Recent Posts

28.2.08

Juno



Confesso que fui ver ‘Juno’ um bocado de pé atrás, desconfiado com todo o hype à volta do filme. Mas logo no excelente genérico o meu preconceito se desvaneceu. Achei-o um filme inteligente, despretensioso, bonito (quase todos os planos são bonitos mas justos; não bonitinhos), que nos vai dando a volta astutamente (quem é sensato e quem é imaturo, aqui?). Achei-o também divertido, alegremente cor-de-rosa e por vezes comovente (mas nem um bocadinho lamechas). E com uma personagem inesquecível e uma actriz cheia de força.
‘Juno’ por vezes tem sido comparado a ‘Little Miss Sunshine’ (e recebido algumas das mesmas alfinetadas que aquele recebeu), mas eu pensei mais num filme como ‘Ghost World’ (de que gosto muito) quando o vi.
Primeira surpresa do ano.
Juno, E.U.A., 2007. Realização: Jason Reitman. Com: Ellen Page, Michael Cera, Jennifer Garner, Jason Bateman, Allison Janney.

26.2.08

Este país não é para velhos



A primeira coisa que me surpreendeu neste filme foi ser muito um filme ‘à irmãos Coen’. A sua violência estilizada e um pouco absurda, o seu sentido de humor, todo o seu universo remetem para filmes como ‘Fargo’ ou ‘História de Gangsters’. Eu confesso que estava à espera de algo mais ‘à Cormac McCarthy’.

Ou seja, eu diverti-me imenso a ver este filme, achei magnifica esta perseguição do tresloucado Chigurh (Óscar de caras para Bardem) ao condenado Moss (e o excelente Brolin também merecia estar nos Óscares), mas diverti-me da mesma maneira que me diverti a ver a perseguição das meninas a Kurt Russell em ‘Death Proof’. Nada contra ‘Death Proof’, bem entendido, mas penso que aqui os irmãos Coen deram tanta importância a estas personagens que se esqueceram do resto. Nem falo da personagem de Woody Harrelson que aparece e desaparece num ápice (fruto da sua arrogância), mas sim da personagem de Tommy Lee Jones, algo abandonada pelos realizadores, sendo que aqui me parece que se perde muito. É do desalento desta estranha personagem que vem o título do filme, não nos esqueçamos, mas não nos é dado a compreender exactamente porquê. Senti sempre que havia algo por trás deste (excelente) divertimento que não me estava a chegar, algo mais transcendental, ou religioso, ou simbólico (sobre a ‘natureza humana’, sobre ‘o mal’), que se intui que estará no livro mas que passa algo ao lado do filme. A intenção de Tarantino é mostrar-nos assassinatos estilosos e perseguições de carros. A dos Coen seria apenas mostrar-nos uma perseguição sanguinolenta? A de quem escreveu a história (McCarthy) não era certamente. E isso faz a diferença entre sentir que falta algo aqui (no ‘No Country...’) que não falta lá (em Tarantino - e peço desculpa pela insistência, mas lembrei-me mesmo de Tarantino ao ver este filme). Basta ver a sequência final, que parece deslocada, como se o filme já tivesse acabado antes.

Passei tanto tempo a tentar explicar porque não considero o filme uma obra-prima, que nem disse que o que lá está é mais do que suficiente para ele ser muito bom. Mas é-o. Já referi os actores, já referi que todo o subplot Barden/Brolim é estupendamente filmado, gostaria também de acrescentar as belas elipses que não nos deixam ver as duas mortes mais esperadas.
No Country For Old Men, E.U.A., 2007. Realização: Ethan Coen e Joel Coen. Com: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald.

25.2.08

Michael Clayton — Uma questão de consciência



E parece que George Clooney se está a especializar nestes filmes de mensagem (três em três anos), mostrando a sua costela de bom liberal de Hollywood. Hollywood gosta e retribui, chegando sempre estes filmes aos Oscares e levando mesmo estatuetas para casa – de melhor actor secundário para Clooney por ‘Syriana’ e de melhor actriz secundária para Tilda Swinton por este ‘Michael Clayton’ (só a mais merecida não foi atribuída – a David Strathairm, por ‘Boa noite e boa sorte’).
Eu infelizmente não sou assim tão entusiasta. ‘Michael Clayton’ é uma espécie de clone de ‘Syriana’: realização correcta, bons actores (Clooney faz estes papeis com uma perna atrás das costas) e argumento mais ou menos anódino com um alvo definido (neste caso as multinacionais e também as grandes companhias de advocacia). São filmes que se deixam ver bem e não pensamos mais neles.
Ao menos em ‘Boa noite e boa sorte' - não sendo uma obra-prima - havia ideias de cinema e vontade de fazer diferente. Pelo que solicito a Mr.Clooney que a próxima vez que quiser fazer um filme empenhado, faça o favor de passar também para trás da câmara.
Michael Clayton, E.U.A., 2007. Realização: Tony Gilroy. Com: George Clooney, Tom Wilkinson, Tilda Swinton, Sydney Pollack, Michael O`Keefe.

