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27.6.08

O orfanato



'O orfanato' encaixa-se num género que poderemos chamar 'terror sobrenatural': há uma mãe que tenta trazer o seu filho adoptivo do reino dos mortos, há fantasmas de crianças assassinadas, há uma casa que é um antigo orfanato onde os crimes foram cometidos, etc.

Tirando uma entaladela dum dedo numa porta, penso que não se vê sangue em mais nenhum momento do filme: o medo vem todo da expectativa do espectador, de sons inesperados, de aparições, de fantasmagorias.

Não trazendo nada de novo ao género, 'O orfanato' aplica competentemente as suas regras, resume bem o seu imaginário (veja-se o argumento, todo construído a partir de citações e piscadelas de olho a clássicos, quer do terror, quer das fábulas infantis) e dá-nos alguns momentos de verdadeiro suspense, de que o melhor exemplo será a sequência da medium.

Se o facto de ter a lição bem estudada não deixa de ser um trunfo do realizador Juan Antonio Bayona , a verdade é que tem o seu reverso da medalha: há uma sensação de déjà vu, é algo indistinto. Quem já viu muitos filmes deste género, nomeadamente da legião asiática que costuma passar pelo Fantas (onde até foi premiado), não desgostará a fita, mas também não achará nela nada de particularmente excitante.
El orfanato, Espanha/México, 2007. Realização: Juan Antonio Bayona. Com: Belén Rueda, Fernando Cayo, Roger Príncep, Mabel Rivera, Montserrat Carulla, Geraldine Chaplin.

24.6.08

Obsessão mortal



O agente agente federal Errol Babbage (Richard Gere, cujos dotes interpretativos têm melhorado exponencialmente com o passar dos anos) tem como missão acompanhar os acusados de delitos sexuais que saem da prisão. Os seus métodos são poucos ortodoxos, é obsessivo, não segue as regras e tem uma visão mais do que negra da humanidade (que o filme não lhe desmente): para ele, cada recluso libertado é um reincidente a curto prazo.

Babbage está prestes a ser reformado e a ser substituído por uma novata (a sempre interessante Claire Danes, aqui num papel com pouco sumo para espremer), mas não desiste dum último caso.

Estamos assim perante um tema clássico, que vem - pelo menos - dos westerns: o do pistoleiro experiente e desencantado que passa o testemunho ao adjunto inexperiente e idealista que acaba por o admirar.

Andrew Lau, realizador de Hong Kong que realizou a trilogia de culto 'Infernal Affairs' - de cujo primeiro tomo Scorsese fez um remake chamado 'The Departed' com o sucesso que se sabe - estreia-se com este filme em Hollywood, pisando terrenos algo distantes do que seria de esperar.

É que mais do que um filme de acção - há aqui muito pouca 'acção' - 'Obsessão mortal' é uma sombria reflexão (ía escrever meditação, mas o filme não chega a tanto) sobre o mal e sobre o modo como perturba quem se aproxima dele (Gere). Ou será que só se aproxima dele quem já sente o seu fascínio, mesmo que escolha o outro lado?

Não estando ao nível do melhor que Lau fez na sua terra natal, 'Obsessão mortal' é ainda assim uma obra competente, segura e bem filmada (tem mesmo meia dúzia de muito belos planos), que não deslustra o nome do realizador.
The Flock, E.U.A., 2007. Realização: Andrew Lau. Com: Richard Gere, Claire Danes, KaDee Strickland, Avril Lavigne, Ray Wise.

17.6.08

O acontecimento



Depois do enorme flop que foi ‘A Senhora da água’ (de que eu gostei muito), Shyamalan surge agora com este filme ‘menor’. ‘Menor’ na ambição, no tom, no conjunto de actores escolhido (além do opaco Mark Wahlberg, só secundários e mesmo desconhecidos). Fez-me mesmo lembrar, e muito, um filme série B, daqueles que se faziam há 50 anos, misto de ficção científica e terror.

Mas, claro, com o savoir-faire de Shyamalan, um dos grandes realizadores da actualidade. A sua marca registada está lá inteirinha, e mesmo que por vezes a realização pareça um pouco ‘tosca’, sentimos que era para ser mesmo assim, que o realizador tem um controlo total do que está a fazer, como o prova o ambiente verdadeiramente angustiante que instala com quase nada: umas plantas estremecendo com o vento, uma pessoa petrificada, um olhar vítreo.

Como sempre acontece com os filmes de Shyamalan, não convém falar muito do argumento, embora este filme aposte menos no seu efeito bombástico do que outros. A ‘mensagem’, algo mística como sempre, aqui também ecológica, irritará os detractores do costume (e se ele tem muitos!), mas a mim não me pareceu o mais importante: tal como acontecia nos tais filmes série B, reflecte as angústias da sua época.

