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30.11.07

Cronenberg

"Os fundamentalistas andam a bradar aos céus que foram traídos por David Cronenberg. Como é possível?, perguntam eles. Como é possível que um dos mais sistematicamente estimulantes cineastas contemporâneos digne aceitar filmar guiões indignos do seu talento e andar a fazer tangentes ao "mainstream" que pouco adiantam a uma das obras mais consistentes do cinema recente? Já se sentia esse desconforto nas reacções a "Uma História de Violência" (2005) e o novo "Promessas Perigosas" parece exacerbá-las"

Jorge Mourinha

Só me ocorre que Jorge Mourinha está a falar dos seus colegas do lado. Depois do ano passado o excelente 'Uma história de violência' não ter tido lugar no top ten do Público, agora que estreia o novo filme do realizador canadiano, além de Jorge Mourinha só Vasco Câmara se dignou a ir vê-lo.
(em sentido contrário está Gus Van Sant, actualmente com vela acesa em Meca, que teve direito a casa cheia e unanimidade nas estrelinhas).

Estrela solitária



'Don`t Come Knocking' oferece-nos algo como serviços mínimos de Sam Shepard e Wim Wenders. Há as suas marcas, os seus sinais, a atmosfera do seu universo, mas falta tudo o resto.
Estes ecos dum passado mais brilhante eram suficientes para dar vida a uma curta-metragem de dez minutos (o muito bom segmento de Wenders de 'Ten Minutes Older '), mas não chegam para uma longa de duas horas. Quando a história tem que se materializar, quando é preciso ir além do ambiente, o filme fraqueja claramente e desequilibra-se.
A sólida presença de Sam Shepard como actor (e a fazer de actor) e a breve aparição de Eva Marie Saint (a belíssima actriz de 'Há lodo no cais' e 'Intriga internacional', agora com mais de oitenta anos) são suficientes para o cinéfilo não dar o seu tempo por perdido, mas uma pessoa perde cada vez mais as esperanças de ver um novo grande filme assinado por Wim Wenders.

Don`t Come Knocking, França/Alemanha/Estados Unidos, 2005. Realização: Wim Wenders. Com: Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Gabriel Mann, Sarah Polley, Fairuza Balk, Eva Marie Saint.

26.11.07

Shoot`em Up - Atirar a matar



'Shoot`em Up' é uma espécie de homenagem em tons de paródia aos filmes de acção em que um justiceiro solitário dá cabo de um exército inteiro de inimigos, sem nunca perder a coolness ou sofrer um arranhão. Clive Owen (excelente) é um atirador implacável (com um passado traumático, como é de regra), que se vê envolvido numa mirabolante e intrincada conspiração, tendo como adversário um batalhão de inimigos comandado por um lunático Paul Giamatti e contando apenas com a ajuda de uma prostituta que está apaixonada por ele (Monica Bellucci).

'Shoot`em Up' consiste basicamente numa enorme carnificina perpetrada pelo nosso herói, recorrendo por vezes a meios pouco convencionais (há uma antológica cena com uma cenoura - a sua imagem de marca - logo a abrir), nunca baixando os níveis de humor, inverosimilhança e espectacularidade, entrando mesmo numa lógica de desenho animado. Isto filmado a uma velocidade estonteante e com uma barulhenta banda sonora omnipresente (que vai dos Nirvana aos Motörhead!).

'Shoot`em Up' nem sempre escapa à palermice, mas a maior parte do tempo é muito divertido. É, digamos, um divertimento no mesmo comprimento de onda de um 'Planet Terror': está para os filmes de Lonely Rangers/007, como aquele está para os de zombies.
Na sessão onde o vi, o sucesso foi garantido: há muito tempo - festivais à parte - que não via uma sala a irromper em aplausos após uma cena mais inverosimilmente espectacular...
Shoot`em Up, E.U.A., 2007. Realização: Michael Davis. Com: Clive Owen, Monica Bellucci, Paul Giamatti, Stephen McHattie, Greg Byrk.

24.11.07

Luzes no Crepúsculo


No último capítulo da sua trilogia sobre a working class finlandesa, Aki Kaurismäki continua igual a si próprio e diferente de todos os outros. 'Luzes no crepúsculo' é um conto breve, triste e melancólico, mas com momentos de humor desesperado (Kaurismaki parece ter retido aquele segredo do cinema mudo de nos fazer rir com um simples plano) e até de esperança (apesar de tudo, há uma luz que nunca se apaga).
Kaurismäki filma muitíssimo bem, não há um plano a mais, nem um plano com um segundo a mais; a fotografia é deslumbrante e a banda sonora fantástica (e tristíssima). Mas nunca nos ocorreria classificá-lo de virtuoso: simplicidade e agudeza são as suas características. O que lhe permite ter um olhar simultaneamente analítico e caloroso para com as suas personagens marginais.

