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31.12.07

Blogues 2007



Os blogues que mais regularmente visitei em 2007, o que quer dizer que foram os meus preferidos ao longo deste ano, são, por ordem alfabética: Abrupto (apesar de 50% das vezes me deparar com palha), Auto-retrato, A Causa foi Modificada, Da Literatura, Devaneios, Estado Civil, A Memória Inventada, O Nascer do Sol, Pastoral Portuguesa e Um blog sobre Kleist (apesar do ritmo de actualizações ser duma avareza desesperante). Quase tudo blockbusters, portanto. De referir ainda o Ex-Ivan Nunes, provavelmente o meu favorito não fosse o pormenor de dar com o nariz na porta quase diariamente. O hábito de clicar no link e logo de seguida na cruzinha vermelha do browser para vir embora foi dos mais arreigados do ano, o que me levou mesmo a deixar escapar algumas das parcas actualizações do sítio. Acrescentar ainda que não conheço pessoalmente qualquer dos bloggers citados, que os que conheço de vista é só da TV ou dos jornais pois nunca os vi em carne e osso e que nem 50% têm um link aqui para o tasco, pelo que o Dr.Pacheco Pereira não me poderia nunca acusar de amiguismo. Até para o ano.
P.S.: Esqueci-me do Vida Breve. Resolução de ano novo: deixar de fazer as coisas em cima do joelho.

30.12.07

DVD - Lançamentos 2007

1.
A edição de 'Bianca', 'A Missa Acabou', 'Ecce Bombo', 'Sonhos de Ouro' e 'Palombella Rossa'. Há uns anos tentei arranjar este último e debalde ter procurado na internet em tudo quanto era sítio, nicles. Mais uma razão para este primeiro lugar. De resto, todo o catálogo da Midas merece ser amplamente destacado.












2.
O lançamento das obras de Ozu e Mizoguchi pela -pasme-se - Prisvideo. As edições, em packs de dois filmes, são bonitas, de boa qualidade e com preços sensatos. Esperemos que continuem em 2008 - a editora não tem site, por isso não sei o seu calendário...













3.
O pack de Leni Riefenstahl (lançado pela companhia espanhola Cameo - que eu saiba a sua primeira edição em português), que inclui os clássicos da propaganda Nazi 'O triunfo da vontade' e 'Olympia'. O lançamento é tão mais oportuno quanto saiu há pouco para as livrarias a excelente biografia de Leni escrita por Steven Bach. Devo alertar os leitores para a fraca qualidade do som e imagem desta edição, mas a acreditar no que aqui se diz não existem melhores cópias (no caso de 'O triunfo...' o negativo desapareceu mesmo). De referir ainda que esta edição não inclui um terceiro disco de extras, existente na edição espanhola, que inclui por exemplo o raro 'Dia de Liberdade', o filme que Leni fez por exigência dos generais da Wehrmacht, desvalorizada em favor das SA e das SS em 'O triunfo da vontade'. Ainda assim, uma edição a destacar inclusive pela sua raridade no panorama internacional.

Censurado



Talvez mais do que uma crítica à estratégia americana de invadir o Iraque, 'Redacted' seja uma cinica constatação de que é impossível os States ganharem qualquer guerra com o exército que têm. Não o das bombas inteligentes e mísseis teleguiados ao milímetro, mas o dos homens, mais adolescentes que homens na verdade, mal preparados, sem vocação, que apenas vão para o exército porque não têm outra oportunidade na vida. Que se estão a borrifar para as populações dos países ocupados, que só apanham da ideologia o que lhes interessa ("Viemos aqui trazer a democracia e nem nos agradecem!? Vamos é dar cabo deles!"), que não se regem por qualquer tipo de moral ou ética. Estão no exército com a mesma postura com que estariam num qualquer bando de rufias. Como diz cinicamente um soldado acusado de violação de uma iraquiana de 15 anos aos seus inquiridores: "podemos bombardeá-los, podemos matá-los, mas não os podemos foder?".

