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8.4.08

O escafandro e a borboleta



Num filme em que por diversas vezes se fala em milagres, o maior de todos eles é o realizador Julian Schnabel conseguir levar o barco a bom porto. Se não com distinção, sem dúvida com nota alta.

Schnabel - que tinha como maior feito curricular no campo do cinema o facto de ter assassinado as impressionantes memórias de Reinaldo Arenas - consegue pegar na história de um homem que após ter ficado paralisado escreve um livro apenas piscando um olho, e fazer com ela várias coisas interessantes. Duas delas: rodeia o homem (Jean-Do/Mathieu Amalric) de um grupo de belíssimas mulheres (Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Olatz Lopez Garmendia, Marina Hands), que quer o sejam por sua imaginação, quer o sejam mesmo, é um verdadeiro achado; e pega muitíssimo bem no trabalho exaustivo que todo o pessoal médico tem que ter com Jean-Do, nomeadamente no facto de terem que repetir inúmeras vezes o alfabeto até ele assinalar a letra certa. Esta ideia só se poderia conseguir mesmo à base de inúmeras repetições e Schnabel não tem medo de as fazer. Outro aspecto interessante é o facto de esta paciência extrema nem sempre derivar de altruísmo, mas de motivos egoístas: uma das terapeutas diz-lhe que é o seu primeiro 'caso' e quer fazer dele um triunfo.

Como ponto negativo fica a tendência de Schnabel para divagar, para dar rédea livre à sua costela plástica, por assim dizer. Num filme em que muito se passa na cabeça do protagonista isso seria algo inevitável, mas ainda assim há umas imagens de uns glaciares, ou algo semelhante, com uma musiquinha de fundo, que eram francamente dispensáveis. Não obstante, o tom é bastante sóbrio e nunca lamechas. Pode-se falar mesmo de um triunfo da realização sobre uma história mais do que potencialmente piegas, ou a querer dar 'lições de vida'. Pelo contrário: fica um retrato de uma pessoa que revela uma força extraordinária, mas sempre com uma enorme auto-ironia, muito humana, nada dum santo coitadinho à Laurinda Alves.

Enfim, pelo facto de eu esperar tão pouco deste filme (e deste realizador), talvez me esteja a deixar levar longe de mais nos elogios (não é certamente uma obra-prima - ainda que consiga agradar àquele público que acharia a maior lamechice com este tema uma obra-prima), mas que foi uma agradável surpresa vê-lo, lá isso foi.
Le scaphandre et le papillon, França, 2007. Realização: Julian Schnabel. Com: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Patrick Chesnais, Max von Sydow.

2.1.08

Call Girl



'Call Girl' é aquilo que 'Corrupção' poderia ter sido mas não conseguiu: entretenimento de primeira apanha, indo buscar o argumento à actualidade dos jornais (neste caso em vez de futebolices temos corrupção envolvendo autarcas, promotores imobiliários e campos de golfe), apimentando a coisa com uma femme fatale (Soraia Chaves, imbatível neste campo) e colando as personagens à realidade através da exploração inspirada de uma característica 'de género' – o uso recorrente de palavrões (enquanto que 'Corrupção' falhava o brinde do sotaque à Porto). Não será uma obra-prima, certamente, mas é cinema mainstream com competência e inspiração acima da média.
Call Girl, Portugal, 2007. Realização: António-Pedro Vasconcelos. Com: Joaquim de Almeida, Nicolau Breyner, Soraia Chaves, Ivo Canelas, Sofia Grilo, Daniela Faria, Custódia Galego, José Raposo, Raul Solnado, Virgílio Castelo, Maria João Abreu.

30.12.07

Censurado



Talvez mais do que uma crítica à estratégia americana de invadir o Iraque, 'Redacted' seja uma cinica constatação de que é impossível os States ganharem qualquer guerra com o exército que têm. Não o das bombas inteligentes e mísseis teleguiados ao milímetro, mas o dos homens, mais adolescentes que homens na verdade, mal preparados, sem vocação, que apenas vão para o exército porque não têm outra oportunidade na vida. Que se estão a borrifar para as populações dos países ocupados, que só apanham da ideologia o que lhes interessa ("Viemos aqui trazer a democracia e nem nos agradecem!? Vamos é dar cabo deles!"), que não se regem por qualquer tipo de moral ou ética. Estão no exército com a mesma postura com que estariam num qualquer bando de rufias. Como diz cinicamente um soldado acusado de violação de uma iraquiana de 15 anos aos seus inquiridores: "podemos bombardeá-los, podemos matá-los, mas não os podemos foder?".