No início do filme, Kaurismäki, numa magnífica cena 'lateral', põe três transeuntes a falarem de escritores russos: Gorky, Tchéckhov, Tolstoi, Pushkin, Gogol (mas não de Dostoievski, apesar da principal personagem do filme não mexer uma palha para se salvar). Após vermos 'Luzes no crepúsculo', não podemos deixar de achar esta citação a alguns dos maiores contistas da literatura russa muito apropriada: talvez este cineasta do país vizinho, seja um dos seus mais dignos sucessores.

Laitakaupungin valot/Lights in the Dusk, Finlândia/Rússia, 2006. Realização: Aki Kaurismäki. Com: Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria Heiskanen, Ilkka Koivula, Sergei Doudko.

22.11.07

Um azar do caraças


Katherine Heigl e Seth Rogen: a bela e o bronco

Sinceramente, só me passou pela cabeça ir ver este filme depois dos meus caros confrades da Liga dos Blogues Cinematográficos o terem eleito como 'filme do mês' de Setembro. O que me ocorre dizer, menos de uma hora depois de ter saído da sala, é que deve ser o pior filme já eleito pelo pessoal da Liga...

Nem digo que seja uma porcaria completa - é até um filme simpático - mas achar que isto é bom, só se o termo de comparação for o 'Porky´s'. 'Um Azar do Caraças' é a enésima variação do enigmaticamente célebre 'Clerks', filme que teve o duvidoso mérito de trazer para a ribalta aqueles cromos de vinte e tal anos mas que se comportam como putos de quinze (daqueles mal educados), para os quais o expoente máximo da comicidade é alguém dar um traque.
Eu sei que há quem veja aqui o elogio da camaradagem masculina, a dificuldade de passar à idade adulta, um retrato geracional até, mas francamente, acho que é preciso muita boa vontade e óculos de aumentar. Eu nem precisava de ver nada disso, bastava que o filme me fizesse rir (é uma comédia, afinal de contas). Mas nem isso: o argumento é inverosímil e forçado (estamos no século XXI, caramba!, uma rapariga não tem que casar com o bronco que a engravidou), as piadas são básicas, todas as cenas com o 'grupo' de Seth Rogen são ou patetóides ou embaraçosas e mesmo ele, só para nos ficarmos pelo "Brat Pack", está a milhas dum Vince Vaugh. Digamos que um filme como 'Os fura-casamentos', suportado apenas em dois muito bons actores e numa mão cheia de boas piadas, faz figura de obra-prima ao pé deste.
Se isto é o 'futuro da comédia americana', vou ali e já venho.
Knocked Up, E.U.A., 2007. Realização: Judd Apatow. Com: Seth Rogen, Katherine Heigl, Paul Rudd, Leslie Mann, Jay Baruchel, Jonah Hill, Jason Segel, Martin Starr.

20.11.07

Beowulf



Quando me desafiaram a ir ver este filme pensei: ver a Angelina Jolie em 3D? Why not? As surpresas começaram na bilheteira: estava eu a dar os 4,20€ à menina, quando me são exigidos 6 euros... "é o preço para filmes 3D". Bom, toca então a desembolsar mais 1,80€ à custa dos óculos, que já não são de cartão, mas uma coisa a sério, não propriamente uns Ray-Ban, mas pelo menos semelhantes aqueles das lojas chinesas.

A tecnologia 3D já é bastante antiguinha, o próprio Hitch chegou a usá-la num filme (o excelente 'Dial M for Murder', que acabaria no entanto por passar em versão 'normal' em quase toda a parte), mas a verdade é que nunca pegou e já não me lembrava de ter visto um filme de óculos postos. Não há duvida que de início somos agradavelmente surpreendidos por termos a imagem bem em cima de nós, o que permite ao realizador brincar um bocado com coisas como pôr um objecto a vir mesmo na nossa direcção ou a sair mesmo defronte do nosso nariz (diga-se em abono de Zemeckis que ele não abusa muito destes truques). Acontece que este filme usa aquela técnica cada vez mais em voga de criar desenhos animados a partir de filmagens com actores (motion capture), ficando assim as personagens mais bonecos que seres de carne e osso, o que neste caso concreto nos remete para uma espécie de ambiente de videojogo. Nunca ninguém há de me conseguir explicar a vantagem, utilidade ou propósito desta técnica, mas adiante. Passado algum tempo já nos habituámos a toda esta tecnicagem, e a 'história', por assim dizer, fica entregue a si própria.