Neste prisma 'Redacted' é um inteligente documento de denúncia, pertinente e oportuno. Na forma, é que poderá estar o seu busílis. Simulando um documentário, com a maior parte das cenas supostamente filmadas por um dos soldados com câmara à mão ou fixada no capacete, tem os inconvenientes deste método do 'directo', dos falsos 'apanhados', sendo muitas vezes irritante, algumas monótono, outras ingénuo, por vezes simplista. A mim não me convenceu totalmente esta abordagem (que inclui também imagens de blogues árabes, e de um outro (falso) documentário francês), que ao pretender criar uma dupla ilusão (a normal de qualquer filme e a de um pretenso documentário), como que acaba paradoxalmente por se tornar ainda mais artificial. Mais do que um filme, parecia-me estar a assistir a uma exposição, não raro incómoda, de uma tese sobre o Iraque e o exército em geral.
Mas, tudo somado, não deixo de o recomendar.
Redacted, E.U.A., 2007. Realização: Brian de Palma. Com: Patrick Carroll, Rob Devaney, Izzy Diaz, Mike Figueroa, Ty Jones, Kel O`Neill, Daniel Stewart Sherman, Bridget Barkan, Zahra Kareem Alzubaidi.

28.12.07

Eu Sou a Lenda



Logo na cena inicial de 'Eu sou a lenda', uma estupenda sequência em que Will Smith num desportivo vermelho persegue um grupo de veados através de uma Nova Iorque fantasma, percebemos que esta terceira adaptação da novela de Richard Matheson vai ter pouco a ver com a que a precedeu, o esquecível 'The Omega Man', com Charlton Heston (nunca vi a primeira versão, 'The Last Man on Earth' com Vincent Price). E confirma-se. A câmara de Francis Lawrence mantém uma elegância e sobriedade surpreendentes ao longo de todo o filme, aguenta bravamente um longo período praticamente só com uma personagem em cena e vai instilando com calma e savoir faire um ambiente de suspense no ar. Quando é preciso passar à acção não perde a eficácia e cria mesmo momentos de tensão à altura dos melhores do género. Nem tudo é perfeito - há por lá às tantas assim uma espécie de momento místico (ele acredita em Bob Marley, ela em Deus) que era escusado e toda a filosofia subjacente do cientista-herói-obcecado, enfim - mas no global é um muito interessante filme de um género (suspense/terror) que não tem sido lá muito bem tratado. Uma boa surpresa para este final de ano.
I Am Legend, E.U.A., 2007. Realização: Francis Lawrence. Com: Will Smith, Alice Braga, Charlie Tahan, Willow Smith, Darrell Foster, Salli Richardson.

27.12.07

Chacun son cinéma



As premissas deste filme estão aqui. Foi feito para comemorar os 60 anos do Festival de Cannes e é daqueles objectos que está destinado a passar em meia dúzia de festivais e cair no esquecimento. E neste caso, diga-se que com razão. Dos 35 cineastas convocados para o projecto, aí uns 90% resolveram seguir a lei do menor esforço. Moretti (igual a si próprio) e Cronemberg (num registo bastante curioso-só o titulo é todo um programa) foram os únicos que resolveram elevar-se da modorra geral e realizam dois bons sketchs. Merecem ainda registo Egoyan, que assina o segmento mais bonito e o nosso Oliveira, que nos dá o mais divertido. Os restantes são banalidades ou pior ainda. E, mais grave, muitos deles assemelham-se uns aos outros, são indiferenciados, baseados em ideias muito semelhantes, incapazes de terem um rasgo de imaginação a partir da premissa inicial. No geral, um falhanço rotundo.
Trois minutes de Theo Angelopoulos; Recrudescence d'Olivier Assayas; The Last dating show de Bille August; The Lady bug de Jane Campion; 47 ans après de Youssef Chahine; No translation needed de Michael Cimino; At the suicide of the last Jew in the world in the last cinema in the world de David Cronenberg; Dans l'obscurité de Jean-Pierre et Luc Dardenne; Rencontre unique de Manoel de Oliveira; Cinéma d'été de Raymond Depardon; Artaud double bill d'Atom Egoyan; Le Dibbouk de Haïfa d'Amos Gitai; The Electric princess house de Hou Hsiao-Hsien ; Anna d'Alejandro Gonzalez Inarritu; Zhanxiou village de Chen Kaige; I travelled 9 000 km to give it to you de Wong Kar-Wai; La Fonderie d'Aki Kaürismaki; Where is my Romeo ? d'Abbas Kiarostami; One fine day de Takeshi Kitano; Dans le noir d'Andrei Konchalovsky; Cinéma de boulevard de Claude Lelouch; Happy ending de Ken Loach; It's a dream de Tsai Ming-Liang; Diario di uno spettatore de Nanni Moretti; Cinéma érotique de Roman Polanski; A 8944 de Cannes de Walter Salles; Le Don de Raul Ruiz; Irtebak d'Elia Suleiman; First kiss de Gus Van Sant; Occupations de Lars Von Trier; En regardant le film de Zhang Yimou; Absurda de David Lynch

