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21.5.07

Zodiac



'Zodiac' é a história de uma obsessão. Desde logo de David Fincher, que a transfere para os seus personagens, o jornalista Paul Avery/Robert Downey Jr., o inspector David Toschi/Mark Ruffalo e o cartoonista e investigador amador Robert Graysmith/Jake Gyllenhaal (é aliás muito interessante a passagem de testemunho entre as personagens principais). Fincher dá-nos um relato minucioso, hiper-detalhado e asfixiante das investigações à volta dos assassínios do Zodíaco, um serial killer que aterrorizou a área de S.Francisco na década de 60 (ambiente que Fincher, então criança, testemunhou). Mais do que uma fotografia da sociedade americana dessa época (os hippies, etc., etc.), mais até que uma análise do comportamento obsessivo, Fincher procura (e consegue) envolver-nos no ambiente de paranóia, de obcecação, de isolamento de tudo o resto, que os seus personagens sentem e que os vai destruindo a todos. Para isso serve-se de dois dos seus maiores trunfos enquanto realizador, a construção de ambientes e o ritmo imparável, e deixa de fora os seus maiores defeitos, aquela estridência e obsessão com o truque final que até são a sua imagem de marca.
Como resultado, obtém aquele que é, de caras, o seu melhor filme.
Zodiac, E.U.A., 2007. Realização: David Fincher. Com: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Anthony Edwards, Chloë Sevigny, Brian Cox, Dermot Mulroney, John Carroll Lynch.

14.5.07

Quebra de confiança



Não é fácil dizer mal de 'Quebra de confiança'. Tem um excelente naipe de actores (Chris Cooper, Ryan Phillippe, Laura Linney), uma magnífica fotografia (de Tak Fujimoto, que já trabalhou com Shyamalan ou Jonathan Demme, por exemplo), um argumento interessante, baseado num caso real de um traidor de dentro do FBI, e uma realização discreta e com um certo travo clássico. E no entanto...
Comecemos pelo argumento, pois penso que aqui se centram algumas das brechas do filme. Este estrutura-se num jogo do gato e do rato: de um lado o veterano e experiente agente Hanssen (Cooper), suspeito de passar informação à União Soviética, do outro o novato candidato a agente, Eric O'Neill (Phillippe). A missão deste é desmascarar o primeiro, missão tão difícil quanto Hanssen é precisamente um experimentado e competente agente de espionagem e contra-espionagem, não sendo facilmente iludido. Para o conseguir O'Neill joga com os pontos vulneráveis do seu chefe, decorrentes da imagem que ele construiu: profissionalmente um homem poderoso e importante, que só não subiu ainda mais na carreira devido à sua integridade, e em privado um católico devoto e intransigente. Naturalmente que a ideia é boa: servir-se da vaidade e do ego de alguém frio, inacessível e manipulador, para tentar furar essa carapaça, mas na prática parece tudo um pouco lasso e, nos momentos chave, Hanssen demonstra sempre uma ingenuidade pouco credível perante o seu inexperiente funcionário.
Por outro lado, o subplot da mulher de O'Neill, da dificuldade que um agente de uma organização como o FBI tem em conciliar a sua profissão com a familia, também é algo banal e pouco desenvolvido, não tendo a bela Caroline Dhavernas grande personagem para defender.
Dir-se-á que isto são pormenores, e são-no, mas contribuem para uma certa quebra de confiança do espectador no filme; tal como a realização, que tem o tal travo clássico que já referimos, mas a que falta aquele golpe de asa dos grandes realizadores para elevar o filme acima de uma certa monotonia competente.
Numa época de Homens Aranhas, apetece sinceramente simpatizar com um filme como este, que nem é de desprezar, mas não podemos deixar de pensar que está cada vez mais a desaparecer um certo savoir-faire que existia em Hollywood, que cada vez é mais difícil encontrar surpresas fora da meia dúzia de realizadores do costume...
Breach, E.UA., 2007. Realização: Billy Ray. Com: Chris Cooper, Ryan Phillippe, Laura Linney, Caroline Dhavernas, Gary Cole, Dennis Haysbert, Kathleen Quinlan, Bruce Davison.

9.5.07

Climas



Nas férias de Verão um casal discute por uma coisa de nada, e passado pouco tempo ele diz-lhe que é melhor separarem-se. Vai cada um à sua vida. No Outono ele deambula por Istambul, não consegue acabar uma tese, procura uma antiga amante, planeia umas férias a só num clima mais ameno. Quase no final do filme, no Inverno, resolve ir tentar recuperá-la.
É só isto, o argumento de 'Climas'. Acrescente-se que os esparsos diálogos do filme não vão além de assuntos triviais. Tem-se falado muito de Antonioni a propósito do turco Nuri Bilge Ceylan, mas aqui o ambiente é, não diria mais caloroso que é excessivo, mas mais próximo, apesar de tudo. É mais fácil identificarmo-nos com estas personagens, muito de carne e osso, incluindo o seu lacónico e opaco protagonista (interpretado pelo próprio realizador, tal como a sua mulher interpreta a outra metade do casal). Há muito tempo que não via um filme em que sentisse tanto a vida como ela é. As irritações, os sentimentos mal expressos, o orgulho, o egoísmo, as coisas mal resolvidas. Os pequenos nadas que inquinam uma relação.
'Climas' tem ainda um final estupendo e é, de longe, o melhor filme estreado este ano que vi até à data.
Iklimler, Turquia/França, 2006. Realização: Nuri Bilge Ceylan. Com: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan, Nazan Kirilmis, Mehmet Eryilmaz, Arif Asçi, Can Ozbatur.

