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7.8.07

Bug



'Bug' começa com um excelente travelling, em que temos uma panorâmica aérea que se vai afunilando até se centrar num motel no meio de nenhures. Descobrimos que mora aí Agnes (Ashley Judd), empregada num bar lésbico de uma terriola na América profunda, uma solitária que se mete nos copos e teme o regresso do ex-marido que vai sair da prisão.
Apesar de fugir de socializar, principalmente com homens, Agnes sente-se só e acaba por ser atraída por Peter (Michael Shannon, estranhamente parecido com Ray Liotta), um homem tranquilo, de poucas mas sensatas falas, confiante e seguro. Mesmo o que ela precisava como contraponto ao brutal e espalhafatoso ex. Peter parece ser capaz de meter este na ordem e parece que Agnes vai ter uma segunda oportunidade.
Mas, uma noite Peter acorda por causa de um insecto. Agnes não é capaz de o ver, mas este insiste e ela relutantemente acaba por ir na conversa. Depois Peter conta-lhe que o governo o persegue. Que é um ex-soldado e que fizeram experiências secretas nele. Entretanto a praga de insectos 'invisíveis' alastrou. Ele está todo marcado de os arrancar do corpo e ela (entretanto convertida) também. Os níveis de paranóia vão-se exponenciando.
Voltemos aqui ao plano inicial de que falámos. Compreendemos agora a vista aérea do motel como um símbolo de todo o filme, de tudo o que vai na cabeça de Peter (e depois da sugestionada Agnes), de que está a ser permanentemente vigiado por uma entidade superior (os militares, o governo), que lhe controlam todos os passos e toda a sua vida.
Enquanto mantém o espectador na dúvida, num certo limbo (Peter será mesmo um paranóico-esquizofrénico, ou haverá ali ago que...) o filme de Friedkin é magnífico. Quando passa para o lado da paranóia pura, alucinante, quanto a mim perde bastante força e a última meia hora é consideravelmente menos interessante. O que é sugerido é sempre bastante mais inquietante que o explicito.
Apesar de não poder deixar de pensar que passou ao lado de ser um grande filme, 'Bug' permanece, ainda assim, um dos mais insólitos objectos em cartaz. Pode ser visto, claro, como uma metáfora pós-11 de Setembro, sobre o mundo moderno, sobre o pânico do invisível, do que não controlamos (se virmos o filme do lado de Peter). Ou pura e simplesmente sobre a necessidade de as pessoas se agarrarem a algo, de qualquer coisa ser preferível à sua solidão e desamparo (se virmos o filme do lado de Agnes).
E a diferença que faz não ter um tarefeiro atrás da câmara! O modo como Friedkin (realizador de 'O exorcista' ou 'French Connection') domina o espaço, aquele quarto onde se passa 99% do enredo é de mestre. Quem sabe nunca esquece.
Bug, E.U.A., 2007. Realização: William Friedkin. Com: Ashley Judd, Michael Shannon, Lynn Collins, Brian F. O`Byrne, Harry Connick Jr..

5.8.07

Jindabyne



'Jindabyne', segundo filme de Ray Lawrence a estrear por cá, mantém todas as marcas que o realizador australiano tinha exposto no anterior, 'Lantana': um muito bom trabalho de actores, um certo vagar melancólico no contar da(s) história(s), uma atenção meticulosa às suas personagens, aos seus carácteres, às suas fragilidades.
'Jindabyne' está próximo de um certo cinema independente Americano centrado nas pessoas, na enovelada teia das relações humanas, mas imbuído de um tempo narrativo muito próprio, sem pressas, condizente com as vastas e desérticas paisagens Australianas.
Baseado num conto do grande Raymond Carver, parte da descoberta acidental de um cadáver por um grupo de amigos (quase que podia haver um género próprio baseado neste tema!), para nos traçar um retrato da sua vida e dos que lhes estão próximos, com destaque para a mulher de um deles (excelente Laura Linney), uma mulher à beira de um ataque de nervos, que se serve deste 'caso' para tentar exorcizar os seus muitos fantasmas e contamina todos à sua volta.
Ray Lawrence tem um estilo próprio e filma muito bem, embora por vezes estique demasiadamente a corda. A mim o filme irritou-me por diversas vezes, entediou-me outras tantas, mas ainda assim não deixei de o apreciar. Nem deixo de o recomendar.
Jindabyne, Austrália, 2006. Realização: Ray Lawrence. Com: Laura Linney, Gabriel Byrne, Chris Haywood, John Howard, Tatea Reilly, Sean Rees-Wemyss, Deborra-Lee Furness.