26.12.07

TOP 10 - 2007 (II)



Em primeiro lugar, quero expôr aqui duas vergonhas. A primeira foi a ausência de posts da minha autoria no Duelo ao Sol durante 2007, pelo que peço desculpa ao seu anfitreão. A segunda foi a escassez de filmes que vi nesse período. Espero conseguir redimir-me em 2008.

Apresento a seguir o meu top 10 de filmes estreados em 2007:
1. "As Canções de Amor", de Christophe Honoré.
2. "Control", de Anton Corbijn.
3. "Promessas Perigosas", de David Cronenberg.
4. "Pecados Íntimos", de Todd Field.
5. "O Sabor da Melancia", de Tsai Ming-Liang.
6. "Inland Empire", de David Lynch.
7. "O Labirinto do Fauno", de Guillermo del Toro.
8. "A Estranha em Mim", de Neil Jordan.
9. "Zodíaco", de David Fincher.
10. "Paranoid Park", de Gus Van Sant.

Como complemento, indico também um top 3 de filmes estreados em 2006 que só tive oportunidade de ver em 2007:
1. "As Tartarugas Também Voam", de Bahman Ghobadi (este estreou em 28 de Dezembro, pelo que quase se pode considerar um filme de 2007, não?).
2. "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos", de Jonathan Dayton e Valerie Faris.
3. "O Segredo de Brokeback Mountain", de Ang Lee.

21.12.07

TOP 10 - 2007



1. Climas, de Nuri Bilge Ceylan - Como resumiu exemplarmente um crítico dos Cahiers du Cinéma: "Something I had never seen before: Antonioni through the prism of HD video".

2. Pecados íntimos, de Todd Field - O melhor filme americano do ano e a confirmação de um novo grande cineasta.

3. Death Proof, de Quentin Tarantino - Tarantino força a corda e expande o seu próprio universo ao ponto de este quase rebentar. E a partir de agora?

4. Paranoid Park, de Gus Van Sant - Outro realizador que segue imperturbavelmente o seu pessoalíssimo caminho. E a partir de agora?

5. Promessas perigosas, de David Cronemberg - Segundo capítulo da História da violência segundo D.C., depois da obra-prima inicial. Ficará por aqui?

6. Zodíaco, de David Fincher - Este asfixiante retrato de uma obsessão, que é também um inquietante relatório dos burocráticos processos judiciais, é o melhor filme de Fincher até hoje.

7. O bom pastor, de Robert de Niro - Matt Damon atravessando como um fantasma este original fresco sobre a criação da CIA, fica como uma das composições mais marcantes do ano. E 'O bom pastor' fica como o mais subestimado título de 2007.

8. 12:08 A Este de Bucareste, de Corneliu Porumboiu - Tomando como pretexto a libertação do bloco comunista, eis um retrato impiedoso da condição humana. Tudo isto com um sentido de humor à prova de bala. Viva a Nova Vaga Romena!

