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25.1.08

4 Meses, 3 semanas e 2 dias



Este filme, vencedor da Palma de Ouro da última edição de Cannes, poder-se-ia chamar Bucareste fora de horas, ou Um dia na vida de Otília.
Otília encontra-se com o namorado que lhe recorda que tem que passar em casa dele mais tarde: a mãe faz anos. E que leve flores. Otília tenta escapar mas acaba por ceder. Depois vai tentar marcar um quarto num hotel. Não o consegue à primeira nem à segunda, só depois de negociações e pequenas humilhações. Mas o pior está para vir: o quarto destina-se a ser o lugar em que a sua amiga Gabita vai abortar clandestinamente (estamos na Roménia comunista, onde o aborto é proibido). Gabita parece ser boa pessoa, mas irritantemente superficial e irresponsável. Mentiu em quase tudo ao homem que vai fazer o aborto, tratou das coisas de uma forma displicente e pôs as duas raparigas (que são estudantes no politécnico e têm pouco dinheiro) numa situação muito complicada. O homem aproveita para as chantagear e Otília terá que pagar com o próprio corpo. Em seguida tem que ir ao tal aniversário em casa do namorado. Aí é novamente humilhada pelos imbecis presentes na festa, que se acham duma classe superior e tem que enfrentar a cobardia e indecisões do namorado. Entretanto Gabita não atende o telefone e Otília em pânico volta para o hotel, onde o aborto já ocorreu, e acaba por ter que ser ela a desfazer-se do feto. Enquanto isso, a amiga que estava com fome, espera-a tranquilamente no restaurante do hotel.
Pelo meio, claro, o que parecia uma história socialmente empenhada, realista, seca e fria, já se tornou numa aventura kafkiana claustrofóbica e inquietante, numa crítica cerrada e impiedosa a toda uma sociedade e a um sistema politico, num conto triste, escuro e um pouco absurdo. É esta capacidade de transcender o que pareciam ser as suas coordenadas, seguras e lineares, que transforma "4 Meses, 3 semanas e 2 dias" num grande filme. Mais um, da nova vaga Romena.
4 luni, 3 saptamani si 2 zile, Roménia, 2007. Realização: Cristian Mungiu. Com: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov, Alex Potocean, Ion Sapdaru, Teodor Corban, Eugenia Bosânceanu, Marioara Sterian.

21.1.08

O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford



O que me surpreendeu mais neste pós-western foi o sentido de humor. É muitíssimo bem filmado (sem ser decorativo ou fútil - e lembremos a importância da paisagem no imaginário dos westerns), tem um excelente argumento à volta duma epigrafe do género ("quando a lenda supera a realidade...") e proporciona uma interpretação extraordinária a Casey Affleck . De tudo isto eu já estava à espera. Só não sabia se conseguiria ser poético sem ser pretensioso, ou pedante, ou deslumbrado consigo mesmo. Consegue-o, e penso que o seu segredo passa muito por nos fazer rir bastantes vezes, por dar a entender que não se leva assim tão a sério. E também pela violência de duas, três cenas, não mais. Perder-se-á aquele lado místico (à Malick), mas alcança-se uma serena beleza contemplativa. Resumindo: é um belíssimo filme.
The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, E.U.A., 2007. Realização: Andrew Dominik. Com: Brad Pitt, Casey Affleck, Sam Shepard, Mary-Louise Parker, Paul Schneider, Jeremy Renner, Zooey Deschanel, Sam Rockwell.

18.1.08

Expiação



Começo por dizer que não gostei de quase nada em ‘Expiação’. O filme é constituído por duas partes (acto e consequência) e uma breve conclusão. A primeira parte é exibicionista e a segunda irrelevante.

Na primeira parte, em que é descrito o acto que desencadeia a história, o realizador Joe Wright aproveita para mostrar as suas habilidades, seleccionando uma banda sonora grandiloquente, exibindo uns brilharetes sonoros, fotografando uns planos muito bonitinhos da paisagem ou de Keira Knightley pensativa. Quase me pareceu estar a ver um anúncio de perfumes, por vezes.
Na segunda parte, em que tinha que nos mostrar as terríveis consequências do acto perpetrado na primeira, perde-se em cenas de guerra irrelevantes, nunca nos conseguindo transmitir que estamos em presença de personagens cuja vida foi destruída.