Neste prisma 'Redacted' é um inteligente documento de denúncia, pertinente e oportuno. Na forma, é que poderá estar o seu busílis. Simulando um documentário, com a maior parte das cenas supostamente filmadas por um dos soldados com câmara à mão ou fixada no capacete, tem os inconvenientes deste método do 'directo', dos falsos 'apanhados', sendo muitas vezes irritante, algumas monótono, outras ingénuo, por vezes simplista. A mim não me convenceu totalmente esta abordagem (que inclui também imagens de blogues árabes, e de um outro (falso) documentário francês), que ao pretender criar uma dupla ilusão (a normal de qualquer filme e a de um pretenso documentário), como que acaba paradoxalmente por se tornar ainda mais artificial. Mais do que um filme, parecia-me estar a assistir a uma exposição, não raro incómoda, de uma tese sobre o Iraque e o exército em geral.
Mas, tudo somado, não deixo de o recomendar.
Redacted, E.U.A., 2007. Realização: Brian de Palma. Com: Patrick Carroll, Rob Devaney, Izzy Diaz, Mike Figueroa, Ty Jones, Kel O`Neill, Daniel Stewart Sherman, Bridget Barkan, Zahra Kareem Alzubaidi.

28.12.07

Eu Sou a Lenda



Logo na cena inicial de 'Eu sou a lenda', uma estupenda sequência em que Will Smith num desportivo vermelho persegue um grupo de veados através de uma Nova Iorque fantasma, percebemos que esta terceira adaptação da novela de Richard Matheson vai ter pouco a ver com a que a precedeu, o esquecível 'The Omega Man', com Charlton Heston (nunca vi a primeira versão, 'The Last Man on Earth' com Vincent Price). E confirma-se. A câmara de Francis Lawrence mantém uma elegância e sobriedade surpreendentes ao longo de todo o filme, aguenta bravamente um longo período praticamente só com uma personagem em cena e vai instilando com calma e savoir faire um ambiente de suspense no ar. Quando é preciso passar à acção não perde a eficácia e cria mesmo momentos de tensão à altura dos melhores do género. Nem tudo é perfeito - há por lá às tantas assim uma espécie de momento místico (ele acredita em Bob Marley, ela em Deus) que era escusado e toda a filosofia subjacente do cientista-herói-obcecado, enfim - mas no global é um muito interessante filme de um género (suspense/terror) que não tem sido lá muito bem tratado. Uma boa surpresa para este final de ano.
I Am Legend, E.U.A., 2007. Realização: Francis Lawrence. Com: Will Smith, Alice Braga, Charlie Tahan, Willow Smith, Darrell Foster, Salli Richardson.

19.12.07

30 Dias de Escuridão



Imagine o leitor que é um vampiro: tem que passar os dias enfiado num caixão, ou algo no género, e só à noite se pode escapulir furtivamente para atacar uns pescoços. Agora imagine que existe um sítio em que é noite durante 30 dias consecutivos - uma terriola no Alasca. Bom! É uma tentação reunir um grupo de amigos e dar lá um saltinho para uma orgia de sangue, não? É nesta ideia fantástica (digo eu) que se baseia a graphic novel de Steve Niles e Ben Templesmith que '30 Days of Night ' adapta à tela.

Rapidamente, podemos dizer que '30 Dias de escuridão', realizado por David Slade (autor do curioso Hard Candy) tem uma competência geral bem acima da média do género (que como qualquer fã sabe, não é assim muito elevada). No entanto, e mesmo tendo gostado do filme, na minha opinião falha em dois aspectos chave: um - como filme de terror, que pretende ser. Não mete medo, não assusta, não sobressalta. Mesmo a chegada dos vampiros à pacata cidade, cena chave em qualquer fita do género, é mortiça e sem garra; dois - como filme passado no Alasca. Eu sempre tive um certo fascínio por este estado americano ali no meio do nada, mas infelizmente Hollywood não se tem virado muito para lá. Tirando o muito bom 'Insomnia', poucas vezes se tem explorado este território geográfico e humano. Aqui, Josh Hartnett (o policia-herói) ainda se sai com um 'nós somos diferentes das outras pessoas, por iso é que viemos viver para aqui', mas nunca o tema é bem explorado. E é pena.

Ainda assim, e voltando atrás, argumento, actores e realização estão a um nível bem razoável e este é um daqueles filmes que foram feitos para o crítico repetir uma vez mais o chavão: os fãs do género não sairão desiludidos.

30 Days of Night, E.U.A./Nova Zelândia, 2007. Realização: David Slade. Com: Josh Hartnett, Melissa George, Danny Huston, Ben Foster, Mark Boone Junior.

