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31.8.07

Filmes de Agosto

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi este mês. Classificação de 0 a 10.



Abraham Lincoln, D.W.Griffith, 1930 (9)
Uma noite na ópera, Sam Wood, 1935 (8,5)
As irmãs de Gion, K.Mizoguchi, 1936 (9)
Stars in my Crown, Jacques Tourneur, 1950 (10)
Singin' in the rain, Gene Kelly e Stanley Donen, 1951 (10)
Viagem a Tóquio, Yasujiro Ozu, 1953 (10)
Fahreneit 451, F.Truffaut, 1966 (9)
Os homens do presidente, Alan J.Pakula, 1976 (9,5)
Escape from New York, John Carpenter, 1981 (7,5)
Bianca, Nanni Moretti, 1984 (9)
A missa acabou, Nanni Moretti, 1985 (9)
L'ami de mon amie, Eric Rohmer, 1987 (9,5)
Nossa Senhora dos Matadores, Barbet Schroeder, 2000 (8)
Mysterious Skin, Gregg Araki, 2004
Do you like Hitchcock?, Dario Argento, 2005 (8)
Broken Flowers, Jim Jarmush, 2005 (9)
O véu pintado, John Curran, 2006
Hollywoodland, Allen Coulter, 2006
Jindabyne, Ray Lawrence, 2006
Golpe quse perfeito, Lasse Hallstrom, 2006
Dead Proof, Quentin Tarantino, 2007
Paranóia, D.J.Caruso, 2007
Bug, William Friedkin, 2007
Ratatui, Brad Bird, 2007

30.8.07

Golpe quase perfeito



Vale a pena recapitular os factos reais que deram origem a este filme: em 1971, Clifford Irving, um escritor de segundo plano, apresentou-se na editora McGraw-Hill dizendo que tinha sido contactado por Howard Hughes (o excêntrico magnata da aviação e do cinema retratado em 'O aviador' - lembrete para leitores distraídos), recluso há anos, para colaborar com ele na escrita da sua autobiografia. Não estava longe de ser o acontecimento editorial do século.
Acontece que Irving não passava de um oportunista-mitómano-megalómano que inventou tudo do início ao fim, seguindo um método de uma coerência inatácavel: senhor de uma lata infinita, usou sempre a velha táctica da fuga para a frente. Quando era confrontado com uma mentira, inventava algo ainda mais mirabolante que desviava a atenção da mentira anterior e por aí adiante. Às tantas já estava ele próprio embrulhado numa terra ninguém, em que era impossível distinguir verdade e mentira. Acabou por ser desmascarado, mas só depois de ter recebido um milhão de dólares e a 'autobiografia' ter sido impressa!
Como nota de rodapé acrescente-se que Irvin aparece em 'F for Fake' de Welles, onde discorre sobre o pintor-falsário Elmyr de Hory. Welles comenta que ambos têm muita coisa em comum, sendo uma o talento...
O material é de primeira água, mas lembremo-nos que Scorsese que é Scorsese falhou com o material primário, digamos assim - a vida de Hughes. Como se sairia Lasse Hallstrom com Irving? Medianamente, diria eu. Filma com a habitual competência anódina e insossa que é sua marca, tendo aqui no entanto um inesperadíssimo trunfo: Richard Gere, um dos maiores canastrões do cinema actual, que saca aqui um papelão digno de registo. Só ele vale uma estrelita, indo outra para o argumento. Quem for um interessado nestas coisas de curiosidades à volta de celebridades excêntricas, e mormente de Hughes, que neste campo está no topo, pode-lhe acrescentar mais meia. Está assim justificado o preço do bilhete.
The Hoax, E.U.A., 2006. Realização: Lasse Hallstrom. Com: Richard Gere, Alfred Molina, Marcia Gay Harden, Stanley Tucci, Hope Davis, Julie Delpy, Eli Wallach.