'Beowulf', como é sabido, é uma saga anglo-saxã que vem do século IX e que serviu de inspiração e modelo a muito do que veio depois, incluindo o mundo de Tolkien. Falamos de literatura claro, porque no caso do cinema passa-se o contrário e 'Beowulf', como tantos outros filmes 'fantásticos', é que é filho de 'Senhor dos Anéis'. Com 3D ou sem 3D, com mais ou menos animações computorizadas, não podemos deixar de o ver como mais um pálido sucessor das obras de Peter Jackson, que neste género atingiram um nível quase inultrapassável. Não que alguma ressonância do épico original não passe para a tela, nomeadamente um inusitado humor com forte carga sexual , mas é pouco quando temos um conjunto de personagens que nem em 3D têm qualquer tipo de profundidade, ou quando a carga mítica é fortemente diluida no aparato técnico.

No fundo é um filme para adolescentes: tem acção, fantástico, pouca profundidade, exige o mínimo do espectador e tem 'tecnologia' como eles gostam. E, enfim, um adulto pode não dar o seu tempo por mal empregue se encarar a coisa como um divertimento leve e uma oportunidade para voltar ao 3D - que embora não acrescente nada esteticamente ao filme, acaba por ser um ingrediente diferente numa refeição algo requentada.
Beowulf, E.U.A., 2007. Realização: Robert Zemeckis. Com: Ray Winstone, Anthony Hopkins, John Malkovich, Robin Wright Penn, Brendan Gleeson, Crispin Glover, Alison Lohman, Angelina Jolie.

18.11.07

Control


Duas revelações: Sam Riley e Alexandra Maria Lara

No início de 'Control' temos um rapaz metido consigo mesmo, complicado, mas com carisma e um brilho nos olhos. Para o final temos um homem que não sabe o que fazer da vida, se deixa a mulher se não deixa, se quer mesmo o sucesso que já parece inevitável, que desespera com os ataques epilépticos que vem sofrendo. 'Control', mais que o retrato do artista quando jovem, é o retrato da pessoa que perdeu o controlo da sua vida. Que quer fazer as coisas certas mas não consegue. É um retrato austero, rigoroso e e sem cair em nenhum tipo de cliché sobre artistas malditos - Ian conciliava a vida de popstar emergente com um emprego convencional, mulher e mais tarde uma filha. E é impecavelmente filmado por Anton Corbijn, com uma elegância e sobriedade inatacáveis, suportado por uma imaculada fotografia a preto e branco, e uma encarnação espantosa de Sam Riley em Ian Curtis.

A bem dizer é-me quase impossível encontrar um aspecto negativo neste filme, mas a verdade é que não aderi tanto a ele como gostaria. Talvez porque seja demasiadamente asséptico na sua elegância formal, talvez porque arrisque pouco - é tão bem feito que nem nos apercebemos da sua estrutura bastante convencional (por exemplo: inserir as canções reflectindo a vida pessoal do artista naquele momento é algo bastante óbvio, embora por vezes resulte bem). Talvez lhe falte alguma rugosidade, alguma sujidade.

Ainda assim, insisto, achei-o bom. Mas vai ter que que marinar mais algum tempo no meu espírito, até conseguir perceber bem porque é que não me agarrou emocionalmente - e logo a mim, que cresci a ouvir os Joy Division.
Control, Grã-Bretanha, Estados Unidos, 2007. Realização: Anton Corbijn. Com: Sam Riley, Samantha Morton, Joe Anderson, James Anthony Pearson, Harry Treadaway, Alexandra Maria Lara, Craig Parkinson.

16.11.07

Gangster Americano



O 'Gangster Americano' é Frank Lucas (Denzel Washington), o primeiro negro a chegar ao topo da hierarquia de venda de droga na Nova Iorque dos anos 70. E 'Gangster Americano' é um filme que se insere na nobre tradição americana de filmes de gangsters, ou seja, em que se conta pedaços de história do país através das 'classes criminosas'. Porque, mais uma vez, esta é uma história sobre o American dream: Lucas começou como motorista do rei da droga do Harlem e, graças às suas 'qualidades' (que incluíam o olho para o negócio e a violência em iguais doses) não só lhe sucedeu como o ultrapassou, chegando ao topo do topo, passando para trás a Máfia, constituída por brancos que o olhavam de cima.