9. O Caimão, de Nanni Moretti - Chegou cá tarde e foi algo mal-amado, mas é um Moretti de primeira apanha. Enough said!

10. Luzes no crepúsculo, de Aki Kaurismäki - Um cinema em vias de extinção, melancólico, minimal, com um humor desesperado. Quem o irá continuar depois de Jarmush e Kaurismäki?

20.12.07

2007

E os melhores filmes que vi em 2007 foram...



Os Vampiros, Louis Feuillade, 1915
Lirio quebrado, D.W.Griffith, 1919
Nanook of the North, Robert J. Flaherty, 1922
A greve, Sergei Eisenstein, 1925
O testamento do Dr.Mabuse, Fritz Lang, 1933
Uma noite aconteceu, Frank Capra, 1934
Alexandre Nevsky, Sergei M. Eisenstein, 1938
A regra do jogo, Jean Renoir, 1939
Esta terra é minha, Jean Renoir, 1943
Meet me in St.Louis, Vincente Minnelli, 1944
Stars in my Crown, Jacques Tourneur, 1950
Singin' in the rain, Gene Kelly e Stanley Donen, 1951
Os cativos do mal, Vincente Minnelli, 1952
Corrupção, Fritz Lang, 1953
Viagem a Tóquio, Yasujiro Ozu, 1953
Terra bruta, John Ford, 1961
The Hustler, Robert Rossen, 1961
Eclipse, Michelangelo Antonioni, 1962
Simão do Deserto, Luis Buñuel, 1965
Persona, Ingmar Bergman, 1966
O samurai, Jean-Pierre Melville, 1967
Tristana, Luis Buñuel, 1970
Profissão: Repórter, Michelangelo Antonioni, 1975
Les nuits de la pleine lune, Eric Rohmer, 1984
Imperdoável, Clint Eastwood, 1992

P.S.:Esta foi fácil: foi só transcrever os filmes a que dei nota 10 este ano. Não há nenhum de 2007? Pois...
P.P.S: Brevemente - top 10 dos filmes estreados este ano.

19.12.07

30 Dias de Escuridão



Imagine o leitor que é um vampiro: tem que passar os dias enfiado num caixão, ou algo no género, e só à noite se pode escapulir furtivamente para atacar uns pescoços. Agora imagine que existe um sítio em que é noite durante 30 dias consecutivos - uma terriola no Alasca. Bom! É uma tentação reunir um grupo de amigos e dar lá um saltinho para uma orgia de sangue, não? É nesta ideia fantástica (digo eu) que se baseia a graphic novel de Steve Niles e Ben Templesmith que '30 Days of Night ' adapta à tela.

Rapidamente, podemos dizer que '30 Dias de escuridão', realizado por David Slade (autor do curioso Hard Candy) tem uma competência geral bem acima da média do género (que como qualquer fã sabe, não é assim muito elevada). No entanto, e mesmo tendo gostado do filme, na minha opinião falha em dois aspectos chave: um - como filme de terror, que pretende ser. Não mete medo, não assusta, não sobressalta. Mesmo a chegada dos vampiros à pacata cidade, cena chave em qualquer fita do género, é mortiça e sem garra; dois - como filme passado no Alasca. Eu sempre tive um certo fascínio por este estado americano ali no meio do nada, mas infelizmente Hollywood não se tem virado muito para lá. Tirando o muito bom 'Insomnia', poucas vezes se tem explorado este território geográfico e humano. Aqui, Josh Hartnett (o policia-herói) ainda se sai com um 'nós somos diferentes das outras pessoas, por iso é que viemos viver para aqui', mas nunca o tema é bem explorado. E é pena.

Ainda assim, e voltando atrás, argumento, actores e realização estão a um nível bem razoável e este é um daqueles filmes que foram feitos para o crítico repetir uma vez mais o chavão: os fãs do género não sairão desiludidos.

