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6.10.04

Bom dia, noite



Em 'Bom dia, noite' (título inspirado num poema de Emily Dickinson), Marco Bellochio dá-nos o seu retrato dos 55 dias de cativeiro do líder da Democracia Cristã italiana Aldo Moro, após ser raptado pelas Brigadas Vermelhas em 1978. Vemos tudo através dos olhos de Chiara, uma brigadista que faz parte de um grupo de 5 elementos que mantêm Moro sequestrado num apartamento, fazendo-se passar por uma família normal. Um dos pontos fortes do filme é precisamente o facto de se passar quase totalmente neste apartamento, a que o tom ‘granuloso’ e sujo da fotografia ajuda a dar um ar intimista, quase claustrofóbico. É-nos mostrado o isolamento (real e simbólico) dos brigadistas em relação ao mundo, vendo ansiosamente os noticiários, assustando-se quando alguém toca à campainha, tentando doutrinar Moro. Mas há algum esquematismo nestes cinco elementos, que nos são apresentados como um bando de ingénuos, que detestam que lhes chamem assassinos e ficam surpreendidos por não haver um levantamento popular a seu favor. Mesmo a personagem de Chiara, a mais complexa quer a nível ideológico quer emocional, padece de um problema: como não a conhecemos antes das dúvidas, quando ainda acreditava, também não somos totalmente marcados pela sua perda progressiva de fé na causa, pelo seu arrependimento que a leva a imaginar um fim diferente para a história. Por oposição, é-nos dado um retrato magnífico de Moro (excelentemente interpretado de Roberto Herlitzka), sempre sereno e digno e que é o primeiro a perceber que vai ser sacrificado pelos seus companheiros políticos de toda a vida.

Janet Leigh



(06/07/1927-03/10/2004)

24.9.04

Amanhã mudamos de casa



Ela é arrapazada, despistada, inocente, dada, hiper-activa e tem que escrever um livro erótico. A mãe enviuvou, mudou-se lá para casa e não lhe deixa espaço. A solução é pôr a casa à venda: os potênciais compradores vão entrando e saindo, vão ficando, indo, reaparecendo, vão-se deixando contagiar pelo ambiente deste lar e vão-se tornando um pouco parte da familia. O filme, que tem mais a leveza borbulhante de um champagne que a densidade encorpada de um bordaux, pisca um olho às comédias clássicas americanas e o outro ao musical, e embala-nos com a cadência imposta pela magnifica Sylvie Testud.

20.9.04

Para onde o vento sopra



Uma dezena de personagens deambula por Antuérpia, ao ritmo da banda sonora de Tom Barman. Não há bem uma 'história', apenas o dia a dia, banal, destas pessoas que se vão entrecruzando. Vem-nos à memória o Cassavetes de Shadows, por exemplo. Mas é um filme que sabe criar o seu próprio ambiente, que nos vai cativando e onde acabamos por nos entranhar...

17.9.04

Solaris



"Para pôr as coisas de uma forma simples, o homem quer ir para a cama com uma mulher que está morta. Ele entrega-se a uma certa forma de necrofilia."

A.Hitchcock em conversa com F.Truffaut sobre Vertigo

12.9.04

Terminal



Ao vermos certos gags deste filme é impossível não pensarmos o que é que um dos génios do mudo (um Buster Keaton, por ex.) não teria feito com as potêncialidades deste espaço - o terminal de uma aeroporto. Infelizmente Spielberg interessa-se pouco por esta faceta burlesca (que no entanto proporciona alguns dos melhores momentos do filme), estando mais preocupado com o lado 'Capriano' da principal personagem, o pobre coitado que enredado numa burocracia kafkiana fica encarcerado no terminal do aeroporto onde acabou de chegar. Acontece que este filme tem alguns problemas com a 'suspensão da descrença' (Tom Hanks, um refugiado de leste!? Isto acontecer num país obcecado com a segurança!?). Mas, como sempre em Spielberg, este dá-nos a sua lição de fé nos seres humanos e acredita nela quem quer ou quem pode.

3.9.04

Uma história japonesa de amor


Uma variação em tom menor de 'lost in translation': uma australiana encontra-se com um japonês num território estranho (o deserto australiano) e aos desencontros iniciais sucede-se a dita história de amor (se bem que fique a ideia que só num sentido). Depois dá-se o suposto 'momento chave' do filme e este surpreendentemente perde-se e nunca mais se acha.

Eternal sunshine of the spotless mind



E ao quarto filme estreado entre nós, Charlie Kaufman revela-nos uma surpreendente costela romântica. Realizado por Michel Gondry, 'O despertar da mente' (título português que perde o tom poético do original) é uma espécie de cruzamento entre a originalidade bizarra de 'Queres ser John Malkovich' e o romantismo com laivos de non-sense de 'Punch-drunk love'.

2.9.04

Wanda



"Ela representa no filme uma personagem que temos na América e que existe, suponho eu, em França e em todo o lado, a que chamamos floating (vagabundo). Uma mulher que flutua à superfície da sociedade, ao sabor da corrente. Mas, na história deste filme, o homem que ela encontra precisa dela. Durante alguns dias ela tem uma direcção e, no fim, quando ele morre, ela regressa à sua errância. Ela compreendia a personagem muito bem, porque quando era nova, era um pouco assim. Disse-me uma vez uma coisa muito triste: “Preciso de um homem para me defender”. Acho que a maioria das mulheres sabe o que isto é, mas não tem honestidade suficiente para o admitir. E ela dizia-o com tristeza."
ELIA KAZAN [em conversa com Marguerite Duras sobre Barbara Loden]

Wanda, datado de 1970, foi o único filme escrito e realizado pela actriz Barbara Loden, mulher de Elia Kazan. Foi também o último em que participou antes da sua morte em 1980, aos 48 anos.

1.9.04

O Regresso



Um pai regressa a casa 12 anos depois e leva os dois filhos numa viagem misteriosa. Os miudos, principalmente o mais novo e mais revoltado, não percebem porque é que o pai esteve este tempo todo ausente e muito menos porque voltou. Ao espectador também não é dito muito, que o filme é como o seu protagonista: lacónico, de poucas falas e ainda menos explicações. O Regresso presta-se a vários simbolismos e interpretações, sendo que a literal não é a menos interessante.
Andrei Zviaguintsev, que ganhou o Leão de Ouro de Veneza 2003 com este seu primeiro filme, fala de Antonioni como sua grande influência, mas é impossivel não pensarmos também no seu compatriota Tarkovsky, especialmente pela muito bela fotografia do filme.