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22.9.08

Gomorra



'Gomorra' é um realista, seco e anti-glamoroso retrato da Camorra, a Mafia napolitana, cujos tentáculos se estendem por toda a sociedade italiana e ao que parece contribui com uma fatia não despicienda para o PIB do país.

Filmado com câmara à mão, sempre em cima dos actores (muitos deles não profissionais), acompanhando o dia-a-dia das personagens, o de grande parte delas banal, exercendo o seu ofício criminoso como se fosse outro qualquer, está nos antípodas dos sumptuosos filmes hollywoodianos sobre a Máfia, tipo ‘O Padrinho’ ou o ‘Scarface’ de De Palma – cujas personagens alguns pequenos criminosos de ‘Gomorra’ imitam.

Esta opção realista (que, claro, se insere numa vetusta tradição italiana) tem vantagens (o retrato global, sociológico, por assim dizer, é muito eficaz) e limitações (perde-se o detalhe psicológico). Penso que o filme se dispersa um bocado (vai acompanhando 5 histórias) e acaba por não aprofundar personagens que o mereciam (como o superdotado costureiro feito quase escravo).

No global, senti-me como quando vejo um bom documentário sobre um tema que me interessa, mas não excessivamente: mantive-me sempre atento e interessado, admirei o seu savoir-faire, mas nunca me chegou a entusiasmar.

Gomorra, Itália, 2008. Realização: Matteo Garrone. Com: Toni Servillo, Gianfelice Imparato, Maria Nazionale, Salvatore Cantalupo, Gigio Morra, Salvatore Abruzzese, Marco Macor, Ciro Petrone, Carmine Paternoste.

19.9.08

Mamma Mia!


Amanda Seyfried: If you change your mind/I'm the first in line/Honey I'm still free/Take a chance on me...

Este é, facilmente, o inesperado feel good movie do ano. Claro que quem não gostar dos ABBA (ele há gente para tudo!), dificilmente criará empatia com este filme. Mas para os fãs do quarteto sueco, é um verdadeiro fartote. Baseado no musical homónimo, segue um fio narrativo simples e meio palerma (uma rapariga convida 3 ex-amantes da mãe para o seu casamento para tentar descobrir qual deles é o seu pai), que é apenas pretexto para um continuum de números musicais, hit exuberantemente coreografado após hit não menos exuberantemente coreografado.

E há-os para todos os gostos: uma pessoa ainda nem teve tempo para pensar que falta a música tal, quando ei-la que aparece. É só uma pessoa refastelar-se na cadeira e ir batendo o pezinho (eu gostei especialmente do apoteótico momento proporcionado pelo clássico ‘Dancing Queen’ e do romântico (?) número do seminal ‘Lay All Your Love On Me’).

Claro que há por aqui muita gente que não sabe cantar (essa não é certamente a melhor missão de Pierce Brosnan), mas há quem se safe muitíssimo bem (as fantásticas Meryl Streep e Christine Baranski, desde logo) e isso é o que menos importa, no meio deste divertidíssimo festival greco-sueco (isto passa-se tudo num paradisíaca ilhota grega).

Last but not the least, temos a confirmação de Amanda Seyfried, que além de conseguir o feito de não ser ofuscada pelos dois trios de pesos-pesados com quem contracena, é uma verdadeira bomba com cara laroca, a quem só nos apetece roubar das garras do verdadeiro bronco-hippie com quem anda. Mamma Mia!

Mamma Mia!, E.U.A., 2008. Realização: Phyllida Lloyd. Com: Meryl Streep, Colin Firth, Pierce Brosnan, Stellan Skarsgard, Amanda Seyfried, Julie Walters, Christine Baranski, Dominic Cooper.

14.9.08

Irina Palm



Mesmo estando-se no áspero terreno do 'realismo britânico', o argumento de 'Irina Palm' assusta um pouco o potencial espectador: uma avozinha (Marianne Faithful, nem mais nem menos), para arranjar dinheiro com vista a salvar o neto da morte, emprega-se num sex club a fazer handjobs.