16.12.07

12:08 A Este de Bucareste



A primeira metade deste filme não nos prepara para o que vem a seguir. Durante 40 minutos temos uma espécie de apresentação das personagens, habitantes de Timisoara: um professor alcoólico, um velhote reformado que faz de Pai Natal (no tempo do regime comunista era algo como 'Pai Gelado') e um ex-engenheiro que montou uma estação de TV local, onde apresenta um programa daqueles em que os espectadores podem telefonar e entrar no ar em directo. O tom é 'realista', se bem me faço entender, e vai-nos dando um retrato melancólico e não muito optimista da Roménia pos-Ceausescu. Um bom retrato, mas que parece não se elevar muito.
Mas eis então que temos as três personagens reunidas no estúdio de TV: o apresentador convidou os outros dois nossos conhecidos para falarem das suas memórias do dia da queda de Ceausescu. Houve ou não uma revolução em Timisoara? Ou seja: as pessoas saíram para a rua antes ou depois de saberem da queda do ditador? Num golpe de asa genial, o filme metamorfoseia-se então numa caustica e impiedosa sátira que não poupa nada nem ninguém. São 45 minutos implacáveis, entre o feroz e o delirante, onde não só o 'povo' Romeno, mas no fundo todos os seres humanos (qualquer português se lembrará logo do famoso 'onde é que você estava no 25 de Abril?'), saem pessimamente na fotografia.
É um tour de force impressionante, que torna este vencedor da Câmara de Ouro (melhor primeiro filme) de Cannes 2006 num magnífico exemplo da 'nova vaga' Romena.
A fost sau n-a fost?/12:08 East of Bucharest, Roménia, 2006. Realização: Corneliu Porumboiu. Com: Mircea Andreescu, Teo Corban, Ion Sapdaru, Daniel Badale.

10.12.07

Peões em jogo



Tal como as suas personagens neste filme, mormente a que interpreta, Robert Redford acha que é obrigação dos americanos decentes fazerem alguma coisa e não se limitarem a encolher os ombros e assobiarem para o lado, enquanto uma administração incompetente leva o país para a ruína. Sendo assim, arregaçou as mangas e deu-nos este 'Lions for Lambs'. Só por este facto, por ser um 'filme de mensagem', tem sido deitado abaixo em muito lado. Eu não vou tanto por aí. Filmes políticos liberais há-os muito bons e Redford entrou mesmo num dos mais emblemáticos ('Os homens do presidente').
O seu pecado, quanto a mim, é ser maçador e convencional. Sendo o chamado filme de argumento e actores, o argumento não ultrapassa nunca a mediania, o que fere desde logo o projecto. Há aqui uma espécie de resumo dos argumentos liberais contra a guerra e a favor do empenhamento civico das pessoas, que é transmitido em duas longas conversas que formam dois dos três segmentos do filme, apresentados em montagem paralela. Esta estrutura prejudica o filme de duas maneiras: não só estes diálogos 'professor empenhado/aluno desinteressado' e 'senador ambicioso/jornalista desconfiada' transmitem um tom didáctico excessivo, como o terceiro segmento - passado num cenário de guerra no Afeganistão- acaba por se tornar numa espécie de corpo estranho ao filme, problema que o realizador nunca consegue resolver (apesar de até partir de uma boa ideia irónica - nem uma tecnologia hiper-sofisticada, que permite monitorizar em tempo real um combate a dezenas de quilómetros, consegue salvar os soldados quando estes foram postos em situações vulneráveis devido a erros estratégicos de palmatória).
Sobram então os actores: Redford, excelente, praticamente aguenta sozinho o seu episódio; por outro lado, se Meryl Streep está bem como sempre, nem ela é capaz de nos convencer da súbita ingenuidade e rebate de consciência de uma veterana jornalista politica de 57 anos. Tom Cruise pica o ponto e os restantes actores não têm grande coisa para defender.
Resumindo: é uma pena Redford ser bem melhor à frente da câmara do que atrás dela.
Lions for Lambs, E.U.A., 2007. Realização: Robert Redford. Com: Robert Redford, Meryl Streep, Tom Cruise, Michael Peña, Derek Luke, Andrew Garfield, Peter Berg.

3.12.07

Promessas perigosas



Um dos muitos motivos que fazem ‘Uma história de violência’ ser um dos filmes mais fascinantes dos últimos anos é o argumento, surpreendentemente adaptado de uma graphic novel: pegando num tema clássico, habitual nos westerns (o homem com um passado misterioso e violento, que tenta levar uma vida ‘normal’ - mas o destino não o permite), parte para uma inquietante reflexão sobre a contaminação pela violência. Em ‘Eastern Promises’ Cronenberg anda novamente à volta da violência, mas o argumento agora é mais ‘plano’, digamos assim. Talvez o realizador já tenha exposto as suas premissas teóricas no filme anterior e agora se ‘limite’ a ilustrar de uma outra forma o tema.
Assim ‘a quente’ (vi o filme ontem e ainda gostaria de o rever) não penso que estejamos na presença de uma obra-prima como o seu antecessor, mas não há duvida que possui uma vez mais um elemento de perturbação que só os maiores realizadores conseguem transmitir.
Se o argumento me parece mais fraco que o do seu antecessor (embora Vigo Mortensen componha novamente uma personagem fascinantemente ambígua, não há nenhuma personagem tão marcante como a de Maria Bello, por exemplo), ainda assim este filme não deixa de se inserir naturalmente no pessoalíssimo universo de Cronenberg - e esta capacidade de um realizador transformar uma história numa coisa sua é a mais segura marca autoral que conheço.
Não é difícil prever o que esta história daria nas mãos de um qualquer tarefeiro, mas podemos mesmo imaginar o que seria nas mãos de um Scorsese, para pegarmos noutro dos maiores. Seria muito diferente certamente, nomeadamente na maneira como nos são apresentadas as cenas de violência. Quem acha que não há aqui a 'marca de Cronemberg', que pense bem nisso.
Eastern Promises, E.U.A./Grã-Bretanha/Canadá, 2007. Realização: David Cronenberg. Com: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinead Cusack