23.2.08

Vista pela última vez...



Já confessei aqui o meu apreço por filmes realizados por actores - é raro não gostar de um. De um modo geral os actores têm uma boa relação com a câmara e revelam-se cineastas atentos, sensíveis e, claro, bons condutores dos seus actores.
‘Gone, Baby, Gone’, estreia na realização de Ben Affleck, confirma apenas parcialmente esta ideia. É que se Ben proporciona uma bela interpretação ao mano Casey, um dos actores do momento (aquela voz é uma coisa…), por outro lado os seus talentos enquanto realizador não vão além do suficiente.
De facto, o que mais sobressai neste filme é a força do seu argumento, baseado no livro homónimo de Dennis Lehane, mais uma vez passado em Boston e andando às voltas com fantasmas, crimes e crianças (diga-se de passagem que a colagem ao ‘caso Maddie’ é um disparate - a única coisa em comum é haver uma menina desaparecida).
Mas enquanto Eastwood (outro actor, mas certamente um caso especial) pegou em ‘Mystic River’, do mesmo Lehane, e fez uma obra-prima do cinema, Affleck apenas ilustra competentemente o argumento, aproximando-se demasiadamente do estilo telefilme, com uma realização mortiça e convencional. Mas penso que isso é mais uma limitação que uma atitude, pois Affleck não pretende nunca limar ou reduzir o argumento, e consegue mesmo algo essencial, que é instalar um clima de ambiguidade moral que está inerente à história mas que seria proibido no tal ‘telefilme’. O seu muito conseguido final é disso mesmo prova.
No fundo, acaba por nos deixar qualquer coisa cá dentro – o que quer dizer que valeu a pena.
Gone Baby Gone, E.U.A., 2007. Realização: Ben Affleck. Com: Casey Affleck, Ed Harris, Morgan Freeman, Michelle Monaghan, Amy Ryan, John Ashton, Robert Wahlberg.

21.2.08

Persepolis



'Persepolis' é co-realizado por Marjane Satrapi, a autora da BD homónima, não sendo por isso de admirar que siga esta de perto. Marjane, nascida e criada no Irão há 38 anos, assistiu de perto em criança às atrocidades do Xá, testemunhou a alegria das pessoas quando este foi derrubado e a rápida desilusão que sobrelevou quando se percebeu que a mudança fora para um teocrático e ainda mais repressor regime de ayatollahs (curiosamente, nunca Khomeini é citado no filme). Ainda adolescente foi para a Áustria onde problemas vários a levaram a uma vida marginal, regressou ao seu país e, sempre inadaptada, acabou por se refugiar em Paris. Com esta matéria-prima, não admira que tenha resolvido passar a sua vida para o papel - e depois para película.

O filme, como a BD, é sobre o desespero de um espírito livre, aberto e curioso, ter que viver sob um regime opressor (exponenciado pelo facto de se ser mulher). É um grito simultaneamente de raiva e de alerta.

Tecnicamente bem conseguido, esteticamente muito bonito, só peca por ser excessivamente didáctico – o que até é compreensível, mas já se sabe que a arte e as boas intenções raramente se dão bem. Apesar de tudo, Marjane Satrapi nunca prescinde de uma forte dose de auto-ironia, que resgata quase completamente a pecha referida.
No cômputo geral, vale bem a pena ver – assim estreie no circuito comercial. (*)
Persepolis, França,/E.U.A., 2007. Realização: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Longa- metragem de animação. Com as vozes de: Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian.

(*) Post originalmente publicado em Outubro de 2007, aquando da Festa do Cinema Francês.