30 Days of Night, E.U.A./Nova Zelândia, 2007. Realização: David Slade. Com: Josh Hartnett, Melissa George, Danny Huston, Ben Foster, Mark Boone Junior.

18.12.07

O seu a seu dono



Tarantino fala aqui das suas 'influências asiáticas', sem mencionar uma única vez Norifumi Suzuki, o mestre dos pinky movies (designação 'técnica' dos violentos sexploitations japoneses). Acontece que eu vi recentemente, quase de enfiada, três filmes do realizador japonês e não parei de pensar em Tarantino. Temas xungas filmados com estilo? Planos psicadélicos? Banda sonora a condizer? Está lá tudo. E nem falo em cenas practicamente iguais. Digamos que se eu tivesse a habilidade da Cláudia fazia uma secção destas (puras coincidências... ou talvez não) só com o Kill Bill e o Sex and Fury.

(Nem é preciso dizer que sou um huge fan of Mr.Tarantino. Apenas não gostei da omissão da minha mais recente descoberta!)

16.12.07

Post não cinematográfico (não resisto)

Portugal no seu melhor.

12:08 A Este de Bucareste



A primeira metade deste filme não nos prepara para o que vem a seguir. Durante 40 minutos temos uma espécie de apresentação das personagens, habitantes de Timisoara: um professor alcoólico, um velhote reformado que faz de Pai Natal (no tempo do regime comunista era algo como 'Pai Gelado') e um ex-engenheiro que montou uma estação de TV local, onde apresenta um programa daqueles em que os espectadores podem telefonar e entrar no ar em directo. O tom é 'realista', se bem me faço entender, e vai-nos dando um retrato melancólico e não muito optimista da Roménia pos-Ceausescu. Um bom retrato, mas que parece não se elevar muito.
Mas eis então que temos as três personagens reunidas no estúdio de TV: o apresentador convidou os outros dois nossos conhecidos para falarem das suas memórias do dia da queda de Ceausescu. Houve ou não uma revolução em Timisoara? Ou seja: as pessoas saíram para a rua antes ou depois de saberem da queda do ditador? Num golpe de asa genial, o filme metamorfoseia-se então numa caustica e impiedosa sátira que não poupa nada nem ninguém. São 45 minutos implacáveis, entre o feroz e o delirante, onde não só o 'povo' Romeno, mas no fundo todos os seres humanos (qualquer português se lembrará logo do famoso 'onde é que você estava no 25 de Abril?'), saem pessimamente na fotografia.
É um tour de force impressionante, que torna este vencedor da Câmara de Ouro (melhor primeiro filme) de Cannes 2006 num magnífico exemplo da 'nova vaga' Romena.
A fost sau n-a fost?/12:08 East of Bucharest, Roménia, 2006. Realização: Corneliu Porumboiu. Com: Mircea Andreescu, Teo Corban, Ion Sapdaru, Daniel Badale.

13.12.07

Estava a pensar em pôr aqui o meu top do ano, quando reparei que ainda vai estrear 'Redacted', o último DePalma. Será que é melhor esperar até lá?

11.12.07

2007

E começam a aparecer os primeiros tops de filmes do ano:

Aqui está um pdf com os melhores do ano da Sight & Sound. Além do 'top da revista', dentro do espectável, vale bem a pena espreitar as listas individuais dos criticos que participaram, algumas bastante idiossincráticas. Desde um critico que pôs em primeiro o último episódios dos Sopranos, até Jonathan Rosenbaum, um dos mais conhecidos e influentes críticos da praça, que listou em primeiro 'Casa de Lava' (que até é de 1994) e o compara a... 'I Walked With a Zombie'!, há escolhas para todos os gostos. (link descoberto via Filipe Furtado)

Aqui, o top de Ricardo Gross, uma das pessoas que por cá melhor escreve sobre cinema (e não só).

