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15.4.08
[REC]

3.4.08
Corações

Coeurs é menos ‘teatral’ que Smoking/No smoking, mas não descarta totalmente as suas origens. Passa-se praticamente todo em interiores e tem uma série de planos filmados em plongé, de apartamentos que uma personagem vai mostrando a outra, que sugerem estarmos na presença de cenários. Outro detalhe com que Resnais nos vai assinalando a sua presença, são as várias sequências filmadas através de ‘véus’, de cortinas, vidros, etc. Há também como que umas mudanças de cena, havendo uns separadores quando se vão alternando os segmentos (é um filme ‘mosaico’), uns nostálgicos planos da neve a cair, que se tornam uma espécie de marca do filme e com que uma estupenda cena quase no final fará raccord. Ou seja, há um domínio espantoso do realizador sobre o seu mundo, e vai-nos sabiamente envolvendo nele.
Mas não se pense que há aqui um vistoso embrulho sem conteúdo, que isto anda tudo ligado. Eu não classificaria o argumento, sobre meia dúzia de relações, sobre pessoas solitárias (superiormente interpretadas, claro está, pela habitual família de actores de Resnais), como o mais original do mundo, mas a maneira como é contado torna-o bastante próximo de nós. Comecei por sentir uma admiração distante por Coeurs, como a que senti por Smoking/No Smoking (um filme demasiadamente cerebral, para o meu gosto), mas depois tocou-me. É um filme vagamente triste, vagamente melancólico, pragmaticamente pessimista, se me consigo exprimir bem. E muito bem feito, mas com uma espécie de humildade que está ao alcance de poucos.
1.4.08
I`m Not There — Não estou aí

Quem conhece Todd Haynes não esperaria uma abordagem convencional à coisa e esta não o é certamente. Mas posto isto, também não me parece que o retrato seja tão impercebível ou impossível de agarrar como tem sido dito. É errático e fragmentário, sim. E sem dúvida que há personas mais reconhecíveis que outras (a de Cate Blanchett é a mais familiar, nomeadamente para quem tenha visto ‘No Direction Home’ de Scorsese; a de Richard Gere/Billy the Kid será mais difícil de acompanhar). Mas quem quiser saber as minudências biográficas de Dylan, pode ver os documentários que lhe foram dedicados, ou ler uma biografia.
Haynes pretendeu antes apanhar as várias faces de Bob Dylan, soltando pistas, apontando pormenores. Fazer um retrato poético e musical do artista, passe a vulgaridade gasta da expressão, deixar-se ir pelas músicas de Dylan, pela sua personalidade, pelas suas idiossincrasias. Tanto estamos num registo de falso documentário, como a câmara se deixa agarrar por uma canção e vai divagando quase ao estilo videoclip.
Comparando com outro biopic recente, o muito elogiado filme de Corbijn sobre Ian Curtis, eu diria que ‘Control’ era um retrato feito por um fotografo, que procurou o enquadramento perfeito e a luz exacta, enquanto ‘I´m Not There’ é um retrato feito por um cineasta, que se serve da montagem, do som, e dos múltiplos pontos de vista que a câmara permite para ir andando à volta do retratado, para o ir tentando captar em movimento. Tanto o apanha, como o deixa fugir, mas só essa busca vale toda a pena.
21.3.08
Caramel

Nadine Labaki
Com um tom assumidamente menor, oscila entre o cómico e o nostálgico (no sentido do que poderiam ser as coisas), e dá-nos um olhar feminino, simpático mas assertivo, de uma sociedade ainda profundamente machista. Este olhar é o maior trunfo do filme, que passa completamente ao largo da guerra – e talvez só uma mulher fosse capaz de fazer um filme no Líbano ignorando a política.
Por vezes pensamos que poderia ir mais longe, que é demasiadamente ‘caramelizado’ no tratamento de temas difíceis, mas não nos podemos esquecer que foi feito num país em que teve que atravessar as malhas da censura...
Uma palavra ainda para o conjunto de belas actrizes (que têm sido classificadas de Almodovarianas – mas a mim pareceram-me acima de tudo Espanholas!), onde se inclui a realizadora e argumentista, Nadine Labaki.
16.3.08
Jumper