Ridley Scott, de quem nunca sabemos bem o que esperar, não inventa nada neste filme, antes cumprindo com competência, rigor e pulso todos os códigos do género, entrelaçando com desembaraço o particular (o polícia incorruptível - olhado de lado pelos colegas por ter devolvido um milhão de dólares que apreendera! - mas incapaz de estabilidade na vida pessoal; o gangter assassino mas que põe a família em primeiro lugar - todos os Domingos acompanhava a mãe à igreja), com o retrato de grupo (a policia corrupta; o racismo da América da altura; o Vietname em pano de fundo).

Não obstante a estrutura clássica, que vai traçando linhas de início paralelas, mas que se vão estreitando cada vez mais, entre o polícia e o gangster, caçador e caça, o título não engana e é no Gangster Americano que Scott se centra mais. O facto de ser negro é-lhe vantajoso no início, pois ninguém na polícia acredita que um negro possa ser o patrão; mas, como o polícia Richie Roberts (Russell Crowe) o adverte, no final ninguém lhe vai perdoar isso. Todas as suas características que lhe permitiram subir a pulso, acabam depois por o deitar abaixo: a cor da pele; o seu código de honra (que o impede de negociar com polícias corruptos por os desprezar); a família como unidade nuclear (mas não inviolável, como descobrirá). E, ironia do destino, até a unica falha que tem na sua regra de conduta de máxima descrição será paga com um valor altíssimo. Mas se calhar não havia nada a fazer: era impossível um negro chegar lá acima e passar despercebido. O sonho americano tem um limite.

Falta a Ridley Scott maior subtileza para chegar à obra-prima, ao clássico que ambicionaria, mas consegue ainda assim um excelente filme que não desmerece a tradição de onde imana. E que é seguramente um dos melhores deste desconsolado ano cinematográfico.
American Gangster, E.U.A., 2007. Realização: Ridley Scott. Com: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Cuba Gooding Jr., Lymari Nadal, RZA.

15.11.07

Compras em saldos

Rourke é um polícia justiceiro e racista, sedutor e perdido, um filho do Vietnam, que empreende uma cruzada contra o ‘mal’ em Chinatown. ‘O ano do dragão’ é um filme fascinante, com pormenores insólitos (como o loft modernista de Tracy Tzu), que nos mostra o grande actor que era Mickey Rourke e nos lembra que um dos maiores crimes do cinema actual é Cimino estar há mais de 10 anos sem filmar. Nota 9,5.
('O Ano do Dragão', 4 euros e tal no Feira Nova)


Primeira aparição de Jimmy Stewart no universo de Ford, no mesmo ano do seminal ‘O homem que matou Liberty Valance’. É um filme com um background bastante pessimista sobre a natureza humana, mas com aquele toque de humanismo e humor de que só John Ford tinha o segredo. Parece que Ford detestava este filme. Eu achei-o uma obra-prima. Nota 10.
('Terra Bruta', 8 euros e tal no El Corte Inglés)


Não é uma obra-prima como ‘Perseguido pelo passado’ e DePalma diz mesmo nos extras que se lançou na sua realização porque precisava desesperadamente de um êxito comercial; mas é, como soe dizer-se, um filme sólido e de travo clássico. E prova que houve um tempo em que Kevin Costner entrava em bons filmes. Nota 8.
('Os Intocáveis', 8 euros e tal na Fnac)

13.11.07

(devido a aselhice minha, apaguei uma data de coisas por aqui, incluindo os links; pouco a pouco, assim haja tempo e paciência, irão sendo repostos)

12.11.07

Melhor série?



De caras.

11.11.07

Zidane, Um Retrato do Século XXI



E se durante um jogo de futebol a câmara seguisse, não a bola, mas apenas um dos jogadores? Foi esta a ideia da dupla de artistas Gordon Douglas/Philippe Parreno, que puseram 17 câmaras a apontar para Zidane num Real Madrid-Villarreal de há dois anos. Temos então 90 minutos de Zinedine Zidane, em plano americano ou em grande plano, com um plano de pormenor dos pés de vez em quando, um grande plano às vezes. A banda sonora alterna entre o som 'ao vivo' do estádio, e musica dos Mogwai com legendas a acompanhar. Nestas vamos lendo afirmações do jogador, como se alheia quase totalmente de tudo o que o envolve durante os jogos ou como a sua memória destes é fragmentada (e daí fazer sentido a musica - reforça este alheamento, esta quase introspecção do jogador).