6.5.07

Shortbus



'Shortbus' parece-se com muita coisa e não se parece com nada. É desde logo herdeiro dos já famosos filmes-mosaico tipo 'Magnolia', de um certo tipo de cinema independente americano mais underground, mas deve também muito a alguma da melhor ficção televisiva actual ('L World', por exemplo). Por outro lado as suas (muitas) cenas de sexo explicitas (hetero e homossexual, principalmente gay) afastam-no de quase tudo o que anda por aí.

Apesar desta obsessão com o sexo - todas as personagens passam a vida a fazer sexo ou a falar sobre sexo - este é um ponto de partida e não um ponto de chegada, sendo o filme acima de tudo sobre as carências das suas personagens, sobre a solidão, sobre a impossibilidade de ser feliz, a um, a dois, a três, sobre a dificuldade de comunicação. Não é por acaso que várias personagens filmam ou fotografam situações da sua vida ou da dos outros: é como se precisassem de um intermediário para apreenderem o mundo.

'Shortbus' não dispensa no entanto momentos de optimismo, de excesso, de devaneio, de uma certa exuberância anarquista, como quando irrompe pelo ecrã uma banda húngara, ou quando temos um numero tipo teledisco. Há uma grande liberdade para deixar as coisas fluírem, não há aquela necessidade de seguir um guião e contar uma história em x tempo, como nas séries televisivas. E há também um certo prazer voyeuristico do espectador, perante esta não muito dolce vita dos personagens, mas ainda assim com mais glamour do que a vida de quem tem que se preocupar com o preço das fraldas ou o empréstimo da casa.

Não fica muito claro o porquê das tais cenas de sexo explícito, mas... so what? Talvez tenham sido um ponto de partida, a ver o que dava a partir daí. E, pelo menos, 'Shortbus' é o melhor filme com sexo explícito que já vi.

Shortbus, E.U.A., 2006. Realização: John Cameron Mitchell. Com: Sook-Yin Lee, Paul Dawson, PJ DeBoy, Lindsay Beamish, Peter Stickles, Justin Bond, Raphael Barker, Peter Stickles.

4.5.07

Venus



'Venus' é um filme esquecível, com muitos momentos embaraçosos e quase nenhuns memoráveis. Mas há uma cena, quando os amigos de Maurice vêem o seu obituário no jornal, uma página inteira com a sua fotografia em destaque, a que nenhum cinéfilo pode assistir sem alguma comoção. A foto é de um jovem Peter O'Toole, aí por alturas de Lawrence da Arábia, e a personagem transforma-se completamente no seu actor. É o obituário de Peter O'Toole que estamos a ver, e isso não pode deixar de nos emocionar.
Venus, Grã-Bretanha, 2006. Realização: Roger Michell. Com: Peter O`Toole, Jodie Whittaker, Leslie Phillips, Richard Griffiths, Vanessa Redgrave.

20.4.07

Missão solar



'Missão solar' é um filme que aponta em várias direcções e, na minha opinião, falha-as todas.
Desde logo falha no mais básico: o conjunto de actores é péssimo e tem cenas supostamente tocantes que são dum amadorismo confrangedor. Dois exemplos: quando uma das tripulantes de Icarus II (até o nome da nave soa pretensioso) declara que é contra a morte de um dos outros tripulantes, fazendo um discurso empolgado (enquanto olha para a câmara) do tipo "sei que esperam o meu voto, mas o meu voto só pode ser não!', temos um digno exemplo da expressividade de uma aluna de 10 anos a fazer o seu primeiro papel no sarau da escola; ou quando outra tripulante morre com uma pequena flor na mão, símbolo da vida, numa metáfora subtilíssima...
Depois, 'Missão solar' desperdiça uma ideia simples e intrinsecamente verdadeira, que por si só tem sustentado tantos filmes de terror: que a principal causa de desgraça de um grupo exposto a uma situação de extrema dificuldade e pressão, é interna, ou seja é a desunião do grupo, a irracionalidade das pessoas que se viram umas contra as outras em vez de cooperarem para combater o inimigo externo comum. Aqui tudo é tratado vagamente, superficialmente, não conseguimos entrar dentro de uma única personagem, desde o início que parecem todas profundamente egoístas e ilógicas, tanto mais de estranhar quando se trata de um grupo de cientistas supostamente muito bem preparados para uma missão de alto risco e dificuldade. E quando há a peregrina ideia de enfiar na nave um elemento externo, aí o filme descamba totalmente, sendo-nos servida uma mistura intragável de metafísica primária com (mau) filme de terror série Z .
Resumindo: como filme de FC versão terror é totalmente inócuo; como filme de FC versão metafísica não vai além do 'somos todos feitos de pó e não devemos brincar aos Deuses', ainda por cima apresentado de uma forma atabalhoada e grosseira; como devaneio visual é um sub-sub-2001, apostando quase tudo numa má banda sonora intrusiva e numa montagem agressiva mas pouco imaginativa. Nem por um segundo nos consegue envolver naquele imaginário algo místico que o espaço nos inspira pelo menos desde 2001, algo que um filme de certo modo falhado como 'The fountain' consegue, para o bem e para o mal.
Tão fácil é enumerar os defeitos de 'Missão solar', que o leitor até poderá ficar com a ideia que é um filme péssimo ou até um grande falhanço. Mas nem sequer isso é: é apenas um filme aborrecido e pouco original.
Sunshine, Grã-Bretanha, 2007. Realização: Danny Boyle. Com: Cillian Murphy, Chris Evans, Rose Byrne, Michelle Yeoh, Cliff Curtis, Benedict Wong, Troy Garity, Hiroyuki Sanada.

