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31.12.08

Boas entradas...

Um dos delirantes momentos do feel good movie do ano, que ao que parece também foi o filme mais visto por cá em 2008. Bendita pátria.

...e um óptimo 2009



“I’ve gone just about as far as I can go with this body"

(a frase do ano, dita por Linda Litzke (Frances McDormand) in 'Burn After Reading', dos irmãos Coen)

30.12.08

2008 - as minhas falhas



Vi recentemente em sala ‘Quatro noites com Anna’ (comme si, comme ça) e em casa ‘O voo do balão vermelho’ (gosto sempre destes filmes em que não se passa nada), mas acabo o ano sem ter (ainda) visto vários filmes que pretendia.

Tenho muita pena de ter perdido ‘Lobos’, ‘The Lovebirds’ e, principalmente, ‘Mal nascida’ (Amálias à parte, é verdadeiramente difícil ver filmes portugueses fora de Lisboa; estes passaram tão fugazmente pelo Porto que nem tive oportunidade de os apanhar); e ainda vou tentar ver ‘California Dreamin’, de Cristian Nemescu (a ‘Nova vaga’ Romena não é tão elogiada em Portugal como merece; fosse Cristian Mungiu português e Miguel Gomes romeno, e eu gostava de ver se muitos tops eram iguais ao que são).

Tenho alguma curiosidade sobre ‘Fome’, ‘Alexandra’ e ‘O segredo de Lorna’ (embora nem Sokurov nem os irmãos Dardenne sejam muito my cup of tea), vê-los-ei se tiver oportunidade para isso em sala.

Last but not the least, faltam-me ver os recém estreados 'Australia' (Baz Luhrmann nunca me desiludiu) e ‘Três Macacos’, de Nuri Bilge Ceylan (cujo excelente ‘Climas' foi o meu filme do ano passado).

É muita coisa. Aliás vejo pelas labels do blogue que este ano vi 84 estreias, menos 5 do que o ano passado…
Pelo que nunca se sabe se o top abaixo ainda é revisto.

Adenda: falta-me também o 'Pas Douce'.

23.12.08

2008 - Top 10



1 - My Blueberry Nights - O sabor do amor, de Wong Kar-Wai

2 - A turma, de Laurent Cantet

3 - Sweeney Todd: o terrível barbeiro de Fleet Street, de Tim Burton

4 - Darjeeling Limited, de Wes Anderson

5 - Este país não é para velhos, de Joel e Ethan Coen

6 - 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu

7 - Corações, de Alain Resnais

8 - A rapariga cortada ao meio, de Claude Chabrol

9 - I'm Not There — Não estou aí, de Todd Haynes

10 - Juno, de Jason Reitman

22.12.08

Caos calmo



Se, na ignorância, me fizessem um Pepsi Challenge com este filme, eu provavelmente apostaria que o realizador não era Nanni Moretti. Há algo na realização, na banda sonora por exemplo (que podia ser mais discreta), que denunciam outra mão. Mas não há duvida que este é um filme de Moretti, no sentido em que a sua personagem se insere completamente na linhagem que vem de Michele Apicella no já distante 'Io sono un autarchico' (1976), se prolongou por meia dúzia filmes e passou testemunho a Nanni himself em 'Querido diário'.

Será porventura impossível Moretti ser um mero actor num filme, como o será com Woody Allen ou como era até certo ponto com Orson Welles, mas é mais do que isso: o Moretti obsessivo, irritado com os outros (mas mais moderadamente), egoísta, de praticamente todos os seus filmes, cá está novamente. Não importa que o argumento seja baseado num livro (mas o próprio escritor Sandro Veronesi já admitiu que inconscientemente se pode ter inspirado em aspectos da personalidade de Moretti!), nem que esteja outro realizador por trás da câmara (Antonio Grimaldi): este Pietro Paladini é Nanni Moretti, ou a persona de Moretti.

Posto isto, diga-se que é um muito bom filme, esta história do executivo que após a morte da mulher passa os dias sentado num banco em frente à escola da filha, sendo os amigos, colegas e conhecidos que se habituam a ir lá ter com ele. O realizador Antonio Grimaldi gere as coisas com mão segura, Moretti continua Moretti e a sua persona não nos cansa, sendo que curiosamente parece que precisou de outro realizador para a continuar, depois dos algo atípicos 'O quarto do filho' e 'O caimão'.