Mas o certo é que a coisa funciona. Faithful, sempre com um ar sofrido, começa por nos irritar um pouco, mas depressa percebemos que apanhou o tom certo, entre o low profile e a força interior que caracterizam a sua personagem. Quanto ao realizador Sam Garbarski, consegue dar-nos um retrato impe(la)cável da middle class, imiscuir-se no mundo da pornografia sem ceder a qualquer voyeurismo, e ainda terminar com um toque de conto de fadas que não se esperaria de todo num filme com este background. Uma boa surpresa.

Irina Palm, Alemanha/Bélgica/França/Grã-Bretanha/Luxemburgo, 2007. Realização: Sam Garbarski. Com: Marianne Faithful, Miki Manojlovic, Kevin Bishop, Siobhan Hewlett, Dorka Gryllus, Jenny Agutter.

11.9.08

Antes que o diabo saiba que morreste


Ethan Hawke, Albert Finney, Philip Seymour Hoffman, Amy Ryan e Marisa Tomei: um elenco extraordinário.

Dois irmãos resolvem assaltar a joalharia dos pais. Por razões diferentes ambos precisam desesperadamente de dinheiro, e o mais velho - e personalidade dominante - convence o relutante irmão mais novo a avançar. Mas tudo corre mal.

'Antes que o diabo saiba que morreste' é um negríssimo drama familiar, laconicamente filmado pelo veterano Sidney Lumet e suportado por (mais) uma estupenda interpretação de Philip Seymour Hoffman, no papel de um homem que há muito perdeu o controlo da sua vida, mas que vai fugindo para a frente com uma falsa tranquilidade suicida.
Não perca.

Before the Devil Knows You`re Dead, E.U.A., 2007. Realização: Sidney Lumet. Com: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney, Marisa Tomei, Aleksa Palladino, Michael Shannon, Amy Ryan, Sarah Livingston.

6.9.08

Terra de Bravos



'Terra de Bravos' começa no Iraque: um batalhão do exército americano, composto por um grupo de soldados prestes a regressar aos States, vai acompanhar uma missão humanitária e cai numa emboscada.

Atravessado o Atlântico, o filme acompanha a difícil adaptação a casa: todos perderam algo no Iraque. Há quem tenha perdido uma mão, há quem tenha perdido um amigo, há quem tenha perdido o emprego, a noiva, o marido. E, claro, todos perderam parte da sanidade mental.

Aos pouco e poucos Hollywood vai-nos dando a sua crónica (negra) do Iraque, umas vezes melhor, outras pior. Infelizmente 'Terra de Bravos' pertence à última categoria, devido a um argumento excessivamente didáctico e a uma realização bastante convencional. Os actores pouco podem fazer, enclausurados em papeis demasiadamente arquetípicos (o que se mete no álcool; o revoltado; o que luta; etc.), incluindo Christina Ricci, uma actriz rara, aqui confinada a um papel secundaríssimo.

Home Of The Brave, E.U.A., 2007. Realização: Irwin Winkler. Com: Samuel L. Jackson, Jessica Biel, Brian Presley, Curtis Jackson, Christina Ricci, Chad Michael Murray.

28.8.08

Aquele querido mês de Agosto



Há três ideias fortes que estruturam este filme, porventura algumas nascidas da necessidade.
A primeira, que lhe serve de leitmotiv, é a música pimba. Mais concretamente o Portugal da música pimba, o Portugal profundo, dos emigrantes, das romarias, dos incêndios.

A ‘primeira parte’ do filme, chamemos-lhe assim, é uma espécie de documentário, filmado em terriolas das Beiras, da zona de Arganil, sobre as suas gentes e costumes.
Tendo alguns momentos bem conseguidos, nomeadamente toda a parte das bandas pimba - só as letras das músicas de Marante, Diapasão, Dino Meira (que dá o titulo ao filme), etc., etc. são todo um programa – fica no entanto a sensação que Miguel Gomes se limita a filmar condescendentemente os cromos locais. Não há dúvida que descobriu umas personagens castiças (um tal de Paulo é impagável), mas às tantas parece que estamos no jardim zoológico, a rirmo-nos dos animais que fazem umas habilidades para os citadinos que os vêm pela primeira vez. Miguel Gomes, que não é burro (se calhar é até esperto demais, mas já lá vamos), tem consciência disso e faz-se filmar a enxotar umas moçoilas locais que querem fazer um casting para o filme, pois está a jogar à malha. Parece querer-nos avisar que não está ali para ‘tratar bem’ os locais. Mas não anula a superioridade desagradável com que o faz.

