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12.2.07

As vidas dos outros



Este é um filme sobre um dissidente silencioso: um capitão da Stasi (a policia secreta da antiga RDA) que após décadas de 'bons' serviços prestados ao Estado, resolve proteger um dramaturgo do regime que se está a passar para o 'lado errado'. Um dos aspectos mais interessantes de 'As vidas dos outros' é nunca nos dar uma explicação objectiva sobre os motivos que levam o capitão Gerd Wiesler a pôr em perigo a sua carreira e até a sua vida para defender uma pessoa que não conhece. Talvez se tenha finalmente desiludido com o regime. Só se pode desiludir quem tenha tido ilusões, e sentimos que ele as teve, ao contrário do seu amigo e superior que manda investigar o escritor George Dreyman na esperança de descobrir qualquer desvio ideológico deste e, com essa denúncia, dar mais um passo em frente na carreira; ou do ministro da cultura que tem um motivo ainda mais prosaico para destruir Dreymen: cobiça-lhe a namorada, a actriz Christa-Maria Sieland.
O realizador Florian Henckel von Donnersmarck consegue-nos dar um retrato interessante do sinistro estado policial que era a RDA (a Stasi tinha 100.000 funcionários e 200.000 informadores), bem como do anónimo funcionário que consegue enganar este sistema orwelliano de vigilância e perseguição dos cidadãos (aqui especificamente dos intelectuais, sempre debaixo de olho neste tipo de regimes). Consegue também escapar quer ao visual telefilme, quer ao europudim, usando um estilo seco e asséptico, com uma fotografia áspera que combina bem com a desoladora paisagem de edifícios desumanizados da ex-RDA. Onde falha, na minha opinião, é na profundidade dos retratos das restantes personagens, que não conseguem escapar totalmente aos aquétipos e ganhar vida própria, não se conseguindo libertar o filme de uma certa ligeireza, de uma certa superficialidade, que contrasta com o tema que trata. Não podemos deixar de pensar que era possível, com esta matéria-prima, ir muito mais longe na exploração do lado obscuro dos seres humanos, daquilo que torna possível a perpetuação dos regimes baseados no medo, na eterna desconfiança de todos sobre todos.
Assim, fica apenas um filme simpático mas menor.
Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006. Realização: Florian Henckel von Donnersmarck. Com: Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck, Ulrich Tukur, Thomas Thieme.

5.2.07

Pecados íntimos



E mais uma vez o milagre repete-se: um realizador da área dos 'independentes' pega em meia dúzia de habitantes dum daqueles subúrbios com casas e jardins imaculados da classe média americana, e dá-nos um filme magnifico, alicerçado apenas num excelente argumento e num conjunto excepcional de actores.
Todd Field ao segundo filme como realizador já tem um domínio excepcional das regras dramáticas e cinematográficas, e partindo do dia a dia das suas personagens, das suas rotinas, do seu quotidiano, fala-nos daquilo de que estes filmes nos falam sempre: daquilo que está por trás da cobertura de chantili, daquilo que é mais profundo. Mostra-nos uma vez mais como as pessoas acabam por ser muitas vezes aquilo que não queriam ser, como a sociedade vai condicionando e orientando as nossas vidas mais do que aquilo que normalmente gostamos de admitir. Que a vida é toda feita de pequenas cedências, como nos diz uma personagem.
'Pecados íntimos' é um filme ora terno ora incómodo, ora sensual ora cómico, ora dramático ora sardónico; e deprimente, melancólico, inteligente; e sempre com uma atenção minuciosa às suas personagens, criando uma proximidade rara entre elas e nós, o público. É candidato a 3 Oscares - melhor argumento adaptado, melhor actor secundário (Jackie Earle Haley) e melhor actriz (Kate Winslet) - todos merecídissimos, mas provavelmente não vai ganhar nenhum. O mundo é injusto.
Little Children, E.U.A., 2006. Realização: Todd Field. Com: Kate Winslet, Patrick Wilson, Jennifer Connelly, Gregg Edelman, Jackie Earle Haley, Noah Emmerich, Phyllis Somerville.