10.12.07

Peões em jogo



Tal como as suas personagens neste filme, mormente a que interpreta, Robert Redford acha que é obrigação dos americanos decentes fazerem alguma coisa e não se limitarem a encolher os ombros e assobiarem para o lado, enquanto uma administração incompetente leva o país para a ruína. Sendo assim, arregaçou as mangas e deu-nos este 'Lions for Lambs'. Só por este facto, por ser um 'filme de mensagem', tem sido deitado abaixo em muito lado. Eu não vou tanto por aí. Filmes políticos liberais há-os muito bons e Redford entrou mesmo num dos mais emblemáticos ('Os homens do presidente').
O seu pecado, quanto a mim, é ser maçador e convencional. Sendo o chamado filme de argumento e actores, o argumento não ultrapassa nunca a mediania, o que fere desde logo o projecto. Há aqui uma espécie de resumo dos argumentos liberais contra a guerra e a favor do empenhamento civico das pessoas, que é transmitido em duas longas conversas que formam dois dos três segmentos do filme, apresentados em montagem paralela. Esta estrutura prejudica o filme de duas maneiras: não só estes diálogos 'professor empenhado/aluno desinteressado' e 'senador ambicioso/jornalista desconfiada' transmitem um tom didáctico excessivo, como o terceiro segmento - passado num cenário de guerra no Afeganistão- acaba por se tornar numa espécie de corpo estranho ao filme, problema que o realizador nunca consegue resolver (apesar de até partir de uma boa ideia irónica - nem uma tecnologia hiper-sofisticada, que permite monitorizar em tempo real um combate a dezenas de quilómetros, consegue salvar os soldados quando estes foram postos em situações vulneráveis devido a erros estratégicos de palmatória).
Sobram então os actores: Redford, excelente, praticamente aguenta sozinho o seu episódio; por outro lado, se Meryl Streep está bem como sempre, nem ela é capaz de nos convencer da súbita ingenuidade e rebate de consciência de uma veterana jornalista politica de 57 anos. Tom Cruise pica o ponto e os restantes actores não têm grande coisa para defender.
Resumindo: é uma pena Redford ser bem melhor à frente da câmara do que atrás dela.
Lions for Lambs, E.U.A., 2007. Realização: Robert Redford. Com: Robert Redford, Meryl Streep, Tom Cruise, Michael Peña, Derek Luke, Andrew Garfield, Peter Berg.

6.12.07



Quando agora me movo, graciosamente, espero, em direcção da porta marcada Saída, ocorre-me que a única coisa que eu realmente gostava de fazer era ir ao cinema. É claro que o sexo e a arte sempre tiveram precedência sobre o cinema, mas nunca nenhum deles se mostrou tão digno de confiança como a filtragem da luz presente através daquela película de celulóide, que projecta imagens e vozes do passado num ecrã, mostrando assim a história por um processo aparentemente simples.

Gore Vidal, Navegação Ponto por Ponto - Memórias 1964-2006

(numa daquelas originalidades em que a edição portuguesa é pródiga, foi agora publicado por cá este segundo volume das memórias de Gore Vidal, sem nunca o ter sido o primeiro - o excelente 'Palimpsest'. Infelizmente a tradução/revisão deste volume é tão má, que torna várias passagens quase ilegíveis)

4.12.07

Filmes de Novembro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Almas em chamas, Henry King, 1949 (7)
Gilda, Charles Vidor, 1946 (7,5)
The Invasion of the Body Snatchers, Don Siegel, 1956 (7,5)
Terra bruta, John Ford, 1961 (10)
Simão do Deserto, Luis Buñuel, 1965 (10)
The Soylent Green, Richard Fleisher, 1973 (7,5)
Ultra Vixens, Russ Meyers, 1979 (5)
O ano do dragão, Michael Cimino, 1985 (9,5)
Os intocáveis, Brian de Palma, 1987 (8)
No Direction Home - Bob Dylan, Martin Scorsese, 2005 (8)
Pintar ou fazer amor, Arnaut e Jean-Marie Larien, 2005
Estrela Solitária, Wim Wenders, 2005
Zidane, Um retrato do século XXI, Douglas Gordon e Philippe Parreno, 2006
Luzes no crepúsculo, Aki Kaurismaki, 2006
Um azar do caraças, Jude Aptow, 2007
Elisabeth- A idade de ouro, S.Kapur, 2007
Corrupção, n/a, 2007
A invasão, Oliver Hirschbiegel, 2007
Sicko, Michael Moore, 2007
Gangster americano, Ridley Scott, 2007
Beowulf, Rober Zemeckis, 2007
Control, Anton Corbjin, 2007
Shoot`em Up - Atirar a matar, Michael Davis, 2007
Paranoid Park, Gus Van Sant, 2007
Promessas perigosas, David Cronemberg, 2007