13.4.07

O atirador



Já aqui confessei que sou fã de um certo tipo de thrillers que nem sei muito bem definir, algo difuso que abarca desde filmes policiais a filmes de suspense. Neste campo não sou muito exigente: não vou à espera de ver nenhuma 'Intriga Internacional'. Desde que tenha um actor competente (ponto importante! um canastrão tipo Van Damme deita tudo a perder), a companhia feminina não deslustre e as cenas de acção sejam despachadas, eficazes e não tenham explosões em câmara lenta com musica de Vangelis, já me dou por satisfeito. Nem exijo muito ao argumento, apenas que não atrapalhe.
'O atirador' cumpre os três primeiros requisitos: Mark Wahlberg dá muito boa conta do recado, temos duas belas actrizes, Kate Mara no género cheerleader e Rhona Mitra num género mais sofisticado (por sinal duas actrizes que conhecia de 'Nip/Tuck'), e as cenas de acção não desiludem nem em quantidade nem em qualidade, pesem embora alguns exageros a la Rambo. Onde a porca torce o rabo é no argumento e mais uma vez temos um problema típico: o realizador leva o McGuffin a sério. Há uma série de lugares-comuns que ainda passam, como uma trapalhada sobre uns interesses americanos na Etiópia (África está na moda em Hollywood!) ou mesmo uma alusão a Abu Ghraib metida à pressão. Agora para os pavorosos 20 minutos finais, que defendem a originalíssima teoria que a democracia (pelo menos a Americana) está ferida de morte, que tudo são interesses e corrupção, que os poderosos se safam sempre, e que a única maneira que o cidadão comum, íntegro e patriota, tem de se defender é fazendo justiça pelas próprias mãos, bom, para isso já não há pachorra.
Volta Dirty Harry que estás perdoado!
Shooter, E.U.A., 2007. Realização: Antoine Fuqua. Com: Mark Wahlberg, Michael Pena, Danny Glover, Kate Mara, Elias Koteas, Rhona Mitra.

6.4.07

300



É verdade que '300' possui uma certa, não direi gravidade, mas uma certa maturidade que não é muito comum neste tipo de blockbusters. E se isso o eleva acima dos habituais teen movies decalcados de jogos de PC, também é certo que não tem muito para oferecer para além da sua imponente faceta visual, apoiada em sólida artilharia técnica (com destaque para a excelente fotografia), apresentando ambientes e personagens faustosamente barrocos, que culminam num Xerxes (o actor Brasileiro Rodrigo Santoro) versão Drag Queen...
De resto parece que tem levantado bastante celeuma, por fazer a apologia da guerra, por ser fascista, por ser pro-Bush, por ser anti-islâmico, ou não sei que mais. Mas eu acho que não tem espessura para ser nada disto - é entretenimento minimamente competente e ponto final.
300, E.U.A., 2006. Realização: Zack Snyder. Com: Gerard Butler, Lena Headey, Rodrigo Santoro, Dominic West, David Wenham, Vincent Regan.

4.4.07

INLAND EMPIRE



Uma actriz (Laura Dern) é seleccionada para participar num filme. Aí contracena com um actor (Justin Theroux) com fama de mulherengo. Este é avisado para não se envolver com ela, ou o seu marido far-lhe-á coisas terríveis. A primeira das três horas de 'Inland Empire' é basicamente ocupada com este filme dentro do filme, com os dois actores, com o realizador (Jeremy Irons), com outra pessoa envolvida mas filmagens (Harry Dean Stanton). Apesar de algumas cenas - uma mulher num quarto, umas pessoas com cabeça de coelho que participam numa estranha sitcom, uma pessoa que é entrevista nos estúdios, uma vizinha com dons proféticos - e alguns detalhes - aqueles quartos mobilados como só o são nos filmes de David Lynch - parece que estamos a assistir a um 'Lynch' narrativo. Mas, a partir de uma dada altura, 'realidade' e ficção, passado e presente, presente e futuro, começam a confundir-se e estas personagens desaparecem sem deixar rasto.
Ou nem tanto. Laura Dern é omnipresente durante todo o filme, mas quando é Nikki (a actriz), quando é Susan (a personagem do filme no filme), bom, isso nem sempre é claro. E para complicar interpreta ainda (pelo menos) mais uma personagem, alternando entre a Polónia e Hollywood (mais uma vez Hollywood, numa altura em que Lynch tem que vir filmar para a Europa e distribui ele próprio o filme nos E.U.A.). Ou será uma só personagem?
'Inland Empire' é descendente directo de 'Eraserhead', e tal como em 'Lost Highway', mais que em 'Mulholland Drive', as pontas soltas, os nós por desatar, as lacunas deixadas para a imaginação do espectador preencher são mais que muitas. Os túneis no espaço-tempo são o pão-nosso-de-cada-dia de Lynch. É um lugar-comum dizer que mais que assistir a um filme, com Lynch vamos experimentar (no sentido de, mas mais do que, sentir) algo. Mas é verdade, continua a ser verdade. Várias vezes dei comigo a divagar, quase alheado da tela, e sempre voltei a ser para ela atraído por uma imagem estranhamente iluminada, por um som inesperado, por uma cena desfocada, por um close-up assombroso. Até ao último segundo do genérico final (e não convém perde-lo de forma alguma) somos surpreendidos, somos abanados.
Mesmo que eu continue a preferir um filme como 'Mulholland Drive' em que os espaços em branco podem ainda assim ser preenchidos de modo a fechar o círculo, não há como negar o fascínio de um objecto como 'Inland Empire'. Como disse um dia um crítico, uma pessoa experimenta muitas sensações durante um filme de Lynch, mas nunca a de aborrecimento. E 'Inland Empire' é, como li algures na net, Lynch at his Lynchest.
INLAND EMPIRE, E.U.A., 2006. Realização: David Lynch. Com: Laura Dern, Justin Theroux, Jeremy Irons, Karolina Gruszka, Harry Dean Stanton, Grace Zabriskie.