E numa época de filmes amorfos e realizadores insossos, que bom é ainda haver um verdadeiro autor como Shyamalan: ame-se ou deteste-se, nunca um seu filme é vulgar ou indistinto.
The Happening, E.U.A., 2008. Realização: M. Night Shyamalan. Com: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Spencer Breslin, Betty Buckley, Jeremy Strong.

9.6.08

Os reis da rua



Tom Ludlow (Keanu Reeves) é o homem dos trabalhos sujos do Departamento de Policia de Los Angeles: qual Dirty Harry, ele prefere disparar primeiro e perguntar depois. Para quê levar um suspeito a tribunal e arriscar a sua absolvição, se o pode matar logo e ficar o assunto resolvido?

O seu chefe (Forest Whitaker) protege-o, mas um capitão dos assuntos internos (Hugh Laurie, o famoso Dr.House) começa-o a incomodar: aparentemente um seu colega e ex-amigo denunciou os seus métodos pouco ortodoxos. Digo aparentemente, porque neste filme nada é o que parece (embora o espectador experimentado não se acredite nas parecenças e cheire o 'vilão' a léguas), e não tardamos muito a ver-nos envolvidos num enorme novelo de corrupção e interesses pouco claros, em que quanto mais se mexe mais emaranhado fica. Não há praticamente uma pessoa neste filme que seja honesta, e Keanu Reeves, um assassino consumado e impiedoso, acaba por fazer o papel de bom da fita, pois é uma mera peça do puzzle, que mata os 'maus' não por dinheiro ou ambição, mas ''apenas'' porque são criminosos. Quem se indignou com o fascismo de Dirty Harry tem neste argumento mais do que cínico - baseado numa história de James Ellroy, que também aparece como co-argumentista - pano para mangas...

Deixando agora o enredo de lado, diga-se que o realizador David Ayer (argumentista de 'Dia de Treino', que volta assim a um terreno que bem conhece), não sendo um Don Siegel, não se safa mal de todo, sendo competente e eficaz q.b., tirando ainda bom partido do lado menos glamoroso de L.A. (ainda que actualmente este tipo de filmes me pareçam ser todos filmados da mesma maneira, por pessoas que viram séries de TV e vídeos de hip-hop a mais - e aqui nem faltam uns rappers conhecidos nuns papeis secundários).

Uma boa surpresa é Keanu Reeves, que não sendo Clint Eastwood, compõe a sua violenta e moralmente distorcida personagem com grande credibilidade e secura.

Tudo somado, é um filme que vale a pena ver.
Street Kings, E.U.A., 2008. Realização: David Ayer. Com: Keanu Reeves, Forest Whitaker, Hugh Laurie, Chris Evans, Terry Crews, Amaury Nolasco, Naomie Harris, Common, The Game, Cedric the Entertainer.

6.6.08

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal



Nunca fui especial fã de Steven Spielberg e muito menos da trilogia Indiana Jones, de cujos filmes sinceramente já nem me lembro muito bem. Não serei assim a pessoa mais indicada para elaborar considerações metafísicas à volta do regresso do herói, quase 20 anos depois.

Registo com agrado, no entanto, que não há neste quarto episódio qualquer tentativa de nos impingir reflexões pseudo-profundas sobre 'o envelhecimento do mito', ou tretas no género a la Bronco Stallone. Há apenas, uma vez mais, a vontade de nos contar uma história de aventuras, de nos entreter honestamente com peripécias e lutas de bons contra maus.

Ainda assim, na minha opinião o resultado não é muito entusiasmante, não havendo aqui um grão de originalidade e sendo o filme vagamente entediante e mesmo algo pateta. Um filme desnecessário, diria. Mas também é verdade que há sempre algo em Spielberg que nos remete para para uma certa inocência primordial de fazer cinema, há sempre uma certa magia, para usar um termo foleiro caro aos seus admiradores. E isso uma vez mais está presente, o que aliado ao facto de Harrison Ford estar em excelente forma, justifica que o tempo despendido com este último Indy não seja totalmente perdido.
Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, E.U.A., 2008. Realização: Steven Spielberg. Com: Harrison Ford, Cate Blanchett, Karen Allen, Shia LaBeouf, Ray Winstone, John Hurt, Jim Broadbent, Igor Jijikine.

1.6.08

O segredo de um cuscuz


A família à volta da mesa - uma cena extraordinária.

