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31.3.10

Millennium 2: A Rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo


Devido à minha alergia congénita a best sellers, principalmente na subcategoria calhamaços, nunca li a trilogia 'Millenniun' do malogrado Stieg Larsson. Mas, enquanto Hollywood anda a tratar da respectiva adaptação à tela, resolvi espreitar as duas primeiras fitas com que os seus conterrâneos se anteciparam aos americanos.

‘Millenniun 1 – Os homens que odeiam as mulheres’, realizado por Niels Arden Oplev, é um thriller negro e lacónico, que a partir duma trama policial – a busca de uma mulher desaparecida há 40 anos – leva o jornalista Mikael Blomkvist a deparar-se com temas como as simpatias nazis na Suécia, fraudes económicas, o estupro, o assassínio em série e outros igualmente agradáveis. É uma visão verdadeiramente sombria da humanidade. Talvez a intriga seja despachada um bocado depressa de mais, mas não deve ser fácil condensar, mesmo em duas horas e pico, um tijolo do tamanho do do 1º volume da trilogia.

Em ‘Millenniun 2 – A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo’, que estreou a semana passada nas nossas salas, a realização passa para Daniel Alfredson, e talvez o filme esteja um furo abaixo do seu antecessor (Daniel não tem o enorme talento demonstrado pelo seu irmão Tomas). Mantém algumas das suas virtudes, como as impecáveis interpretações de Michael Nyqvist (Blomkvist, que tem uma invejável barriguinha que o seu sucessor hollywoodiano não terá de certeza) e Noomi Rapace (Lisbeth Salander), e um estilo despachado e frio, muito nórdico, passe o cliché.

Mas o ambiente não é tão negro e, embora o argumento se centre no passado da Lisbeth, a hacker-punk com traumas por desvendar, paradoxalmente as personagens parecem menos desenvolvidas, menos espessas, meros peões ao serviço da trama. Ou talvez isto seja uma mera consequência da ‘moral da história’ de Millennium, em que o mundo (ou pelo menos a Suécia) é visto como uma gigantesca Sin City, onde não passamos (nós os cidadãos comuns, e mais agudamente as mulheres) de meros títeres nas mãos de gente poderosa e sem escrúpulos que domina um mundo angustiante.

Que esta angústia, este ambiente malsão, passe para o espectador, é façanha que torna estes dois filmes não despiciendos.

Flickan som lekte med elden, Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009. Realização: Daniel Alfredson. Com: Noomi Rapace, Michael Nyqvist, Lena Endre, Sofia Ledarp, Georgi Staykov.

29.3.10

Kaurismäki é estranho, a Finlândia não


Os encantadores finlandeses que conheci não tinham nada de tenebrosos nem graves. (...) Não só não eram tenebrosos, como tinham humor e eram perspicazes, amáveis, comunicativos. Não se encontravam estranhezas dignas de registo. Anotei isto na dinâmica esplanada do Grande Hotel Kamp: "[Aki] Kaurismäki é estranho, a Finlândia não."

Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, Editorial Teorema

26.3.10

Fernando Lopes, Provavelmente

Fernando Lopes é o autor de um dos grandes filmes do cinema português: 'Belarmino'. Além disso, é uma personalidade que vale muito a pena conhecer: natural da Várzea, fugiu ao destino de lavrador, como nos diz, de trabalhar com a terra, para trabalhar com sons e imagens. Além de cineasta foi também director do 'Cinéfilo' - importante revista de cinema que hoje talvez poucos conheçam - e era uma 'personagem' lisboeta, de uma altura de muitas personagens lisboetas; é, ainda, um excelente conversador, com uma bela voz, calorosa, algo tímida, simpática. Dar-nos então a conhecer melhor Fernando Lopes torna este documentário precioso.