1.4.07

O bom Alemão



Ao longo da sua irregularíssima filmografia, Steven Soderbergh tem-se movido entre os filmes puramente experimentais (como o péssimo 'Full Frontal') e aqueles bem ancorados no mainstream (como o anódino 'Erin Brockovich' ou o francamente mau 'Ocean's Twelve'). Os mais interessantes, no entanto, são aqueles que estão num meio-termo, ou se quisermos, aqueles em que o realizador melhor sintetiza estas suas facetas. Falo de filmes como 'Traffic' ou o óptimo remake de 'Solaris'.
'O bom Alemão' estará mais perto de um filme como 'Ocean´s Eleven': tal como este é um divertimento inteligente e sofisticado, mas é-lhe superior por ser mais denso. Sendo um exercício de estilo, filmado a preto e branco, ao estilo dos filmes de guerra da década de 40, com piscadelas de olho que vão desde 'O terceiro homem' a 'Casablanca', nunca o virtuosismo (inegável) do realizador abafa o ambiente a la film noir que se respira por todos os poros. George Clooney é o anti-herói que passa o filme feito saco de pancadas, Cate Blanchett é a mais improvável (e não totalmente convincente) das femme fatal e Tobey Maguire mostra que ainda existe um actor para lá do homem-aranha. E por trás do McGuffin, menos confuso que o habitual, fala-se da culpa do cidadão anónimo nos crimes da sua pátria. Está Soderbergh a falar apenas da Alemanha do pós-guerra? Cada um que interprete como entender.
The Good German, E.U.A., 2006. Realização: Steven Soderbergh. Com: George Clooney, Cate Blanchett, Tobey Maguire, Jack Thompson, John Roeder, Dave Power.

26.3.07

O caimão



Nanni Moretti fez o seu filme anti-Berlusconi de uma forma algo diferente do que se estaria à espera. Em vez de algo do género 'documentário-ficcionado', optou por uma comédia sobre um produtor de filmes série Z com uma costela reaccionária que, meio por acaso, acaba a produzir um filme... anti-Berlusconi.
Moretti tem repetido que é preciso levar Berlusconi muito a sério, e talvez por isso se tenha lembrado das palavras de Kundera, de que o trágico nos oferece a bela ilusão da grandeza humana, e tenha assim optado pelo cómico. O filme desenvolve-se num registo excessivo, por vezes quase pícaro, fazendo-nos a personagem principal, o tal produtor de filmes rasca, lembrar não só o Moretti pré-'O quarto do filho', como certas personagens das antigas comédias à italiana.
Inteligentemente, em vez de pegar o touro pelos cornos, Moretti anda à volta de Berlusconi, desdobrando-se 'O caimão' em episódios paralelos, que mais do que do ex-primeiro-ministro, nos dão o retrato da Itália contemporânea, nunca deixando o realizador que o grande tema abafe os outros subplots: os problemas familiares do produtor (tal como Moretti os teve com a sua separação), os seus problemas para levar o filme avante, os jogos de futebol do filho, a vida familiar da realizadora, etc. Aliás, num achado genial, o retrato de Berlusconi, um homem que fabricou a sua imagem na televisão, é-nos dado em múltipos retratos em que realidade e ficção se estão sempre a misturar: além do Belusconi himself das imagens de arquivo, há o Berlusconi de um sonho, e há os Berlusconis do filme dentro do filme, primeiro o de Michele Placido (fabulosa personagem) e, finalmente, o de... Nani Moretti.
Apesar de por vezes parecer um pouco descosido, 'O caimão' é um regresso em grande forma do melhor realizador italiano da actualidade, não por acaso de volta aos terrenos onde se move melhor: o filme eminentemente politico, mas sempre com uma forte dimensão pessoal e uma ironia cortante.
Il caimano, Itália/França, 2006. Realização: Nanni Moretti. Com: Silvio Orlando, Margherita Buy, Jasmine Trinca, Michele Placido, Elio De Capitani, Giuliano Montaldo, Nanni Moretti.