O que desde logo surpreende neste filme realista e politico é ser tão caloroso, é das suas personagens (todas interpretadas por actores não profissionais, todos sem excepção com uma relação perfeita com a câmara) emanar uma espécie de alegria de viver, de humanismo, que não entra nunca em conflito com a crítica social cerrada que Abdel Kechiche nos vai servindo.
Kechiche é implacavel para com a burguesia francesa, racista e mesquinha, mas fácil de animar com álcool e mulheres, mas também não deixa de dar uns remoques à família magrebina que está no seio do filme, incapaz de integrar a mulher ucraniana de um dos seus, e brinca ainda com o facto de o resignado Sr.Beiji, patriarca de uma família árabe e supostamente machista, atravessar uma verdadeira via-sacra sempre rodeado de mulheres, que são os elementos mais fortes da história, ora o suportando (como a sua extraordinária enteada) ora o martirizando (o longo discurso à beira do histerismo que ele ouve silenciosamente da sua nora ucraniana é todo um programa).
Este retrato tão humano e caloroso (repito os adjectivos), como mordaz e impiedoso, seria mais do que suficiente para elevar bem alto 'O segredo de um cuscuz' (mais um titulo português idiota), mas Kechiche vai mais longe e dá-nos uma última meia hora de um suspense verdadeiramente hitchcockiano, numa angustiante montagem paralela esticada mesmo para lá do suportável, culminando com um dos finais mais sádicos que já me foi dado a ver.
A não perder.
La Graine et le Mulet, França, 2007. Realização: Abdel Kechiche. Com: Habib Boufares, Hafsia Herzi, Farida Benkhetache, Abdelhamid Aktouche, Bouraouïa Marzouk, Alice Houri.

26.5.08

Diário dos mortos



Um grupo de estudantes universitários está a rodar um filme, trabalho de curso, quando ouve a notícia de que os mortos estão a ressuscitar e a atacar os vivos (*). Resolvem então dirigir-se, numa caravana, para a casa dos pais duma das raparigas, que quer ver se eles estão bem.

O estudante-realizador, namorado desta, nunca larga a câmara, e vai filmando a carnificina que se segue: 'é preciso documentar o que se está a passar', diz; 'a televisão só diz mentiras, temos que ser nós a contar a verdade sem filtros'; 'é nossa obrigação registar, temos uma câmara, temos internet, temos todos os meios', etc., etc.; a namorada vai dando umas achegas, entre o zangada e o fascinada, 'filma isto, se não filmares é como se não tivesse acontecido, certo?', etc., etc.

Não sei o que é mais irritante neste filme: se aderir à mania agora em voga de filmar com câmara à mão em registo de falso documentário ('Censurado' e 'REC', recentemente), se o facto de as personagens nos estarem a gritar de cinco em cinco minutos a 'MENSAGEM', sobre a actual sociedade de informação, a sociedade do youtube, dos blogues, dos milhões de câmaras, do excesso de informação, em suma.

Eu às tantas ainda pensei que Romero estivesse a ser irónico, que pretendesse ridicularizar um pouco o seu personagem, que se sente poderoso pelo facto de ter uma câmara e poder pôr a sua 'verdade' na internet: '78.000 visitas em 10 minutos', repete fascinado. Mas não há qualquer sinal de ironia: pelo contrário, Romero parece estar tão obcecado como as suas personagens em gritar-nos a sua opinião sobre o estado das coisas, sobre o cinema, sobre a televisão, sobre tudo.

Mas há infinitamente mais 'crítica social' no morbidamente estupendo plano final de 'A noite dos mortos-vivos', que na 1h30 de discursos deste 'Diário dos mortos'. É uma pena que o mestre do género não o tenha percebido.
(*) Porque é que as personagens dos filmes de zombies nunca viram um filme de zombies!? Nunca identificam o fenómeno quando ele aparece...
Diary of the Dead, E.U.A., 2007. Realização: George A. Romero. Com: Michelle Morgan, Josh Close, Shawn Roberts, Amy Lalonde, Joe Dinicol, Scott Wentworth, Philip Riccio, Chris Violette, Tatiana Maslany.