Jumpers são pessoas que se teletransportam, ou seja, que se conseguem deslocar para qualquer local instantaneamente apenas pensando nele. Tipo agora tomo o pequeno-almoço em NY, depois dou um saltito até ao cimo da pirâmide de Gisé para contemplar o deserto e à noite já estou numa discoteca da moda em Londres a sacar miúdas. Mas infelizmente há uns fulanos, os Paladinos, que não gostam, por razões morais, dos Jumpers: acham que só Deus deve ter aquele poder, por isso toca a exterminar os que apanham.
Diga-se que tudo isto nos é explicado muito vaga e displicentemente, que Doug Liman não está para grandes teologias. Mesmo o modo como funciona o ‘teletransporte’ é no mínimo omisso. Como li algures, o espectador também precisava de ser um jumper para saltar entre tantos buracos no argumento. Mas essa até é a parte com que eu posso melhor: aliás se o filme tem algum mérito é o de não se levar muito a sério.
Doug Liman hesita entre o romance (chocho), a ficção cientifica (praticamente nula, se exceptuarmos a premissa inicial) e o filme de acção (insuficiente) e não vai a lado rigorosamente nenhum. Por vezes há uns vislumbres que provam que não era impossível fazer algo interessante com o tema (uma corrida de carro em que este também é teletransportado; uma luta em que as personagens se vão teletransportanto, tão depressa estando no deserto como no centro de Tóquio), assim uma espécie de ‘Bourne Ultimatum’ futurista e com humor (há duas ou três piadas boas, mas fica-se por aí).
Mas não, tudo se fica por uma mediania apática e sem sal, resultando numa fita um bocado palerma para adolescentes, tanto mais desapontante quanto Liman até possui uma certa elegância ao filmar, que se entrevê por entre o lema geral de não arriscar nem um bocadinho e manter a velocidade de entretenimento mínimo e anódino.
Passando por cima do final previsível e –uma vez mais – chocho, uma palavra final para os actores: eu não sei porquê fui ver o filme convencido que era com Matt Damon, mas na realidade é com Hayden Christensen, que consegue a proeza de ser um milhão de vezes ainda mais inexpressivo que aquele; já a mocinha (Rachel Bilson) nem é feia de alguns ângulos, mas infelizmente representar também não é o seu forte, mesmo tendo em conta que recebeu um papel de verdadeira sonsinha; e, como um mal nunca vem só, até o grande Samuel L.Jackson apenas se distingue pelo seu penteado à Abel Xavier.
Como me costuma dizer pessoa amiga, só eu é que vou ver filmes destes....
11.3.08
Duas irmãs, um rei

O argumentista Peter Morgan, que já nos tinha dado a sua visão de Tony Blair e da sua entourage em ‘A Rainha’, vira-se agora para Henrique VIII, adaptando o livro de Philippa Gregory.
Algo mudou duma época para a outra: no século XVI as inúmeras intrigas palacianas eram feitas mais à descarada (hoje oferecer a filha casada para amante do soberano não fará parte do menu) e, claro, o Rei fazia pura e simplesmente o que lhe dava na real veneta, rompendo com a Igreja Católica e enviando esposas para conventos ou até para o cadafalso, com o nobre propósito de satisfazer os seus apetites sexuais e de caminho dar um varão à corte. Pensar no pobre Tony Blair sempre rodeado de assessores de imagem para auscultar os ‘sentimentos do povo'...
Morgan é bastante menos simpático com o Rei do que o foi com o primeiro-ministro e o argumento sai-lhe bastante menos interessante. Tenta meter tanta coisa no caldeirão (inventando livremente quando lhe apetece) que inevitavelmente não há tempo para digerirmos a coisa. Tantas peripécias, traições, reviravoltas e intrigas se vão sucedendo, que as personagens nem tempo têm para respirar, quanto mais para serem credíveis. Henrique VIII, um homem poderosíssimo, é tratado como um mero joguete nunca se percebendo as suas motivações, fazendo Eric Bana pouco mais que figura de corpo presente.
Tudo isto precisava de outro tempo, de outra respiração, que esta espécie de condensado não permite, dividindo-se a culpa entre argumentista e realizador. Se o primeiro não fornece grande matéria-prima, o segundo também não vai além da ilustração competente e insossa.
Deixamos então para o fim o único motivo pelo qual este filme terá alguma notoriedade (se a tiver): reunir no ecrã duas das mais cativantes actrizes da actualidade. Na minha modesta opinião nenhuma delas é especialmente favorecida pelas roupinhas da época, mas não há como não ficar pelo beicinho com La Scarlett - que faz cara de boazinha e não muito mais. Natalie faz de má, e bem. E... c’est tout!
7.3.08
Três tempos

Tirando o seu segmento de 'Chacun son cinéma', este é o primeiro filme que vejo de Hsiao-Hsien, realizador taiwanês multi-premiado, nomeadamente em Cannes e Berlim. É um filme melancólico, lacónico, com um tempo próprio, sem gestos bruscos. Gostei do seu minimalismo formal e das suas histórias apenas esboçadas, sugeridas, mas estive longe de ficar deslumbrado.
Não me marcou ou surpreendeu como me aconteceu quando descobri Tsai Ming-liang (e em boa verdade continua a acontecer), seu conterrâneo com quem por vezes é comparado (ou vice-versa – Liang, dez anos mais novo, é que será influenciado por ele). Parece-me menos excêntrico, em ambos os sentidos da palavra. Mas, claro, é impossível julgá-lo por um filme só. Eu provavelmente não comecei pelo mais indicado.
28.2.08
Juno