Mas o filme é suposto ser uma ficção. Gomes filma-se então a responder tranquilamente a um membro da produção que lhe chama a atenção para isso mesmo: que lhe enviem dinheiro que ele arranjará os actores e seguirá o guião. Uma espécie de Fellini no 8 ½, mas descontraído, com tudo controlado, os outros à volta dele é que stressam. Esta reflexão sobre o próprio filme, que se prolonga até ao genérico final, parece-me francamente desnecessária e algo pedante, é uma chico-espertice para coser documentário e ficção, enquanto o realizador brinca aos Fellinis e Godards (o argumento que se lixe!).

E vem então a ficção, espécie de segunda parte do filme, história de amores adolescentes, traições, emigração. E temos aqui alguns dos melhores momentos do filme, que podem ser uma viagem de mota ao som de música pimba, uma conversa de adolescentes à beira-rio ou um terrível desafio à desgarrada. Paradoxalmente é aqui que temos pessoas, gente de carne e osso e não cromos pitorescos. A ‘história’ não daria para mais do que uma curta-metragem, mas é realmente bem filmada, tem esses momentos que agarram, é onde a cinefilia de Miguel Gomes melhor se exprime.

Ao fim das 2h30 (que passam muito bem), fica um filme original e até bastante interessante, mas onde não está ausente uma boa dose de displicência, na minha modesta opinião derivada do facto do realizador se julgar num patamar que ainda não alcançou.

Aquele Querido Mês de Agosto, Portugal, 2008. Realização: Miguel Gomes. Com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho, Paulo Moleiro, Luís Marante, Andreia Santos, Armando Nunes, Manuel Soares, Emmanuelle Fèvre.

21.8.08

WALL-E



A primeira meia hora de WALL-E é um portento visual, sem palavras, cinema puro. Depois, quando o simpático robot sai da terra, o filme ‘normaliza’, apesar de alguns momentos muito bons (a dança de WALL-E e Eve no espaço, a fuga dos robots avariados), para no regresso ao planeta terminar novamente em grande.

Tudo somado, é uma das melhores e mais originais animações dos últimos anos, apesar de eu achar que podia ter ido ainda mais longe.
WALL·E, E.U.A., 2008. Realização: Andrew Stanton. Longa-metragem de animação.

19.8.08

O meu irmão é filho único



'O meu irmão é filho único' (um grande título, já agora) foi realizado por Daniele Luchetti, actor de Moretti em 'Palombella Rossa' e co-escrito pelo realizador e por Sandro Petraglia e Stefano Rulli, argumentistas de 'A melhor juventude'.

E é inevitável não associarmos os dois filmes. Também aqui temos um retrato de uma geração italiana do pós guerra, traçado através do percurso de dois irmãos muito diferentes: um, mulherengo e algo leviano, comunista, que envereda por caminhos perigosos; e o outro sério e revoltado (fazendo lembrar algumas personagens de...Moretti!), que passa pelo seminário e pelo fascismo antes de se desiludir da política (mas não das actividades cívicas).

Não é só por ter menos de um terço da duração que 'O meu irmão...' parece uma versão ligeira de 'A melhor juventude': falta-lhe a densidade trágica deste último. É mais um esboço de uma época que um fresco geracional. Não obstante 'A melhor juventude' ter sido originalmente feito para a televisão, é 'O meu irmão...' que tem a leveza das séries de TV.

Fica, assim, claramente aquém do seu 'modelo'. Mas também será esse o seu principal defeito porque, comparações à parte, fica um bom filme, que se vê com agrado e simpatia, ideal para desenjoar dos blockbusters de Verão.
Mio fratello è figlio unico, Itália, 2007. Realização: Daniele Luchetti. Com: Elio Germano, Riccardo Scamarcio, Angela Finocchiaro, Massimo Popolizio, Alba Rohrwacher, Luca Zingaretti, Anna Bonaiuto.

15.8.08

Ficheiros Secretos: quero acreditar


Uma paisagem permanentemente branca: um cenário natural bem achado.
As adaptações de séries de TV para o grande ecrã não costumam ser nada famosas e qualquer fã treme quando sabe que uma das suas séries favoritas vai ter esse destino.