2.12.07

Paranoid Park



Gus Van Sant prossegue pelo terceiro filme consecutivo o caminho iniciado com Elephant, esboçando retratos da juventude americana através de uma metodologia cinematográfica muito própria: narrativa não linear, que anda para trás e para a frente, que se repete e intercepta, longos planos destinados a criar o enquadramento estético e psicológico adequado, não a fazerem avançar a narrativa, principalmente de jovens a caminhar, ou a andar de skate, ou sem fazerem nada.
É um cinema que vive das imagens, da banda sonora, dos planos dos rostos dos seus actores, que pretende que o espectador entre no quadro mental das suas personagens (dependendo a aderência deste muito do quanto consegue penetrar neste mundo vazio e alienado que o realizador criou).
Mais do que em 'Elephant', muito mais do que em 'Last Days', pareceu-me que aqui tudo isto funciona muito bem, nesta história de um crime involuntário e dos sentimentos de culpa que ficam a ressoar no seu jovem autor: o rosto sempre um pouco triste e ausente de Gabe Nevins, vai ficar como uma das imagens mais fortes deste ano cinematográfico.
Paranoid Park, E.U.A./França, 2007. Realização: Gus Van Sant. Com: Gabe Nevins, Daniel Liu, Taylor Momsen, Jake Miller, Lauren McKinney, Scott Green.

30.11.07

Estrela solitária



'Don`t Come Knocking' oferece-nos algo como serviços mínimos de Sam Shepard e Wim Wenders. Há as suas marcas, os seus sinais, a atmosfera do seu universo, mas falta tudo o resto.
Estes ecos dum passado mais brilhante eram suficientes para dar vida a uma curta-metragem de dez minutos (o muito bom segmento de Wenders de 'Ten Minutes Older '), mas não chegam para uma longa de duas horas. Quando a história tem que se materializar, quando é preciso ir além do ambiente, o filme fraqueja claramente e desequilibra-se.
A sólida presença de Sam Shepard como actor (e a fazer de actor) e a breve aparição de Eva Marie Saint (a belíssima actriz de 'Há lodo no cais' e 'Intriga internacional', agora com mais de oitenta anos) são suficientes para o cinéfilo não dar o seu tempo por perdido, mas uma pessoa perde cada vez mais as esperanças de ver um novo grande filme assinado por Wim Wenders.

Don`t Come Knocking, França/Alemanha/Estados Unidos, 2005. Realização: Wim Wenders. Com: Sam Shepard, Jessica Lange, Tim Roth, Gabriel Mann, Sarah Polley, Fairuza Balk, Eva Marie Saint.

26.11.07

Shoot`em Up - Atirar a matar



'Shoot`em Up' é uma espécie de homenagem em tons de paródia aos filmes de acção em que um justiceiro solitário dá cabo de um exército inteiro de inimigos, sem nunca perder a coolness ou sofrer um arranhão. Clive Owen (excelente) é um atirador implacável (com um passado traumático, como é de regra), que se vê envolvido numa mirabolante e intrincada conspiração, tendo como adversário um batalhão de inimigos comandado por um lunático Paul Giamatti e contando apenas com a ajuda de uma prostituta que está apaixonada por ele (Monica Bellucci).

'Shoot`em Up' consiste basicamente numa enorme carnificina perpetrada pelo nosso herói, recorrendo por vezes a meios pouco convencionais (há uma antológica cena com uma cenoura - a sua imagem de marca - logo a abrir), nunca baixando os níveis de humor, inverosimilhança e espectacularidade, entrando mesmo numa lógica de desenho animado. Isto filmado a uma velocidade estonteante e com uma barulhenta banda sonora omnipresente (que vai dos Nirvana aos Motörhead!).

'Shoot`em Up' nem sempre escapa à palermice, mas a maior parte do tempo é muito divertido. É, digamos, um divertimento no mesmo comprimento de onda de um 'Planet Terror': está para os filmes de Lonely Rangers/007, como aquele está para os de zombies.
Na sessão onde o vi, o sucesso foi garantido: há muito tempo - festivais à parte - que não via uma sala a irromper em aplausos após uma cena mais inverosimilmente espectacular...
Shoot`em Up, E.U.A., 2007. Realização: Michael Davis. Com: Clive Owen, Monica Bellucci, Paul Giamatti, Stephen McHattie, Greg Byrk.