‘Juno’ por vezes tem sido comparado a ‘Little Miss Sunshine’ (e recebido algumas das mesmas alfinetadas que aquele recebeu), mas eu pensei mais num filme como ‘Ghost World’ (de que gosto muito) quando o vi.
Primeira surpresa do ano.
26.2.08
Este país não é para velhos

Ou seja, eu diverti-me imenso a ver este filme, achei magnifica esta perseguição do tresloucado Chigurh (Óscar de caras para Bardem) ao condenado Moss (e o excelente Brolin também merecia estar nos Óscares), mas diverti-me da mesma maneira que me diverti a ver a perseguição das meninas a Kurt Russell em ‘Death Proof’. Nada contra ‘Death Proof’, bem entendido, mas penso que aqui os irmãos Coen deram tanta importância a estas personagens que se esqueceram do resto. Nem falo da personagem de Woody Harrelson que aparece e desaparece num ápice (fruto da sua arrogância), mas sim da personagem de Tommy Lee Jones, algo abandonada pelos realizadores, sendo que aqui me parece que se perde muito. É do desalento desta estranha personagem que vem o título do filme, não nos esqueçamos, mas não nos é dado a compreender exactamente porquê. Senti sempre que havia algo por trás deste (excelente) divertimento que não me estava a chegar, algo mais transcendental, ou religioso, ou simbólico (sobre a ‘natureza humana’, sobre ‘o mal’), que se intui que estará no livro mas que passa algo ao lado do filme. A intenção de Tarantino é mostrar-nos assassinatos estilosos e perseguições de carros. A dos Coen seria apenas mostrar-nos uma perseguição sanguinolenta? A de quem escreveu a história (McCarthy) não era certamente. E isso faz a diferença entre sentir que falta algo aqui (no ‘No Country...’) que não falta lá (em Tarantino - e peço desculpa pela insistência, mas lembrei-me mesmo de Tarantino ao ver este filme). Basta ver a sequência final, que parece deslocada, como se o filme já tivesse acabado antes.
Passei tanto tempo a tentar explicar porque não considero o filme uma obra-prima, que nem disse que o que lá está é mais do que suficiente para ele ser muito bom. Mas é-o. Já referi os actores, já referi que todo o subplot Barden/Brolim é estupendamente filmado, gostaria também de acrescentar as belas elipses que não nos deixam ver as duas mortes mais esperadas.
25.2.08
Michael Clayton — Uma questão de consciência

Eu infelizmente não sou assim tão entusiasta. ‘Michael Clayton’ é uma espécie de clone de ‘Syriana’: realização correcta, bons actores (Clooney faz estes papeis com uma perna atrás das costas) e argumento mais ou menos anódino com um alvo definido (neste caso as multinacionais e também as grandes companhias de advocacia). São filmes que se deixam ver bem e não pensamos mais neles.
Ao menos em ‘Boa noite e boa sorte' - não sendo uma obra-prima - havia ideias de cinema e vontade de fazer diferente. Pelo que solicito a Mr.Clooney que a próxima vez que quiser fazer um filme empenhado, faça o favor de passar também para trás da câmara.
23.2.08
Vista pela última vez...

‘Gone, Baby, Gone’, estreia na realização de Ben Affleck, confirma apenas parcialmente esta ideia. É que se Ben proporciona uma bela interpretação ao mano Casey, um dos actores do momento (aquela voz é uma coisa…), por outro lado os seus talentos enquanto realizador não vão além do suficiente.
De facto, o que mais sobressai neste filme é a força do seu argumento, baseado no livro homónimo de Dennis Lehane, mais uma vez passado em Boston e andando às voltas com fantasmas, crimes e crianças (diga-se de passagem que a colagem ao ‘caso Maddie’ é um disparate - a única coisa em comum é haver uma menina desaparecida).
Mas enquanto Eastwood (outro actor, mas certamente um caso especial) pegou em ‘Mystic River’, do mesmo Lehane, e fez uma obra-prima do cinema, Affleck apenas ilustra competentemente o argumento, aproximando-se demasiadamente do estilo telefilme, com uma realização mortiça e convencional. Mas penso que isso é mais uma limitação que uma atitude, pois Affleck não pretende nunca limar ou reduzir o argumento, e consegue mesmo algo essencial, que é instalar um clima de ambiguidade moral que está inerente à história mas que seria proibido no tal ‘telefilme’. O seu muito conseguido final é disso mesmo prova.
No fundo, acaba por nos deixar qualquer coisa cá dentro – o que quer dizer que valeu a pena.
Gone Baby Gone, E.U.A., 2007. Realização: Ben Affleck. Com: Casey Affleck, Ed Harris, Morgan Freeman, Michelle Monaghan, Amy Ryan, John Ashton, Robert Wahlberg.
21.2.08
Persepolis