Felizmente, os fãs de X-Files não têm nada a temer: este filme, dirigido pelo próprio criador da série, mantém-se fiel ao espírito da coisa e é um bom filme por direito próprio, não um episódio esticado.

Os não iniciados também não ficarão desapontados com este thriller adulto e bem realizado, em que se busca uma mulher desaparecida, sendo que o cientifico e o sobrenatural (ou não) vão contribuindo para o deslindar do mistério, como é da praxe. Vale a pena ver.

The X Files: I Want to Believe, E.U.A./Canadá, 2008. Realização: Chris Carter. Com: David Duchovny, Gillian Anderson, Amanda Peet, Billy Connolly, Alvin `Xzibit` Joiner, Mitch Pileggi, Callum Keith Rennie, Adam Godley.

13.8.08

Garage



A um primeiro nível, 'Garage' é um filme sobre a tacanhez de viver numa terriola, tomando como eixo narrativo o empregado da bomba de gasolina local, um simplório, simpático e boa pessoa, um pouco retardado. A um segundo nível, é uma análise sobre a hipocrisia contemporânea do politicamente correcto. E num terceiro nível, é uma visão negra, seca e deprimente da raça humana.
'Garage' insere-se na tradição do 'realismo Britânico', e poucas vezes o termo 'realismo' será tão bem empregue como aqui.
Garage, Irlanda, 2007. Realização: Leonard Abrahamson. Com: Pat Shortt, Anne-Marie Duff, Conor Ryan, Don Wycherley, Andrew Bennett, Denis Conway, Tom Hickey.

12.8.08

O estado mais quente



Ele está apaixonado e acha que ela é a mulher da sua vida. Mas ela é complicada. Quer estar por sua conta. Não quer ter sexo com ele para não se apaixonar. Mas pede-lhe para casar com ela e muda de ideias a seguir. E pede-lhe para ir atrás dela se fugir. Mas quando foge, nunca mais lhe dá uma chance. E ele desespera e sofre e dá em doido. E começa a pensar no pai que o abandonou a ele e à mãe há muitos anos.

'O estado mais quente' insere-se na linha do filme indy temática boy meets girl de 'Antes do anoitecer' e 'Antes do amanhecer', mas em tons mais sombrios.

Ethan Hawke, que adapta um romance seu, não se revela um realizador tão talentoso como Richard Linklater, nem sequer tem a agilidade que Julie Delpy demonstrou na sua estreia atrás da câmara (a fotografia e a banda sonora, por exemplo, nunca me pareceram bater totalmente certo). Mas o argumento tem muita força e os actores também, Mark Webber arrancando inclusive um papelão. Mesmo um momento em que o filme poderia fraquejar, o do encontro de Webber com o pai (um pouco convencional, este paralelismo entre o abandono pelo pai e pela namorada), é salvo pelo extraordinário desempenho de Ethan Hawke e pela inteligência dos diálogos.

No meio de tantos filmes anódinos que se tentam fazer notar pelo estrondo da pirotecnia, é de saudar um filme que se concentra nos seus actores, no seu argumento, que aposta nas emoções, que se expõe e se dá ao espectador. Que foge à história bonitinha com happy end. Que arrisca, que tem força. São virtudes mais que suficientes para se destacar da modorra que por aí vai.
The Hottest State, E.U.A., 2006. Realização: Ethan Hawke. Com: Mark Webber, Catalina Sandino Moreno, Laura Linney, Ethan Hawke, Sonia Braga, Michelle Williams, Josh Zuckerman.

11.8.08

Eu servi o Rei de Inglaterra



Quarenta anos depois de 'Comboios rigorosamente vigiados', o filme que lhe deu fama, Jiri Menzel volta a adaptar um romance do seu compatriota Bohumil Hrabal. De Hrabal, disse Kundera que "é uma das incarnações mais autênticas da Praga mágica; é o incrível casamento do amor plebeu e da imaginação barroca".