Tendo uma história de base fortíssima entre mãos, Joe Wright nunca sabe lidar com ela, começando com o peito cheio de ar para logo o desbaratar ingloriamente, perdendo-se numa zona de nenhures onde não sobra quase nada que toque o espectador. Grande desilusão.
Atonement, Grã-Bretanha/França, 2007. Realização: Joe Wright. Com: Keira Knightley, James McAvoy, Saoirse Ronan, Romola Garai, Vanessa Redgrave, Brenda Blethyn.

11.1.08

O sonho de Cassandra



'Cassandra´s Dream' é o terceiro filme de Woody Allen à volta do tema do "crime e castigo". O primeiro foi uma obra-prima: 'Crimes e escapadelas'; o segundo, 'Match Point', era uma ambiciosa variação daquele, mas que me desiludiu um pouco por lhe estar tão colado; este, é, claramente, uma variação menor.
Mantém-se a inteligência na escrita do argumento; mantém-se a excelente direcção de actores; mantém-se a elegância formal (apesar de, para variar, se passar mais ou menos entre as working classes, não há aqui o mínimo vestigio de um Mike Leigh, digamos; mesmo Colin Farell a fazer de mecânico parece, na pior das hipóteses, um camionista sofisticado). Mas é verdade também que falta aqui qualquer coisa que faça o filme descolar da velocidade de cruzeiro, inclusive ao nível do argumento, que é daqueles que Allen escreve numa tarde enquanto faz outra coisa ao mesmo tempo.
Enfim, a generalidade das pessoas já se fartaram de Woody há uns lustros; eu, fã confesso, só agora lhe achei sinais de cansaço (é verdade, gostei muito de 'Scoop'). Que venha o próximo, a ver se isto me passa.
Cassandra`s Dream, Estados Unidos/Grã-Bretanha, 2007. Realização: Woody Allen. Com: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Sally Hawkins, Hayley Atwell.

6.1.08

Jogos de poder



Já ouviu o leitor aquela teoria que advoga que o que verdadeiramente antecipou a queda do muro de Berlim e o desmoronamento do bloco soviético foi a derrota da falecida U.R.S.S. no Afeganistão? Pois bem, a acreditar neste filme, os responsáveis por tal feito foram um congressista desconhecido, dado à bebida e a meninas (tinha mesmo uma espécie de harém como staff pessoal), uma milionária fanática religiosa e um agente da CIA na prateleira. Esqueçam portanto Reagan e João Paulo II. Este trio é que derrotou o comunismo.
É nesta premissa - baseada em factos reais, imagine-se - que se baseia 'Jogos de poder'. O filme mistura com felicidade o género político (liberal) com a comédia (discreta mas mordaz) e dá-nos um belo retrato dos bastidores do poder na mais poderosa nação do mundo. Um simples congressista, apenas porque estava no lugar certo (um subcomité que decidia o financiamento para operações secretas) e se 'mexia' bem, conseguiu, à revelia do congresso e do Presidente, aprovar verbas astronómicas para apoiar os rebeldes Afegãos, juntando pelo caminho Israelitas e Árabes em favor da causa e pondo a CIA (via o tal agente pária) a suportar a operação. Tudo porque a tal milionária, que encarava a coisa como uma guerra contra os infiéis, o convenceu a entrar na cruzada (não foi difícil convencer o congressista - logo no primeiro encontro levou-o para a cama).
O veterano Mike Nichols filma esta sátira amena com uma perna às costas, com eficácia e ritmo, apoiando-se num excelente casting (Tom Hanks faz mesmo um papelão) e embora fraqueje um niquinho no final (é a mensagem, estúpido!) dá-nos um dos mais divertidos filmes políticos da era Bush.
Charlie Wilson`s War, E.U.A., 2007. Realização: Mike Nichols. Com: Tom Hanks, Julia Roberts, Amy Adams, Philip Seymour Hoffman, Jud Tylor, Hilary Angelo, Wynn Everett, Cyia Batten.