24.11.07

Luzes no Crepúsculo


No último capítulo da sua trilogia sobre a working class finlandesa, Aki Kaurismäki continua igual a si próprio e diferente de todos os outros. 'Luzes no crepúsculo' é um conto breve, triste e melancólico, mas com momentos de humor desesperado (Kaurismaki parece ter retido aquele segredo do cinema mudo de nos fazer rir com um simples plano) e até de esperança (apesar de tudo, há uma luz que nunca se apaga).
Kaurismäki filma muitíssimo bem, não há um plano a mais, nem um plano com um segundo a mais; a fotografia é deslumbrante e a banda sonora fantástica (e tristíssima). Mas nunca nos ocorreria classificá-lo de virtuoso: simplicidade e agudeza são as suas características. O que lhe permite ter um olhar simultaneamente analítico e caloroso para com as suas personagens marginais.

No início do filme, Kaurismäki, numa magnífica cena 'lateral', põe três transeuntes a falarem de escritores russos: Gorky, Tchéckhov, Tolstoi, Pushkin, Gogol (mas não de Dostoievski, apesar da principal personagem do filme não mexer uma palha para se salvar). Após vermos 'Luzes no crepúsculo', não podemos deixar de achar esta citação a alguns dos maiores contistas da literatura russa muito apropriada: talvez este cineasta do país vizinho, seja um dos seus mais dignos sucessores.

Laitakaupungin valot/Lights in the Dusk, Finlândia/Rússia, 2006. Realização: Aki Kaurismäki. Com: Janne Hyytiäinen, Maria Järvenhelmi, Maria Heiskanen, Ilkka Koivula, Sergei Doudko.

22.11.07

Um azar do caraças


Katherine Heigl e Seth Rogen: a bela e o bronco

Sinceramente, só me passou pela cabeça ir ver este filme depois dos meus caros confrades da Liga dos Blogues Cinematográficos o terem eleito como 'filme do mês' de Setembro. O que me ocorre dizer, menos de uma hora depois de ter saído da sala, é que deve ser o pior filme já eleito pelo pessoal da Liga...

Nem digo que seja uma porcaria completa - é até um filme simpático - mas achar que isto é bom, só se o termo de comparação for o 'Porky´s'. 'Um Azar do Caraças' é a enésima variação do enigmaticamente célebre 'Clerks', filme que teve o duvidoso mérito de trazer para a ribalta aqueles cromos de vinte e tal anos mas que se comportam como putos de quinze (daqueles mal educados), para os quais o expoente máximo da comicidade é alguém dar um traque.
Eu sei que há quem veja aqui o elogio da camaradagem masculina, a dificuldade de passar à idade adulta, um retrato geracional até, mas francamente, acho que é preciso muita boa vontade e óculos de aumentar. Eu nem precisava de ver nada disso, bastava que o filme me fizesse rir (é uma comédia, afinal de contas). Mas nem isso: o argumento é inverosímil e forçado (estamos no século XXI, caramba!, uma rapariga não tem que casar com o bronco que a engravidou), as piadas são básicas, todas as cenas com o 'grupo' de Seth Rogen são ou patetóides ou embaraçosas e mesmo ele, só para nos ficarmos pelo "Brat Pack", está a milhas dum Vince Vaugh. Digamos que um filme como 'Os fura-casamentos', suportado apenas em dois muito bons actores e numa mão cheia de boas piadas, faz figura de obra-prima ao pé deste.
Se isto é o 'futuro da comédia americana', vou ali e já venho.
Knocked Up, E.U.A., 2007. Realização: Judd Apatow. Com: Seth Rogen, Katherine Heigl, Paul Rudd, Leslie Mann, Jay Baruchel, Jonah Hill, Jason Segel, Martin Starr.

20.11.07

Beowulf



Quando me desafiaram a ir ver este filme pensei: ver a Angelina Jolie em 3D? Why not? As surpresas começaram na bilheteira: estava eu a dar os 4,20€ à menina, quando me são exigidos 6 euros... "é o preço para filmes 3D". Bom, toca então a desembolsar mais 1,80€ à custa dos óculos, que já não são de cartão, mas uma coisa a sério, não propriamente uns Ray-Ban, mas pelo menos semelhantes aqueles das lojas chinesas.

A tecnologia 3D já é bastante antiguinha, o próprio Hitch chegou a usá-la num filme (o excelente 'Dial M for Murder', que acabaria no entanto por passar em versão 'normal' em quase toda a parte), mas a verdade é que nunca pegou e já não me lembrava de ter visto um filme de óculos postos. Não há duvida que de início somos agradavelmente surpreendidos por termos a imagem bem em cima de nós, o que permite ao realizador brincar um bocado com coisas como pôr um objecto a vir mesmo na nossa direcção ou a sair mesmo defronte do nosso nariz (diga-se em abono de Zemeckis que ele não abusa muito destes truques). Acontece que este filme usa aquela técnica cada vez mais em voga de criar desenhos animados a partir de filmagens com actores (motion capture), ficando assim as personagens mais bonecos que seres de carne e osso, o que neste caso concreto nos remete para uma espécie de ambiente de videojogo. Nunca ninguém há de me conseguir explicar a vantagem, utilidade ou propósito desta técnica, mas adiante. Passado algum tempo já nos habituámos a toda esta tecnicagem, e a 'história', por assim dizer, fica entregue a si própria.