'Eu servi o Rei de Inglaterra' é um retrato de um país desaparecido, a Checoslováquia dos anos 40 e 50, 'tirado' do ponto de vista de um oportunista empregado de mesa. E o retrato até é simpático: a história (e a História) é interessante, os actores bem escolhidos e a realização correcta. Falta-lhe no entanto o tal lado da 'imaginação barroca', que sobra a Hrabal mas mingua em Menzel, só se entrevendo de quando em quando. E sem ela ficamos com algo mais parecido com um telefilme - dos bem feitos, ainda assim - do que de grande cinema.
Obsluhoval jsem anglického krále/I Served the King of England, República Checa/Eslováquia, 2006. Realização: Jiri Menzel. Com: Ivan Barnev, Oldrich Kaiser, Julia Jentsch, Martin Huba, Marián Labuda, Milan Lasica.

31.7.08

Os amores de Astrea e de Celadon



Adaptação de uma obra do século XVII de Honoré d`Urfé, esta nova obra de Rohmer é algo desconcertante por trás da sua aparente simplicidade.

É assim uma espécie de teatro filmado, em que os actores vão declamando pelos bosques, encarnando pastores, druidas e ninfas, exalando um erotismo subtil (aqueles vestidos translúcidos...), possuídos de uma graça quase etérea, emersos num irreal ambiente mágico e antigo.

Mesmo tomando um texto alheio de há quatro séculos, não escapará a nenhum fã de Rohmer que os dilemas morais e amorosos de Astrea e Celadon na Gália do século V, rimam com os dos jovens nossos contemporâneos dos 'Contos Morais' ou dos 'Contos das Quatro Estações'.

E, se no global, talvez não se atinja aqui o nível dos melhores daqueles (fasquia elevadíssima, note-se), é no entanto um filme que possui aquela singeleza e despojamento que só os velhos mestres conseguem alcançar.

Les Amours d`Astrée et de Céladon, França/Itália/Espanha, 2007. Realização: Eric Rohmer. Com: Andy Gillet, Stéphanie Crayencour, Cécile Cassel.

28.7.08

O Cavaleiro das Trevas


Heath Ledger como Joker: o melhor do filme.

Sinceramente ultrapassa-me completamente o porquê de tanto barulho à cerca deste novo Batman. Como filme de acção, a maior parte do tempo achei-o - não encontro outra palavra - entediante. Como reflexão sobre ética e moral, mais concretamente sobre a possibilidade de agir correctamente num mundo em que já não há moral (atenção! 11 de Setembro! atenção!), como actualização da máxima Fordiana do 'quando a lenda ultrapassa a realidade imprima-se a lenda', pareceu-me medianíssimo.

É tudo fraco? Não, nada disso. Tem meia hora a dois terços do fim - em que se instala um caótico ambiente negro e desconfortável - bem boa. Tem uma estupenda interpretação de Heath Ledger, como toda a gente tem sublinhado. Mas pouco mais. Muita acção chapa cinco, muita gente angustiada, mas pouca substância e até, pareceu-me, pouca espectacularidade e zero originalidade por trás de todo o fogo-de-vista.

Acrescento que acho Nolan um bom realizador, que gostei de 'Memento', apesar do seu exibicionismo, que gostei de 'Insónia'. Mas este filme, peço desculpa, não me parece ser mais que um mediano Blockbuster com pretensões. Volto ao início: não percebo mesmo todo o hype à sua volta. Faz-me lembrar aquela história que João Bénard da Costa conta já não sei onde, que termina com a célebre frase do pacóvio: 'tanto barulho por causa de uma galinha!?'

The Dark Knight, 2008. Realização: Christopher Nolan. Com: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman.

24.7.08

Vigilância



‘Vigilância’ nem começa mal. Numa esquadra da polícia de uma terriola da América profunda, vamos assistindo a um interrogatório, por parte de dois agentes do FBI, das testemunhas (um polícia local, uma rapariga meia junkie e uma criança) de um crime violento perpetrado por uns serial killers que andam a aterrorizar a zona, e em montagem paralela vamos tendo uma visão daquilo a que na realidade estas personagens assistiram.

Depressa percebemos que cada um só conta o que lhe convém e que os polícias daquela esquadra são um caricato bando de crianças grandes, que não só metem água por todo lado, como contribuíram mesmo para grande parte dos trágicos acontecimentos. Até aqui tudo bem, temos mais um retrato cínico mas não desinteressante sobre uma certa América interior, o mundo white trash, dos motéis, dos drogados, da polícia acéfala, do imaginário on road. Mesmo algumas cenas mais caricaturais são justificadas por esta afiada visão panorâmica.