28.8.07

Mysterious Skin — Pele Misteriosa


A influência na vida de dois adolescentes dos actos pedófilos que sofreram quando miúdos, por parte do seu treinador de basebol. Neil, que descobriu aí a sua (homo)sexualidade e guarda boas memórias do coach, torna-se um prostituto, tendo uma espécie de atitude hedonista (escapista?) perante a vida. Brian anda perdido atrás de um buraco negro no seu passado. Araki trata estes temas, que não são pêra doce, com frontalidade e crueza, mas permitindo que o realismo adulto e sólido que atravessa o filme seja envolto por uma certa irrealidade etérea, como vinda de uma outra dimensão para onde estes rapazes foram transportados um dia (muito mérito também para a banda sonora de Harold Budd e Robin Guthrie).
Mais um sinal de vida do cinema americano, para lá dos blockbusters acriançados.
Mysterious Skin, E.U.A., 2004. Realização: Gregg Araki. Com: Joseph Gordon-Levitt, Brady Corbet, Elisabeth Shue, Michelle Trachtenberg, Bill Sage, Mary Lynn Rajskub.

26.8.07

Ratatui



'Ratatui' tem, quanto a mim, o grave problema de se levar demasiado a sério. Tem duas ou três piadas e pronto. Resta então uma história, contada com a competência técnica habitual, sobre um rato, o animal mais temido nas cozinhas, que quer ser um chef - já estão a ver a moral da coisa. Eu como não vou ver filmes, muito menos animações, para receber lições edificantes, achei a coisa razoavelmente bocejante. Mas em todo o caso isto também é feito para miúdos e é provável que eles até gostem...
Ratatouille, E.U.A., 2007. Realização: Brad Bird. Longa-metragem de animação.

25.8.07

Hollywoodland



Um retrato lacónico e low profile (no bom sentido) de George Reeves - o actor que interpretou o Super-Homem na televisão - como artista amargurado e refém do seu próprio sucesso. O surpreendente êxito da série de TV em que participou a contragosto, prendeu-o para sempre a uma imagem e cortou-lhe definitivamente as asas para outros voos. Acabou por morrer aos 45 anos sem ter feito mais nada, em circunstâncias misteriosas que o filme expõe mas não resolve: Suicidou-se? A ex-amante (mulher de Eddie Mannix, patrão da MGM) matou-o por ciúmes? O próprio Mannix deu a ordem? Foi um acidente com a noiva?
Mais uma vez Hollywood faz aquilo que faz tão bem: mostrar o seu lado sombrio. Um belo filme que na minha opinião tem sido subvalorizado.
Hollywoodland, E.U.A., 2006. Realização: Allen Coulter. Com: Adrien Brody, Diane Lane, Ben Affleck, Bob Hoskins, Robin Tunney, Lois Smith, Joe Spano, Molly Parker, Caroline Dhavernas.

24.8.07

Uma selecção alternativa:






e, por sugestão de Monsieur Truffaut:

21.8.07

Estado das coisas

Há uns tempos descobri este sítio, que é um maná para um viciado em tops, listas e afins como eu sou. Estão aqui elencados todos os top 10 dos Cahiers du Cinema desde 1951 a 2006 e é interesantíssimo andar por lá e perceber, apenas com base nestas listagens, os gostos da casa, os autores mais amados, a evolução das tendências dominantes, as fases mais militantes (por exemplo, de 1969 a 1981 pura e simplesmente não houve tops). Mas a coisa que mais me impressiona sempre que por lá ando, é a extraordinária qualidade dos tops dos anos 50. Veja-se, por exemplo, 1959:

1. Ugetsu Monogatari (Kenji Mizoguchi)
2. Hiroshima Mon Amour (Alain Resnais)
3. Ivan The Terrible (Sergei Eisenstein)
4. Pickpocket (Robert Bresson)
5. The 400 Blows (Francois Truffaut)
6. Rio Bravo (Howard Hawks)
7. Wild Strawberries (Ingmar Bergman)
8. Vertigo (Alfred Hitchcock)
9. Princess Yang Kwei Fei (Kenji Mizoguchi)
10. The Tiger Of Eschnapur (Fritz Lang)

Um filme como 'Vertigo' está em 8º lugar, e mesmo um devoto incondicional como eu, que o poria na mais alta posição, consegue compreender que não tenha ficado mais à frente... É que se alguém me dissesse que isto era um top ten dos melhores de sempre eu acreditava na boa (há que fazer a ressalva de que os filmes de Mizoguchi terão estreado em França em '59, mas são de '53 e '55, mas ainda assim é um arco temporal suficientemente próximo para não ser descabido considerá-los).