19.3.07

O último capitulo



O corpo principal de 'The fountain', chamemos-lhe assim, aquilo que se passa no 'presente', não se distingue muito de um filme daqueles que passam no Fantasporto: num laboratório algo obscuro, usando chimpanzés como cobaias, um investigador (Hugh Jackman) tenta descobrir em contra-relógio uma cura para o cancro, para salvar a sua mulher (Rachel Weisz) que tem um tumor maligno. Acontece que intercalados com esta história, estão dois outros segmentos: um épico, passado no século XVI, em que um conquistador espanhol (Hugh Jackman) busca na selva latino-americana a árvore da vida (referenciada na Biblia) para conquistar o amor da sua rainha (Rachel Weisz), ameaçada pela inquisição (e para este segmento ainda há uma explicação lógica); e um outro, místico, meditativo, que não se sabe muito bem a que se deve, e que tanto tem encanitado os detractores do filme (aí uns 99% dos críticos de cinema). Este segmento é assim uma espécie de divagação visual passada no espaço, assumidamente inspirada em '2001', mas onde a beleza geométrica de Kubrick dá lugar um visual alucinatório, a um devaneio plástico incrustado no miolo do filme, sem lógica ou propósito aparente, com uma música new age a acompanhar, para piorar o caso se necessário fosse. É uma espécie de corolário do mote do filme, da morte como renascimento, um equivalente visual do misticismo (com referência a lendas Maias e tudo) que percorre o filme.
Assim contado não parece grande coisa, mas o cinema também é uma arte visual e também é mais que teatro filmado. E o certo é que 'The fountain' possui uma beleza insólita, uma qualquer força que agarra, algo que transcende as dezenas de filmes formatados que vemos semana após semana. Tem-se falado em megalomania, mas o filme, na sua estranheza, é surpreendentemente sóbrio, parece quase artesanal por vezes, tem uma sinceridade desarmante, um romantismo deslocado que toca.
A mim, que o fui ver cheio de preconceitos (não sou dado a misticismos new age e detestei 'A vida não é um sonho') conquistou-me. É um objecto cinematográfico completo que, não obstante as suas imperfeições, desperta todos os nossos sentidos.
The Fountain, E.U.A., 2006. Realização: Darren Aronofsky. Com: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Ellen Burstyn, Mark Margolis, Cliff Curtis, Sean Patrick Thomas, Donna Murphy, Ethan Suplee.

17.3.07

Os Anjos Exterminadores



'Coisas secretas' é um filme erótico (eu sei que o termo está colado a Emanuelles e afins, mas pronto) sobre duas mulheres, amantes, que usam o sexo para 'subir na vida'. É um filme curioso, mas não mais do que isso. Não obstante, quando saiu em 2002 (por cá foi directamente para dvd o ano passado) excitou muito bom crítico, recebendo o seu realizador Jean-Claude Brisseau o epiteto de grande subversivo e provocador. Os Cahiers du Cinéma deram-lhe mesmo o primeiro lugar (compartilhado com 'Dez' de Kiarostami) no seu top desse ano! Mas a bomba surgiria um par de anos mais tarde: Brisseau foi acusado de assédio e agressão sexual por quatro actrizes que tinham feito testes de casting para o filme, mas que não tinham obtido um papel. Seria julgado o ano passado e condenado a uma pena suspensa de um ano e a pagar 15.000€ de indemnização (apesar de tudo livrou-se de ficar inscrito num ficheiro de delinquentes sexuais, que pelos vistos existe em França). No mesmo ano, o realizador (de 61 anos e uma carreira de 3 décadas, mas com apenas meia dúzia de filmes) anunciou que estava a terminar uma nova obra com um argumento inspirado neste desagradável episódio da sua vida - 'Les anges exterminateurs', precisamente, que passou por cá na recente Festa do Cinema Francês. (*)
Este filme pode ser então visto como uma defesa por parte de Jean-Claude Brisseau e, porque não, como uma expiação ou exorcismo. Diga-se desde já que é uma defesa sui generis: durante hora e meia um realizador (obviamente alter ego de Brisseau) que pretende realizar um filme sobre o prazer das mulheres, sobre os seus limites, faz testes a potenciais actrizes ('porque isto não lhes é ensinado na escola de teatro') que consistem em estas se acariciarem, sozinhas ou em grupo. Não só em frente à câmara, em quartos de hotel, mas também à mesa de um restaurante, por exemplo. Esta hora e meia provoca-nos duas perplexidades: em primeiro lugar parece que o realizador está a dar parte da razão a quem o acusou - a própria mulher do seu alter ego lhe está sempre a dizer que aquilo vai acabar mal, e não há espectador que não tenha aquele sentimento tão popular do 'estava mesmo a pedi-las'!; em segundo lugar, e não obstante alguma retórica justificativa, parece que estamos assistir a um filme, não direi pornográfico, mas que não andará lá longe. O realizador reserva apenas o último quarto de hora para descrever a acusação de que é alvo (o seu personagem) e a sua 'defesa'. Não há duvida que esta opção é bastante desconcertante e redimensiona toda a nossa percepção do filme, elevando-o a um patamar que não parecia alcançável. A sua defesa é subtil: nunca tocou nas raparigas; não lhes prometeu nada; elas são actrizes e fazer uma cena de sexo num casting é apenas trabalho; e finalmente, sugere que foi o facto de algumas se apaixonarem por ele que motivou a vingança (uma deles explica-lhe muito freudianamente que se apaixonam por ele por ser tão paternal). E nós poderiamos acrescentar que eram todas maiores de idade e ninguém foi obrigado a nada. É claro que o filme levanta uma série de questões muito interessantes, ou não fosse Brisseau um realizador profundamente cerebral (não há aqui qualquer contradição): e para este 'Les anges exterminateurs' , que envolve cenas sexualmente muito mais explícitas que 'Choses secrètes' Brisseau não fez testes às actrizes? Desistiu do seu método? Ou desta vez obrigou-as a assinar algum tipo de compromisso?
Um filme que acaba por nos conquistar pela sua inteligência e, já agora, ousadia.
(PS: Brisseau filma muito, muito bem - quando falamos em pornográfico nada tem a ver com a estética destes filmes, bem entendido.)
(*) Post originalmente publicado em 03/11/2006, aquando da Festa do Cinema Francês.
Les anges exterminateurs, França, 2006. Realização: Jean-Claude Brisseau. Com: Frederic Van Den Driessche, Maroussia Dubreuil, Lise Bellynck, Marie Allan, Raphaële Godin, Margaret Zenou