Mas às tantas o filme dá uma volta de 180º, uma daquelas viragens com que alguns argumentistas gostam de surpreender o espectador, e a coisa descamba completamente. Não pela cambalhota, que enfim, é mais uma, mas pelo ambiente de psicologia chã que se instala, pelo ridículo das cenas em que se pretende fundir pulsões sexuais com crime, erotismo com transgressão da lei, em que não escapa nenhum, mas mesmo nenhum, cliché do género. É tudo de fugir e – é inevitável – não podemos deixar de pensar que estamos perante uma grotesca e simplória imitação do universo de David Lynch, pai da realizadora Jeniffer Lynch. Não havia necessidade.
Surveillance, E.U.A., 2008. Realização: Jennifer Lynch. Com: Julia Ormond, Bill Pullman, Pell James, Ryan Simpkins, French Stewart, Kent Harper.

18.7.08

Procurado



Fui ver este filme com a esperança que fosse o 'Shoot`em Up' deste ano, ou seja, uma coisa meio descerebrada, mas divertida e speedada, assim ao jeito da silly season.

Infelizmente não chega a tanto: nem é muito divertido, nem as cenas de acção têm um quinto da coolness de 'Shoot`em Up'. E mais que descerebrado, é uma palermice mesmo (fui informado a posteriori que baseada num jogo de computador numa BD).
Não chega a aborrecer, mas é fracote. Vai ser um longo Verão cinematográfico...
Wanted, E.U.A., 2008. Realização: Timur Bekmambetov. Com: James McAvoy, Morgan Freeman, Angelina Jolie, Terence Stamp, Thomas Kretschmann.

17.7.08

Tropa de elite



No seu excelente ensaio sobre Kieślowski, incluído no cá recém-publicado ‘Lacrimae Rerum’, Slavoj Žižek explica que o realizador polaco se iniciou nos documentários para combater a imagem optimista e resplandecente transmitida pelos media oficiais, sujeitos à censura, mas depois concluiu que quando se filmam cenas da ''vida real'' num documentário, temos pessoas a representar o seu próprio papel, pelo que o único modo de descrever as pessoas debaixo da sua máscara protectora é passar à ficção.

José Padilha terá pensado em algo semelhante. A sua primeira obra é precisamente um documentário, 'Ônibus 174' acerca de um miúdo que sequestra um autocarro, e a sua primeira ideia para este seu mais recente filme foi fazer um documentário sobre o 'BOPE', mas depressa percebeu que não haveria policias dispostos a 'dar a cara'. E assim sendo, era impossível mostrar o que ele queria mostrar.

A primeira parte de 'Tropa de elite' mostra-nos o enorme grau de corrupção que grassa no seio da polícia brasileira, que é mais uma peça no sistema: os polícias limitam-se a arrecadar um quinhão do dinheiro da droga e assim eles e os narcotraficantes que, armados até aos dentes, dominam as favelas, convivem harmoniosamente. De caminho, Padilha arrasa os ‘meninos bem’ que vão para as favelas movidos por ‘bons sentimentos’, mas que acabam mais por ser cúmplices do status quo que outra coisa.

Na segunda parte, por contraste, é-nos apresentado o BOPE (as forças especiais da policia), sempre do ponto de vista do seu capitão: têm treino militar rigorosíssimo (‘mais elitista que o exército de Israel’), estão preparados para obter resultados por todos os meios (incluindo a tortura) e são incorruptíveis. ‘O BOPE quando entra numa favela é para matar, não é para ser morto’, resume o seu capitão.

Evidentemente que um argumento destes provocou uma pequena tempestade – o filme e o seu realizador foram apelidados de fascistas para cima – cujos dados mais visíveis foram um sucesso de bilheteira estrondoso no Brasil e um reconhecimento associado a polémica um pouco por toda a parte, que culminou na atribuição do Urso de Ouro em Berlim (por um júri presidido pelo realizador ‘esquerdista’ Costa-Gravas).