Compare-se agora com os tempos actuais, e percebe-se facilmente que não estamos numa época de ouro do cinema. Eu olho para os caderninhos onde classifico os filmes, e nos últimos 5 anos dei em média 5 estrelas a um filme por ano (e estou a incluir os 5- ):

2002: The Royal Tenenbaums, de Wes Anderson
2003: Kill Bill 1, de Quentin Tarantino e Mystic River, de Clint Eastwood
2004: Before Sunset, de Richard Linklater (uma nota muito emocional, tanto mais que elegi depois como filme do ano Lost in Translation)
2005: Saraband, de Ingmar Bergman
2006: A History of Violence, de David Cronemberg

Claro que houve muito mais filmes de que gostei muitíssimo e há cinematografias que conheço mal, como as orientais de onde chega inegavelmente algum do cinema mais estimulante dos últimos tempos, mas mesmo assim...

20.8.07

O véu pintado



Somerset Maugham está hoje fora de moda (num certo sentido, já no seu tempo a sua escrita estava fora de moda), mas é certamente um dos escritores que eu mais frequentei na minha adolescência, graças à velhinha colecção dos Livros do Brasil que havia lá em casa. Como qualquer teenager, à altura fiquei devidamente impressionado com 'O fio da navalha', mas hoje em dia do que me recordo melhor é dos seus excelentes contos, muitas vezes passados nas ex-colónias Britânicas, em que o deslocamento das personagens como que exponenciava a complexidade das relações humanas.

Maugham teve regularmente obras suas transpostas para o grande ecrã (começando em 1915 e incluindo uma adaptação de 'Chuva' em 1928, realizada por Raoul Walsh e protagonizada por Gloria Swanson) até aos anos 70, sendo que depois o interesse começou a diminuir. Contam-se apenas duas nos anos 80 (sendo uma de 'The Razor's Edge' com Bill Murray no principal papel!), nada nos anos 90, surgindo 'O véu pintado' como a terceira nesta década, depois do muito interessante 'As paixões de Julia' de há 3 anos. Aliás esta é já a segunda adaptação ao cinema de 'The Painted Veil', tendo a primeira ocorrido há 73 anos com nada mais nada menos que Greta Garbo no principal papel.

Mas vamos então finalmente ao filme: pode-se dizer que vale apenas pela sua história, ou seja, por Maugham, o que talvez justifique o tempo que gastámos a falar dele. De facto a realização de John Curran (autor do falhado 'Desencontros') é do mais desenxabido possível, contagiando inclusive o seu par de protagonistas, Norton apagadíssimo, Naomi Watts (de cabelo castanho, aarrrgh!) a tender para um overacting pouco usual. Só os secundários se safam, com destaque para o sempre bom Toby Jones (o Capote de 'Infame'). Mesmo o argumento é demasiado esquemático, obliterando muito a judiciosa trama de Maugham, sobre um casal em crise na China, em que o marido traído arrasta consigo a mulher para o meio duma terrível epidemia de cólera. Ainda assim, o enredo sobrevive a tudo e prende-nos a atenção até ao fim. Mas, claro, para o conhecer mais vale ficar no sofá e ler o livro.
The Painted Veil, Grã-Bretanha, 2006. Realização: John Curran. Com: Naomi Watts, Edward Norton, Liev Schreiber, Toby Jones, Diana Rigg.