Porque de resto me parece que o realizador João Lopes - conhecido e estimável critico de cinema - falha um pouco o tiro. Tenta fugir ao previsível - o habitual documentário que segue cronologicamente a obra do autor através de imagens e comentários de amigos/colaboradores - centrando-se (e bem) nas palavras do realizador. Mas, na tentativa de evitar o óbvio, cai no extremo oposto e o filme é algo confuso, disperso, aleatório. Quem não conhecer a obra de Fernando Lopes também não é por aqui que a ficará a conhecer. Uma pessoa deixa-se levar agradavelmente pelas palavras do realizador, mas falta um enquadramento a essas palavras. E a realização também não ajuda, não evitando cair numa série de lugares comuns e por vezes tendo mesmo um aspecto estranhamente amador (o som, por exemplo, é francamente mau).

Nos extras do dvd há que salientar um magnífico depoimento de Baptista Bastos sobre o seu amigo Fernando Lopes, sobre Belarmino e sobre a Lisboa da época. Dá-nos, precisamente, o tal enquadramento que falta ao filme.

Fernando Lopes, Provavelmente, Portugal, 2008. Realização: João Lopes. Documentário.

24.3.10

Fora de Controlo



Do muito pouco que tinha lido sobre este filme - basicamente que tratava de um policia (Mel Gibson) a tentar vingar a morte da filha - ficara com uma vaga ideia de que seria uma espécie de Taken. Ou seja, um bom (esperava eu) thriller musculado e movimentado.

Mas não é bem isso. Embora tenha alguma acção e muita mortandade, é, antes, um conspiracy thriller, (sub)género de nobre tradição no cinema americano, mas cujo argumento aqui não passa do bê-a-bá, envolvendo armas nucleares, governadores corruptos (um pleonasmo, a julgar por Hollywood), ecologistas radicais e agências governamentais secretas. Ainda tive esperança que isto não passasse dum McGuffin, mas infelizmente o filme é mesmo isto.

Mel Gibson e Ray Winstone, dois actores com carisma para dar e vender, o primeiro no papel de homem reservado e solitário, o segundo de cínico (com coração) e solitário, fizeram-me aguentar a coisa sem fastio, mas o final estapafúrdio fez-me retirar imediatamente alguns pontos ao filme. Pontos que tinha ganho por ser um filme adulto, com uma star (Gibson) com 54 anos e não um adolescente rançoso, com uma realização apesar de tudo competente. 

Ao comentar o filme com um amigo, ele respondeu-me lacónicamente que podia ser pior. É verdade. Mas também podia ser melhor. Bem melhor. Não vamos começar a nivelar tudo que chega de Hollywood por baixo...

Edge of Darkness, E.U.A./Grã-Bretanha, 2010. Realização: Martin Campbell. Com: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Bojana Novakovic, Shawn Roberts, David Aaron Baker, Jay O. Sanders.

23.3.10

Los cronocrímenes


'Los cronocrímenes', realizado por tuta e meia pelo espanhol Nacho Vigalondo, ganhou uma série de prémios em festivais de cinema fantástico e tornou-se um pequeno fenómeno de culto.

O argumento, também escrito pelo realizador, parte dum tema clássico – a viagem no tempo – mas com uma variante curiosa: o seu protagonista anda para trás no tempo… uma hora.

'Los cronocrímenes' enreda-se nos habituais paradoxos que os saltos temporais suscitam, e o espectador avisado não se preocupa demasiadamente com alguns buracos que apareçam no argumento nem quebra demasiadamente a cabeça à procura deles.

Posto isto, a partir de meio filme o argumento é razoavelmente previsível e não trás nada de novo. O realizador, no entanto, tem um estilo despachado, faz das fraquezas (o filme tem 4 actores - e um é o próprio realizador; o cenário não é mais do que uma casa e os seus arredores; a máquina do tempo parece saída dum filme dos anos 50) forças (tudo tem um saudável ar ‘série B’, não um ar ‘pobrezinho’) e não está ali para engonhar (a fita não chega à hora e meia).