11.3.07

O labirinto do fauno



Apesar de o 'fantástico' se confundir com a origem do cinema ('A viagem à lua' de Méliès é de 1902), tem sido um parente pobre na grande família da sétima arte. Poucos realizadores que se movam habitualmente nestes terrenos ganham prestigio crítico. Mesmo Shyamalan, quando passou do sobrenatural para o fantástico puro (no sentido de fábula, digamos assim) em 'A senhora da água', dividiu a crítica como nunca. Uma excepção que me ocorre é Tim Burton.
Assim sendo, Gillhermo del Toro teve desde logo o mérito de agitar as águas do género, conseguindo um hype com este 'O Labrinto do fauno', tendo inclusive chegado aos Oscares. O que se pode dizer é que este reconhecimento é merecido: 'O Labirinto do fauno' é de facto um belo filme sobre uma menina a quem o encontro com um fauno permite que se liberte das garras opressoras do seu padrastro, um sinistro capitão franquista. Del Toro consegue o mais difícil que é vencer o nosso cinismo perante 'contos de fadas', criando um ambiente simultaneamente tenebroso e fantasioso, estando as impecáveis virtudes técnicas e cenográficas sempre ao serviço da história, nunca servindo para exibicionismos fúteis.
Não digo que seja uma obra-prima, mas é certamente uma lufada de ar fresco, um regresso sincero mas não ingénuo a um certo modo sonhador de contar histórias.
El Laberinto del Fauno, México/Espanha/Estados Unidos, 2006. Realização: Guillermo del Toro. Com: Ariadna Gil, Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdu, Doug Jones, Alex Angulo.

7.3.07

Diário de um escândalo



Acredito que o livro homónimo de Zoë Heller em que 'Diários de um escândalo' se baseia seja bom. A história sobre a relação entre uma velha e altiva professora a quem a solidão e uma sexualidade reprimida tornaram mesquinha, possessiva e alienada e uma colega mais jovem que tem um caso superficial com um aluno adolescente, é um pau de dois bicos: tem óbvio potencial dramático, mas requer pinças no modo como é tratada.
Nas mãos do realizador Richard Eyre não funciona certamente. Tudo se passa demasiadamente depressa (e não falo da misericordiosa duração do filme - 1h30), tudo é simplificado, tudo fica pela rama. O argumento parece que foi cozido a partir de recortes de um jornal sensacionalista - é histérico, banal, superficial. E a realização, dentro do melhor estilo telefilme desenxabido, apenas confirma a falta de ideias geral.
O filme nem chega a ser patético, um risco que o enredo sugeria. É apenas mauzinho.
Notes on a Scandal, Grã-Bretanha, 2006. Realização: Richard Eyre. Com: Judi Dench, Cate Blanchett, Bill Nighy, Andrew Simpson, Philip Davis.

2.3.07

O bom pastor



Definitivamente, os actores quando passam para trás da câmara não gostam de fazer filmes vulgares. Fiquemo-nos por exemplos próximos e sem ir buscar Clint Eastwood: Todd Field, George Clooney, John Turturro. Todos eles realizaram filmes personalizados e alguns mesmo bastante idiossincráticos. Robert de Niro não é a excepção. 'O bom pastor', mais do que um fresco sobre a criação da CIA, uma saga sobre os jogos de espionagem dos primeiros tempos da guerra fria, um ensaio sobre a América branca e elitista - e é tudo isto - é um filme sobre um homem que percorreu a vida toda sem olhar para trás. Que tinha à frente dos seus olhos um objectivo - a que poderemos chamar servir a pátria - e que não permitiu que nada, mas mesmo nada o desviasse desse fito. Nem a família, nem os escrúpulos, nem a sua consciência.
Edward Wilson, assim se chama este homem (Matt Damon), atravessa a história como um fantasma que perturba o seu curso, mas a quem nada nem ninguém pode atingir - não admira assim que não envelheça e se mantenha inalterado durante 20 anos (escusado será dizer quão bem a habitual inexpressividade de Matt Damon se encaixa nesta personagem).
O plano final do filme, resume-o genialmente. Matt Damon vai-se afastando, vemo-lo de costas, um pouco curvado, com a habitual gabardina e chapéu cinzentos: a imagem perfeita do funcionário meticuloso, solitário e empenhado, caminhando para a próxima tarefa.