PS: Não deixa de ser curiosa a polémica que houve em Itália por causa da cena de sexo 'cru' envolvendo Moretti. A cena per si não tem nada que não se veja todos os dias noutros filmes; quanto ao facto de ser Moretti a interpretá-la (as pessoas vê-lo-ão como 'um pai'), é esquecer que uma das suas personas, o Michele Apicella de 'Bianca', era... um assassino em série!

Caos Calmo, Itália, 2008. Realizador: Antonio Grimaldi. Com: Nanni Moretti, Valeria Golino, Isabella Ferrari, Alessandro Gassman, Blu Yoshimi, Hippolyte Girardot, Kasia Smutniak, Denis Podalydès, Charles Berling.

18.12.08

3 em 1 (ou o método Corman)



Beech Dickerson é provavelmente o único actor na história a 'tocar tambor no próprio funeral', tendo interpretado o morto e um dos participantes no funeral, em Teenage Caveman (num triunfo do casting polivalente, interpretou também o urso que matou o falecido).

Gary Morris in 'Roger Corman - O anjo selvagem de Hollywood', o catálogo da Cinemateca dedicado ao realizador.

16.12.08

Anos 40

Quer saber quais são os melhores filmes dos anos 40? A Liga dá o seu veredicto.

15.12.08

Notas Breves #3



Verão violento
Comecei a atacar a caixa Valerio Zurlini por aqui (e vou seguir a ordem cronológica). Não sei porquê, do que li sobre Zurlini (pouquíssimo), estava à espera de algo na onda de Antonioni, mas ‘Verão violento’ tem pouco de Antonioni.

Roberta (Eleonora Rossi Drago), a jovem viúva que descobre pela primeira vez o amor na pessoa de um rapaz dez anos mais novo (Carlo/Jean-Louis Trintignant), poderia ser a priori uma personagem de Antonioni, mas o modo como esse amor é tratado e retratado, um amor excessivo, violento, exposto, tem mais a ver, parece-me, com a tradição melodramática americana. De resto, o tempo do filme, a sua fotografia, o mostrar o Verão, a juventude, a vida fácil desta com a guerra ao lado, os ciúmes de Rosanna por Roberta e a sua antipatia por tabela por Maddalena, tudo me pareceu extraordinário, belo, original.

Pensei em ver restantes filmes da caixa de enfiada, mas depois achei que precisava de ter calma, de dar tempo - não é todos os dias que se descobre um cineasta deste tamanho.
Estate Violenta, Valério Zurlini, 1959 (9,5/10)

12.12.08

Baile de Outono



Às tantas, durante ‘Baile de Outono’, uma mulher diz ao seu companheiro: ‘pareces uma personagem do Bergman’. Também poderia ter dito que ele parecia uma personagem de Antonioni. E ao espectador ocorre também Tarkovsky (pelo formalismo ‘poético’); ou Kaurismäki (pelo ambiente gélido); ou até o P.T.Anderson de ‘Magnolia’ (e não só pela estrutura do filme). E, numa das cenas iniciais, é-nos mostrado um poster de um filme de Cassavetes.

Inicialmente parece-nos que o filme não é mais do que isto: uma acumulação de referências, transferindo as angústias existenciais e a incomunicabilidade de Antonioni para os frios ambientes nórdicos (o filme passa-se nos arrabaldes de Tallin). Mas a realidade é que o realizador estónio vale mais do que isso, e o filme encontra um tom próprio, acabando as suas geométricas deambulações, entre ambientes elegantes e refinados e os feios subúrbios soviéticos, por nos agarrar algo hipnoticamente. Talvez sejam os esparsos toques de humor que surgem para lá do meio do filme, bem como uma espécie de happy end (para uma personagem!), que nos alertem para o facto de o realizador ter uma capacidade de nos manipular (no bom sentido) superior ao que estaríamos à espera. O seu nome não é fácil de fixar, mas vale a pena tentar: Veiko Õunpuu.

Sügisbal/Autumn Ball, Estónia, 2007. Realização: Veiko Õunpuu. Com: Rain Tolk, Taavi Eelmaa, Juhan Ulfsak, Sulevi Peltola, Tiina Tauraite, Maarja Jakobson.