'Beowulf', como é sabido, é uma saga anglo-saxã que vem do século IX e que serviu de inspiração e modelo a muito do que veio depois, incluindo o mundo de Tolkien. Falamos de literatura claro, porque no caso do cinema passa-se o contrário e 'Beowulf', como tantos outros filmes 'fantásticos', é que é filho de 'Senhor dos Anéis'. Com 3D ou sem 3D, com mais ou menos animações computorizadas, não podemos deixar de o ver como mais um pálido sucessor das obras de Peter Jackson, que neste género atingiram um nível quase inultrapassável. Não que alguma ressonância do épico original não passe para a tela, nomeadamente um inusitado humor com forte carga sexual , mas é pouco quando temos um conjunto de personagens que nem em 3D têm qualquer tipo de profundidade, ou quando a carga mítica é fortemente diluida no aparato técnico.

No fundo é um filme para adolescentes: tem acção, fantástico, pouca profundidade, exige o mínimo do espectador e tem 'tecnologia' como eles gostam. E, enfim, um adulto pode não dar o seu tempo por mal empregue se encarar a coisa como um divertimento leve e uma oportunidade para voltar ao 3D - que embora não acrescente nada esteticamente ao filme, acaba por ser um ingrediente diferente numa refeição algo requentada.
Beowulf, E.U.A., 2007. Realização: Robert Zemeckis. Com: Ray Winstone, Anthony Hopkins, John Malkovich, Robin Wright Penn, Brendan Gleeson, Crispin Glover, Alison Lohman, Angelina Jolie.

18.11.07

Control


Duas revelações: Sam Riley e Alexandra Maria Lara

No início de 'Control' temos um rapaz metido consigo mesmo, complicado, mas com carisma e um brilho nos olhos. Para o final temos um homem que não sabe o que fazer da vida, se deixa a mulher se não deixa, se quer mesmo o sucesso que já parece inevitável, que desespera com os ataques epilépticos que vem sofrendo. 'Control', mais que o retrato do artista quando jovem, é o retrato da pessoa que perdeu o controlo da sua vida. Que quer fazer as coisas certas mas não consegue. É um retrato austero, rigoroso e e sem cair em nenhum tipo de cliché sobre artistas malditos - Ian conciliava a vida de popstar emergente com um emprego convencional, mulher e mais tarde uma filha. E é impecavelmente filmado por Anton Corbijn, com uma elegância e sobriedade inatacáveis, suportado por uma imaculada fotografia a preto e branco, e uma encarnação espantosa de Sam Riley em Ian Curtis.

A bem dizer é-me quase impossível encontrar um aspecto negativo neste filme, mas a verdade é que não aderi tanto a ele como gostaria. Talvez porque seja demasiadamente asséptico na sua elegância formal, talvez porque arrisque pouco - é tão bem feito que nem nos apercebemos da sua estrutura bastante convencional (por exemplo: inserir as canções reflectindo a vida pessoal do artista naquele momento é algo bastante óbvio, embora por vezes resulte bem). Talvez lhe falte alguma rugosidade, alguma sujidade.

Ainda assim, insisto, achei-o bom. Mas vai ter que que marinar mais algum tempo no meu espírito, até conseguir perceber bem porque é que não me agarrou emocionalmente - e logo a mim, que cresci a ouvir os Joy Division.
Control, Grã-Bretanha, Estados Unidos, 2007. Realização: Anton Corbijn. Com: Sam Riley, Samantha Morton, Joe Anderson, James Anthony Pearson, Harry Treadaway, Alexandra Maria Lara, Craig Parkinson.

16.11.07

Gangster Americano



O 'Gangster Americano' é Frank Lucas (Denzel Washington), o primeiro negro a chegar ao topo da hierarquia de venda de droga na Nova Iorque dos anos 70. E 'Gangster Americano' é um filme que se insere na nobre tradição americana de filmes de gangsters, ou seja, em que se conta pedaços de história do país através das 'classes criminosas'. Porque, mais uma vez, esta é uma história sobre o American dream: Lucas começou como motorista do rei da droga do Harlem e, graças às suas 'qualidades' (que incluíam o olho para o negócio e a violência em iguais doses) não só lhe sucedeu como o ultrapassou, chegando ao topo do topo, passando para trás a Máfia, constituída por brancos que o olhavam de cima.

Ridley Scott, de quem nunca sabemos bem o que esperar, não inventa nada neste filme, antes cumprindo com competência, rigor e pulso todos os códigos do género, entrelaçando com desembaraço o particular (o polícia incorruptível - olhado de lado pelos colegas por ter devolvido um milhão de dólares que apreendera! - mas incapaz de estabilidade na vida pessoal; o gangter assassino mas que põe a família em primeiro lugar - todos os Domingos acompanhava a mãe à igreja), com o retrato de grupo (a policia corrupta; o racismo da América da altura; o Vietname em pano de fundo).