4.8.07

Paranóia


Sarah Roemer: só por ela já valia a pena ver Paranóia

'Paranóia' é uma 'Janela indiscreta' versão teen movie. Claro que não há aqui lugar para os perversos jogos do mestre, mas há um surpreendente savoir faire que gradualmente nos leva de um leve e divertido entretenimento domingueiro, para um ambiente de verdadeiro suspense e horror. Já vi pior. Bem pior.
Disturbia, E.U.A., 2007. Realização: D. J. Caruso. Com: Shia LaBeouf, Sarah Roemer, Carrie-Anne Moss, David Morse, Aaron Yoo.

29.7.07

Alphadog



'Alphadog' é assim uma espécie de 'Bully' (sem nenhuma das virtudes do filme de Larry Clark) misturado com 'Menos que zero', embrulhado numa estética MTV. O resultado é uma banalidade completa, parecendo um episódio comprido de uma série de TV para teens, com a profundidade de um videoclip. Quem tiver mais de 16 anos e não for fã de Justin Timberlake (um pleonasmo, eu sei) pode-se abster.
Alphadog, E.U.A., 2007. Realização: Nick Cassavetes. Com: Emile Hirsch, Ben Foster, Justin Timberlake, Bruce Willis, Anton Yelchin, Sharon Stone, Harry Dean Stanton.

28.7.07

Os Simpsons: O Filme



Pode-se dizer de 'Os Simpsons: O Filme' que mantém o nível médio de 'Os Simpsons', a série de TV. Bem bom.
The Simpsons Movie, Estados Unidos, 2007. Realização: David Silverman. Longa-metragem de animação.

20.7.07

No mundo das mulheres



'No mundo das mulheres' é o 'Garden State' deste ano. Ou seja, o filme independente à volta do argumento rapaz-da-grande-cidade-em-crise-existencial-volta-à-terra-natal-e-lá-conhece-a-rapariga-que-lhe-vai-mudar-a-vida.
Pelo simples facto de reconhecer nos 5 minutos iniciais esta história again, comecei logo por antipatizar com esta estreia na realização do filho de Lawrence Kasdan. Mas a verdade, passe o lugar-comum, é que estes indies americanos são como os melões e às vezes depois de descascados surpreendem. E não é que dei comigo a ir gostando do filme e acabei a gostar muito? Não que seja original, nem nada que se pareça, mas tudo o que lá está está bem. O casting, com especialíssimo destaque para Meg Ryan, esplendorosa como sempre; a realização invisível; os diálogos; o tom; as pequenas variações ao argumento-tipo. Tudo me bateu no sítio certo. Mesmo que eu ache que a vida não é nada assim. Ou por isso mesmo.
In The Land of Women, E.U.A., 2007. Realização: Jon Kasdan. Com: Adam Brody, Kristen Stewart, Meg Ryan, Elena Anaya, Olympia Dukakis, Makenzie Vega.

Belle toujours



'Belle toujours' está algures entre o ensaio sobre e a homenagem a. Tem por um lado uma leveza e uma elegância surpreendentes, em parte trazidas por Michel Piccoli, bonacheirão, sempre com um sorriso, em parte pela simplicidade da mise en scène. Por outro lado há algo que contrasta com e contraria esta leveza: e está ao nível do discurso, do tal ensaio. Nada do que é dito sobre 'Belle de jour' é particularmente original ou interessante (o amor ao marido que conduzia ao sadomasoquismo - e não saimos muito daqui, parece-me), e nomeadamente as conversas entre Piccoli e Trêpa (um actor bastante sofrível) são bastante esquecíveis.
Claro que apetece gostar deste filme: por Michel Piccoli, por Bulle Ogier, por Buñuel, por Oliveira, claro (que diabo!, quase ao 100 anos continua a ter ideias, a filmar!), pela cinefilia; pelo cinema, em suma. Mas sinceramente, foi uma razoável desilusão.
Belle Toujours, França/Portugal, 2006. Realização: Manoel de Oliveira. Com: Michel Piccoli, Bulle Ogier, Ricardo Trêpa, Leonor Baldaque, Julia Buisel.