10.8.07

The Host — A Criatura



Nem sei por onde começar para falar deste 'The Host', a minha única incursão até agora no Fantasporto deste ano (*). Talvez o melhor seja tentar resumir o seu argumento: anos após terem sido despejados num rio uma série de produtos químicos de uma base Americana na Coreia, aparece nesse mesmo rio um ser mutante, uma espécie de peixe gigante mas anfíbio, que caça seres humanos e os leva para um esgoto. Os familiares de uma míuda apanhada pelo bicho resolvem tentar resgatá-la, após descobrirem que ela está viva (consegue fazer uma chamada de telemóvel do esgoto).
Diga-se desde já que é uma família sui generis: o pai é meio atrasado, o tio é um 'licenciado desempregado' e a tia é uma atiradora de arco e flecha, que perdeu a medalha de ouro nos jogos olímpicos (ficou-se pela de bronze) porque demorou muito tempo no último lançamento e foi desclassificada (sim, eu sei que parece uma personagem de Wes Anderson); o chefe de família é o avô, que tem uma roulotte que vende lulas (assim uma espécie de equivalente aos nossos cachorros).
Acrescente-se que além de ser um filme fantástico (com excelentes efeitos especiais, diga-se - a criatura é um prodígio de animação), 'The host' é também uma comédia, com cenas entre o idiota-idiota e o idiota com piada. Tem mesmo uma antológica, em que o avô faz uma defesa comovida do filho retardado ('não comeu proteínas suficientes em miúdo'), e diz emocionado que consegue saber os seus estados de espírito através das suas flatulências. Um momento ao nível da célebre história de 'Pulp Fiction', do relógio escondido anos naquele sítio...
Last but not the least, o filme é ainda - ou pretende ser - uma sátira a uma série de coisas, começando na televisão e acabando - adivinhem! - nos Estados Unidos. Foram os Americanos que contaminaram o rio e são eles que estão a tomar conta (mal) dos acontecimentos, acabando por lançar uma arma biológica contra o monstro, numa cena com reminiscências do cogumelo atómico de Hiroshima.
Mas diga-se em abono da verdade, que não obstante estas metáforas algo pesadas, a maior parte do tempo o filme não é mais do que aquilo que parece ser: uma espécie de Godzilla apatetado.
Que esta bizarrice tenha sido um colossal sucesso de bilheteira na Coreia (país onde os filmes nacionais têm grande peso), não me surpreende grandemente. Já que tenha entrado no top ten dos melhores filmes de 2006 dos Cahiers du Cinéma (**), isso aí já dá bastante que cismar...

(*) Post originalmente publicado no dia 25/02/07.
(**) Entretanto também entrou no top ten dos melhores filmes do 1º semestre da Liga dos Blogues Cinematográficos...
Gwoemul /The Host, Coreia do Sul, 2006. Realização: Joon-ho Bong. Com: Kang-ho Song, Hie-bong Byeon, Hae-il Park, Du-na Bae, Ah-sung Ko.

7.8.07

Bug



'Bug' começa com um excelente travelling, em que temos uma panorâmica aérea que se vai afunilando até se centrar num motel no meio de nenhures. Descobrimos que mora aí Agnes (Ashley Judd), empregada num bar lésbico de uma terriola na América profunda, uma solitária que se mete nos copos e teme o regresso do ex-marido que vai sair da prisão.
Apesar de fugir de socializar, principalmente com homens, Agnes sente-se só e acaba por ser atraída por Peter (Michael Shannon, estranhamente parecido com Ray Liotta), um homem tranquilo, de poucas mas sensatas falas, confiante e seguro. Mesmo o que ela precisava como contraponto ao brutal e espalhafatoso ex. Peter parece ser capaz de meter este na ordem e parece que Agnes vai ter uma segunda oportunidade.
Mas, uma noite Peter acorda por causa de um insecto. Agnes não é capaz de o ver, mas este insiste e ela relutantemente acaba por ir na conversa. Depois Peter conta-lhe que o governo o persegue. Que é um ex-soldado e que fizeram experiências secretas nele. Entretanto a praga de insectos 'invisíveis' alastrou. Ele está todo marcado de os arrancar do corpo e ela (entretanto convertida) também. Os níveis de paranóia vão-se exponenciando.
Voltemos aqui ao plano inicial de que falámos. Compreendemos agora a vista aérea do motel como um símbolo de todo o filme, de tudo o que vai na cabeça de Peter (e depois da sugestionada Agnes), de que está a ser permanentemente vigiado por uma entidade superior (os militares, o governo), que lhe controlam todos os passos e toda a sua vida.
Enquanto mantém o espectador na dúvida, num certo limbo (Peter será mesmo um paranóico-esquizofrénico, ou haverá ali ago que...) o filme de Friedkin é magnífico. Quando passa para o lado da paranóia pura, alucinante, quanto a mim perde bastante força e a última meia hora é consideravelmente menos interessante. O que é sugerido é sempre bastante mais inquietante que o explicito.
Apesar de não poder deixar de pensar que passou ao lado de ser um grande filme, 'Bug' permanece, ainda assim, um dos mais insólitos objectos em cartaz. Pode ser visto, claro, como uma metáfora pós-11 de Setembro, sobre o mundo moderno, sobre o pânico do invisível, do que não controlamos (se virmos o filme do lado de Peter). Ou pura e simplesmente sobre a necessidade de as pessoas se agarrarem a algo, de qualquer coisa ser preferível à sua solidão e desamparo (se virmos o filme do lado de Agnes).
E a diferença que faz não ter um tarefeiro atrás da câmara! O modo como Friedkin (realizador de 'O exorcista' ou 'French Connection') domina o espaço, aquele quarto onde se passa 99% do enredo é de mestre. Quem sabe nunca esquece.
Bug, E.U.A., 2007. Realização: William Friedkin. Com: Ashley Judd, Michael Shannon, Lynn Collins, Brian F. O`Byrne, Harry Connick Jr..