Em suma, não sendo mais do que um divertimento, é ainda assim um muito razoável divertimento para os fãs do género (não vou ao ponto de o aconselhar à população em geral, não vá algum amigo mais sério me trepanar depois de o ver) – o tipo de filme que seria espectável ver no Fantasporto, se o Fantas não atraísse cada vez menos este tipo de filmes.

Los cronocrímenes , Espanha, 2007. Realização: Nacho Vigalondo. Com: Karra Elejalde, Candela Fernández, Bárbara Goenaga, Nacho Vigalondo.

22.3.10

10 filmes da vida de...

... rf., 28 anos, médico, autor do blog Apeloeh.


dez filmes para a minha vida. o primeiro de 1954 e o último de 2003. é certo, que o gosto é discutível e as escolhas também o são. também é certo que estes são apenas alguns dos meus filmes indispensáveis uma vez que haverá tantos outros e outros mais que ainda não devem ter sido vistos e que desta lista poderiam fazer parte. em comum, terão o facto de reflectirem sobre o mal/estar humano:

johnny guitar ~ nicholas ray, 1954
não só aquele dialogo é belo como constrangedor.

vertigo ~ alfred hitchcok, 1958
por novak. pelas longas sequências, pela 'circularidade' das imagens, pela insistência do tempo.

pierrot le fou ~ godard, 1965
adoro histórias trágicas de amor. esta é perfeita, isso basta-me.

baisers volés ~ truffaut, 1968
que rest-t-il de nos amours?

barry lyndon ~ stanley kubrick, 1975
três longas e entediantes horas. o estar só. a vida frágil e incandescente.

interiors ~ woody allen, 1978
e, calmamente, tapa cada possibilidade de vida com fita-cola preta.

stalker ~ andrei tarkovsky, 1979
à procura da minha 'zona'. despejo de desejos.

blue velvet ~ david lynch, 1986
o filme sobre as coisas que estão escondidas. a banda sonora dos meus pesadelos.

punch-drunk love ~ pt anderson, 2002
a visceralidade ou simplicidade de um coração a bater.

the dreamers ~ bernardo bertolucci, 2003
os inocentes sagrados. a vida que queria. o cinema pelo cinema.

Todas as semanas (mais ou menos!) um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado estará por cá em breve..

20.3.10

2 dias em Paris

Reparei, ao passar num quiosque, que está à venda por 1€94, cortesia do Público, o excelente '2 Dias em Paris', a estreia na realização de Julie Delpy, que pode ser vista como um prolongamento da sua personagem de 'Antes do Amanhecer' e 'Antes do Anoitecer'. O que seria feito dela, na hipótese de não ter ficado com Ethan Hawkes.

É uma relação preço/qualidade absurda. Aproveitai, pois então.

19.3.10

Os empregados dos correios


"Primeiro, aconteceu o nascimento técnico da televisão. Como a gente do cinema não quis ter nada a ver com isso, os empregados dos correios tiveram que se encarregar do assunto, aqueles que eram responsáveis pela comunicação. A televisão tornou-se hoje, portanto, num minúsculo posto de correio. Mal precisamos de ter medo dela, pois ela é muito pequena  e temos que estar perto da imagem. No cinema, pelo contrário, a imagem é grande e atemorizante e olhamo-la a alguma distância. As pessoas preferem hoje, ao que parece, ver uma pequena imagem de perto a ver uma grande imagem de longe."

Jean-Luc Godard

(retirado dos depoimentos feitos no filme Chambre 666, de Wim Wenders, rodado em Maio de 1982)

in 'A lógica das imagens', Wim Wenders, Edições 70

17.3.10

Fantastic Mr.Fox


Ao que parece 'Fantastic Mr.Fox', último filme de Wes Anderson, estreado o ano passado nos países civilizados, não vai mesmo estrear nas salas portuguesas. É uma má notícia. Muito má. Mas também há uma boa notícia e chama-se internet. Quer seja via Amazons, quer seja via torrents, hoje em dia não precisamos dos distribuidores portugueses para ver seja o que for. Não há nada como ver um filme no grande ecrã? É verdade, mas uma pessoa habitua-se a tudo e já me custou mais - bem mais - ter que ver um filme em casa em vez de me deslocar para o ir ver rodeado de adolescentes pipoqueiros. Depois queixem-se.