11.7.07

A rapariga morta



Eis mais um exemplar do género da moda: o dos filmes-mosaico-efeito-borboleta. Neste caso é a descoberta de um cadáver que dá o mote para os episódios que se seguem, todos centrados em pessoas que vão estar ou estiveram relacionadas com a rapariga morta.
Eu normalmente simpatizo com filmes como este, discretos e melancólicos, mas aqui, infelizmente, a realizadora Karen Moncrieff raramente acerta com o tom. Ora é demasiadamente rápido, ora demasiadamente óbvio; ora é superficial, ora é exagerado. E há sempre algo que irrita um bocadinho: ou o olhar de carneiro mal morto de Toni Collette, ou o choradinho em overacting de Marcia Gay Harden (que estranhamente parece um sósia de Michael Jackson: estas plásticas ao nariz pôem toda a gente igual...).
No final, fica-nos na retina a cara-laroca e triste de Rose Byrne. Mas nem ela nos tira a sensação de desconsolo.
The Dead Girl, E.U.A., 2006. Realização: Karen Moncrieff. Com: Toni Collette, Piper Laurie, Giovanni Ribisi, Mary Steenburgen, Mary Beth Hurt, Nick Searcy, Marcia Gay Harden, Kerry Washington, Brittany Murphy.

9.7.07

Death Proof



'Death Proof' é um Tarantino em bruto. O que antes Tarantino polia, filtrava, sugeria, citava, recontextualizava, etc., etc., agora é lá posto e pronto. As piscadelas de olho cinéfilas não são piscadelas de olho, são verdadeiros encontrões: aos road movies série B, aos carros dos road movies série B, ao 'clássico' do género 'Vanishing Point' (citado umas 50 vezes), às cenas à road movie série B; os diálogos à Tarantino são verdadeiras maratonas para lá dos limites (talvez devido ao facto de o filme ter sido 'esticado', depois da sua autonomização do de Rodriguez - embora, diga-se, Tarantino, como Woody Allen, não saiba escrever um diálogo que não seja bom, mesmo quando é mais do mesmo), sendo que aí um terço do filme é uma longa conversa entre as heroínas, principalmente sobre a sua vida sexual.
Entendamo-nos: por muito que Tarantino pretenda imitar (mais que citar, e seria esta a principal diferença de atitude em relação aos seus filmes anteriores) os exploitation movies da sua adolescência, introduzindo inclusive cortes, arranhões, raccords mal feitos, etc., este filme é um Tarantino até ao miolo. Só que menos sofisticado. E certamente não faltará quem lhe torça o nariz, vendo apenas o realizador a parodiar-se a si mesmo (temos direito a uma muito divertida citação a Kill Bill e tudo).
Ou seja, quem admirava a Tarantino mais o virtuosimo, que propriamente as suas referências xunga, talvez não ache grande piada a 'Death Proof'. Quem é mesmo fã do seu universo muito próprio (eu incluído), não pode deixar de se divertir loucamente com este filme, nomeadamente com o extravagante delírio da 'ultima parte', da vingança, que termina mesmo com uma cena de antologia. Eu pelo menos já não me ria tanto desde o episódio das 'Vitimas de incesto anónimas' do Larry David....
Death Proof, E.U.A., 2007. Realização: Quentin Tarantino. Com: Kurt Russell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Jordan Ladd, Rose McGowan, Sydney Tamiia Poitier, Tracie Thoms, Mary Elizabeth Winstead, Zoe Bell, Quentin Tarantino.

7.7.07

Renascimento



Qualquer amante de ficção cientifica verá este filme com agrado, penso. Não sendo particularmente original, é assim uma espécie de súmula aprazível do género: uma cidade futurista (Paris) como cenário, como tema a busca da imortalidade, o progresso cientifico como ameaça, etc.
Paradoxalmente, onde o filme falha, é na sua maior aposta: o uso da mesma técnica de Sin City, que consiste em captar os movimentos dos actores passando-os depois para animação. Ao contrário do filme de Roberto Rodriguez, que usava sabiamente este factor, conjuntamente com o uso do preto e branco, para reinventar inteligentemente o film noir, aqui não se vê que mais-valia estes dois aspectos tragam. Pelo contrário, sugerem antes assim como que uma leveza de desenho animado, que não favorece em nada o ambiente do filme. Não é por este se passar em 2054, que não sentimos falta de mais 'carne e osso'...
Renaissance, França/Grã-Bretanha/Luxemburgo, 2006. Realização: Christian Volckman. Longa-metragem de animação.

