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26.2.09

O termo 'desconstrução'



"Ainda hoje fico muitas vezes siderado com as críticas que leio em certas revistas de cinema. (...) Um dia tive um encontro com estudantes de cinema numa universidade em Viena; tive que pedir que me explicassem umas cinco ou seis vezes o termo 'desconstrução' até perceber de que é que me estavam a falar. E devo confessar que ainda hoje não estou certo de ter compreendido o que se estava ali a passar..."

John Carpenter, em entrevista a Luc Lagier e Jean-Baptiste Thoret.

Mal começo a ler o catálogo da cinemateca dedicado a Carpenter, deparo-me logo com esta pérola que imediatamente me fez lembrar esta de D.Luis. Nem de propósito, na resposta seguinte, Carpenter declara Bunuel como um dos seus cineastas preferidos. Não há que enganar.

25.2.09

Milk



Dentro do género biopic ‘tradicional’, ‘Milk’ é um filme perfeito. Sean Penn merece todos os encómios possíveis pelo seu papel de Harvey Milk, o primeiro político abertamente gay a ser eleito para um cargo público (supervisor na câmara de S.Francisco), e Gus Van Sant, um dos grandes realizadores do cinema actual, embrulha com estilo e precisão factos documentais e ficção para, a partir de Harvey, compor um retrato mais lato da luta pelos direitos homossexuais, e do movimento gay que se formou em Castro Street e rapidamente expandiu fronteiras.

O único problema desta obra está precisamente na palavra ‘tradicional’: 1) porque Todd Haynes já provou com ‘I’m not There’ que é possível estilhaçar o biopic com excelentes resultados; 2) porque de Gus Van Sant, especialmente depois do magnífico ‘Paranoid Park’, esperamos mais do que filmes convencionais (mesmo quando são imaculadamente bem feitos como este).

Mas, tal como Harvey Milk às tantas cortou o cabelo e pôs uma gravata, também aqui dá ideia que Van Sant não quis arriscar e deu mesmo prioridade a passar a ‘mensagem’ (a luta pelos direitos gay numa altura em que alguns passos atrás foram dados na Califórnia), sacrificando a ousadia em prol da eficácia e visibilidade. As nomeações para os Óscares e as duas importantes vitórias que obteve (melhor actor e melhor argumento original) mostram que conseguiu o seu objectivo.

Milk, E.U.A., 2008. Realização: Gus Van Sant. Com: Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin, Diego Luna, James Franco, Alison Pill, Victor Garber, Denis O`Hare.

23.2.09

Quem quer ser bilionário?



‘Quem quer ser bilionário?’ é essencialmente um filme de argumento (escrito por Simon Beaufoy, a partir do livro de Vikas Swarup), que vive de uma ideia muito boa: um rapaz das favelas Indianas (o tal slumdog) vai ao ‘Quem quer ser milionário’ e acerta resposta atrás de resposta. O filme vai tentando responder porquê em flashbacks, mostrando episódios da sua acidentada luta pela sobrevivência, que não só lhe moldaram a astuta personalidade, como, por uma espécie de capricho divino, parece que tinham que lhe acontecer com um determinado fito. Mais que os muito milhões de rupias, o prémio que o rapaz ambiciona é a paixão da sua infância.

Danny Boyle, cujo estilo de realização está longe de ser discreto, conseguindo frequentemente mexer com os nervos do espectador, não pareceria de forma alguma a pessoa mais indicada para adaptar este conto de fadas, mas o certo é que, alguns tiques à parte, está com a mão mais calma e não sobrepõe a câmara ao argumento, acompanhando-o antes com empatia e calor, dando-nos um retrato justo e despretensioso dos seus protagonistas, nem lamechas nem idealizado, conseguindo passar onde por exemplo ‘Cidade de Deus’ falhou.

Uma boa surpresa vinda de um realizador de quem, depois de tantos tiros ao lado após o longínquo ‘Trainspotting’, confesso que já esperava pouco.

P.S.: Ultrapassa-me completamente como é que este simpático filme conseguiu extremar de tal modo as posições por cá (e provavelmente os recém-atribuídos Óscares, que valem o que valem, ainda as irão acirrar mais)...

Slumdog Millionaire, Grã-Bretanha/E.U.A., 2008. Realização: Danny Boyle. Com: Dev Patel, Freida Pinto, Madhur Mittal, Anil Kapoor, Irrfan Khan.

20.2.09

O leitor



John Ford dizia que não gostava de adaptar romances ou peças: preferia agarrar num conto e alargá-lo do que pegar num romance e condensá-lo. As últimas adaptações literárias que chegam de Hollywood parecem dar-lhe razão: se Fincher fez um belo filme a partir de um conto de Fitzgerald, as adaptações de ‘Revolutionary Road’, ‘A dúvida’, e este ‘O leitor’, são todas chochas. Parece que perante o texto (toda aquela 'conversa', diria Ford), os realizadores ou se deslumbram (como Sam Mendes) ou se encolhem (como John Patrick Shanley).

