Desde 'O Vigilante' (1974) que Coppola não escrevia um argumento original. E desde 'Rumble Fish' (1983) que não filmava a preto e branco. Não quero dizer que haja aqui um regresso às "origens". Há uma parte operática em 'Tetro' que remete para o universo de 'O Padrinho', para não falar do tal argumento, basicamente, uma vez mais, sobre a família. Apenas pretendo sublinhar que nesta "2ª fase" da carreira, Coppola faz o que muito bem lhe dá na veneta.
E se não há duvida que se mantém uma coerência com a obra passada, não é menos verdade que, tal como em 'Uma segunda juventude, ‘ há uma sensação de estranheza ao ver esta obra que não nos abandona. Há um lado onírico, espectral, que a torna diferente dos trabalhos anteriores a 'Uma segunda juventude'. Não provém tanto do argumento (Vicente Gallo, o filho de um maestro famoso, tenta lidar com o 'fantasma' do pai), nem do preto e branco (extraordinário), nem da maneira de filmar (Coppola continua um mestre); é algo de mais ténue, que tem a ver com alguma indefinição própria dos sonhos, em que nem tudo encaixa na perfeição, há buracos, zonas de sombra, momentos surreais, impressões fugidias. Lembrei-me várias vezes de Orson Welles, do desequilíbrio de vários dos seus filmes, ainda assim sempre belos, com planos que redimiam quase tudo.
Mas o exemplo mais próximo que me ocorre é o das obras finais de Hitchcock, em que este não parou de desconcertar os seus fãs com filmes insólitos e surpreendentes. E se eu não vou ao ponto de pôr 'Intriga em família' (ou 'Tetro') acima de 'Vertigo' (ou 'O Padrinho’), a verdade é que é um filme que não deixa de me fascinar.
Tetro, E.U.A./Itália/Espanha/Argentina, 2009. Realização:Francis Ford Coppola. Com: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Klaus Maria Brandauer, Carmen Maura, Rodrigo de la Serna, Leticia Brédice, Mike Amigorena.