2.7.07

Die Hard 4.0 — Viver ou Morrer



Numa analogia bastante óbvia e escusada, às tantas o vilão-mor diz a John McClane que ele é um velho Timex numa era digital. Pegando nela, podemos dizer que neste filme o que é analógico funciona bem, o que é digital é bastante pífio. Ou seja, as parte com o bom e velho Bruce à pancadaria e aos tiros são bastante competentes (como os 10 minutos iniciais) ou até francamente boas (como a cena em ele que diz à vilã asiática que chega de kung fus e lhe dá uma tareia à moda antiga, usando a força bruta e até arrancando-lhe cabelos); as partes dos hackers, dos ataques informáticos, das perseguições com aviões e não sei que mais, a la playstation, são assim um bocado para o palerma. O humor também não prima pela subtileza, e ainda há espaço para umas lamechices com a filha do homem. Mas McLane/Willis aos cinquenta e tais ainda é o único action heroe decente que anda por aí - sempre igual a si próprio - e resiste a isto tudo e sai com a dignidade intacta. Grande homem!
Die Hard 4.0, E.U.A., 2007. Realização: Len Wiseman. Com: Bruce Willis, Timothy Olyphant, Maggie Q, Justin Long, Elizabeth Winstead.

26.6.07

A ponte



Em 2004, Eric Steel pôs não sei quantas câmaras a apontarem 24 horas por dia para a Golden Gate Bridge com um propósito simples: 'apanhar' suicidas (a famosa ponte é um dos locais dos States mais escolhidos para o acto). De facto apanhou uns quantos, alguns dos quais nos são mostrados.
Obviamente mostrar uma pessoa a suicidar-se é algo mais que moralmente duvidoso, é de um voyeurismo obsceno e gratuito. Por mais que Steel se defenda, não encontro uma única razão que justifique esta sua opção. Queria alertar? Queria denunciar? Queria compreender? Nada disto implica filmar os suicÍdios e embrulhá-los num documentário.
Posto isto, quem mesmo assim tiver estômago para ver 'A ponte', depara-se com um documentário banal (Steel não é grande espingarda a realizar) mas com vários momentos pungentes, naturalmente. Há diversos testemunhos tocantes, nomeadamente de quem sobreviveu à tentativa de suÍcidio: um rapaz chega a contar que quando já estava do lado de lá da ponte, a preparar-se para saltar, uma turista lhe foi pedir se ele lhe tirava uma fotografia...
Enfim, é este, talvez, o único mérito deste documentário: dar-nos a ver a indiferença da maior parte das pessoas perante o que se está a passar. As pessoas atiram-se da ponte enquanto dezenas de outras passam tranquilamente ao lado. É arrepiante.
The Bridge, E.U.A., 2006. Realização: Eric Steel. Documentário.

Shrek o Terceiro



Este terceiro Shrek continua a ser um competentíssimo filme sub-18, com uma capacidade de controlar as reacções do seu público ao milímetro, que o próprio Hitchcock não desdenharia (basta assistir a uma sessão numa sala cheia, como foi o meu caso, para o notar - e em poucos filmes terei ouvido tão poucas conversas por parte da assistência). Além disso, consegue ter ainda um número considerável de piadas suficientemente boas (com várias piscadelas de olho ao politicamente incorrecto e ao absurdo) para que até um adulto calejado o veja com agrado. Já não é pouco.
Shrek the Third, E.U.A., 2007. Realização: Chris Miller, Raman Hui. Longa-metragem de animação.

19.6.07

Ruptura



'Ruptura' é um thriller feito como deve ser, com nervo, suspense e um argumento absorvente até ao fim.
Se isto já não é pouco, o que o eleva definitivamente a uma muito boa surpresa é o duelo, mais do que entre as respectivas personagens, entre os actores: Anthony Hopkins versus Ryan Gosling. O primeiro ainda não anda em piloto automático, como já foi dito, mas é verdade que faz um pouco de Hannibal outra vez (diga-se em abono da verdade, que a culpa também é da personagem que tem). Gosling ganha assim naturalmente a contenda e confirma, depois de Half Nelson, que é o actor do momento.
Fracture, E.U.A., 2007. Realização: Gregory Hoblit. Com: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke.