Compras em saldos





Pack 'Os Respigadores e a Respigadora' + 'Nossa Senhora dos Matadores'

8 euros e tal, na FNAC



Nunca vi o filme de Agnès Varda. Já 'Nossa Senhora dos Matadores' é um dos mais impressionantes que vi em anos. Caso raro, levou-me a comprar o livro em que é baseado e tudo ('La Virgen de los Sicarios', de Fernando Vallejo - que eu saiba não há edição portuguesa).

PS: Só espero que não me aconteça como no último pack de que aqui dei noticia em que a caixa de 'Battle Royale' estava vazia... (claro que eu não tinha guardado o talão)

5.8.07

Jindabyne



'Jindabyne', segundo filme de Ray Lawrence a estrear por cá, mantém todas as marcas que o realizador australiano tinha exposto no anterior, 'Lantana': um muito bom trabalho de actores, um certo vagar melancólico no contar da(s) história(s), uma atenção meticulosa às suas personagens, aos seus carácteres, às suas fragilidades.
'Jindabyne' está próximo de um certo cinema independente Americano centrado nas pessoas, na enovelada teia das relações humanas, mas imbuído de um tempo narrativo muito próprio, sem pressas, condizente com as vastas e desérticas paisagens Australianas.
Baseado num conto do grande Raymond Carver, parte da descoberta acidental de um cadáver por um grupo de amigos (quase que podia haver um género próprio baseado neste tema!), para nos traçar um retrato da sua vida e dos que lhes estão próximos, com destaque para a mulher de um deles (excelente Laura Linney), uma mulher à beira de um ataque de nervos, que se serve deste 'caso' para tentar exorcizar os seus muitos fantasmas e contamina todos à sua volta.
Ray Lawrence tem um estilo próprio e filma muito bem, embora por vezes estique demasiadamente a corda. A mim o filme irritou-me por diversas vezes, entediou-me outras tantas, mas ainda assim não deixei de o apreciar. Nem deixo de o recomendar.
Jindabyne, Austrália, 2006. Realização: Ray Lawrence. Com: Laura Linney, Gabriel Byrne, Chris Haywood, John Howard, Tatea Reilly, Sean Rees-Wemyss, Deborra-Lee Furness.

4.8.07

Paranóia


Sarah Roemer: só por ela já valia a pena ver Paranóia

'Paranóia' é uma 'Janela indiscreta' versão teen movie. Claro que não há aqui lugar para os perversos jogos do mestre, mas há um surpreendente savoir faire que gradualmente nos leva de um leve e divertido entretenimento domingueiro, para um ambiente de verdadeiro suspense e horror. Já vi pior. Bem pior.
Disturbia, E.U.A., 2007. Realização: D. J. Caruso. Com: Shia LaBeouf, Sarah Roemer, Carrie-Anne Moss, David Morse, Aaron Yoo.

3.8.07

Filmes de Julho

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês passado. Classificação de 0 a 10.



Lirio quebrado, D.W.Griffith, 1919 (10)
Niagara, Henry Hathaway, 1953 (6,5)
Rio sem regresso, Otto Preminger, 1954 (7)
Relatório confidencial, Orson Welles, 1955 (7)
Persona, Ingmar Bergman, 1966 (10)
Wild Bunch, Sam Peckinpah, 1969 (8)
Les noces rouges, Claude Chabrol, 1973 (8)
Le beau marriage, Eric Rohmer, 1982 (8,5)
Les nuits de la pleine lune, Eric Rohmer, 1984 (10)
O raio verde, Eric Rohmer, 1986 (9)
Cães danados, Quentin Tarantino, 1992 (9)
Dead Man, Jim Jarmush, 1995 (8)
O miar do gato, Peter Bogdanovich, 2001 (7,5)
Ichi, o assassino, Takashi Miike, 2001
Renaissance, Christian Volckman, 2006
Alphadog, Nick Cassavettes, 2006
Die Hard 4.0, Len Wiseman, 2007
Belle Toujours, Manoel de Oliveira, 2007
Death Proof, Quentin Tarantino, 2007
Os Simpsons: o filme, David Silverman, 2007