Stephen Daldry até tem algumas virtudes, como uma certa discrição melancólica, e conta com um elenco de peso (com Winslet em destaque), mas o resultado final assemelha-se perigosamente a um telefilme. Ou a uma mini-série: há o episódio ’erótico’, digno mas não entusiasmante; o episódio de tribunal, correcto mas não empolgante; e a conclusão, dramática mas não trágica. É tudo morno e temperado, o que tratando-se de uma história que envolve, entre outros temas, a culpa alemã perante o nazismo e um romance fortemente erótico entre um adolescente e uma mulher mais velha, não deixa de ser pouco elogioso para o realizador, convenhamos…

The Reader, E.U.A./Alemanha, 2008. Realização: Stephen Daldry. Com: Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross, Bruno Ganz, Lena Olin .

17.2.09

Revolutionary Road



'Revolutionary Road' fez-me pensar muitas vezes quão bom deve ser o livro de Richard Yates em que se baseia, e isto não é um elogio. Sente-se a força da tragédia do casalinho burguês insatisfeito, por trás do espartilho que Sam Mendes lhe impôs. Que começa na banda sonora incrivelmente mal escolhida e irritante; na realização apenas convencional e bonitinha, sem as arestas nem as asperezas que o tema requeria; e até, pasme-se, na direcção de actores que parece frouxa, vezes de mais parecendo que estes estão a representar num palco.

Por vezes há algo que escapa deste colete-de-forças e nos deixa entrever toda a tensão (que deveria estar) presente: alguns planos de Kate Winslet; todas as terríveis cenas com Michael Shannon, o maluquinho que funciona como voz da 'verdade', do inconsciente do casal; uma aterradora cena dum pequeno-almoço de aparente reconciliação, em que o glaciar ar simpático de Kate Winslet é mais mortífero que qualquer dos ataques de fúria que tivera. Mas estes momentos apenas nos fazem lamentar a oportunidade perdida por Sam Mendes - realizador até agora bastante estimável - de dar o melhor seguimento à excelente matéria-prima que tinha em mão.

Revolutionary Road, E.U.A./Grã-Bretanha, 2008. Realização: Sam Mendes. Com: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Michael Shannon, David Harbour, Kathryn Hahn, Dylan Baker.

16.2.09

O casamento de Rachel



Não serei certamente muito original na comparação, mas ela é inevitável: ‘O casamento de Rachel’ está algures entre ‘Sombras’, de Cassavetes e ‘A festa’, de Vinterberg. Do primeiro herda a câmara livre, os actores a improvisarem, a música sempre presente. Do segundo, os fantasmas que surgem numa reunião familiar, o casamento de Rachel (Rosemarie DeWitt, muito bem).

Kym (Anne Hathaway, num papelão), a irmã mais nova e problemática regressa a casa depois de uma cura de desintoxicação e tira a tampa da panela de pressão. Um irmão morto em criança e muitas situações mal resolvidas assombram inapelavelmente esta família, em que a mãe (Debra Winger, num breve mas excelente regresso) foi embora e o pai está algo perdido. Mas ao contrário de ‘A festa’, em que as situações eram repisadas até rebentarem e fazerem estragos, aqui fica tudo no ar, a pairar sobre as personagens, sem que saibamos muito bem se algo ficou resolvido. O filme acaba mesmo em tom de festa, ou de fim de festa, para sermos mais exactos, novamente em ambiente Cassavetiano, de música, de ambiguidade, de indefinição.

Grande retrato familiar (argumento de Jenny Lumet, filha de Sidney), grande trabalho de actores, grande trabalho de câmara, grande filme, desse grande cineasta americano que é Jonathan Demme.

Rachel Getting Married, E.U.A., 2008. Realização: Jonathan Demme. Com: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Debra Winger, Mather Zickel, Bill Irwin, Anna Deavere Smith, Anisa George, Tunde Adebimpe.

13.2.09

Dúvida



John Patrick Shanley adapta competentemente a sua peça ‘Dúvida’, vencedora de um Pulitzer, para o grande ecrã, mas não consegue ultrapassar completamente o estigma do palco. Embora não se coíba de usar com propriedade essa arma cinematográfica por excelência que é o grande plano, sendo que quando temos actores como estes uma expressão pode valer tudo, a maior parte do tempo não podemos de deixar de pensar que ganharíamos em ver isto tudo num palco. Não se perderia nada de importante em termos de mise en scene, mais ´teatral’ que cinematográfica, e ganharíamos, claro, com a proximidade deste magnifico grupo de actores.

Nunca tendo lido a peça em causa, apenas posso falar do argumento do filme, que suponho ser-lhe fiel, que me pareceu interessante ma non troppo.

O destaque vai mesmo inteirinho para os actores: Meryl Streep saca mais um papelão na figura da intolerante, austera e ressentida Irmã Aloysius, que acusa o Padre Flynn de pedofilia (nunca pronunciando tal palavra, claro), apenas porque não gosta dele e porque é uma espécie de iluminada que acha que sabe, assim, sem mais, sem qualquer coisa palpável - é, sem dúvida, uma das personagens mais antipáticas que têm passado pelos ecrãs; Philip Seymour Hoffman aguenta o embate de igual para igual, o que diz muito, e compõe um padre Flynn aberto, humano, mas com uma quase imperceptível ambiguidade que define toda a trama. Destaque ainda para as duas actrizes secundárias: Amy Adams, no papel da insossa e ingénua (mas também algo ambígua) Irmã James, que despoleta a bomba, está inexcedível e Viola Davis precisa apenas de uma cena para mostrar que está ao (elevado) nível do conjunto.