Não obstante a estrutura clássica, que vai traçando linhas de início paralelas, mas que se vão estreitando cada vez mais, entre o polícia e o gangster, caçador e caça, o título não engana e é no Gangster Americano que Scott se centra mais. O facto de ser negro é-lhe vantajoso no início, pois ninguém na polícia acredita que um negro possa ser o patrão; mas, como o polícia Richie Roberts (Russell Crowe) o adverte, no final ninguém lhe vai perdoar isso. Todas as suas características que lhe permitiram subir a pulso, acabam depois por o deitar abaixo: a cor da pele; o seu código de honra (que o impede de negociar com polícias corruptos por os desprezar); a família como unidade nuclear (mas não inviolável, como descobrirá). E, ironia do destino, até a unica falha que tem na sua regra de conduta de máxima descrição será paga com um valor altíssimo. Mas se calhar não havia nada a fazer: era impossível um negro chegar lá acima e passar despercebido. O sonho americano tem um limite.

Falta a Ridley Scott maior subtileza para chegar à obra-prima, ao clássico que ambicionaria, mas consegue ainda assim um excelente filme que não desmerece a tradição de onde imana. E que é seguramente um dos melhores deste desconsolado ano cinematográfico.
American Gangster, E.U.A., 2007. Realização: Ridley Scott. Com: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Cuba Gooding Jr., Lymari Nadal, RZA.

11.11.07

Zidane, Um Retrato do Século XXI



E se durante um jogo de futebol a câmara seguisse, não a bola, mas apenas um dos jogadores? Foi esta a ideia da dupla de artistas Gordon Douglas/Philippe Parreno, que puseram 17 câmaras a apontar para Zidane num Real Madrid-Villarreal de há dois anos. Temos então 90 minutos de Zinedine Zidane, em plano americano ou em grande plano, com um plano de pormenor dos pés de vez em quando, um grande plano às vezes. A banda sonora alterna entre o som 'ao vivo' do estádio, e musica dos Mogwai com legendas a acompanhar. Nestas vamos lendo afirmações do jogador, como se alheia quase totalmente de tudo o que o envolve durante os jogos ou como a sua memória destes é fragmentada (e daí fazer sentido a musica - reforça este alheamento, esta quase introspecção do jogador).

O resultado é estranhamente fascinante, de início. Ficamos como que hipnotizados por Zidane, pela sua face concentrada, impassível (não há um sorriso), alheada. E sem dúvida que experimentamos uma outra maneira de ver o jogo - como algo solitário, em que cada jogador intervém pouquíssimo ao longo dos 90 minutos, algo em que não estamos habituados a pensar.

Mas também é verdade que ao fim de meia hora está tudo visto. Já assimilámos a ideia, já 'experimentámos' a obra, a partir daí torna-se algo cansativo. Fosse o filme/instalação/performance/o-que-se-queira-chamar exibido numa sala de um museu de arte contemporânea, e uma pessoa quando chegasse a um certo ponto ia dar uma volta e poderia voltar se lhe apetecesse. Eu como o vi em casa, fiz mais ou menos isso: 'vi' aí metade em 'segundo plano', enquanto ia fazendo outras coisas. Se tivesse assistido numa sala de cinema, desconfio que a incomodidade acabaria por vencer e me teria estragado o prazer genuíno que a primeira meia hora me deu...
Zidane, un portrait du 21e siècle, França, 2006. Realização: Douglas Gordon, Philippe Parreno.

10.11.07

A Invasão



Costuma-se dizer que um grande filme pode ser lido a vários níveis. Sobre os anteriores filmes baseados no clássico The Body Snatchers de Jack Finney, o veterano crítico Roger Ebert lembra que todos eles foram vistos como parábolas para o seu tempo. Invasion of the Body Snatchers de Don Siegel (1956) foi lido como um ataque ao McCarthyismo, o filme homónimo de Philipe Kaufman (1978) estaria com um olho em Watergate e finalmente Body Snatchers (1993) de Abel Ferrara (que Ebert considera o melhor) falaria sobre a propagação da SIDA.

Sobre 'A Invasão', Ebert acrescenta que não obstante se falar por lá do Iraque e mesmo do Darfur, não faz ideia de qual será a posição do filme sobre estes assuntos. É impossível não concordar com ele. Um filme em que uns 'esporos' vindos do espaço tomam o lugar de seres humanos, sendo que às tantas é difícil (ao contrário do caso dos Zombies!) distinguir quem já está infectado de quem não está (aqui a táctica é não mostrar emoções), tem a palavra 'parábola' escrita em letras garrafais. As pessoas mantêm a aparência mas já não são elas, são seres malignos, estão a ver? E quando as personagens desatam a falar do Iraque, há uma luzinha vermelha que começa a piscar instantaneamente no nosso cérebro: 'mensagem'; 'mensagem'. Mas... qual mensagem? 'Connosco não haveria Iraque ou Darfur', diz um dos esporos. Mas isso é bom ou mau? Será que afinal a mensagem é 'é melhor sermos humanos como somos e isso, claro, implica haver Iraques e Darfurs'? Ou será o contrário: 'a humanidade governa-se tão mal que merece ser invadida por uns quaisquer esporos'? Ou será outra qualquer? Não dá para perceber.