23.5.08

Triângulo



'Triângulo', que ganhou o prémio de melhor filme da secção 'Orient Express' no último Fantasporto, junta três dos mais conceituados e populares realizadores de Hong Kong (e só lá os dois adjectivos costumam andar juntos): Tsui Hark, Ringo Lam e Johnnie To. Mas não se trata de um vulgar filme de sketchs; pelo contrário, o método de rodagem foi invulgar: Tsui Hark realizou meia hora do filme, depois veio Ringo Lam com o seu argumentista, viu o que já estava feito e realizou mais meia hora e finalmente Johnnie To e respectivo argumentista fecharam a tasca.
Um espectador incauto até poderá nem notar as passagens de testemunho (não há qualquer sinal delas no filme), mas um olho mais treinado não as deixa passar: Tsui Hark distingue-se pela montagem difusa e imaginativa mas algo confusa; o filme normaliza-se um pouco quando chega Ringo Lam, que se centra mais num só episódio e organiza as coisas; e depois Johnnie To dá o seu toque mais estilizado e etéreo, e baralha tudo outra vez.
No final o resultado é algo indistinto e indiferente, pois nem o argumento nos prende, nem o filme tem um estilo próprio que nos seduza, deixando mesmo alguma sensação de confusão no espectador. Eu pessoalmente, estive sempre um pouco à espera de algo que nunca aconteceu (To é um favorito da critica, mas o seu fecho do filme não me convenceu: aparvalha um pouco a história e depois brinda-nos com uma coreografia final muito ao (seu) estilo western spaghetti que não acrescenta nada).
Resumindo: por vezes o total é inferior à soma das partes.
Tie saam gok/Triangle, Hong-Kong/China, 2007. Realização: Hark Tsui, Ringo Lam e Johnnie To. Com: Louis Koo, Simon Yam, Honglei Sun, Ka Tung Lam, Kelly Lin.

22.5.08

Goodnight Irene



'Goodnight Irene' é um objecto estranho, desde logo devido a ser um filme 'bilingue': todas as personagens vão alternando o português e o inglês (sendo que as falas nesta língua são legendadas).
Alex, um solitário velho actor inglês, doente e mal-humorado, agora confinado a dar voz a audioguias turisticos, é abalado pela chegada de uma nova vizinha que o traz de volta para a vida, o leva a sair, a confraternizar. Até que um dia ela desaparece.
Esta é a primeira parte do filme, marcada pela forte presença dos seus actores, Robert Pugh, cuja voz poderosa pontua o filme, e Rita Loureiro, luminosa e algo misteriosa.
Além de se passar quase sempre em interiores, em casas velhas muito bem filmadas, a fotografia sépia de Miguel Sales Lopes dá-lhe um tom irreal e afasta-o completamente de qualquer cliché sobre a luminosidade de Lisboa, onde a acção decorre.
Depois vem a segunda parte. Após o desaparecimento de Irene, aparece uma nova pessoa na vida de Alex: Bruno, jovem serralheiro que também a busca, e que entra nas casas das pessoas para lhes furtar memórias, recordações. Aqui o filme fraqueja: talvez devido ao excessivo simbolismo desta personagem (que procura nas casas dos outros e em Alex as recordações de infância e o pai que não teve), talvez devido à presença de Nuno Lopes ser menos impressiva, talvez por se arrastar demasiadamente.
Há ainda uma espécie de epílogo, uma viagem a Espanha algo insólita e com episódios até bizarros. E às tantas ouvimos mesmo as vozes das personagens mas elas já não mexem os lábios: é como se o tal ambiente onírico, irreal, subconsciente, que esteve sempre entranhado ao longo do filme, viesse de vez à tona e tudo se passasse ao nível da imaginação de cada um.
O filme encerra com uma 'voz do além' explicativa que era desnecessária, e no final fica alguma sensação de desconcerto e até de frustração. Mas não há que negar a originalidade da proposta e o olhar de cineasta que Paolo Marinou-Blanco (um português que já andou por todo o mundo) indubitavelmente demonstra nesta sua primeira longa-metragem, em que também assina o argumento.
Goodnight Irene, Portugal, 2008. Realização: Paolo Marinou-Blanco. Com: Robert Pugh, Nuno Lopes, Rita Loureiro.

19.5.08

Tudo o que perdemos



'Tudo o que perdemos’ é um filme adulto e sólido, que trata com sobriedade dois temas difíceis: a perda de um ente querido (marido/pai/amigo) e a recuperação da toxicodependência.
Como quem não quer a coisa, seguindo aptamemente um argumento tranquilo e praticamente sem ‘peripécias’, Susanne Bier vai levando a água ao seu moinho, apoiando-se nos seus excelentes actores, com destaque para Benicio Del Toro, que se safa bastante bem num papel propenso ao overacting.
Não sendo uma obra particularmente inovadora nem imprescindível, merece ainda assim uma olhadela, neste tempo de filmes infantilizados.
Things We Lost in the Fire, E.U.A./Grã-Bretanha, 2007. Realização: Susanne Bier. Com: Halle Berry, Benicio del Toro, David Duchovny, Alison Lohman, Omar Benson Miller, John Carroll Lynch.