'Fantastic Mr.Fox' é a primeira animação (é uma stop-motion) de Wes Anderson e é baseada num clássico da literatura infantil de Roald Dahl (o autor de 'James e o Pessego Gigante' e 'Charlie e a fábrica de chocolate', ambos adaptados por Tim Burton). Mas é, do princípio ao fim, um filme de Wes Anderson (que adaptou o livro para o grande ecrã com Noah Baumbach).

O Sr. Raposo assentou, casou e tem filhos, mas não consegue deixar de roubar galinhas ("'sou um animal selvagem", justifica-se). Mas há 3 fazendeiros que não gostam nada disso e vão fazer tudo, mesmo tudo, para o capturar - metendo toda a bicharada num grande sarilho. Entretanto chegou um sobrinho, adolescente perfeito, que sai mesmo ao tio, contribuindo ainda mais para os problemas de afirmação do filho do Sr. Raposo, uma raposita 'diferente' (como lhe lembram constantemente), que debalde os seus esforços não consegue competir com a proezas atléticas do seu pai. E cá estamos nós com as famílias às voltas, ou não estivéssemos a falar de um filme de Wes Anderson...

'Fantastic Mr.Fox' é um prodígio de ritmo, de vivacidade, de musicalidade. E visualmente é tão espantoso como todos os filmes de Anderson. O habitual tom melancómico dos filmes do realizador é aqui menos melancólico e mais acelerado, muito por 'culpa' do fantástico Sr. Raposo que está sempre cheio 'de gás', todo ele é convicção e acção, características bem expressas na sua voz poderosa e musical, fabulosamente emprestada por George Clooney (que depois do decepcionante 'Nas nuvens' e do descartável 'Cabras que matam...', tem aqui o seu melhor 'papel' do ano).

A Senhora Raposo "'é" Meryl Streep, o seu filho Ash, Jason Schwartzman, o bom amigo Badger, Bill Murray e em papeis mais ou menos secundários encontramos outros membros da 'família Anderson' como Owen Wilson, Willem Dafoe (que entrou em 'The Life Aquatic…’), Adrien Brody (entrou em 'The Darjeeling Limited’), Roman Coppola (co-agumentista e realizador assistente de 'The Darjeeling…’)… além do próprio Wes e do seu irmão Eric Anderson. Ah!, e Jarvis Cocker tem uma espécie de cameo cantando uma musica (esperemos que também tenha sido adoptado para futuros projectos). E por falar nisso, ainda não falei na fantástica banda sonora, que além da partitura original composta por Alexandre Desplat inclui temas que vão dos Beach Boys aos Rolling Stones.

Os fãs da Pixar ou da Disney que me desculpem, mas esta é a melhor animação que vejo desde 'The Nightmare Before Christmas'. É um filme maravilhoso. Mais um, do fantástico Mr. Anderson.

Fantastic Mr.Fox, E.U.A., 2009. Realização: Wes Anderson. Longa metragem de animação.

Desaparecida!


No IMDB o género deste filme é: Comedy Mystery Romance Thriller. No cartaz acima vemo-lo anunciado como "Greatest of Hitchcock's thrillers!" e logo a seguir como "A Brilliant Melodrama".

'The Lady Vanishes/Desaparecida!' é isto tudo e muito mais. Sendo principalmente conhecido como um thriller (desde logo por ser realizado por Hitchcock...) é, tanto ou mais, uma comédia. Das absurdas; tem um argumento tão inverosímil que faria os irmãos Marx corar de inveja. Mais: todo o filme é um completo delírio.

Nunca a famosa 'suspensão da descrença' do espectador foi tão levada ao limite por um realizador. Tinha que ser Hitch, claro, o mais provocador deles todos.