É sabido que a Warner Bros. não aceitou a versão final de Oliver Hirschbiegel (realizador de 'A Queda') e contratou os irmãos Wachowski e James McTeigue ('V de Vendetta') para a reformularem. O filme ressente-se naturalmente de todas estas mãos, e acaba por ficar numa estranha zona de ninguém.

Voltando ao início. Pode o leitor dizer: não quero saber de nada disso! E como filme sci-fi, como entretenimento, como meio de passar 1h30 a comer pipocas? Bom, eu direi que não se safa mal de todo. Mantém o suspense, dentro da tal zona de indecisão em que vive tem ainda assim uma certa concisão e, claro, tem uma excelente actriz que o leva ao colo. Os amantes do género não darão o dinheiro por mal empregue.
The Invasion, E.U.A., 2007. Realização: Oliver Hirschbiegel. Com: Nicole Kidman, Daniel Craig, Jeremy Northam, Jackson Bond, Jeffrey Wright, Veronica Cartwright.

7.11.07

Pintar ou fazer amor



Este filme estava na minha lista dos 'a ver' há já algum tempo, mas por um motivo ou outro foi ficando em stand-by, acabando por cair numa espécie de limbo, até que este muito divertido post mo trouxe de novo à memória.
Ultimamente tenho tido oportunidade de ver alguns filmes franceses da 'produção corrente', digamos assim - ou seja, que não são assinados nem por realizadores consagrados em actividade, como Chabrol, Rohmer ou Garrel, nem por realizadores mais jovens mas com 'nome feito' como Ozon ou Honoré. A qualidade média é, na minha opinião, semelhante à dos made in Hollywood. Ou seja, fracota. A diferença, parece-me, é que estamos tão fartos da trigésima quarta sequela, da vigésima sétima adaptação de um comic, da quinquagésima ressurreição de um herói musculoso de há 20 anos, que tudo o que foge deste parque infantil em que Hollywood se tornou é por nós recebido pelo menos com boa vontade e esperança.

E nisto, nos temas 'adultos' (diferente de 'profundos', ou 'relevantes', ou até bem tratados, entenda-se) os franceses, passe o cliché, não desiludem. 'Pintar ou fazer amor', por exemplo, apresenta-nos um casal (os grandes Daniel Auteuil/Sabine Azema) que se rende aos prazeres do... swinging (vulgo trocas de casais, esclareço os mais inocentes). De resto o argumento não vai para lá de uma leveza agradável, a realização é competente mas anódina, e no geral não se distingue grandemente daqueles filmes que passam na TV ao Domingo à tarde (bom, se excluirmos dois ou três nus - mas não quero que me acusem de carregar nos clichés sobre o cinema francês).

É desnecessário dizer que Renoir, Truffaut ou Rohmer estão entre os realizadores que mais gosto. Ou que 'Chansons d´amour' é um dos filmes que me irá ficar deste medianíssimo ano cinematográfico. Apenas as coisas são como são. Por cada filme marcante que vemos, há dez que esquecemos logo a seguir. E esta constatação não exceptua nacionalidades.
Peindre ou faire l`amour, França, 2005. Realização: Arnaud e Jean-Marie Larrieu. Com: Sabine Azema, Daniel Auteuil, Amira Casar, Sergi Lopez, Philippe Katerine, Hélène de Saint-Père.

6.11.07

Elizabeth - A idade de ouro


Um filme que é tão ostentoso quanto vazio.

Há dois adjectivos que me ocorrem sobre este filme: desnecessário e enfastiante. É um enorme desperdício: de meios (que não devem ter sido poucos, dado o vistoso aparato da coisa), de actores (Cate Blanchett e Clive Owen desde logo, para não falar de Samantha Morton que aparece umas 3 vezes antes de ser decapitada) e, principalmente, do tempo dos espectadores (são quase 2 horas que parecem o dobro). E nem falo sobre a veracidade histórica, que parece que deixa muito a desejar, pois nem tenho competência para me pronunciar, nem seria isso que me impediria de apreciar o filme, caso este tivesse algo mais de relevante para dar ao espectador. Mas infelizmente não tem. As personagens são de papelão (e nem falo dos Espanhóis, que parece que declamam em vez de falar), a banda sonora é pomposa e estridente, a realização académica, o argumento indigente. O embrulho é de luxo, mas o conteúdo é um bocejo.
Mais uma vez se verifica a regra que dita que nestas coisas de sequelas é sempre a descer. E ainda vem aí uma terceira parte...
Elizabeth: The Golden Age, Grã-Bretanha/França, 2007. Realização: Shekhar Kapur. Com: Cate Blanchett, Geoffrey Rush, Clive Owen, Abbie Cornish, Rhys Ifans, Samantha Morton, Jordi Mollà, Tom Hollander.