11.12.08


9.12.08

Top Anos 40

Na sequência do que já foi feito feito com outras décadas, a Liga dos Blogues Cinematográficos vai eleger os melhores filmes dos anos 40. Cada integrante vota em 20. Eis a minha lista:




1. Citizen Kane (O mundo a seus pés), Orson Welles, 1941
2. The Grapes of Wrath (As vinhas da ira), John Ford, 1940
3. Out of the Past (O arrependido), Jacques Tourneur, 1947
4. This Land Is Mine (Esta terra é minha), Jean Renoir, 1943
5. Casablanca, Michael Curtiz, 1942

6. Notorious (Difamação), Alfred Hitchcock, 1947
7. Roma, città aperta (Roma, cidade aberta), Roberto Rossellini, 1945
8. The Philadelphia Story (Casamento escandaloso), George Cukor, 1940
9. Double Indemnity (Pagos a dobrar), Billy Wilder, 1944
10. Brief Encounter (Breve encontro), David Lean, 1946

11. The Great Dictator (O grande ditador), Charles Chaplin, 1940
12. Duel in the Sun (Duelo ao sol), King Vidor, 1946
13. A Matter of Life and Death (Um caso de vida ou de morte), Michael Powell e Emeric Pressburger, 1946
14. Meet me in St.Louis (Não há como a nossa casa), Vincente Minnelli, 1944
15. The Woman on the Beach (A mulher desejada), Jean Renoir, 1947

16. Spellbound (A casa encantada), Alfred Hitchcock, 1945
17. The Woman in the Window (Suprema decisão), Fritz Lang, 1944
18. The Maltese Falcon (Relíquia macabra), John Huston, 1941
19. Detour (Desvio), Edgar G.Ulmer, 1945
20. Sullivan's Travels (A quimera do riso), Preston Sturges, 1941

Também: o meu Top dos anos 50.

5.12.08

Filmes de Novembro

Como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês que passou. Classificação de 0 a 10.



Jogo fraudulento, Alfred Hitchcock, 1931 (8)
Holiday, George Cukor, 1938 (10)
Ascenceur pour l’échafaud, Louis Malle, 1958 (8)
Vamo-nos amar, George Cukor, 1960 (10)
Point Blank, John Boorman, 1967 (8)
Um lobisomem Americano em Londres, John Landis, 1981 (8)
Impacto súbito, Clint Eastwood, 1983 (8)
Cotton Club, Francis Ford Coppola, 1984 (8,5)
Caçador branco, coração negro, Clint Eastwood, 1990 (8)
Porco Rosso, H.Miyasaki, 1992 (8,5)
As asas do amor, Iain Softley, 1997 (7)
Undead or Alive, Glasgow Phillips, 2007 (4)
Paris, Cedrique Klapisch, 2008
Em Bruges, Martin McDonagh, 2008
Busca implacável, Pierre Morel, 2008
007 — Quantum of Solace, Marc Forster, 2008
Ensaio sobre a cegueira, Fernando Meirelles, 2008
O corpo da mentira, Ridley Scott, 2008
Wackness - À Deriva, Jonathan Levine, 2008
A turma, Laurent Cantet, 2008

3.12.08

A turma



Apesar de ter gostado bastante dos dois filmes de Laurent Cantet que haviam estreado em Portugal, ‘Recursos humanos’ e 'O emprego do tempo’, foi com alguma relutância que me dispus a ir ver ‘A Turma’. A ‘escola’ ou o ‘sistema de ensino’ está certamente entre os temas à face da terra que menos me interessam e filmes ‘sociológicos’ que pretendem ‘contribuir para o debate’ provocam-me pele de galinha. Mas a verdade, é que como dizia François Bégaudeau, que escreveu o livro em que o filme se baseia e neste se interpreta a si mesmo, é difícil detestar ‘A turma’. Eu vou mesmo mais longe: é difícil, pegue-se por onde se pegar, não gostar deste filme.

Embora eu me identifique infinitamente mais com o professor de informática que na sala dos professores desabafa, desesperado, ‘estou farto de aturar estes anormais’ (os alunos, bem entendido), do que com o simpático, tolerante, super-paciente e por isso mesmo vastas vezes irritante François, a verdade é que tudo bate bem neste filme.

A verdadeira guerrilha que o grupo multi-étnico de adolescentes, mais finos que um coral, movem ao professor, é digna de ser vista e revista. Achando-se cheios de direitos, mas com quase nenhuns deveres, sentem-se à vontade para perguntar ao professor se ele é gay, para lhe dizerem que ele está a implicar com eles só porque os mandou ler um texto, para lhe explicarem que só ‘pães com manteiga’ (i.e. brancos) snobs usam o imperfeito do conjuntivo, por isso não há razão para o aprenderem, para protestarem porque usou o nome 'Bill' num exemplo e não 'Ahmed' ou outro que reflectisse o 'multiculturalismo' da turma, para discutirem em plena aula sobre as selecções de futebol do ‘seu’ país (i.e. Marrocos, o Mali ou outro), etc.,etc. É estarrecedor. E na única ocasião em que o quase-Santo e hiper-paciente François perde a paciência e se excede, eles aproveitam diligentemente o deslize para lhe causarem problemas junto dos colegas (que colaboram alegremente) e da direcção. E o que podem os professores fazer no meio disto tudo? Nada, ou quase nada – podem expulsar o aluno da sua escola, o que fazem a uma dúzia deles por ano.