The Lady Vanishes, Grã-Bretanha, 1938. Realização: Alfred Hitchcock. Com: Margaret Lockwood, Michael Redgrave, Paul Lukas, Dame May Whitty.

15.3.10

10 filmes da vida de...

...Ronald Perrone, 26 anos, designer gráfico, autor do Dementia 13, o meu blog preferido de "filmes B de terror, sci-fi, fantasia, ação, kung fu, western, tralhas, etc..." .


Kill Baby, Kill (1966), de Mario Bava
O horror gótico italiano em sua potência máxima, numa explosão de cores e exercício de cinema atmosférico. Uma das várias obras primas de Mario Bava!

Il grande silenzio (1968), de Sergio Corbucci
Na escolha de um spaghetti western, por que não o mais melancólico e trágico dentre todos os exemplares desse gênero magnífico?

Thriller: A Cruel Picture (1974), de Bo Arne Vibenius
Clássico do exploitation! Provocativo, psicodélico, explícito e uma das influência máxima de Tarantino em Kill Bill.

The Streetfighter (1974), de Shigehiro Ozawa
If you've got to fight... fight dirty!!!!

Profondo Rosso (1975), de Dario Argento
O giallo em sua forma mais cinematográfica, sob a batuta do genial diretor que consolidou o gênero.

Master of the Flying Guillotine (1976), de Jimmy Wang Yu
Filme de porrada bizarro! Um boxeador sem braço e um cego que corta cabeças com a guilhotina voadora são apenas alguns exemplos do que podemos encontrar aqui.

Rolling Thunder (1977), de John Flynn
Belo filme de ação com um dos maiores diretores americanos esquecido.

Two Champions of Shaolin (1978), de Chang Cheh
Se Shakespeare fosse chinês e amante das artes marciais, o mais próximo de sua obra seria esta obra prima do Kung Fu!

Zombie 2 (1979), de Lucio Fulci
A evolução de um dos gêneros mais transgressores! A cena do zumbi x tubarão é antológica!

Escape From New York (1981), John Carpenter
Sempre fico na dúvida se prefiro este ou The Thing entre os filmes do diretor. Hoje vai este aqui, que é tão genial quanto o outro.

Todas as semanas (mais ou menos!) um blogger cinéfilo fala aqui de 10 filmes da sua vida. O próximo convidado é o rf.

13.3.10

New York, I Love You



Embora, como se pode notar, acabe mais vezes a dizer mal que bem, a verdade é que não resisto a ver estes filmes em segmentos, cada um dirigido por um realizador diferente (aqui, aqui, aqui, aqui). Embora tenha perdido nas salas 'New York, I Love You', segundo episódio do franchise  'Cities of Love', depois de 'Paris Je t'aime', eis que o escolhi para uma noite chuvosa em casa.

De todos os projectos anteriormente citados, este é talvez o mais enigmático. Não tem própriamente um ponto alto, mas também não tem - e isso faz toda a diferença - pontos baixos. Os episódios vão-se ora sucedendo, ora se entrelaçando, numa fluidez melancólica, sem quebras de ritmo nem de tom, embalando o espectador no seu cadenciar morno mas próximo, com uma homogeneidade surpreendente. E depois vão desfilando uma série de caras, de várias gerações, que é sempre bom rever: Natalie Portman, Christina Ricci, Ethan Hawke, Chris Cooper, Robin Wright Penn, James Caan, Drea de Matteo, Julie Christie, John Hurt, Eli Wallach (o Don Altobello do 'Padrinho III'), Cloris Leachman (a mulher do treinador Popper,  que tem o romance com Sonny, no extraordinário 'The Last Picture Show')...

Donde, além de um retrato das muitas vidas de Nova Iorque, 'New York, I Love You' é também uma espécie de 'Hollywood I Love You' ,  vindo ainda por cima de um conjunto de realizadores que inclui um Japonês, um Chinês, dois Indianos, um Turco-Alemão e um Franco-Israelita!