Vamos por partes: ‘Tropa de elite’ é um filme razoavelmente conservador na sua forma, com uma voz off a pontuar a narrativa, filmada de câmara à mão, mas quase sempre sóbria e acima de tudo eficaz. Padilha gere as coisas com secura e mão firme, não caindo em tentações rambescas ou excessivamente pirotécnicas ('Cidade de Deus' pareceu-me bem mais exibicionista). E -a mim parece-me claro - não endeusa ninguém.
Se Padilha é demolidor para com a polícia tradicional, o BOPE também está muito longe de ficar bem na fotografia. Quando o Capitão Nascimento diz com orgulho que Matias se transformou finalmente num polícia, o que nós vemos é que o idealista e justo Matias do início do filme, que conciliava a polícia com os estudos de Direito, se transformou num assassino a sangue frio, seguidor do ‘olho por olho, dente por dente’ e não das leis penais.

Talvez seja esta a maior inquietação que ‘Tropa de elite’ nos deixa: haverá solução para o flagelo do narcotráfico nas favelas brasileiras, ou tudo terá que oscilar entre o absentismo da polícia comum e os métodos à margem da lei - inaceitáveis numa democracia que se preze - de um qualquer BOPE?

Tropa de Elite, Brasil, 2007. Realização: José Padilha. Com: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Maria Ribeiro, Fernanda Machado, Fábio Lago, Milhem Cortaz, Fernanda de Freitas, Paulo Vilela, Marcelo Valle.

9.7.08

Brincadeiras perigosas



Uma vez que os americanos não vêm filmes legendados - nem sequer dobrados - sempre que um produtor de Hollywood acha que um filme de um país de língua não inglesa tem potencial de bilheteira, pura e simplesmente faz um remake do mesmo, com actores da casa. Simples, não é?

À custa desta lógica inatacável, uma das maiores pragas do cinema actual é precisamente os remakes de filmes europeus e asiáticos. Escusado será dizer que 99% são inferiores ao original ou, quanto muito, desnecessários.

O que torna 'Brincadeiras perigosas' um caso algo peculiar é que o realizador deste remake do filme-choque de Michael Haneke de 1997 é o próprio Michael Haneke. O que o terá levado a isso só ele saberá - provavelmente quis engordar a conta bancária, ou pura e simplesmente ter um sucesso nos States.

Para quem não viu o original - um dos filmes mais marcantes dos anos 90 - o programa está exposto logo no genérico, quando a musica de Handel é substituída repentinamente pela de John Zorn. O quotidiano de uma família rica em férias é brutalmente alterado por um par de jovens imaculadamente vestidos de branco (Brady Corbet e Michael Pitt - que está muito bem, embora eu achasse aquele actor do filme original que era igualzinho ao Pete Sampras especialmente sinistro), que se revelam de um sadismo tortuoso e insuportável, tanto mais que, muito hitcockianamente, não há qualquer explicação racional para os seus actos. Haneke não poupa o espectador a nada e ainda vai brincando connosco, pondo os actores a dirigirem-se a nós e até a alterarem uma cena com o comando da TV (criticando e zombando o nosso voyeurismo).

Mas este último aspecto é precisamente o que me parece que envelheceu pior: o que era surpresa há 10 anos é banal hoje em dia - ou então aqui não funciona tão bem. Quanto ao resto, é curioso notar como depois de tantos Hostels e quejandos, este filme consegue criar uma vez mais um ambiente verdadeiramente angustiante, mesmo para quem viu o original e sabe como tudo se vai passar (é decalcado plano a plano). O que prova inequivocamente o savoir faire de Haneke mas, claro, não responde ao porquê da necessidade de ele filmar outra vez esta história.

Enfim, se o leitor for americano, não souber alemão, e não estiver para se maçar com legendas, então vale a pena ir vê-lo. Caso contrário, veja o original. Se já viu o original, vá vê-lo apenas se for a) um cinéfilo compulsivo, b) um fã incondicional de Michael Haneke, c) um fã incondicional de Naomi Watts.

Funny Games U.S., E.U.A./França/Grã-Bretanha/Itália/Alemanha/Áustria, 2007. Realização: Michael Haneke. Com: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet, Devon Gearheart.

30.6.08

The Mist - Nevoeiro misterioso



Se é certo que este filme de Darabont me parece falhar em algo essencial - meter medo ao espectador! - também é verdade que tem várias virtudes.