Doubt, E.U.A., 2008. Realização: John Patrick Shanley. Com: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis.

12.2.09

Filmes de Janeiro

Após alguma hesitação, resolvi manter esta secção em 2009. De modo que como é habitual, a seguir listo os filmes que vi ou revi no mês passado. Classificação de 0 a 10.



Casablanca, Michael Curtiz, 1942 (10)
A rapariga da mala, Valerio Zurlini, 1961 (9)
The Plague of the Zombies, John Gilling, 1966 (7)
Outono escaldante, Valerio Zurlini, 1972 (10)
O cão branco, Samuel Fuller, 1982 (8)
Debaixo do Vulcão, John Huston, 1984 (7)
O feitiço do tempo, Harold Ramis, 1993 (8,5)
O grande Lebowski, Irmãos Coen, 1997 (8,5)
Intimidade, Patrice Chereau, 2001 (8)
A canção mais triste do mundo, Guy Maddin, 2003 (8)
Big Man Japan, Hitoshi Matsumoto, 2007 (5)
Palácio de Verão, Lon Ye, 2006 (8)
RocknRolla, Guy Ritchie, 2008
Sim!, Peyton Reed, 2008
Austrália, Baz Luhrmann, 2008
A valsa com Bashir, Ari Folman, 2008
Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen, 2008

9.2.09

Frost/Nixon



‘Frost/ Nixon’ é o típico filme de argumento e actores. O argumento é de Peter Morgan (o argumentista de ‘A Rainha’), baseado na sua peça homónima, sobre a célebre entrevista que o entertainer inglês David Frost fez ao deposto presidente Nixon, e em que este assumiu pela primeira vez a sua culpa no escândalo Watergate.

Talvez o argumento seja excessivamente didáctico, mas a sua reflexão sobre os media, mais concretamente a TV (mais do que uma vez mortífera para Nixon) é afiada e certeira, e, acima de tudo, o seu retrato dos dois oponentes, o algo leviano mas justo showman David Frost, que aposta o que tem e o que não tem, contra tudo e contra todos, numa entrevista política, completamente fora do seu âmbito, e o ainda manipulador, mas cansado, frustrado e desiludido Richard Nixon, para quem a entrevista funciona como uma espécie de catarse, é verosímil, judicioso e até tocante.

Claro que isto só é possível devido ao extraordinário duo de actores, Michael Sheen (o Tony Blair de ‘A Rainha’) e o veterano Frank Langella, duas escolhas pouco óbvias, mas que funcionam na perfeição.

Uma palavra para Ron Howard, que não é nenhum ás atrás da câmara - e por vezes não evita cair no tom telefilme - mas que no cômputo geral faz um bom trabalho, sóbrio e discreto, deixando brilhar quem de direito. Nota claramente positiva para esta sua obra, que é uma coisa rara hoje em dia em Hollywood: um filme que não é para teenagers.

Frost/Nixon, E.U.A./Grã-Bretanha/França, 2008. Realização: Ron Howard. Com: Frank Langella, Michael Sheen, Rebecca Hall, Toby Jones, Matthew Macfadyen, Kevin Bacon, Oliver Platt, Sam Rockwell.

6.2.09

Valquíria



De ‘Valquíria’, nome da engenhosa operação que um grupo de oficiais alemães levou a cabo para tentar derrubar Hitler, pode-se dizer o mesmo que de vários outros filmes que têm chegado de Hollywood: é sólido, competente a todos os níveis, mas falta-lhe alma.

Pode-se elogiar o ensemble de actores, pode-se elogiar Tom Cruise, pode-se elogiar o argumento bem urdido, pode-se elogiar a elegante e eficaz realização de Bryan Singer - e todos estes elogios não são desmerecidos. Mas a verdade é que o conjunto é insosso, e não há algo forte que fique connosco depois de deixarmos a sala. Nem uma personagem, nem um momento, nem sequer um actor. Vê-se bem e olvida-se.

Valkyrie, E.U.A./Alemanha, 2008. Realização: Bryan Singer. Com: Tom Cruise, Kenneth Branagh, Bill Nighy, Tom Wilkinson, Terence Stamp, Carice van Houten, Thomas Kretschmann, Kevin McNally, Eddie Izzard.

5.2.09

Compras em saldos



£12

Aguirre, o aventureiro
Nosferatu, o fantasma da noite
Woyzek
Fitcarraldo
Cobra verde
My Best Friend







£28

The Young One
Diário de uma criada de quarto
A bela de dia
Via láctea
Tristana, amor perverso
O charme discreto da burguesia
O fantasma da liberdade
Este obscuro objecto do desejo



Em Londres. Ou como se verifica, uma vez mais, a obscenidade que são os preços dos dvds em Portugal. Nem quero imaginar quanto custariam estes packs na FNAC.