3.12.07

Promessas perigosas



Um dos muitos motivos que fazem ‘Uma história de violência’ ser um dos filmes mais fascinantes dos últimos anos é o argumento, surpreendentemente adaptado de uma graphic novel: pegando num tema clássico, habitual nos westerns (o homem com um passado misterioso e violento, que tenta levar uma vida ‘normal’ - mas o destino não o permite), parte para uma inquietante reflexão sobre a contaminação pela violência. Em ‘Eastern Promises’ Cronenberg anda novamente à volta da violência, mas o argumento agora é mais ‘plano’, digamos assim. Talvez o realizador já tenha exposto as suas premissas teóricas no filme anterior e agora se ‘limite’ a ilustrar de uma outra forma o tema.
Assim ‘a quente’ (vi o filme ontem e ainda gostaria de o rever) não penso que estejamos na presença de uma obra-prima como o seu antecessor, mas não há duvida que possui uma vez mais um elemento de perturbação que só os maiores realizadores conseguem transmitir.
Se o argumento me parece mais fraco que o do seu antecessor (embora Vigo Mortensen componha novamente uma personagem fascinantemente ambígua, não há nenhuma personagem tão marcante como a de Maria Bello, por exemplo), ainda assim este filme não deixa de se inserir naturalmente no pessoalíssimo universo de Cronenberg - e esta capacidade de um realizador transformar uma história numa coisa sua é a mais segura marca autoral que conheço.
Não é difícil prever o que esta história daria nas mãos de um qualquer tarefeiro, mas podemos mesmo imaginar o que seria nas mãos de um Scorsese, para pegarmos noutro dos maiores. Seria muito diferente certamente, nomeadamente na maneira como nos são apresentadas as cenas de violência. Quem acha que não há aqui a 'marca de Cronemberg', que pense bem nisso.
Eastern Promises, E.U.A./Grã-Bretanha/Canadá, 2007. Realização: David Cronenberg. Com: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinead Cusack

2.12.07

Paranoid Park



Gus Van Sant prossegue pelo terceiro filme consecutivo o caminho iniciado com Elephant, esboçando retratos da juventude americana através de uma metodologia cinematográfica muito própria: narrativa não linear, que anda para trás e para a frente, que se repete e intercepta, longos planos destinados a criar o enquadramento estético e psicológico adequado, não a fazerem avançar a narrativa, principalmente de jovens a caminhar, ou a andar de skate, ou sem fazerem nada.
É um cinema que vive das imagens, da banda sonora, dos planos dos rostos dos seus actores, que pretende que o espectador entre no quadro mental das suas personagens (dependendo a aderência deste muito do quanto consegue penetrar neste mundo vazio e alienado que o realizador criou).
Mais do que em 'Elephant', muito mais do que em 'Last Days', pareceu-me que aqui tudo isto funciona muito bem, nesta história de um crime involuntário e dos sentimentos de culpa que ficam a ressoar no seu jovem autor: o rosto sempre um pouco triste e ausente de Gabe Nevins, vai ficar como uma das imagens mais fortes deste ano cinematográfico.
Paranoid Park, E.U.A./França, 2007. Realização: Gus Van Sant. Com: Gabe Nevins, Daniel Liu, Taylor Momsen, Jake Miller, Lauren McKinney, Scott Green.