17.5.08

Angel



Este é um daqueles filmes em que eu nunca passaria num Pepsi Challenge. Numa prova cega, nem em cinquenta tentativas eu daria o palpite que este 'Angel' é obra do mesmo realizador de 'Sob a areia', 'Swimming Pool' ou '5x2'.
Nem consigo imaginar o que atraiu Ozon neste drama de época, acerca da ascensão e queda de uma irritante e megalómana rapariga das classes baixas que se torna uma escritora cor-de-rosa de sucesso.
Ozon, grande cineasta que nos seus anteriores trabalhos se distinguiu por combinar na perfeição um lado cerebral e analítico com um toque emocional subtil, não passa aqui de um decorativismo formal oco e que não leva a parte nenhuma, jamais nos conseguindo interessar quer pela sua patética personagem principal (interpretada pela desconhecida Romola Garai), quer pelos que a rodeiam. Dá-nos uma mão cheia de planos vistosos, uns tantos enquadramentos perfeitos e emula com gosto trajes e costumes da época, mas o resultado é francamente insípido e indiferente.
Grande desilusão.
Angel, Bélgica/Grã-Bretanha/França, 2007. Realização: François Ozon. Com: Romola Garai, Lucy Russell, Michael Fassbender, Sam Neill, Charlotte Rampling.

13.5.08

No vale de Elah



Só agora vi este filme de Paul Haggis e concordo com a opinião generalizada: é bastante bom e bastava a portentosa interpretação de Tommy Lee Jones, toda em underacting, para valer a pena.
Filme seco e directo, como a sua personagem principal, mostra-nos o que a guerra faz aos miúdos que são para lá enviados como ‘soldados de elite’: potencia o pior que há neles, abala as balizas morais e éticas que eles tinham, torna-os piores pessoas. Isto sem retórica e sem os demonizar nem os desculpabilizar, equilíbrio difícil que é alcançado. Parecem-nos rapazes normais e até simpáticos, mas que nas situações extremas a que são expostos e para as quais não têm estofo nem preparação, como que escapam através da violência, do sadismo, do desprezo pelo ser humano que está do outro lado. Neste aspecto aproxima-se de ‘Censurado’, o retrato que De Palma nos deu o ano passado dos soldados no Iraque. Mas enquanto De Palma ‘ia’ para o Iraque, Haggis mostra-nos as marcas que ficam no após: filma os soldados na America, depois de terem regressado do Inferno. Claro que já não são as mesmas pessoas que eram antes, como Tommy Lee Jones dolorosamente descobre no retrato irreconhecivel do seu filho desaparecido, que vai construindo ao longo do filme.
Pelo meio, claro, fica um retrato negro da nação Americana em guerra, uma guerra que parece fazer cada vez menos sentido para cada vez mais gente.
Na tradição Hollywoodiana dos grandes filmes sobre o Vietname, começam a surgir agora os bons filmes sobre o Iraque.
In the Valley of Elah, E.U.A., 2007. Realização: Paul Haggis. Com: Tommy Lee Jones, Charlize Theron, Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Josh Brolin.

12.5.08

My Blueberry Nights — O Sabor do amor



Wong Kar Wai faz uma vez mais aquilo que tão bem faz: pega em bocados de vidas, agarra numa canção (a magnifica ‘The Greatest’ de Cat Power) e filma tudo com aquelas cores e aquela câmara vagarosa que são sua imagem de marca. Desta vez o território geográfico são os Estados Unidos, um nada inocente trajecto Nova Iorque – Memphis – Las Vegas – Nova Iorque, mas o verdadeiro território onde o filme se passa é no universo de Wong Kar Wai, um universo de um romanismo exacerbado, de solidão e alguma alienação.

Desta vez não temos Maggie Cheung nem Tony Leung, mas temos um extraordinário elenco. Veja-se como os actores (os magnificos David Strathairn e Rachel Weisz) suportam o excessivo e carregado episódio de Memphis, em que um polícia alcoólico se recusa a aceitar que a mulher o deixou; e como na unica altura em que o filme parece perder um pouco o gás, no episódio de Las Vegas, da jogadora solitária, Natalie Portman o puxa de volta para cima. E como Norah Jones se dá tão bem com a camara.
E que dizer daquele final?

Pode-se argumentar que Kar-Wai anda a fazer mais do mesmo pelo menos desde 'Chungking Express', mas quando o ‘mais’ e o ‘mesmo’ são desta qualidade, quem se poderá queixar? A generalidade da crítica parece que já se cansou dele. Eu, pelo contrário, achei este filme a coisa mais próxima de uma obra-prima que vi estrear no grande écran nos últimos dois anos.
My Blueberry Nights, China/França/Hong-Kong, 2008. Realização: Wong Kar Wai. Com: Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman, Chan Marshall.

7.5.08

Bem-vindo ao turno da noite



‘Cashback’ é uma espécie de filme de nerds em que o protagonista não é um nerd.
Ben deixa de conseguir dormir quando acaba com a namorada. Fica a remoer naquilo - principalmente porque sente falta de sexo, talvez – e não consegue passar à frente. Para matar as noites de insónia resolve ir trabalhar para o turno da noite de uma loja de conveniência.