20.2.08

Alfred 2007

Termina hoje a 1ª fase do Alfred 2007, em que os integrantes activos da Liga dos Blogues Cinematográficos nomeiam 5 candidatos de cada categoria para a quinta edição do prémio anual de cinema do grupo.
De notar que são elegíveis os filmes que estrearam no Brasil em 2007, ano em que as estreias divergiram um bocado das de cá. Posto isto, os meus nomeados para melhor filme foram (títulos brasileiros):

1º Viagem a Darjeeling, de Wes Anderson
2º Os donos da noite, de James Gray
3º Pecados íntimos, de Todd Field
4º Zodíaco, de David Fincher
5º O assassinato de Jess James pelo cobarde Robert Ford, de Andrew Dominik

Dia 23 são indicados os nomeados. Depois a votação decorre até dia 29, saindo os vencedores no dia 3 de Março.

Aqui está o meu top 10 das estreias em Portugal em 2007.
Aqui estão os vencedores do Alfred 2006.

19.2.08

Haverá sangue



Falta, definitivamente, qualquer coisa a este último filme de P.T.Anderson. Eu estava tentado a dizer que falta força a esta história de sangue, suor, petróleo, pioneiros, pregadores, vigaristas e lunáticos. Mas há duas cenas que me fazem hesitar na palavra certa: as cenas simétricas do baptismo de sangue de Daniel na igreja da terceira revelação e posteriormente a da 'confissão' de Eli. O tom assumidamente paródico destas cenas, algo inevitável na segunda, mas deliberado na primeira, mostram que esta falta de força – sempre escolho esta palavra – provém não tanto duma incapacidade do realizador em alcançar um fôlego ‘épico’, como antes do seu falhanço em acertar com o tom do filme. A música que encerra a fita convenceu-me mesmo que a intenção paródica era uma das mais fortes do realizador, mas na minha opinião acaba por descoser o filme, por o quebrar, nunca se tornando este algo mais que uma história de episódios, competente, mas sem aquela característica intestinal e poderosa que o argumento pressupunha.
Aliás, toda a banda sonora é desconcertante: omnipresente, intrusiva, mesmo irritantemente intrusiva, por vezes. Penso que P.T.Anderson procurou experimentar algo com ela, procurou fazer do som um elemento preponderante do filme, tão importante como as imagens, mas o efeito é falhado. O som também parece um intruso, mais um elemento que não encaixa bem, como o episódio do falso irmão, ou outros.
Um filme dispensável, portanto? Nem tanto. Anderson é sempre Anderson e Anderson filma muito bem; e, além disso, bastaria a espantosa mas contida interpretação de Daniel Day-Lewis, um dos grandes actores da actualidade (o maior, diria eu se conseguisse ter essas certezas que ficam bem aos críticos) para valer a pena assistir às suas 2h30. Mesmo que seja, na minha opinião, o filme menos conseguido do realizador até à data.
There Will Be Blood, E.U.A., 2007. Realização: Paul Thomas Anderson. Com: Daniel Day-Lewis, Dillon Freasier, Paul Dano, Ciarán Hinds, Kevin J. O’Connor.

13.2.08

Ssaki (Mammals)

A beckettiana e keatoniana última curta-metragem de Roman Polanski, antes de passar às longas no mesmo ano em 'A faca na água':



Vale a pena ver também as suas curtas anteriores, praticamente todas do seu tempo de estudante na Escola de Cinema de Lodz. Só não encontrei duas no poço sem fundo do youtube (infelizmente uma delas sendo 'O gordo e o magro', onde Polanski, já com provas dadas como actor, mostra os seus dotes de comediante mudo).

12.2.08

O Comboio das 3 e 10



‘O comboio das 3 e 10’ tem sido destacado, não só por ser um western, como por ser um western-western e não um pos-western ou meta-western, ou o que se queira chamar aos últimos exemplares do género que têm aparecido nas salas. Como parece que os argumentistas actualmente já não tem a ‘inocência’ suficiente para escreverem um western-western, ou seja, um western cujo tema não seja o western, pegou-se então num clássico de 1957 de Delmer Daves e fez-se um remake.
‘O comboio das 3 e 10’ é um filme estimável e competente, com um excelente naipe de interpretações (Christian Bale, Ben Foster, Russell Crowe, Peter Fonda) e dirigido com mão segura (mas sem rasgos) por James Mangold, mas algo previsível e ‘forçado’ (o tema do pai-que-tem-que-impressionar-o-filho-que-o-vê-como-um-cobarde-e–se-sente–mais-ligado-ao-bandido já foi tratado inúmeras vezes com bem mais subtileza). Ou seja, fosse este filme da altura em que se faziam dezenas de westerns por ano, e duvido que alguém reparasse nele…
3:10 to Yuma, E.U.A., 2007. Realização: James Mangold. Com: Russell Crowe, Christian Bale, Ben Foster, Peter Fonda, Gretchen Mol, Logan Lerman.