18.6.07

Lady Chatterley



Pascale Ferran evita duas armadilhas óbvias nesta sua adaptação do romance de D.H.Lawrence. A primeira, a de cair naquele estilo a que se convencionou chamar 'academismo', e que as adaptações de 'grandes romances' costumam atrair como o mel as moscas. Fá-lo, desde logo, usando uma arma poderosa: a fotografia, granulosa, rugosa, mas cheia de vida, que afasta definitivamente qualquer tom de telefilme. Depois o jogo com o tempo, a atenção ao que está para lá das peripécias: os longos passeios de Lady Chatterley pelos bosques, o seu embrenhar pela natureza, vão-nos dando de modo indirecto uma medida da sua personalidade, com um vagar pouco usual. A segunda armadilha era a de cair num erotismo fácil, ou de tentar transpor o efeito de escândalo do livro. Ferram vai por outro lado, e embora não fuja ao erotismo, este é-nos transmitido de uma forma cândida, até ingénua, aproximando-se quase da história de dois adolescentes que vão descobrindo pouco a pouco o seu corpo e o do amante, que se vão iniciando nos jogos do amor.
Como tantas vezes acontece, no entanto, as fraquezas do filme derivam das suas virtudes. Os longos 168 minutos do filme são excessivos, e este por vezes torna-se fastidioso e divagante, enveredando por cenas desnecessárias (como por exemplo o longo episódio 'simbólico' da cadeira empenada de Clifford) e repetitivas (toda aquela ideia recorrente da comunhão entre as personagens e a natureza). E, não obstante a bravura de Marina Hands (excelente papel!), quer a sua personagem, quer mesmo todo o ambiente do filme, se aproximam perigosamente de uma candura quase simplista e naif.
Fica, assim, um filme estimável e até simpático, mas não mais do que isso.
Lady Chatterley, França, 2006. Realização: Pascale Ferran. Com: Marina Hands, Jean Louis Coullo´ch, Hippolyte Girardot, Hélène Alexandridis, Hélène Fillières.

14.6.07

Ocean´s 13



A questão que se punha quanto a 'Ocean´s 13' era: iria Soderbergh repetir o pastiche pretensioso e bocejante do Twelve, ou voltaria ao divertimento inteligente e sofisticado do Eleven? Felizmente optou pela segunda hipótese, e o filme vê-se muítissimo bem.
Claro que se pode sempre perguntar qual a necessidade de voltar ao tema, mas é o mesmo que perguntar qual é a necessidade de se irem fazendo novos 007. Enquanto o requinte se mantiver e o nível estiver uns furos acima do universo dos filmes-pipoca, não serei eu a queixar-me...
Ocean`s Thirteen, E.U.A., 2007. Realização: Steven Soderbergh. Com: George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia, Don Cheadle, Bernie Mac, Al Pacino, Ellen Barkin, Casey Affleck, Scott Caan, Carl Reiner, Elliott Gould, Shaobo Qin, Eddie Izzard, David Paymer, Vincent Cassel, Julian Sands

8.6.07

O odor do sangue



Carlo (Michele Placido), escritor e jornalista, tem uma amante, Lu (Giovanna Giuliani), com quem vai frequentemente para a sua casa de campo, às claras, com o conhecimento da sua mulher, Silvia (Fanny Ardant), que é assim deixada sozinha na sua bela casa de Roma. Ela também terá amantes ocasionais, e ele aprova-o: só assim é possível manter o casamento, longe das convenções pequeno-burguesas. Mas um dia ela conta-lhe que um rapaz muito mais jovem, um rufia, a seduziu e a persegue, a atrai. Carlo aí não gosta (apesar de a sua amante ser também bastante mais nova) e manda às malvas as suas teorias sobre relações livres, que lhe parecem agora artificiais e de um idealismo absurdo.
Estando estes dados lançados, parece que estamos em território conhecido: a análise comportamental e amorosa da alta burguesia, não longe, por exemplo, de um Antonioni. Mas rapidamente percebemos que o filme vai (também) noutra direcção, quando começamos a suspeitar que nem tudo o que Silvia diz é verdade e quando começamos a ver que Carlo ouve aquilo que deseja, que a sua obsessão com o romance da mulher se confunde com masoquismo. Que o que está em jogo são desejos e pulsões mais fortes que um simples jogo de salão entre um casal sofisticado.
Sendo, digo-o já, um filme muito interessante, Mario Martone (encenador e realizador, por esta ordem), não consegue porém desenvolver todas as potencialidades cinematográficas deste argumento. Não é só o facto de por vezes haver um excesso de decorativismo, de busca do plano perfeito; também a narrativa pedia mão mais firme. Tanto se perde um pouco entre as 3 personagens (Lu parece que vai sendo abandonada pelo realizador, tanto como por Carlo), como é excessivamente explicativa, demonstrativa. Martone tem, no entanto, o engenho de nos oferecer um final enigmático e aberto.
Tudo somado, 'O odor do Sangue', com o seu erotismo, a sua vontade de arriscar, a sua diferença, é um filme que vale bem a pena descobrir. Pena que seja o primeiro do realizador italiano a estrear por cá, mas isso é outra conversa...
L`Odore del Sangue, França/Itália, 2004. Realização: Mario Martone. Com: Michele Placido, Fanny Ardant, Giovanna Giuliani, Sergio Tramonti, Italo Spinelli, Norman Mozzato.