O resultado é estranhamente fascinante, de início. Ficamos como que hipnotizados por Zidane, pela sua face concentrada, impassível (não há um sorriso), alheada. E sem dúvida que experimentamos uma outra maneira de ver o jogo - como algo solitário, em que cada jogador intervém pouquíssimo ao longo dos 90 minutos, algo em que não estamos habituados a pensar.

Mas também é verdade que ao fim de meia hora está tudo visto. Já assimilámos a ideia, já 'experimentámos' a obra, a partir daí torna-se algo cansativo. Fosse o filme/instalação/performance/o-que-se-queira-chamar exibido numa sala de um museu de arte contemporânea, e uma pessoa quando chegasse a um certo ponto ia dar uma volta e poderia voltar se lhe apetecesse. Eu como o vi em casa, fiz mais ou menos isso: 'vi' aí metade em 'segundo plano', enquanto ia fazendo outras coisas. Se tivesse assistido numa sala de cinema, desconfio que a incomodidade acabaria por vencer e me teria estragado o prazer genuíno que a primeira meia hora me deu...
Zidane, un portrait du 21e siècle, França, 2006. Realização: Douglas Gordon, Philippe Parreno.

10.11.07

A Invasão



Costuma-se dizer que um grande filme pode ser lido a vários níveis. Sobre os anteriores filmes baseados no clássico The Body Snatchers de Jack Finney, o veterano crítico Roger Ebert lembra que todos eles foram vistos como parábolas para o seu tempo. Invasion of the Body Snatchers de Don Siegel (1956) foi lido como um ataque ao McCarthyismo, o filme homónimo de Philipe Kaufman (1978) estaria com um olho em Watergate e finalmente Body Snatchers (1993) de Abel Ferrara (que Ebert considera o melhor) falaria sobre a propagação da SIDA.

Sobre 'A Invasão', Ebert acrescenta que não obstante se falar por lá do Iraque e mesmo do Darfur, não faz ideia de qual será a posição do filme sobre estes assuntos. É impossível não concordar com ele. Um filme em que uns 'esporos' vindos do espaço tomam o lugar de seres humanos, sendo que às tantas é difícil (ao contrário do caso dos Zombies!) distinguir quem já está infectado de quem não está (aqui a táctica é não mostrar emoções), tem a palavra 'parábola' escrita em letras garrafais. As pessoas mantêm a aparência mas já não são elas, são seres malignos, estão a ver? E quando as personagens desatam a falar do Iraque, há uma luzinha vermelha que começa a piscar instantaneamente no nosso cérebro: 'mensagem'; 'mensagem'. Mas... qual mensagem? 'Connosco não haveria Iraque ou Darfur', diz um dos esporos. Mas isso é bom ou mau? Será que afinal a mensagem é 'é melhor sermos humanos como somos e isso, claro, implica haver Iraques e Darfurs'? Ou será o contrário: 'a humanidade governa-se tão mal que merece ser invadida por uns quaisquer esporos'? Ou será outra qualquer? Não dá para perceber.

É sabido que a Warner Bros. não aceitou a versão final de Oliver Hirschbiegel (realizador de 'A Queda') e contratou os irmãos Wachowski e James McTeigue ('V de Vendetta') para a reformularem. O filme ressente-se naturalmente de todas estas mãos, e acaba por ficar numa estranha zona de ninguém.

Voltando ao início. Pode o leitor dizer: não quero saber de nada disso! E como filme sci-fi, como entretenimento, como meio de passar 1h30 a comer pipocas? Bom, eu direi que não se safa mal de todo. Mantém o suspense, dentro da tal zona de indecisão em que vive tem ainda assim uma certa concisão e, claro, tem uma excelente actriz que o leva ao colo. Os amantes do género não darão o dinheiro por mal empregue.
The Invasion, E.U.A., 2007. Realização: Oliver Hirschbiegel. Com: Nicole Kidman, Daniel Craig, Jeremy Northam, Jackson Bond, Jeffrey Wright, Veronica Cartwright.

7.11.07

Pintar ou fazer amor



Este filme estava na minha lista dos 'a ver' há já algum tempo, mas por um motivo ou outro foi ficando em stand-by, acabando por cair numa espécie de limbo, até que este muito divertido post mo trouxe de novo à memória.
Ultimamente tenho tido oportunidade de ver alguns filmes franceses da 'produção corrente', digamos assim - ou seja, que não são assinados nem por realizadores consagrados em actividade, como Chabrol, Rohmer ou Garrel, nem por realizadores mais jovens mas com 'nome feito' como Ozon ou Honoré. A qualidade média é, na minha opinião, semelhante à dos made in Hollywood. Ou seja, fracota. A diferença, parece-me, é que estamos tão fartos da trigésima quarta sequela, da vigésima sétima adaptação de um comic, da quinquagésima ressurreição de um herói musculoso de há 20 anos, que tudo o que foge deste parque infantil em que Hollywood se tornou é por nós recebido pelo menos com boa vontade e esperança.