Os seus colegas são um duo de idiotas especialistas em sexo imaginado, um pseudo-especialista em kung-fu, e um chefe pateta egocêntrico, pelo que Ben desenvolve uma estranha faculdade para se abstrair da realidade: ‘congela’ o tempo, e aproveita esses momentos de ‘paralisia’ para concretizar os seus sonhos. Quer seja para pintar a colega por quem se apaixonou (ele estuda arte e sonha ser pintor), quer seja para despir as clientes da loja (e na minha opinião esses nus - é inescapável falar deles - acabaram por trazer uma ‘fama’ injusta ao filme).

Se esses colegas broncos (a que se junta o melhor amigo de Ben) e algumas piadas fáceis aproximam ‘Cashback’ do justamente mal-afamado filme de nerds, também é verdade que o tom geral é mais do filme indie do rapaz à procura de si mesmo depois de um desgosto amoroso, assim na linha de um ‘Garden State’, se me faço entender.

Quase que aposto que é um filme que suscitará uma certa animosidade em muito boa gente (até fui espreitar ao Yahoo Movies e sem surpresa constatei que o Critics Reviews Average Grade é um muito fraco ‘C+’), mas a mim - e dou de barato que é todo construído à base de lugares comuns - pareceu-me despretensioso, bem filmado, bem interpretado e engraçado. É assim o cinema, por vezes: de um argumento que não promete muito, sai um filme que vale a pena ver.
(estreia quinta-feira)
Cashback, Reino Unido, 2006. Realização: Sean Ellis. Com: Com: Sean Biggerstaff, Emilia Fox, Shaun Evans, Michelle Ryan, Stuart Goodwin, Michael Dixon, Michael Lambourne, Marc Pickering.

4.5.08

Homem de ferro


Robert Downey Jr. e Jeff Bridges: grande casting!

Confesso desde já que nunca li 'Homem de ferro'. Sou fraco conhecedor de BD e não costumo ligar peva às adaptações dos quadradinhos para o grande ecrã.
Neste caso, no entanto, a minha atenção foi despertada por vários motivos, sendo que o principal se chama Robert Downey Jr.. Faço parte daquela imensa minoria que o acha o maior desperdício de talento que há em Hollywood, e sempre que ele não está a desintoxicar e se dá ao trabalho de fazer filmes eu tento não os perder.
E, uma vez mais, o homem não me deixou ficar mal. 'Homem de ferro' começa por nos seduzir exactamente por causa de Robert. Só ele podia pegar nesta personagem bidimensional, do playboy fabricante de armas, genial e inconsciente, e transformá-la no super-herói com problemas de consciência, muito de carne e osso, com ar de miúdo traquina angustiado, que tem pena mas não pode fazer outra coisa, sempre um passo à frente de toda a gente por trás do seu ar aparentemente frágil e desamparado.
Acontece que as boas notícias não se ficam por aqui: os senhores do casting estavam verdadeiramente inspirados, e lembraram-se de ir buscar para vilão outro actor genial, que aparece menos do que merecia: Jeff Bridges. E, não sei se foi por contágio, também Gwyneth Paltrow está impecável no seu papel de 'Pepper' Potts, a fiel secretária de Tony Stark/Homem de ferro, e dá-nos o seu melhor papel desde os 'Tenenbaums'.
Um realizador que sabe dirigir tão bem estes actores não pode ser mau, e de facto Jon Favreau (que também é actor), merece aqui uma palavra de apreço extra: exceptuando os 15 minutos finais, mantém uma sobriedade inatacável, e o melhor elogio que lhe podemos fazer é que até nos esquecemos que estamos a ver um blockbuster para teens. Depois há o tal quarto de hora final, em que tem que justificar o orçamento e dar um doce aos adolescentes e pré-adolescentes que pagam a fita, com uma luta meio palerma e espalhafatosa entre o bom e o vilão, mas até isso lhe desculpamos.
É que para filme-pipoca, este 'Homem de ferro' não está nada mau. Mesmo nada.
Iron Man, E.U.A., 2008. Realização: Jon Favreau . Com: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Terrence Howard, Jeff Bridges.

30.4.08

Boarding Gate — Porta de embarque




‘Boarding Gate’ rima com um Assayas de 2002, 'Demonlover/Agente infiltrada': são ambos thrillers de inspiração noir, passados parcialmente no Oriente, tão elegantemente filmados quanto algo confusos e indistintos. Situam-se assim numa espécie de zona de ninguém, jamais se confundindo com filmes made in Hollywood, mas também distintos do que se espera de um filme francês de autor, passe a expressão démodé, quer seja pelo argumento, quer pelos actores (castings internacionais) e até pela língua.

