
Sempre que se fala de Brian De Palma, fala-se da sua relação com o cinema clássico, com a sua memória cinéfila. Quer homenageando, quer reinventando (os seus críticos utilizarão outras termos...) está sempre presente o seu fascínio e inspiração por algum modelo do passado.
‘A Dália negra’ não foge à regra: é um filme noir (adaptado do já clássico romance de James Ellroy) que segue todas as regras do género sem falhas. Há mulheres fatais, há heróis mais ou menos ingénuos, há vigaristas, há um ambiente enevoado e sujo, há uma aura de decadência e desencanto a pairar sobre tudo. E uma critica à sociedade corrupta e sórdida e, de passagem, à própria Hollywood.
Brian de Palma não desconstrói, não reestrutura, não parodia, não faz referências circulares ao género. Limita-se a fazer um filme noir como eram feitos há décadas. Um espectador do futuro que não tenha mais referências, pode pensar que o filme foi feito em 1946. Neste sentido ‘A dália negra’ é perfeito: o casting (embora Scarlett Johanson seja algo desaproveitada), a cenografia, o plot, a maneira de filmar (aqueles travellings à De Palma). O único pecado que se poderá apontar ao realizador é não inovar, não arriscar, não surpreender. ‘Limita-se’ a fazer uma excelente adaptação de um romance de culto. Quantos filmes o conseguem?
The Black Dahlia, E.U.A./Alemanha, 2006. Realização: Brian De Palma. Com: Josh Hartnett, Scarlett Johansson, Aaron Eckhart, Hilary Swank, Mia Kirshner, Mike Starr, Fiona Shaw.








É precisamente neste mundo das histórias de embalar que se inscreve este último filme de M.Night Shyamalan, um dos mais originais e inventivos contadores de histórias do cinema actual. 'Lady in the Water', que tem sido muito atacado por motivos extra-filme (a suposta megalomania do realizador, o divórcio com a Disney, etc., etc.) é uma fábula sobre seres dum outro mundo, aquático, que vêm ao mundo dos humanos (mais precisamente a um microcosmos - um daqueles condomínios com uma piscina no meio), maravilhosamente filmada, fotografada, cenografada (não sei se a palavra existe), interpretada. É cinema em estado puro, ficção sem necessidade de buscar qualquer tipo de realismo, naturalismo, ou mesmo lógica. Coisas aliás que nunca preocuparam os grandes artistas: basta pensar em David Lynch, não é preciso ir mais longe. Os seres humanos deste filme aceitam naturalmente a presença de uma ninfa entre eles, e nessa naturalidade está um dos fascínios do filme. O único que duvida, porque acha que sabe tudo, que interpreta tudo racional e dogmaticamente, não acaba bem. Que seja um crítico cinematográfico é uma tentação que Shyamalan poderia ter evitado - as metáforas evidentes são as menos interessantes. O tom de comédia que se insinua pela ficção também nem sempre resulta, 'cortando' por vezes o ar sobrenatural que respiramos. Pequenos pecados que, juntamente com a sensação que a 'história' não é tão poderosa quanto o realizador-argumentista pretenderia, impedem, na minha modesta opinião, que o filme se alcandore ao estatuto de obra-prima. Mas não garanto que o futuro não me desminta...