P.S.: Uma pena, a pouca atenção crítica que este excelente filme recebeu por cá: a acreditar nas tabelinhas das estrelas, só dois críticos do Público e um do DN se deram ao trabalho de o ir ver.
The Good Shepherd, E.U.A., 2006. Realização: Robert de Niro. Com: Matt Damon, Robert De Niro, Angelina Jolie, John Turturro, Alec Baldwin, William Hurt, Billy Crudup, Timothy Hutton, Joe Pesci.

28.2.07

Livro negro



Paul Verhoeven, após 20 anos em Hollywood, voltou à Europa para fazer um filme passado na sua Holanda natal durante a ocupação Nazi. Segundo as suas palavras, voltou porque em Hollywood não poderia fazer este filme. Compreendemo-lo: para além da língua holandesa, o filme tem cenas de nudez pouco comuns por aquelas bandas e contornos morais mais cinzentos do que os grandes estúdios gostam. Na resistência não há só heróis, mas também traidores, pessoas que põem os seus interesses pessoais acima de tudo, anti-semitas, inclusive; e do lado dos nazis também há delicados coleccionadores de selos que se preocupam com as baixas do outro lado. Saliente-se que não há aqui qualquer tipo de revisionismo: Verhoeven apenas nos diz, uma vez mais, que as pessoas são o que são. O comportamento da multidão após a capitulação Nazi, procurando, sedenta, vingar-se dos antigos colaboracionistas, mostra o que pensa Verhoeven da natureza humana.
De Hollywood o realizador trouxe o know-how, apresentando uma reconstituição história sólida e credível, sem ter aquele aspecto de telefilme rico tão comum em filmes de época. O resultado é um filme acima da média, com um agradável sabor démodé.
Zwartboek / Black Book, Holanda/Bélgica/Grã-Bretanha/Alemanha, 2006. Realização: Paul Verhoeven. Com: Carice van Houten, Sebastian Koch, Thom Hoffman, Halina Reijn, Waldemar Kobus, Derek de Lint, Christian Berkel, Dolf de Vries.

26.2.07

Half Nelson — Encurralados



Confesso que aos dez minutos de filme estava um bocado desconfiado. A história do professor talentoso e bem-parecido, mas que quer ser escritor, se afunda nas drogas e anda perdido no mundo, soou-me muito a cliché. E o modo de filmar - a fotografia baça, o ritmo lento - também não contribuiu muito para melhorar a minha opinião - estava-me a parecer tudo muito declaradamente indy, com as marcas todas lá. Mas pouco a pouco, esta má impressão foi-se desvanecendo. O realizador Ryan Fleck mantém sempre o ritmo certo, tudo se desenrola num low profile algo hipnotizante e à medida que vamos conhecendo a personagem, o estereotipo vai desaparecendo. Ao contrário do excêntrico-decadente-chique, temos antes um homem que convive mal com as injustiças do mundo, que se aliena para não ter que andar sempre aos murros. Um homem zangado. Mas que apesar de tudo, não desiste completamente. Que se interessa pelos seus alunos, que tenta ensinar. Que se preocupa.
E, claro - não há como fugir a isto - somos absorvidos pela interpretação portentosa de Ryan Gosling. Desde 'Roger Dodger' que não via tanto isto de um filme ser o seu actor. É assombroso.

P.S.: Gosling perdeu o Oscar para o grande Forest Whitaker, mas só o facto de ter sido nomeado por um filme destes, mostra que a Academia não anda tanto a dormir como às vezes parece.
Half Nelson , E.U.A., 2006. Realização: Ryan Fleck. Com: Ryan Gosling, Shareeka Epps, Anthony Mackie, Tina Holmes, Deborah Rush, Jay O. Sanders.

19.2.07

As cartas de Iwo Jima



No início do filme, Saigo, um soldado raso japonês (um padeiro que foi para a guerra relutantemente, deixando para trás a mulher e um filho bebé), diz para um colega que mais valia entregarem a ilha aos americanos e pronto. Eles acabariam por a conquistar de qualquer maneira e assim escusavam de morrer todos. Um capitão ouve este desabafo e castiga-o duramente: estas palavras antipatrióticas são para ele inqualificáveis. O dever deles é defender aquele pedaço de terra até à morte e qualquer outra atitude é de uma desonra inominável. Quem salva Saigo deste castigo é o General Kuribayashi, que um dia disse galantemente a uma dama americana que as suas convicções e as da sua pátria são as mesmas. Mas não é por acaso que as suas simpatias tendem para o ex-padeiro, e não para o recto e fanático oficial que o castiga. Apesar de nunca deixar de lutar pelas convicções da sua pátria, sentimos que estas já não coincidem inteiramente com as suas. Nostálgico dos tempos que passou na América, ao contrário de muitos dos seus compatriotas ele não menospreza nem subestima o adversário. Talvez duma forma mais racional, chegue à mesma conclusão instintiva do padeiro Saigo: da inutilidade de tudo aquilo.