Ou seja, a extraordinária perseverança e empenho de François, só servem para realçar o enorme falhanço que é a escola (pelo menos uma escola como aquela) hoje em dia. Nem uma pessoa com o seu charme e vocação consegue fazer algo daquele grupo de adolescentes, que já têm os piores defeitos dos pais, que não aceitam a autoridade nem a disciplina, que estão interessados em tudo menos em aprender, muito menos a língua e cultura francesa (a maior parte nem se considera francês). E não deixa de ser irónico que um dos raros exemplos de aproveitamento escolar e bom comportamento, o chinês Wei, esteja em risco de ser devolvido à procedência por os pais não terem os papeis em ordem…

Como retrato da escola, e claro, como retrato da sociedade de que a escola é um microcosmos, este filme é todo um programa, bastante mais pessimista do que a sua aparente descontracção e humor (um milagre) podem fazer supor.

François Bégaudeau, que foi crítico de cinema, queixava-se numa entrevista que 90% das análises ao filme eram ‘sociológicas’, não cinematográficas, mas isso é inevitável numa ficção tão ancorada na realidade. Mas fazendo-lhe a vontade, diga-se que o trabalho de Cantet é extraordinário: todas, mas todas as personagens são absolutamente credíveis, o ambiente da sala de aula é absolutamente realista e quase parece que o realizador se limitou a pôr uma câmara escondida algures e registar o que se passava… Maior elogio à mise en scéne é difícil fazer.

Tal como no caso de ‘O segredo de um Cuscus’, outro filme francês, temos aqui um magnífico exemplo de grande cinema popular (mais de um milhão de espectadores em França).

Entre les Murs, França, 2008. Realização: Laurent Cantet. Com: François Bégaudeau, Lucie Landrevie, Agame Malembo-Emene, Rabah Naït Oufella, Carl Nanor, Esméralda Ouertani, Burak Özyilmaz, Eva Paradiso, Rachel Régulier, Angélica Sancio, Samantha Soupirot, Boubacar Touré, Justine Wu, Atouma Dioumassy, Nitany Gueyes.

Dardos

Um agradecimento rápido ao Cinema Notebook, ao Cesto da Gávea e ao Gonçalo, aka Gonn 1000, por terem referido aqui o tasco nas suas listas dos Prémios Dardos, que andam a correr pela blogosfera.

1.12.08

Wackness - À Deriva



Luke Shapiro, que está a acabar o liceu e é um pequeno passador de droga, tem dificuldade em arranjar namoradas e pensa demasiado nas coisas: vê sempre o ‘lado complicado’ das situações em vez de se ‘deixar ir’, como lhe diz uma rapariga.
O Dr. Squires é um excêntrico psiquiatra, que aceita mal o facto de estar a envelhecer: o seu casamento com uma mulher mais jovem está em ponto morto e ele sente inclusive ciúmes dos rapazes que andam com a sua enteada. O seu meio de combater a depressão é encharcar-se em drogas, aceitando que Luke, seu paciente, lhe pague em ‘produto’.

Entre estas duas almas à deriva na Nova Iorque dos anos 90, que Giuliani quer ‘limpar’, cria-se uma estranha amizade (ou algo que o valha) que serve de motor a este filme.

'Wackness - À Deriva ' tem um ritmo próprio, a que podemos demorar algum tempo a aderir, mas tem uma série de virtudes que geralmente associamos ao agora mal afamado ‘cinema independente’: argumento inteligente (simultaneamente sobre a chegada à idade adulta e sobre o deixar de ser jovem, com as complicações amorosas/sexuais no centro, num tom não exactamente optimista mas sempre com humor - qualidade que redime muita coisa), diálogos impecáveis, câmara próxima das personagens (e uma excelente fotografia, em tons sépia, de Petra Korner ), banda sonora bem esgalhada (com o Hip hop a liderar) e um muito sólido conjunto de actores, com destaque para o diálogo que se estabelece entre o jovem Josh Peck e o veterano Ben Kingsley, que tem aqui o seu melhor papel em anos.

The Wackness, E.U.A., 2008. Realização: Jonathan Levine. Com: Josh Peck, Ben Kingsley, Olivia Thirlby, Famke Janssen, Mary-Kate Olsen.