E nisto, nos temas 'adultos' (diferente de 'profundos', ou 'relevantes', ou até bem tratados, entenda-se) os franceses, passe o cliché, não desiludem. 'Pintar ou fazer amor', por exemplo, apresenta-nos um casal (os grandes Daniel Auteuil/Sabine Azema) que se rende aos prazeres do... swinging (vulgo trocas de casais, esclareço os mais inocentes). De resto o argumento não vai para lá de uma leveza agradável, a realização é competente mas anódina, e no geral não se distingue grandemente daqueles filmes que passam na TV ao Domingo à tarde (bom, se excluirmos dois ou três nus - mas não quero que me acusem de carregar nos clichés sobre o cinema francês).

É desnecessário dizer que Renoir, Truffaut ou Rohmer estão entre os realizadores que mais gosto. Ou que 'Chansons d´amour' é um dos filmes que me irá ficar deste medianíssimo ano cinematográfico. Apenas as coisas são como são. Por cada filme marcante que vemos, há dez que esquecemos logo a seguir. E esta constatação não exceptua nacionalidades.
Peindre ou faire l`amour, França, 2005. Realização: Arnaud e Jean-Marie Larrieu. Com: Sabine Azema, Daniel Auteuil, Amira Casar, Sergi Lopez, Philippe Katerine, Hélène de Saint-Père.

6.11.07

Elizabeth - A idade de ouro


Um filme que é tão ostentoso quanto vazio.

Há dois adjectivos que me ocorrem sobre este filme: desnecessário e enfastiante. É um enorme desperdício: de meios (que não devem ter sido poucos, dado o vistoso aparato da coisa), de actores (Cate Blanchett e Clive Owen desde logo, para não falar de Samantha Morton que aparece umas 3 vezes antes de ser decapitada) e, principalmente, do tempo dos espectadores (são quase 2 horas que parecem o dobro). E nem falo sobre a veracidade histórica, que parece que deixa muito a desejar, pois nem tenho competência para me pronunciar, nem seria isso que me impediria de apreciar o filme, caso este tivesse algo mais de relevante para dar ao espectador. Mas infelizmente não tem. As personagens são de papelão (e nem falo dos Espanhóis, que parece que declamam em vez de falar), a banda sonora é pomposa e estridente, a realização académica, o argumento indigente. O embrulho é de luxo, mas o conteúdo é um bocejo.
Mais uma vez se verifica a regra que dita que nestas coisas de sequelas é sempre a descer. E ainda vem aí uma terceira parte...
Elizabeth: The Golden Age, Grã-Bretanha/França, 2007. Realização: Shekhar Kapur. Com: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Abbie Cornish, Rhys Ifans, Samantha Morton, Jordi Mollà, Tom Hollander.

5.11.07

Cinco filmes

A Susana desafiou-me, no Auto-Retrato, a citar 5 filmes da minha vida. Eu já uma vez respondi a um desafio semelhante em que listei 10 (não posso fazer o link porque o Nuno entretanto acabou com o blogue onde os postou), e eu próprio já desafiei vários bloggers a fazerem o mesmo (pelo que me vou dispensar de passar esta corrente!).
Mas é com muito gosto que desfio mais 5 filmes - agora diferentes, mas repetindo no entanto um realizador, o Lang (o que tem que ser, tem que ser). Quem me conhece, sabe como gosto de tops, listagens & afins. Era capaz de fazer uma lista destas por semana, sem me fartar.
Cá vão, por ordem cronológica (bom, incluo um serial, espero que a desafiadora não leve a mal):



Os Vampiros, Louis Feuillade (1915)
O testamento do Dr.Mabuse, Fritz Lang (1933)
Esta terra é minha, Jean Renoir(1943)
A vida é um jogo, Robert Rossen (1961)
Casino, Martin Scorsese (1995)

4.11.07

Sicko



Actualmente está na moda dizer mal de Michael Moore. A crítica não gosta dele (não é um documentarista sério nem faz Grande Cinema); a direita não gosta dele por todos os motivos e mais um (um americano a criticar os States!); nem sequer a maioria da esquerda, pelo menos da que eu conheço, vai muito à bola com ele (no mínimo é pouco sofisticado – e é americano, claro).