Na minha opinião falha por mostrar mais do que devia - todos os bicharocos que emergem do nevoeiro para matar pessoas causam, quando muito, repulsa. Sem dúvida que o invisível, o indefinido, seriam mais aterrorizantes.

Quanto às virtudes, sobressai desde logo o excelente conjunto de personagens, que estão fechadas num supermercado à espera que o nevoeiro assassino passe, desde a fanática religiosa que anuncia o apocalipse até ao insuspeitamente sensato e determinado empregado do supermercado (e a catártica cena em que este cala a primeira é excepcional na sua simplicidade). Toda a psicologia relacionada com este grupo fechado, em que para cada pessoa que tenta manter a calma há meia dúzia de pessoas absolutamente irracionais, é muito boa.

Last but not the least, tem o final menos Hollywoodiano de que me lembro desde 'A noite dos mortos-vivos'.
The Mist, E.U.A., 2007. Realização: Frank Darabont. Com: Thomas Jane, Andre Braugher, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Toby Jones, Nathan Gamble, Frances Sternhagen.

29.6.08

A rapariga cortada em dois



A recepção crítica aos pioneiros da Nouvelle Vague tem sido bastante diversa com o passar dos anos: enquanto Rohmer e Rivette continuam a ter muito boas criticas, Godard caiu numa espécie de limbo e Chabrol, para aí desde os anos 80 que tem mais quem lhe torça o nariz que quem o admire (e os últimos filmes de Truffaut também já não eram nada consensuais).

Eu não me queixo nada de Chabrol, nomeadamente dos seus filmes dos anos 2000, que me têm parecido todos muito bons. Quando estava a ver este 'A rapariga cortada em dois' pensei mesmo em Woody Allen, e como este filme poderia ser o 'Match Point' de Chabrol, o filme que o reconciliaria com a crítica. Mas parece que não foi o caso e é pena.

No mínimo, podemos dizer que a ironia do realizador francês se tem refinado com a idade, e que atinge picos demolidores nesta última obra, em que volta aos seus temas e personagens de sempre (os burgueses, o crime, a loucura, o campo e a cidade, etc., etc.).

Gabrielle (excelente Ludivine Sagnier) é a apresentadora da meteorologia de um canal de TV local, que rapidamente chama sobre si as atenções de duas das mais famosas personagens da terra: o célebre e premiado escritor cinquentão Charles Saint-Denis (excelente François Berléand), que apesar de casado é um notório sedutor e conquistador, e o Gaudens 'filho', o jovem herdeiro da família mais abastada do local, um dandy desequilibrado e mimado (superiormente interpretado por Benoît Magimel num registo à beira da caricatura), a quem não falta uma espécie de acompanhante protector que evita que ele faça asneiras. Gabrielle deixa-se seduzir pelo intelectual mais velho, o que só lhe trará desgostos (dupla ironia do realizador?), que tentará esquecer nos braços do mais jovem (o que lhe trará ainda mais desgostos).

Todas as personagens são obviamente estereotipadas, notando-se o grande gozo de Chabrol ao criá-las, desde logo nos nomes: o escritor chama-se na realidade Charles Denis, mas acrescentou o 'Saint' (e passa o filme a repetir que a mulher, a quem põe alegremente os cornos, é uma Santa!); Paul André Claude Gaudens só é conhecido pelo 'Gaudens filho'; e a rapariga chama-se Gabrielle Aurore (enquanto que a mãe e irmãs do Gaudens filho chamam-se Dona, Joséphine e Eléonore). Nada de admirar, se nos lembrarmos que a juíza justiceira de 'A comédia do poder' se chamava Jeanne Charmant-Killman...

Como disse, a mordacidade de Chabrol está no seu auge, e se há talvez mais leveza nos seus últimos filmes, tal deve-se à sabedoria de um quase octogenário (78 anos feitos há dias), cuja quase invisibilidade da mise en scéne não devemos confundir com menor capacidade, mas sim com uma espécie de austeridade e despojamento do superficial à sua maneira.

Um filme delicioso.
La Fille Coupée en Deux, França/Alemanha, 2007. Realização: Claude Chabrol. Com: Ludivine Sagnier, Benoît Magimel, François Berléand, Mathilda May, Caroline Sihol .