11.2.08

Roy Scheider (10/11/1932-10/02/2008)



Klute
Os incorruptíveis contra a droga
Tubarão
O homem da maratona
All that Jazz
The Naked Lunch

8.2.08

O lado selvagem



Em 1990, com 22 anos e recém-licenciado, Christopher McCandless abandona a próspera casa paterna sem dar cavaco a ninguém e mete-se à estrada. Deambula por uma boa parte da América (chegando mesmo ao México) à boleia, a pé, ou até de canoa, arranjando empregos temporários quando o dinheiro rareava (abandonara o seu carro e queimara o dinheiro que possuía para se sentir mais livre) mas nunca se fixando muito tempo no mesmo local. Desconfiado das relações humanas e influenciado pelas suas leituras, que incluíam Tolstoi e Thoreau, ansiava por chegar ao Alasca, onde poderia estar longe do homem e em comunhão com a natureza selvagem e pura.

Sean Penn vai intercalando a viagem de McCandless com breves flashbacks do seu passado, narrados em voz off pela irmã. Talvez esta seja a parte menos conseguida do filme, pois é demasiadamente explicativa e algo estereotipada (Chistopher quer fugir a uma família materialista, hipócrita e cheia de mentiras). Pelo contrário, a parte on the road, é plenamente conseguida. Penn tem olho de cineasta e a sua câmara vai captando melancolicamente, com vagar e gosto, a paisagem americana (sem cair na tentação do bilhete postal), ao som da excelente banda sonora de Eddie Vedder, embalando o espectador, que é quase hipnotizado pelas imagens e som. Penn tem ainda a mestria de não entrar muito pelo lado lado místico ou esotérico, mostrando-nos um McCandless extremamente simpático, uma pessoa que faz amigos com grande facilidade, com uma simpatia espontânea, onde apenas se entrevê uma certa tristeza interior, não obstante toda a força que possui. Claro que a isto não é estranha a tranquila mas marcante interpretação de Emile Hirsch.

Tal como aconteceu com o excêntrico Timothy Treadwell, retratado em 'Grizzly Man', também aqui McCandless não é bem tratado pela rude e impiedosa natureza que tanto amou, e onde procurou (ingenuamente?) uma solução para o seu vazio. O tocante final do filme, é o derradeiro motivo para admirarmos esta sétima obra de Sean Penn atrás da câmara.
Into The Wild, E.U.A., 200. Realização: Sean Penn. Com: Emile Hirsch, Vince Vaughn, Jena Malone, William Hurt, Marcia Gay Harden, Kristen Stewart, Catherine Keener.

7.2.08

Sedução, Conspiração



Depois de um ano de 2007 apenas mediano, cinematograficamente falando, 2008 está a começar muitíssimo bem: já vi dois filmes muito bons ('4 Meses, 3 semanas...' e 'O assassínio de Jess James...') e três que são algo mais do que isso - 'Darjeeling Limited', 'Sweeney Todd' e este 'Sedução, Conspiração'.
Se os dois primeiros deste trio se encaixam em universos muito próprios e idiossincráticos, este último inscreve-se numa tradição clássica, é um descendente directo de uma longa linhagem de filmes de época, que com todas as suas diversas cambiantes vem deste os primórdios. É, apetece dizer, um filme à moda antiga. Mas, como sempre acontece com Ang Lee, há também um elemento transgressor, uma maneira nova de contar a história.
As já famosas cenas de sexo, bastante explicitas mas filmadas com uma elegância inatacável, aprofundam e recentram 'Sedução, Conspiração', que seria sempre um bom filme de 'espionagem' e um bom retrato de época; ao focar a perturbante e complicada relação sexual dos seus protagonistas, Ang Lee permite-nos uma maior compreensão, quer deles, quer de tudo o que se passará depois. Pode-se mesmo dizer que há toda uma dimensão que se perderia se elas não estivessem lá como estão.
Uma história bem contada, com personagens muito reais, filmada com um talento superior, que nos deixa marcas depois de a vermos: que mais se pode pedir a um filme?
Se, Jie/Lust, Caution, E.U.A./Hong Kong/Formosa/China, 2007. Realização: Ang Lee. Com: Tony Leung, Tang Wei, Wang Leehom, Joan Chen, Chung-Hua Tou.