Moore inventou uma espécie de cinema político novo, um misto de documentário de denúncia e entertainment. Quando andava atrás de Roger Smith (presidente da GM), ou de Charlton Heston (presidente da NRA) era criticado pelos seus métodos agressivos e desrespeitosos; agora que está mais calmo (é muito menos uma ‘personagem’ em Sicko) criticam-no porque ‘se começou a levar a sério’. O homem está condenado a ser preso por ter cão e por não ter.

Neste filme, em que Moore se atira, com a ferocidade habitual, ao sistema de saúde americano, baseado em seguros, estão mais uma vez expostos à evidência quer as suas virtudes quer os seus defeitos. Comecemos por estes: o mundo de Moore é a preto e branco. Bons de um lado, maus do outro. Não há cinzento. Moore é a favor dos sistemas de saúde gratuitos do Canadá, França ou Grã-Bretanha? Então mostra-nos que nestes países tudo é perfeito, em cinco minutos sou maravilhosamente atendido em qualquer urgência, somos todos muito solidários. A França então, é apresentada como o paraíso na terra. Qualquer pessoa tem 2 carros, vive num casarão e ganha 8.000€ por mês. À diabolização do país feita por parte dos EUA (e por muita direita europeia - veja-se cá), Moore contrapõe com uma outra França de fantasia. Mais grave, no seu desejo de provocar, leva mesmo um grupo de doentes americanos para serem tratados no ‘modelar’ sistema de saúde Cubano. Claro que é batota fazer isto: não só porque é perigoso fazer comparações com ditaduras (é a mesma lógica das ‘boas contas públicas’ de Pinochet ou Salazar), como é claro que Moore e os seus doentes foram tratados não como cidadãos comuns, mas como propaganda anti-americana.

Mas também há virtudes: Moore pode ser terrivelmente eficaz e até demolidor a atacar os seus alvos. Penso que ninguém sai deste filme sem estar no mínimo um pouco desconfiado da eficácia de um sistema de saúde baseado em empresas, as grandes seguradoras de saúde, que têm como objectivo o lucro, sendo que os cuidados médicos são cada vez mais dispendiosos. Não obstante puxar por vezes um bocado ao choradinho, os testemunhos que Moore trás para a frente da câmara são eloquentes e impressionam.
Outra boa noticia, é que ao contrário do que já li, Moore não perdeu o sentido de humor, que é absolutamente necessário para os seus filmes funcionarem. O modo como vai gozando o estigma que a palavra ‘social’ ganhou nos E.U.A. é paradigmático; ou quando, num daqueles achados que só ele tem, descobre que afinal há um território americano com cuidados de saúde universais gratuitos: Guantanamo!

Como já disse, este é um cinema politico, tendo assim como prioridade a eficácia da mensagem a passar. Não há assim lugar a grandes subtilezas, mas ainda assim Moore é um cineasta mais inteligente do que por vezes é dito, usando, por exemplo, muito bem a montagem nos seus filmes. Tudo somado, e sendo que cada um tem a sua cabecinha para no final extrair as suas próprias conclusões, penso que continua a valer a pena ir ver os seus filmes.
Sicko, E.U.A., 2007. Realização: Michael Moore. Documentário.

2.11.07

Corrupção

Eis então ‘Corrupção’, o filme que já era famoso antes de o ser, baseado no mais badalado best-seller pátrio dos últimos tempos, o singelo ‘Eu Carolina’, e tornado ainda mais visível pela saída barulhenta do meu conterrâneo João Botelho de cena, tornando-se o primeiro filme português não assinado pelo realizador (alguma vez tínhamos que lá chegar).

Com este panorama é quase fácil demais, agora depois de o filme estar visto, fazer os inevitáveis comentários de ‘tanto barulho para isto?’, ou ‘muita parra e pouca uva’, ou outro qualquer à escolha.