1.2.07

Diamantes de sangue



'Diamantes de sangue' é, antes de mais, um retrato devastador da barbárie que tem atingido quase todo o continente africano nas últimas décadas. Trata-se aqui da guerra civil que assolou a Serra Leoa no início dos anos 90, mas podia ser noutra altura qualquer noutro país qualquer - todos os dias ouvimos vagamente nas noticias algo no género. Milícias rebeldes constituídas principalmente por crianças (orfãs, raptadas ou simplesmente deixadas para trás) doutrinadas à pressão, atacam aldeias e disparam em tudo o que mexa, exibindo uma especial ferocidade perante populações indefesas. Embora já tenhamos visto inúmeras imagens destas crueldades, inclusivamente na televisão (quem não se lembra da imagem do soldado americano a ser arrastado morto na Somália?), não deixamos de ficar impressionados pela forma tensa, seca, com um ritmo implacável, com que Edward Zwick filma estas orgias de violência (sendo que a fotografia acre de Eduardo Serra muito contribui para respirarmos este ambiente africano).
O pretexto para o realizador nos dar este retrato, é uma caça ao diamante por parte de um ex-mercenário e actual traficante sul-africano (DiCaprio, que aprendeu mesmo a representar com Scorcese), que se cruza com um pescador local vitima da guerra (Djimon Hounsou) e com uma jornalista 'de causas' americana (Jennifer Connelly). Também esta parte 'Indiana Jones' se revela surpreendentemente eficaz e bem feita, sempre no limite da inverosimilhança aceitável, como mandam as regras.
A terceira boa noticia é que o lado ideológico também é aqui bem tratado. Nada é a preto e branco, como por exemplo em 'Babel'. Não deixando de sugerir fortemente que a guerra interessa e é até fomentada pelo grande capital ocidental (os vendedores de diamantes), o realizador balança bem os diversos olhares, entre o cínico traficante, a aguerrida jornalista e os desiludidos habitantes locais ('se descobrem aqui petróleo então é que estamos perdidos', desabafa um deles). E uma frase de DiCaprio, dá o mote do filme: 'As pessoas não são boas nem más, são apenas pessoas'.
Para o fim o realizador vacila um pouco, não resistindo totalmente à tentação das boas intenções, mas nada que impeça 'Diamantes de sangue' de ser uma muito boa surpresa.
Blood Diamond, E.U.A., 2006. Realização: Edward Zwick. Com: Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou, Jennifer Connelly, Arnold Vosloo, David Harewood.

28.1.07

Scoop



É relativamente consensual: desde 'Crimes e escapadelas' toda a gente acha que Woody Allen anda a fazer filmes menores (uma corrente menos pessimista dirá desde 'As faces de Harry'). Menores no contexto da obra de Allen, bem entendido, que tem aí uma dúzia de obras-primas. Posto isto, cada um tem o seu 'Woody menor' de estimação. 'Match Point' teve mesmo tantos adeptos que foi considerado um 'Woody maior' e foi até visto como um renascimento do realizador. Mas talvez isto se tenha devido ao facto de ser um filme mais sério que as comédias ligeiras que vinha fazendo, pois mais uma vez era uma variação sobre um tema anterior (o crime sem castigo, tratado de forma superior em 'Crimes e escapadelas'). 'Scoop' é mais um destes filmes 'menores', em que Woody volta a terrenos familiares: há uma investigação de um crime (como em 'O misterioso assassínio em Manhattan'), há um mágico (como em 'A maldição do escorpião de Jade), há a upper class Londrina como background, Scarlett Johansson como actriz principal (como em 'Match Point'). E novamente 'Scoop' é um filme inteligente, bonito e com gags de primeira água. E com um excelente elenco, com natural destaque para La Scarlett e, claro, Woody Allen novamente a fazer de si próprio depois de um interregno de dois filmes. Voltando aos tais 'Woodys menores', eu diria que este é de primeira apanha - o que significa que aposto que não vai haver uma dúzia de filmes melhores que este no presente ano...
Scoop, Grã-Bretanha/E.U.A, 2006. Realização: Woody Allen. Com: Scarlett Johansson, Hugh Jackman, Woody Allen, Ian McShane, Romola Garai, Charles Dance, Anthony Head.

24.1.07

Assalto e intromissão

Depois de ‘Caché’ (franceses e argelinos), depois de ‘Babel’ (americanos e mexicanos e mais uns quantos), eis mais um filme para burgueses ricos e gordos expiarem a sua má consciência ocidental em relação aos imigrantes do terceiro mundo.
Aqui é um jovem arquitecto londrino de sucesso, que planeia requalificar uma zona degradada de Londres (King´s Cross) e prefere não acusar o jovem bósnio que lhe assaltou o atelier e envolver-se antes com a sua mãe, muçulmana. E para desabafar as agruras da vida escolhe uma prostituta de leste, já que com a sua mulher (sueca), não consegue falar. Eu, sinceramente, já não dou para este peditório e achei mesmo ‘Assalto e Intromissão’ do mais bocejante que tenho visto ultimamente. A personagem de Jude Law (que tarda em ter o seu ‘Departed’ e provar que é actor), ora cidadão consciente exemplar, ora cobarde com problemas morais sub-‘Match-Pointianos’, raia mesmo o exasperante. Mas talvez seja eu que não tenho ‘sensibilidade para estas problemáticas’, como já me disseram. Seja.
Quanto ao resto, o que fica para lá do argumento, Minghela sabe do seu ofício e o embrulho é bonito as usual. É sempre um prazer ver Londres no grande ecrã, bem filmada ainda por cima, é bom rever a grande actriz que é Juliette Binoche, é óptimo ter notícias de Robin Wright Penn, actriz rara e bela. Quase que vale a pena ver o filme por elas as três.
Breaking and Entering, Grã-Bretanha/E.U.A., 2006. Realização: Anthony Minghella. Com: Jude Law, Juliette Binoche, Robin Wright Penn, Rafi Gavron, Martin Freeman, Ray Winstone, Vera Farmiga, Poppy Roger

