hippie no início dos anos 70, o punk e os songwriters de final de 70 até ao kitsh, ao início do movimento gay nos Estados Unidos, ao aparecimento da sida e ao começo da música electrónica de 80 (não falta o casaco de cabedal à Depeche Mode de Just can't get enough). Em Portugal só começámos a perceber o significado das palavras Gay e Sida com a morte do grande António Variações.

Chegados aos anos 80, Clare uma estilista de chapéus trendy Nova-Iorquina forma com Jonathan e Bobby um triângulo amoroso, mas em vez do habitual "Boy Loves Girl who Loves Boy" temos uma espécie de "Girl Loves Gay Boy (Jonathan) that likes her but Loves Bobby Who Loves Everyone". Há frases que em Português soariam muito mal... Confusos? Se virem o filme acharão tudo muito natural. Para Jonathan, Bobby e Clare o sexo não é mais do que a continuação natural do amor que sentem.

Se tivesse sido feito nos anos 80 hoje seria certamente um filme de culto para muitos adolescentes daquela altura, assim é um objecto curioso mas limitado.

PS: A Home tem uma das mortes mais brutais e inesperadas dos últimos anos, rivalizando com as cenas iniciais dos episódios de Sete palmos de terra.

2.7.05

Crash-Colisão



'Crash' é a estreia na realização cinematográfica do argumentista e realizador de TV Paul Haggis, que se tornou conhecido ao escrever o argumento de 'Million Dollar Baby'. 'Crash' é um filme-mosaico, a la Magnolia, sobre o racismo, ou mais concretamente sobre as tensões raciais que se sentem à flor da pele numa metrópole multi-étnica como Los Angeles. Há conflitos racistas entre latinos e asiáticos, entre asiáticos e pretos, entre brancos e os outros todos. Um polícia branco (Matt Dilon) humilha um casal de negros bem na vida, na melhor cena do filme; o carro do promotor público (Brandon Fraser) é assaltado por dois jovens negros, e enquanto ele fica preocupado com os votos que isso lhe pode custar na comunidade afro-americana, a sua mulher (Sandra Bullock) fica paranóica sempre que vê mais algum negro; um emigrante iraniano quase arruina a vida por se desentender com o latino que lhe vai arranjar a fechadura da porta da sua pequena loja; uma asiática e uma polícia latina chocam com o carro e trocam insultos racistas; etc., etc.
Como se vê Paul Haggis gosta de temas fortes, mas aqui falta-lhe a mão austera e clássica de Clint Eastwood para lhe limitar os excessos, quer a nível da realização (como a banda sonora de Mark Isham omnipresente nas cenas de maior tensão), quer a nível do próprio argumento, que vai interligando as cenas à base de coincidências (a la Magnolia...) com forte sabor déja-vu. Na minha opinião, um filme falhado.