Vamos então à fita: de início fui alinhando com a restante audiência, que satisfazendo as suas expectativas voyeuristicas, se ia manifestando mais ou menos ruidosamente perante sinais de reconhecimento (‘olha o Reinaldo Teles!’) ou cenas mais condimentadas envolvendo ‘O Presidente’ (na minha sala, a abarrotar, teve bastante sucesso uma cena em que ‘O Presidente’ mistura dois ovos estrelados com o arroz que está a comer…). Mas, à medida que as cenas se iam desenrolando (ou melhor, se iam sucedendo umas às outras), foi-me invadindo uma crescente sensação de tédio e, imagine-se, acabou mesmo por me passar despercebido um suposto 'momento alto', aquele em que ‘O Presidente’ pede a Sofia para acender um cigarro (diga-se que a fina ironia da situação só está ao alcance de quem tiver lido excertos do livro)…

É que no argumento é tudo assim para o vago, a maioria das cenas são desligadas e mortiças, as personagens secundárias são todas caricaturais (o juiz corrupto; o policia bom; etc.), muitas situações são boçalmente esboçadas (o árbitro que mais tarde será pago com meninas a rir-se enquanto os comentadores gritam escandalizados ‘nunca se viu isto num campo de futebol!’), a banda sonora – cuja alteração foi um dos motivos para o realizador bater com a porta – é de facto horrorosa e pior, totalmente deslocada na maioria das situações.
Em sentido contrário diga-se que Margarida Vila-Nova, uma bela actriz, defende muito bem a sua Sofia e que Nicolau Breyner compõe um Presidente (quase que me esquecia da maiúscula) que não deslustra, embora a personagem merecesse ser muito mais desenvolvida. Acrescente-se ainda a excelente fotografia de Orlando Alegria.

Nunca saberemos o que seria a ‘Corrupção’ de João Botelho (não me parece que apareça um dia um director’s cut!). Por vezes, como na viagem para Santiago, onde é dado algum tempo ao filme para respirar, entrevemos que poderia ser outra coisa; por outro lado, há problemas (como o esquematismo de personagens e situações) que parecem irresolúveis. Como está, não é carne nem peixe. Nem é um bom filme, nem sequer me parece ter chama para ser um daqueles objectos tipo ‘O crime do Padre Amaro’, com competência industrial e potencial de vendas a transpirar por todos os poros (ao contrário do que sugere o trailer, nem há em ‘Corrupção’ grande exploração de nudez ou cenas de sexo). É assim um filmezito, quase um telefilme, desenxabido e esquecível. Mas enfim, no tal país de 6 milhões de benfiquistas, não é ímpossível que seja um campeão de bilheteira.
Corrupção, Portugal, 2007. Realização: (João Botelho, não atribuída). Com: Nicolau Breyner, Margarida Vila-Nova, António Pedro Cerdeira, Alexandra Lencastre, João Cabral, João Catarré, João Lagarto.

1.11.07

Filmes de Outubro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Tabu, Murnau, 1931 (9)
The Man from Laramie, Anthony Mann, 1955 (8)
Forty Guns, Samuel Fuller, 1957 (8,5)
Os Profissionais, Richard Brooks, 1966 (8)
Vixen, Russ Meyer, 1968 (5,5)
O pistoleiro do diabo, Clint Eastwood, 1972 (9)
Super Vixens, Russ Meyer, 1975 (5)
O sargento da força um, Samuel Fuller, 1980 (9)
Dawn by law, Jim Jarmush, 1986 (7)
A maldição dos mortos vivos, Wes Craven, 1988 (6)
Desafio total, Paul Verhoeven, 1990 (8)
Trust, Hal Hartley, 1990 (9)
Veneno, Todd Haynes, 1991 (8)
Carlito's way/Perseguido pelo passado, Brian de Palma, 1993 (9,5)
Dois destinos, Brett Ratner, 2000 (6,5)
O sabor da melancia, Tsai Ming-Liang, 2005
Rescue Dawn - Espirito indomável, Werner Herzog, 2006
28 semanas depois, Juan Carlos Fresnadillo, 2007 (7)
O Reino, Peter Berg, 2007
A vida interior de Martin Frost, Paul Auster, 2007
Planeta Terror, R.Rodriguez, 2007
Estranha em mim, Neil Jordan, 2007
As canções de amor, Christophe Honoré, 2007
Persepolis, Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi, 2007

Destaque: 'Carlito's Way', a obra-prima de Brian de Palma. Ou como o destino não está nas nossas mãos.

Surpresa: 'Veneno'. Embirrei solenemente quer com 'Velvet Goldmine', quer com 'Far from Heaven'. Mas gostei muito desta primeira longa metragem de Todd Haynes - na realidade são 3 curtas em montagem paralela, baseadas em Jean Genet. Estranho, original e marcante.

Cromo: 'Vixen' e 'Super Vixens'. Que mais dizer destes bizarros softcores de Russ Meyer? Apenas acrescentarei que me parece que o Stuntman Mike de 'Death Proof' deve um bom bocado ao Harry Sledge (Charles Napier) de 'Super Vixens'...