1.8.07

Comédias e provérbios


Sophie Renoir et François-Eric Gendron em L'ami de non amie

Andei a ver mais ou menos de enfiada todos os filmes de Rohmer da série 'Comédias e provérbios'. As personagens de Rohmer são as mais faladoras da história do cinema, mas enquanto em filmes como Ma nuit chez Maude dissertam sobre temas como a filosofia ou Deus, nesta série, talvez por serem quase todas muito novas, falam sobretudo sobre si próprias, das suas aspirações, da sua vidinha; sobre temas comezinhos em suma.

O que eu mais gosto nestes filmes é que as preocupações das suas personagens são preocupações iguais às que nós temos (ou já tivemos quando tínhamos 20 anos). Em La Femme de l'Aviateur, François encontra por acaso uma rapariga e pensa que encontrou a pessoa certa; no entanto, acaba por descobrir que ela tem um namorado. Em Le Beau Mariage, Sabine também pensa ter descoberto o seu 'amor à primeira vista', e decide imediatamente casar-se com ele; mas casar é a ultima ideia que passa pela cabeça dessa pessoa. Em Pauline à la Plage, Marion, apesar de avisada, apaixona-se por um playboy. Em Le Rayon Vert, Delphine sente-se frustrada porque não tem com quem ir de férias: a amiga com quem tinha combinado fazer uma viagem trocou-a pelo namorado; as restantes pessoas amigas têm família, namorados, a vida programada. Ela acaba por andar sozinha dum lado para o outro e aborrece-se de morte. Quando lhe perguntam, diz que sim, que tem namorado, e dá o nome do ex que ainda não esqueceu.

Finalmente os meus favoritos (seguidos de perto por Le Rayon Vert). Em Les Nuits de Pleine Lune, Louise depara-se com um outro problema comum: ela gosta muito de sair à noite, mas o namorado, com quem vive, detesta-o. Vivem nos arrabaldes, em casa dele, mas ela resolve recuperar o seu apartamento em Paris, podendo assim ficar a dormir lá depois das noitadas que gosta de fazer na capital. Geralmente sai acompanhada de um amigo noctívago, casado mas com uma atracção por ela, e que o namorado abomina. Sente-se ligada ao namorado, mas não suporta sentir-se presa, por isso não rejeita um encontro amoroso ocasional (mas não com o amigo, demasiadamente insistente). Ou seja, é uma rapariga 'moderna' e o namorado um 'bota de elástico'. Rohmer troca-lhe as voltas, e as coisas acabam por não lhe correr muito bem (de certo modo é um filme bastante reaccionário - a moral é algo do género 'ela estava mesmo a pedi-las'). L'Ami de Mon Amie é o mais difícil de resumir. O provérbio inicial é 'os amigos dos meus amigos meus amigos são' e gira à volta das relações entre casais e amigos, de alguém se interessar pelo/a namorado/a de uma amiga/o, ou de um amigo/a nosso se interessar pela mesma pessoa que nós.

O que sustenta estes filmes, com temas tão terra a terra como os que descrevemos, são então os magníficos diálogos, a maneira como Rohmer nos apresenta as suas palavrosas personagens, os seus burgueses irritantes, como já alguém, com razão, lhes chamou. É por isso que Rohmer se aguenta tão bem fora do grande ecrã, quer seja na escrita - veja-se a excelente 'versão' em livro dos Sete contos morais - quer seja em dvd. O que não quer dizer que não seja um grande realizador. E até um dos maiores.

PS: Estes filmes, em que ninguém terá mais de 30 anos e que são essencialmente sobre as preocupações de pessoas solteiras que procuram alguém, foram filmados entre 1981 e 1987; ou seja, Rohmer filmou-os entre os seus 61 e 67 anos, o que não deixa de ser admirável e surpreendente.