22.1.07

Caos



Ainda não terminou o mês 1 e já temos direito ao primeiro heist movie do ano, género que ultimamente não se tem distinguido por dar ao mundo grandes obras-primas, mas que tem os seus fãs (entre os quais me incluo) e vai mantendo a sua quota de mercado. O que dizer então deste 'Caos', escrito e realizado pelo desconhecido Tony Giglio? Brevemente: tem uma realização competente e eficaz; tem um muito bom actor (Ryan Phillippe, que também podemos ver em 'As bandeiras dos nossos pais'), um que se limita a picar o ponto (Wesley Snipes) e um canastrão (Jason Statham); tem um argumento que não desilude (tendo alguns pontos de contacto com 'Infiltrado' de Spike Lee) e que, embora o espectador mais batido não tenha dificuldade em prever a cambalhota final da praxe, até acaba num último fôlego por surpreender. Ou seja: os tais fãs do género não darão o seu tempo por mal empregue; os restantes mortais podem-se abster.
Chaos, Canadá/Grã-Bretanha/EU.A., 2006. Realização: Tony Giglio. Com: Jason Statham, Ryan Phillippe, Wesley Snipes, Justine Waddell, Henry Czerny, Nicholas Lea.

16.1.07

As bandeiras dos nossos pais



'When the legend becomes fact, print the legend', diz-se em 'O homem que matou Liberty Valance', um dos maiores westerns da história do cinema (e até um dos maiores filmes da história do cinema). O tema de 'As bandeiras dos nossos pais' no fundo é esse, mas mostrando-nos os danos colaterais dessa máxima. Não importa que os soldados que aparecem na famosa fotografia de Joe Rosenthal não fossem os que arriscaram a vida para pôr a bandeira americana no cume de Iwo Jima. Eles é que ficaram na fotografia e por isso são transformados em heróis pela máquina da guerra, que precisa deles para angariar dinheiro para a sua causa. Mas, ao contrário de James Stewart no filme de Ford, aqui os três soldados não só não estão preparados para serem heróis, como sentem mesmo que estão a colaborar numa impostura. O índio Ira Hayes (o mais americano deles todos, como lhe diz hipocritamente um político) não se sente mesmo nada bem nesse papel e acaba por se afundar.
'As bandeiras dos nossos pais' tem uma estrutura complicada, com três tempos narrativos diferentes e uma montagem complexa. Há uma parte passada no presente (que serve para criar um narrador) e uma que é a parte filme de guerra propriamente dito - a tomada de Iwo Jima - que é naturalmente bem feita e eficaz, mas que não acrescenta nada ao género - é assim algo spielbergiana. Onde o filme falha, porém, é na parte que verdadeiramente interessa ao realizador e a que já aludimos. Aquele sopro trágico que anima as personagens de 'Mystic River' e 'Million Dollar Baby', está aqui tragicamente ausente. A personagem que mais incarna essa inadaptação à condição de herói à força, que mais resiste ao sistema hipócrita que alimenta e se alimenta da guerra (os políticos, as altas patentes, os negócios), Ira Hayes, é demasiadamente simplista e arquetípica. Mal põe os pés em terra, já está a afogar as mágoas no álcool - percebemos, claro, as intenções do realizador, mas pretendíamos ser tocados pela personagem, irmos entrando dentro dela - não porem-nos um cartaz à frente a dizer 'Atenção: inadaptado que se refugia no álcool'.
'As bandeiras dos nossos pais' é assim, na minha opinião, uma obra menor na filmografia dum dos maiores realizadores da actualidade. Mas não deixa de ser interessante ver como é ele a dar esta machadada na máquina da guerra, em tempos de Iraque... A liberdade de pensar por si e fazer o que lhe apetece, ninguém a tira a Clint Eastwood.
Esperemos agora pelo final de Fevereiro para assistirmos à segunda parte do díptico ('Letters from Iwo Jima'), e revermos (ou não) a nossa posição sobre este filme.
Flags of Our Fathers, E.U.A., 2006. Realização: Clint Eastwood. Com: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, Jamie Bell, Barry Pepper, Tom Verica, Paul Walker, Robert Patrick, Neal McDonough, Joseph Cross, Melanie Lynskey.