A cinefilia de Assayas (recorde-se que foi importante critico dos Cahiers) está sempre presente na sua obra, mas por vezes de um modo difuso. Aqui refelecte-se o seu fascinio pela Ásia-Continente (foi dos primeiros críticos a dar atenção aos novos realizadores Asiáticos e foi até casado com Maggie Cheung, com quem filmou os interessantes 'Irma Vep' e 'Clean'), levando as personagens para Hong Kong (em 'Demonlover' era para Tóquio) e mais ainda por Asia Argento, em função de quem o filme parece ter sido feito (em 'Demonlover' tinhamos como musas Connie Nielsen e também Chloe Sévigny).

E de facto, se alguma luz própria este filme irradia, deve-se a Asia, uma das actrizes mais ‘fora’ do cinema contemporâneo, com um rosto entre o angelical e o ganzado e uma pose entre o inocente e o provocante.

Assayas filma-a longamente, de langerie preta, movendo-se meio perdida pelo submundo do crime, indiferente e desamparada, brilhando no meio do lusco-fusco. Só por ela vale a pena ver este filme.
Boarding Gate, França, 2007. Realização: Olivier Assayas. Com: Asia Argento, Michael Madsen, Carl Ng, Kelly Lin

29.4.08

88 Minutos



Eis mais um thriller de suspense, que mantém o nível médio que o género nos tem dado ultimamente: fraquito. O argumento encaixa-se naquele tipo que de tão batido, já devia ser um subgénero com nome próprio: a personagem tem 88 minutos/24 horas/whatever para deslindar um qualquer mistério, caso contrário morrerá (nunca morre). Quanto à realização é chapa cinco e nem vale a pena perder tempo a falar deste Jon Avnet.
Enfim, uma pessoa também só vai ver o filme por ter o Al Pacino no cartaz, embora ele há já muito tenha deixado de ser exigente com os filmes que escolhe. Aqui, mais envelhecido e mais cansado, faz menos de Al Pacino do que a última vez que o tinha visto, no péssimo 'O recruta', o que é uma boa noticia.
E a fita lá se vai deixando ver, mais peripécia, menos peripécia, mais uma para juntar ao molho das que se mastigam com indiferença e logo se deitam fora (da memória) com grande rapidez.
88 Minutes, Estados Unidos/Alemanha, 2007. Realização: Jon Avnet. Com: Al Pacino, Amy Brenneman, Alicia Witt, Leelee Sobieski, William Forsythe, Neal McDonough.

21.4.08

Uma segunda juventude



Mircea Eliade transformou num romance as suas meditações sobre a velhice, sobre o tempo necessário para se completar uma obra - quando uma vida não chega para abarcarmos tudo o que queremos pôr no papel. Coppola pega no tema e torna-o seu, dando-nos um filme meditativo, melancólico, onírico, povoado por momentos místicos e – claro, vindo de quem vem – estupendamente filmado.

'Youth Without Youth' (belo título que se vai na 'tradução') é de uma estranheza por vezes desconcertante. Tim Roth (soberbo) paira sobre ele como um fantasma, a fotografia do romeno Mihai Malaimare Jr., em tons sépia, claros, dá-lhe um tom irreal e etéreo, e a história vai-se desenvolvendo em episódios estranhos, bizarros mesmo, por vezes (como os da rapariga ‘possuída’).

Não é certamente um prato para todos os paladares, e percebo quem o acuse de ser descosido e sem grande sentido. Mas penso também que quem se deixar envolver no seu mundo, um mundo antigo, que já não existe, com reminiscências que vão desde ‘O terceiro homem’ até Thomas Mann (não sei bem explicar porquê, a ‘Montanha Mágica’ veio-me à ideia várias vezes), será recompensado com um filme muito diferente de tudo o que por aí anda, obra anterior de Coppola incluída.

Confesso que ao escrever sobre este filme sinto-me um pouco como me senti a defender 'The Fountain': não me é fácil defender filmes esotéricos, por assim dizer. Compreendo todos os argumentos dos seus críticos, muitos dos quais admiro, e no entanto...
Resumamos assim: achei-o um grande filme e o melhor Coppola desde 'O Padrinho III'.
Youth Without Youth, E.U.A./Alemanha/França/Itália/Roménia, 2007. Realização: Francis Ford Coppola. Com: Tim Roth, Alexandra Maria Lara, Bruno Ganz, André Hennicke, Marcel Iures.

18.4.08

O Golpe de Baker Street


Saffron Burrows: o que este filme tem de melhor.