New York, I love You, E.U.A., 2009. Realização: Realização: Fatih Akin, Yvan Attal, Allen Hughes, Shunji Iwai, Wen Jiang, Shekhar Kapur, Joshua Marston, Mira Nair, Natalie Portman, Brett Ratner.

12.3.10

Boa nova


Está aí mais uma edição das Folhas da Cinemateca, dedicadas a João César Monteiro, com textos de João Bénard da Costa, Luís Miguel Oliveira, Manuel Cintra Ferreira e Maria João Madeira.

(via O Funcionário Cansado)

10.3.10

Shutter Island


A carreira de Martin Scorsese até à data pode ser dividida, mais coisa menos coisa, em três fases. Uma primeira fase consensual, com várias obras-primas reconhecidas (já lá vamos), que irá até 'O Touro enraivecido', que se poderá prolongar um pouco mais, com um ou outro fogacho posterior (desde logo 'Tudo bons rapazes', que para a maioria dos seus fãs será a sua última obra-prima). Isto varia um bocado (eu, por exemplo, ponho o pouco amado 'Casino' ao nível das suas maiores obras), mas no essencial não será polémico. E numa coisa toda a gente está de acordo: nesta fase Scorsese deu ao mundo dois daqueles filmes "que mudam vidas": 'Taxi Driver' e 'O Touro enraivecido'.

A segunda fase será aquela em que o realizador perdeu a 'graça'. Como já se viu não é fácil determinar onde começa, mas inclui filmes como 'Kundum' (para muitos o seu filme mais fraco), 'A cor do dinheiro', 'A última tentação de Cristo', 'Por um fio', ou 'Gangs de Nova Iorque'. E haverá uma terceira fase, a 'fase Di Caprio' (o novo actor fetish depois do De Niro da época de ouro). Obviamente que simplificamos, mas penso que não estou a afastar-me muito do sentimento geral.

Esta terceira fase será tão polémica como a segunda (Scorsese nunca mais foi um cineasta de unanimidades), pelo que me vou restringir à minha opinião: 'O Aviador' não é grande coisa, mas ''The Departed' e este 'Shutter Island' são dois excelentes thillers. Mas, o "problema" (para o seu 'reconhecimento') é que 'Shutter Island' é, acima de tudo, um filme de argumento. Baseia-se num complexo livro de Dennis Lehane  (também o autor de 'Mystic River'), que joga numa data de tabuleiros, e tem um daqueles finais-reviravolta. Estes finais são sempre problemáticos e há quem diga que o teste para ver se um filme lhes sobrevive é se aguentamos uma segunda visão do filme. Eu ainda não o fiz, mas arrisco que sim. 'Shutter Island' tem ritmo, tem tensão, é brilhantemente filmado (inclusive quando arrisca, como nos flashbacks) e tem um actor em grande forma (Di Caprio, é verdade). Apetece dizer que é um grande filme à antiga, ou seja, na grande linhagem Hollywoodiana do film noir. O "problema" é... que não será um filme que mude a vida de ninguém. Esse Scorsese provavelmente não volta, mas toda gente exigirá (ou esperará) que sim. Daí as expectativas em seu torno serem sempre altíssimas.

Mesmo eu, que gostei bastante deste filme, reconheço facilmente que será provável encontrá-lo daqui a dez ou vinte anos num daqueles livros tipo '501 Thrillers You Should See Before You Die', mas não num '501 Movies You Should See Before You Die', onde, lá está, 'Taxi Driver' ou 'O Touro Enraivecido' terão lugar cativo (se a cinefilia ainda não tiver sido substituída por tops de vendas).

Shutter Island, E.U.A., 2010. Realização: Martin Scorsese. Com: Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Jackie Earle Haley, Elias Koteas, Ted Levine.