15.1.07

Body Rice



Uma adolescente deitada na cama fuma cigarro após cigarro. Outra vagueia sem rumo pela paisagem alentejana. São alemãs e vieram para o Alentejo, tal como muitos seus compatriotas ‘problemáticos’, integradas em programas de reinserção social. ‘Body Rice’ acompanha o seu dia-a-dia, que consiste basicamente em não fazer nada. Desenraizados, deslocados, vivem numa espécie de vazio existencial e apatia emocional. Não sabemos se têm esperanças, o que pensam da sua situação, se sairão daqui de modo a ser ‘reinseridos’ na sociedade. Sobre isto o realizador nada nos diz. Limita-se a dar a ver, a filmar estes corpos à deriva no deserto Alentejano. Improvisam-se algumas raves, ouve-se música industrial e electrónica (Einsturzende Neubaten, Xmal Deutchland, etc.), há algum sexo fortuito, mas a vida social fica-se por aí. Durante o filme inteiro não há mais de meia dúzia de diálogos. Não passará despercebido a ninguém que a cena mais calorosa do filme se dá entre uma rapariga e...um robot de brincar.
‘Body Rice’ é mais um filme português que teima em ser diferente. Que parte duma matéria-prima interessante e a trabalha dum modo inesperado - tem-se falado que dilui a fronteira entre cinema e artes performativas, e é uma maneira de pôr as coisas. Quem só entende o cinema como algo narrativo, com princípio, meio e fim, deve-se abster. Quem arriscar, tem direito – no mínimo – ao primeiro OVNI do ano.
Body Rice, Portugal, 2006. Realização: Hugo Vieira da Silva. Com: Alice Dwyer, Luís Guerra, André Hennicke, Pedro Hestnes e Julika Jenkins.

5.1.07

Apocalypto



Apocalypto é um épico histórico de grande entretenimento, na linhagem de um Ben Hur, por exemplo. Mas enquanto já todos vimos Gladiadores que cheguem e estamos familiarizados, não direi com a Roma antiga, mas pelo menos com a Roma Hollywoodiana, aqui somos surpreendidos com a estranheza da civilização Maia. Mel Gibson, com a sua reconhecida tendência para a sanguinolência, dá-nos um retrato brutal deste povo, que organizava sacrifícios humanos em massa, e vivia numa opulência decadente, achando ser o povo escolhido. Temos mortes por decapitação, apunhalamento, por pancadas com paus e pedras, com armadilhas para animais, com setas envenenadas e lanças, esfacelamentos por animais selvagens, e há até corações arrancados enquanto ainda batem.
Mel Gibson não tem medo dos riscos, atrevendo-se a fazer um filme destes com actores desconhecidos e falado no dialecto local, mas falta-lhe algo que leve Apocalypto a transcender o estatuto de filme de aventuras eficaz e personalizado que sem dúvida é. A falta de um olhar mais forte do outro lado da câmara nota-se quer em cenas grandiosas como a do eclipse durante o sacrifício (claramente desperdiçada), quer naqueles pormenores que fazem a diferença. Por exemplo, há uma cena em que o 'herói' faz uma pausa na sua fuga de um grupo de inimigos e afirma bem alto algo do género 'eu sou Pata de jaguar, esta floresta é minha' . Pretende ser um momento de afirmação da distinção deste homem, mas não podemos deixar de sentir estas palavras se não como um eco ténue e esbatido das famosas palavras ensandecidas de Don Lope de Aguirre, numa dessas mesmas florestas, murmurando 'Eu sou Aguirre, a cólera de Deus'. É este sopro visionário de um Herzog que falta a Mel Gibson enquanto realizador, se bem que o tenha enquanto produtor de projectos loucos - há sem dúvida algo de iluminado numa star que arrisca parte da sua fortuna num projecto como este.
Falhando a profundidade, digamos assim, Apocalypso acaba por ser na sua superficialidade uma espécie de filme histórico pós-moderno, versão gore, tal como Marie Antoinette o era numa versão pop - mas enquanto este o era assumidamente, o de Gibson talvez só o seja porque não teve fôlego para mais.
Apocalypto, E.U.A., 2006. Realização: Mel Gibson. Com: Rudy Youngblood, Dalia Hernandez, Jonathan Brewer, Morris Birdyellowhead, Raoul Trujillo, Rodolfo Palacios.