30.5.07

Piratas das Caraíbas: nos confins do mundo


(tentei, mas não consegui, arranjar uma foto da única cena interessante do filme: um monólogo de Johnny Depp, acompanhado apenas do seu galeão, numa paisagem toda branca, literalmente no meio do nada; um insólito momento de beleza teatral no meio deste desenho animado)

E mais uma vez se confirma a velha máxima das sequelas: é sempre a descer.
Pirates of the Caribbean: At World´s End, E.UA., 2007. Realização: Gore Verbinski. Com: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Geoffrey Rush, Chow Yun-Fat, Bill Nighy, Jonathan Pryce, Keith Richard.

27.5.07

O último rei da Escócia



O grande Forest Whitaker é motivo suficiente para me levar ao cinema, de modo que aproveitei a vinda tardia deste filme a uma sala próxima para finalmente o ver. Whitaker tem de facto mais uma grande presença, mas "O último rei da Escócia" tem mais motivos de interesse. Gostei especialmente do modo como anda à volta do lado sombrio de Idi Amin, começando por mostrar o seu lado sedutor e magnetizante, e só pouco a pouco nos ir revelando o seu verdadeiro eu, primeiro as suas excentricidades, as suas inconstâncias, a sua infantilidade, e só depois, finalmente, a sua loucura e malignidade. É muito inteligente esta forma como o argumento está construído, dando ao espectador o ponto de vista do ingénuo e algo leviano Dr.Garrigan (um dos argumentistas é Peter Morgan, o mesmo de 'A Rainha').
O documentarista Kevin Macdonald (neto de Emeric Pressburger), estreia-se assim da melhor maneira na ficção, não obstante algum excesso de poluição sonora, um mal comum nos filmes passados em África, em que os realizadores teimam em carregar na banda sonora.
E o título, um verdadeiro achado, é desde já candidato a melhor do ano,
The Last King of Scotland, Grã-Bretanha, 2006. Realização: Kevin Macdonald. Com: James McAvoy, Forest Whitaker, Kerry Washington, Gillian Anderson, Simon McBurney.

22.5.07

Still life-Natureza morta



Velho sonho de Mao, só em 2006 a barragem das três gargantas foi concretizada. Tem um reservatório com 600km de comprimento, foi preciso demolir cidades inteiras para a construir, e estima-se que terão sido deslocadas qualquer coisa como um milhão e duzentas mil pessoas. Jia Zhang-Ke serve-se deste empreendimento colossal para nos dar um filme eminentemente social, atento às enormes mudanças que a China está a atravessar.
Um homem tenta encontrar, 16 anos depois, a sua mulher, que vivia numa das cidades demolidas, para rever a filha. É um pobre mineiro, que na época tinha comprado a mulher, mas esta fugira. Por outro lado uma mulher tenta encontrar o marido, que fora trabalhar para a zona da barragem: não sabe dele há dois anos, suspeita que ele tem outra mulher, e ela própria quer o divórcio e partir para uma nova vida. São representantes de duas Chinas diferentes, uma quase medieval, a outra mais moderna, de funcionários do partido, com uma outra vida, mas ambos irremediavelmente afectados pela enorme transformação económica e social que o seu país está a sofrer.
Se como documento realista e de serena análise social 'Natureza morta' é um filme importante e interessante, como drama sobre seres humanos de carne e osso é distante e gélido. Zhang-Ke só se interessa pelos seus personagens enquanto representantes ou vítimas de algo e só numa cena ou outra (nomeadamente nos breves encontros dos dois casais) nos deixa entrever alguma centelha de calor humano. Mas talvez este distanciamento apenas reflicta a frieza e desumanidade do burocrático sistema comunista-capitalista da China actual.
De resto o filme é belissimamente filmado e fotografado, mas mesmo que o admire, não me tocou.
Sanxia haoren/ Still Life, China/Hong Kong, 2006. Realização: Jia Zhang-ke. Com: Tao Zhao, Sanming Han, Hong Wei Wang.