9.3.10

Estado de guerra

'Estado de guerra' começa com uma cena muito boa, plena de tensão angustiante, que o resto do filme não desmerece. Exceptuando uma única cena escusada - a da morte do médico 'ingénuo' - por demais previsível e explicativa - deixa a acção falar por si, dando-nos um excelente retrato da guerra. A imagem recorrente dos soldados americanos sobre enorme tensão, a terem de tomar decisões em segundos, enquanto são observados por rostos locais mudos e impassíveis é das mais emblemáticas que me lembro de entre os filmes sobre o Iraque. Aliás, este é o melhor filme sobre a actual guerra no local (tem havido bons filmes sobre o regresso dos soldados - 'No vale de Elah', por exemplo) - também porque é, coisa que nem sempre tem sido salientada, um muito bom filme de acção.

'The Hurt Locker' centra-se no Sargento William James, Will (excelente Jeremy Renner), um desadaptado (um viciado em adrenalina, chama-lhe um colega), que prefere a guerra à família. Não a 'defesa da pátria' ou algo no género, entenda-se, mas a emoção de desarmadilhar bombas no terreno à tranquilidade da vidinha com a mulher e o filho na terra. Repare-se que isto não nos é mostrado glorificando o campo de batalha, a la Rambo. Isto é-nos mostrado enquanto também nos é mostrada a dureza da guerra e percebemos que para a maioria do contingente é um sítio insuportável donde se quer pôr a andar o mais depressa possível (veja-se a cena da espera interminável dos soldados numa posição no deserto, enquanto não têm a certeza de que o campo está totalmente livre de inimigos). Will não é uma personagem de computador, é uma pessoa que põe constantemente a vida em risco, e sentimos que anda a abusar demais da sorte. Dar-nos a compreender Will- e personagem mais politicamente incorrecta no actual cinema americano é difícil - é o derradeiro trunfo deste filme.

The Hurt Locker, E.U.A., 2008. Realização: Kathryn Bigelow. Com: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse, Christian Camargo.

8.3.10

E o Óscar para o melhor comentário sobre os Óscares vai para...

Eduardo Pitta:

Sandra Bullock recebeu o óscar de melhor actriz. Por este andar, um dia Rui Santos (o da SIC) receberá o Prémio Pessoa.

E os meus planos para hoje à noite são...

...ver "Estado de guerra" (não, se tivesse ganho o 'Precious' ou o 'The Blind Side', os outros nomeados que não vi, eu não me daria ao trabalho de o fazer. Mas quero ver o tal 'Crazy Heart', que deu a estatueta ao grande Jeff Bridges).

7.3.10

Heartless


'Heartless' - vencedor do Grande Prémio Melhor Filme-Fantasporto 2010 - é o resultado do cruzamento entre o 'realismo Britânico' e o filme fantástico/terror. A realização é um pouco 'Guy Ritchie', mas o resultado final é mais original do que o que esta síntese consegue transmitir. E, como originalidade é coisa que não anda para aí aos pontapés, há que louvar este filme, que ainda levou para casa os prémios de melhor realizador (Philip Ridley) e melhor actor (Jim Sturges).

Heartless, Grã-Bretanha, 2009. Realização: Philip Ridley. Com: Jim Sturges, Timothy Spall, Clémence Poésy, Eddie Marsan, Joseph Mawle, Nikita Mistry.

5.3.10

Alice no País das Maravilhas


Gostei muito do 'lado Tim Burton' (todo aquele fantástico imaginário Burtoniano, das paisagem inóspitas à caracterização de todas as personagens); não gostei tanto do 'lado Senhor dos Anéis' (aí o último quarto do filme, com bicharocos e exércitos em batalha); quanto ao 'lado Lewis Carrol', bem, passou-me um pouco despercebido (talvez porque Burton o tomou como seu; mais do que o 'absurdo', ficou o 'diferente').

Tudo somado, o 'lado Tim Burton' chega e sobra para tornar o filme recomendável.

Alice in Wonderland, E.U.A., 2010. Realização: Tim Burton. Com: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Crispin Glover, Anne Hathaway e as vozes de Stephen Fry, Michael Sheen, Alan Rickman, Christopher Lee, Michael Gough, Timothy Spall.