Este caso real, passado na Inglaterra dos anos 70, prova uma vez mais que a realidade está sempre a ultrapassar a ficção. Michael X, um émulo fajuto de Macolm X, é um criminoso e traficante de droga que se faz passar por activista do movimento negro. As forças da lei sabem das suas actividades ilegais, mas estão de mãos atadas: Michael possui uma série de fotografias, obtidas em bordéis do seu sócio e rei da pornografia Lew Vogel, e em sítios similares, de inúmeros membros da elite britânica, incluindo um membro da família real e usa-as para fazer chantagem.

Um dia os serviços secretos decidem agir: desconfiam que as fotos estão guardadas no depósito de um banco e resolvem então encenar um assalto ao mesmo para as recuperarem, sem parecer estarem envolvidos no assunto. Mas acontece que este plano mete água por toda a parte: os pequenos criminosos contactados para o executar são de um amadorismo assustador e, apesar de miraculosamente conseguirem escapar com o espólio roubado, deixam aberta uma verdadeira caixa de Pandora. Às tantas anda meio mundo atrás deles: os serviços secretos (entretanto a criatura escapou ao criador), Vogel que também vê roubada no assalto a sua agenda com a lista de pagamentos a polícias corruptos, estes últimos por motivos óbvios e, finalmente, a própria polícia ‘oficial’. Os assaltantes deixaram fios soltos por toda a parte e não tarda são localizados por todos os perseguidores - numa estratégia desesperada de fuga em frente vão tentando negociar com todos, aproveitando a bomba que têm nas suas mãos (além do dinheiro!), e a história acaba por ter um final ironicamente subversivo.

Contado um resumo do argumento, está dito o mais interessante sobre o filme. De resto a realização é eficaz e fluida, embora pudesse ser um niquinho mais sóbria, os actores cumprem sem brilhar (eu confesso que embico com Jason Statham) e há uma solidez geral na coisa que não esconde no entanto o seu ar de telefilme despachado, típico da maior parte da produção Britânica.

Eu que sou fã de trillers, heist movies, policiais & afins, não dei totalmente o meu tempo por mal empregue. Mas também não vou ao ponto de o recomendar a civis.
The Bank Job, Grã-Bretanha, 2008. Realização: Roger Donaldson. Com: Jason Statham, Saffron Burrows, Stephen Campbell Moore, Daniel Mays, Alki David, Michael Jibson, David Suchet

17.4.08

Nós controlamos a noite



Bobby (Joaquim Phoenix) usa o apelido da mãe – Green – e é o gerente de um bar pertencente a uma família russa que o trata como um dos seus. A sua vida é esta, a noite, longe da tradição familiar (da família de sangue): o irmão (Mark Wahlberg) é um ambicioso polícia em ascensão, o pai (Robert Duval) é mesmo o chefe máximo do departamento, o Edgar G.Hoover do sítio, como diz alguém às tantas. São os Grusinsky, e ninguém na vida de Bobby (excepto a namorada, Eva Mendes) sabe desta relação familiar. Até que um dia o irmão lhe entra pelo bar adentro para deter um sobrinho do dono, acusado de traficar droga. A partir daqui não há mais neutralidade possível e Bobby vai ter que optar por um dos lados, acabando como infiltrado da polícia no bando dos traficantes russos.

Se pelo argumento se poderá pensar em ‘Departed’ ou até em ‘Promessas Perigosas’, pelo ambiente do filme, pelo ar noctívago e fumarento que se respira, até pela sexualidade exalada, lembrei-me mais de… 'Miami Vice'. E, claro, de toda a tradição dos film noir, além de tudo o mais pelo tema de fundo: um homem não pode fugir ao seu destino.

James Gray escreveu o argumento e dirigiu, e isso nota-se no modo como tudo está interligado, como as vozes baixas e roucas condizem com as suas falas, como as expressões sempre um pouco sofridas mas em low profile das personagens se integram no novelo de relações em que estão envolvidas. Não há nada aqui que não bata certo, neste drama com tons de tragédia, mas que tem, paradoxalmente, um fim meio feliz. Ou talvez não o seja. Ou talvez simplesmente não faça sentido falar de felicidade ou infelicidade: apenas o destino cumpriu o seu curso.

'We own the night' é um dos grandes filmes de 2007, que infelizmente faz parte do extenso lote dos que não estrearam nas salas portuguesas.
PS.: Este post foi originalmente publicado no dia 16 de Janeiro. Felizmente o filme estreia hoje, pelo que fica naturalmente como um dos grandes filmes de 2008 nas salas portuguesas.
We Own the Night, E.U.A., 2007. Realização: James Gray. Com: Joaquin Phoenix, Mark Wahlberg, Robert Duvall, Eva Mendes, Tony Musante, Antoni Corone, Alex Veadov, Robert C. Kirk