4.2.08

Sweeney Todd: o terrível barbeiro de Fleet Street



Se todos os filmes de Tim Burton se passam numa outra dimensão, a que se poderá chamar onírica, aqueles onde as suas enormes capacidades melhor se revelam são os mais negros, aqueles onde o seu extraordinário universo gótico e sombrio serve de pano de fundo. Estou a pensar em ‘Eduardo mãos de tesoura’ (um clássico instantâneo), em ‘A lenda do cavaleiro sem cabeça’, ou nas suas animações. E agora, também em ‘Sweeney Todd’. Pelo contrário, filmes mais ‘coloridos’ como ‘The Big Fish’ ou ‘Charlie e a fábrica de chocolate’ não me convenceram inteiramente. Burton é, definitivamente, o rapaz que queria ser Vincent Price.

‘Sweeney Todd’ tem a particularidade de ser o primeiro musical de Burton com personagens de carne e osso, adaptando a peça homónima da Broadway. Burton ao que parece segue-a à letra, mas como qualquer grande criador, não só não se deixa espartilhar por esta, como a transforma completamente numa coisa sua. A sanguinolenta história do barbeiro que mata por vingança é rapidamente burtonizada, parecendo que a personagem foi criada especialmente para Johnny Depp (que nasceu para fazer papeis destes) e que não poderia ter como cenário outro local que não esta Londres sombria que é tão dickensiana quanto burtoniana. E, se ao princípio me pareceu que as canções limitavam um bocado o filme (a mim estas canções de musicais parecem-me todas iguais), a verdade é que vai havendo um crescendo à medida que a narrativa se desenvolve, não só em termos dramáticos como também musicais, terminando o filme em grande estilo.

Se acrescentarmos, uma vez mais, que ninguém filma hoje em dia como Burton, que a nenhum outro realizador se aplica tão apropriadamente o lugar-comum demasiadamente gasto de ser um poeta com a câmara, torna-se claro que estamos presente um filme imperdível. Feliz o ano que nos proporciona logo a abrir duas grandes obras dos realizadores mais extravagantes da actualidade.
Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, E.U.A./Grã-Bretanha, 2007. Realização: Tim Burton. Com: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Timothy Spall, Sacha Baron Cohen, Laura Michelle Kelly, Jamie Campbell.

3.2.08

O banquete do amor



'Feast of Love' é mais um filme-mosaico, que anda à volta das relações amorosas e sexuais de vários casais. O fio condutor é Morgan Freeman, que vai observando com um misto de admiração e desencanto o que se passa à sua volta.
Se formalmente este filme é um descendente de 'Short Cuts' ou 'Magnolia', a sua temática (genericamente as relações humanas nos subúrbios da classe média americana) também traz à lembrança o recente 'Pecados Íntimos'.
Na minha opinião não está ao nível dos seus modelos porque, sendo um filme de actores e argumento, o seu ponto fraco está precisamente no argumento. Mesmo que o veterano Robert Benton não seja Altman ou P.T.Anderson, é ainda assim um realizador confiável que já assinou boas adaptações de obras literárias; mas Charles Baxter, que escreveu o livro que o filme adapta, não é certamente Raymond Carver, nem sequer Tom Perrotta.
O argumento é certinho de mais, parece o trabalho de um (bom) aluno de um curso de escrita criativa. As personagens estão bem desenhadas, os acontecimentos vão-se entrelaçando com eficácia e desenvoltura, os diálogos são geralmente bons (às vezes um pouco óbvios, às vezes bastante bons), há um narrador que vai pontuando a narrativa, mas nunca se passa do tom levemente sentimental para algo que desperte o espectador, nem existe um ponto de vista verdadeiramente original sobre o amor, ou o sexo, ou o que quer que seja.
Benton ainda tenta dar alguma rugosidade ao filme, quer através dum inteligente uso da fotografia, quer indo um pouco mais além que o normal num filme médio americano ao filmar nus, mas nunca consegue tirar-nos a sensação de estarmos a ver um simpático filme de Domingo à tarde.
Feast of Love, E.U.A., 2007. Realização: Robert Benton. Com: Morgan Freeman, Greg Kinnear, Radha Mitchell, Billy Burke, Selma Blair, Alexa Davalos, Toby Hemingway, Jane Alexander.