Neste sentido, 'As cartas de Iwo Jima' é uma poderosa meditação anti-guerra. Eastwood diz-nos que a guerra destruiu a vida de uma série de 'Saigos' e das suas famílias, conduzindo na mesma o Japão a uma derrota. Da mesma maneira que nos dizia em 'As bandeiras dos nossos pais', que a guerra destruiu uma série de 'Ira Hayes' , apesar de estarem do lado dos vencedores e serem mesmo proclamados heróis. Eastwood não acha que valha sempre a pena perder vidas (literal ou metaforicamente) pelas convicções de um país.

'As cartas de Iwo Jima' é um filme muito mais poderoso do que 'As bandeiras dos nossos pais', talvez por ter personagens mais fortes, talvez por dar mais a ver do que demonstrar, talvez pela sua própria estrutura narrativa. Não tendo a complexidade formal do filme anterior, este filme não é, ainda assim, tão simples como parece. As cenas de batalha preenchem quase totalmente as duas horas e tal do filme, mas nem são um fim em si (não são especialmente espectaculares nem inovadoras), nem obedecem a maior parte das vezes a qualquer imperativo narrativo: poderia Eastwood ter tirado meia hora ao filme na montagem e este não sofreria nem um beliscão em consistência. Embora por vezes não se perceba muito bem para onde o filme vai, talvez estas cenas lá estejam porque têm que estar, porque numa guerra não é possível fugir às coisas, como o soldado Saigo descobre. Sabemos que os actos narrados, a batalha de Iwo Jima, durou uns 40 dias, mas dificilmente um espectador conseguirá dizer qual o tempo da 'coisa contada': uma semana, um mês? Por vezes parece mesmo que estamos a assistir a uma narrativa em tempo real, e esta ausência de referências temporais provoca alguma estranheza no espectador. Neste aspecto, não me parece que o filme tenha uma estrutura tão 'clássica' como tem sido dito. Mas só vendo-o outra vez, para perceber melhor esta estrutura.

Quem hoje em dia, além de Eastwood, faria um filme de guerra, ainda por cima visto do 'outro lado', que fosse uma meditação sobre a própria guerra, sem simplismos, sem ideologias de pacotilha, sem medo de pensar por si? Não o pondo ao nível das (várias) obras-primas de Eastwood, 'As cartas de Iwo Jima' é sem dúvida mais um sólido argumento para o colocar no panteão dos maiores realizadores Americanos.
Letters from Iwo Jima, E.U.A., 2006. Realização: Clint Eastwood. Com: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Shido Nakamura, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Yuki Matsuzaki, Hiroshi Watanabe.

14.2.07

Rocky Balboa



Quase 20 anos depois, Rocky Balboa não resiste a voltar para um último (?) combate. Ou, por outras palavras, Stallone, 17 anos depois de um filme com alguma visibilidade (Rocky V, 1990), não resistiu a um regresso às luzes dos holofotes. Claro que não pode deixar de ser um regresso nostálgico, reflexivo, que Stallone já vai nos 60 anos.
A crítica, como é sabido, péla-se por estes filmes em que os heróis se reinventam, quer seja parodicamente (houve uma altura em que qualquer filme em que Schwarzenegger gozasse com a sua imagem era recebido como uma obra-prima), quer seja dramaticamente (como neste caso). Não é assim surpresa que este filme esteja a ser um sucesso de estima, estima essa que infelizmente não posso compartilhar.
Stallone nunca primou pela subtileza a representar, e o mínimo que se pode dizer é que não melhorou com o passar dos anos. Subtileza é também o que falta à sua realização, desde a péssima banda sonora que oscila entre o lamechas e o triunfal, até a algumas opções formais mais que duvidosas, de que bom exemplo são algumas sequências em câmara lenta e até um momento em que tudo pára para a fotografia, com o herói de punho no ar: mau gosto, no mínimo. O argumento também não ajuda, sucedendo-se os lugares comuns: o falso bronco com bom coração; o filho perturbado com a sombra do pai (mas que se transforma num instante após um raspanete de 30 segundos); a memória da mulher (uma Santa!), que lhe dá força nas adversidades; os amigos que estão lá para representar um qualquer estereotipo; o adversário arrogante e que o olha de alto mas que vai acabar por o respeitar (o respeito é sempre a palavra chave em filmes de broncos). Só mais um exemplo: a forma como se carrega até ao limite nos comentários depreciativos dos homens da TV nos instantes pré-combate, para por contraste sublinhar o feito de Rocky. De facto, a subtileza não é o forte de Stallone.
Não vou ser mauzinho e falar aqui de Eastwood, pois a comparação seria obscena. Comparemos antes Stallone com Rocky: a criatura tem sem duvida mais talento com as luvas de boxe que o seu criador com a câmara de filmar. Assim, enquanto o come back de Rocky ao ring se traduz num combate memorável, o regresso de Stallone aos estúdios traduz-se apenas num filmezito esquecível.
Rocky Balboa, E.U.A., 2006. Realização: Sylvester Stallone. Com: Sylvester Stallone, Burt Young, Antonio Tarver, Geraldine Hughes, Milo Ventimiglia, James Francis Kelly III.