'Persepolis' é co-realizado por Marjane Satrapi, a autora da BD homónima, não sendo por isso de admirar que siga esta de perto. Marjane, nascida e criada no Irão há 38 anos, assistiu de perto em criança às atrocidades do Xá, testemunhou a alegria das pessoas quando este foi derrubado e a rápida desilusão que sobrelevou quando se percebeu que a mudança fora para um teocrático e ainda mais repressor regime de ayatollahs (curiosamente, nunca Khomeini é citado no filme). Ainda adolescente foi para a Áustria onde problemas vários a levaram a uma vida marginal, regressou ao seu país e, sempre inadaptada, acabou por se refugiar em Paris. Com esta matéria-prima, não admira que tenha resolvido passar a sua vida para o papel - e depois para película.
O filme, como a BD, é sobre o desespero de um espírito livre, aberto e curioso, ter que viver sob um regime opressor (exponenciado pelo facto de se ser mulher). É um grito simultaneamente de raiva e de alerta.
Tecnicamente bem conseguido, esteticamente muito bonito, só peca por ser excessivamente didáctico – o que até é compreensível, mas já se sabe que a arte e as boas intenções raramente se dão bem. Apesar de tudo, Marjane Satrapi nunca prescinde de uma forte dose de auto-ironia, que resgata quase completamente a pecha referida.
No cômputo geral, vale bem a pena ver – assim estreie no circuito comercial. (*)
Persepolis, França,/E.U.A., 2007. Realização: Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi. Longa- metragem de animação. Com as vozes de: Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve, Danielle Darrieux, Simon Abkarian.
(*) Post originalmente publicado em Outubro de 2007, aquando da Festa do Cinema Francês.
19.2.08
Haverá sangue

Um filme dispensável, portanto? Nem tanto. Anderson é sempre Anderson e Anderson filma muito bem; e, além disso, bastaria a espantosa mas contida interpretação de Daniel Day-Lewis, um dos grandes actores da actualidade (o maior, diria eu se conseguisse ter essas certezas que ficam bem aos críticos) para valer a pena assistir às suas 2h30. Mesmo que seja, na minha opinião, o filme menos conseguido do realizador até à data.
12.2.08
O Comboio das 3 e 10

‘O comboio das 3 e 10’ é um filme estimável e competente, com um excelente naipe de interpretações (Christian Bale, Ben Foster, Russell Crowe, Peter Fonda) e dirigido com mão segura (mas sem rasgos) por James Mangold, mas algo previsível e ‘forçado’ (o tema do pai-que-tem-que-impressionar-o-filho-que-o-vê-como-um-cobarde-e–se-sente–mais-ligado-ao-bandido já foi tratado inúmeras vezes com bem mais subtileza). Ou seja, fosse este filme da altura em que se faziam dezenas de westerns por ano, e duvido que alguém reparasse nele…
8.2.08
O lado selvagem

7.2.08
Sedução, Conspiração

4.2.08
Sweeney Todd: o terrível barbeiro de Fleet Street

‘Sweeney Todd’ tem a particularidade de ser o primeiro musical de Burton com personagens de carne e osso, adaptando a peça homónima da Broadway. Burton ao que parece segue-a à letra, mas como qualquer grande criador, não só não se deixa espartilhar por esta, como a transforma completamente numa coisa sua. A sanguinolenta história do barbeiro que mata por vingança é rapidamente burtonizada, parecendo que a personagem foi criada especialmente para Johnny Depp (que nasceu para fazer papeis destes) e que não poderia ter como cenário outro local que não esta Londres sombria que é tão dickensiana quanto burtoniana. E, se ao princípio me pareceu que as canções limitavam um bocado o filme (a mim estas canções de musicais parecem-me todas iguais), a verdade é que vai havendo um crescendo à medida que a narrativa se desenvolve, não só em termos dramáticos como também musicais, terminando o filme em grande estilo.
Se acrescentarmos, uma vez mais, que ninguém filma hoje em dia como Burton, que a nenhum outro realizador se aplica tão apropriadamente o lugar-comum demasiadamente gasto de ser um poeta com a câmara, torna-se claro que estamos presente um filme imperdível. Feliz o ano que nos proporciona logo a abrir duas grandes obras dos realizadores mais extravagantes da actualidade.
3.2.08
O banquete do amor

30.1.08
Raça assassina

28.1.08
Darjeeling Limited