4.3.10

Jennifer's Body


'Jennifer’s Body' é tão fraco, tão fraco, que uma pessoa nem sabe por onde começar a bater-lhe. Pelo argumento de Diablo ‘Juno’ Cody, de uma banalidade atroz? (Bandas de rock satânicas? Oferendas de virgens ao diabo? Raparigas transformadas numa espécie de vampiros? Piadolas secas? Booooring!) Pela realização ora incipiente ora ao melhor estilo série de TV teen de domingo à tarde de Karyn Kusama? Por Megan Fox (uma bimba a fazer de bimba)? Tudo aqui é requentado, bocejante, sem piada nenhuma.

Bom, nem tudo. Amanda Seyfried (uma miúda gira a fazer de caixa de óculos) ainda tenta dar alguma dignidade à coisa, mas enfrenta mais dificuldades contra tudo de mau que a rodeia, que a sua personagem contra as forças maléficas que aparecem na fita.

Por uma vez, o elogio vai para os distribuidores portugueses, que deixaram passar esta coisa ao largo, não despejando mais lixo desnecessário nas salas. Deste, desconfio, nem os teens conseguiriam gostar.

Jennifer's Body, E.U.A., 2009. Realização: Karyn Kusama. Com: Megan Fox, Amanda Seyfried, Johnny Simmons, Adam Brody, J.K. Simmons.

3.3.10

O mensageiro


O Capitão Tony Stone (Woody Harrelson) e o Sargento Will Montgomery (Ben Foster, o Russel de ‘Sete Palmos de Terra', para quem se lembra), têm uma das missões mais ingratas do exército americano: anunciar pessoalmente, ao familiar mais próximo, que um soldado morreu ‘em combate’.

O experiente Stone estabeleceu uma série de regras rígidas, que tenta incutir ao mais novo: não usar eufemismos, dar a notícia apenas ao tal familiar e vir embora sem tocar em ninguém, não esperar pelas pessoas – se não estão volta-se depois, etc. No fundo, são defesas, que a experiência lhe ensinou tornarem a tarefa um pouco mais fácil. Stone anda nos AA e criou uma pose dura que o ajuda a manter-se à tona.

Montgomery é mais novo, mais flexível, ainda não criou a carapaça impenetrável de Stone e não tem problemas em chocar com este quebrando algumas destas regras. Mas algo mais profundo o une ao seu superior: também ele anda perdido na pátria depois da sua comissão no Médio Oriente (onde sofreu mais que Stone) . A namorada de antes da guerra vai casar com outro (e o brinde que Will faz aos noivos é um ponto alto de cinismo desesperado), ele não se esqueceu dos companheiros mortos no Iraque, e não sabe o que fazer da vida.

Mas vê alguma luz ao fundo do túnel na pessoa de uma viúva a quem teve que dar a fatal notícia. Ao contrário de Stone, que tem a vida lixada e inextrincavelmente ligada ao Exército, ele ainda tem alguma esperança num futuro diferente.

Harrelson e Foster, dois excelentes actores, transmitem uma secura lacónica às suas personagens, tendo suporte na realização sem ponta de lamechice, mas não fria, do argumentista (de 'I'm Not There', por exemplo) Oren Moverman, que se estreia aqui atrás da câmara, e na sombria fotografia de Bobby Bukowski.

Um bom e sólido filme sobre as sequelas da guerra, que depois de ter ganho o Urso de Prata para o melhor argumento na Berlinale do ano passado, estreia agora por cá possívelmente por estar nomeado para dois Óscares (melhor argumento e melhor actor secundário - Woody Harrelson).

The Messenger, E.U.A., 2009. Realização: Oren Moverman. Com: Woody Harrelson, Ben Foster, Jena Malone, Eamonn Walker, Samantha Morton, Steve Buscemi.

2.3.10

(parênteses)

(demasiado cansado para sair de casa e ir ver o Shutter Island)