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1.11.04

Noite escura



Depois de nos contar a história de uma mulher de Sines que mandava matar o marido (em Sapatos pretos), de nos mostrar o mundo dos emigrantes portugueses em França (no magnífico Ganhar a vida, o seu melhor filme até à data), João Canijo conduz-nos agora numa viagem ao fim da noite do Portugal profundo. Noite escura é uma adaptação da tragédia de Euripedes Ifigénia em Áulis para o cenário de uma casa de alterne, em que proprietário entrega a filha mais nova à mafia russa para salvar a pele. E é um retrato perturbante do 'país real', daquele que de vez em quando nos lembramos que existe através de uma notícia da TVI ou do Correio da Manhã, mas que ignoramos no nosso dia a dia: um Portugal rasca, feio, amoral e violento. Tudo isto muito bem filmado, e servido por excelentes actores, com destaque para Beatriz Batarda que compõe mais uma grande personagem feminina na obra de Jão Canijo, depois de Rita Blanco em Ganhar a vida.

29.10.04

A estação



Fin é uma anão de poucas falas que herda uma casa numa estação de caminho de ferro. Muda-se para lá para se isolar do mundo e se dedicar às suas paixões: passear ao longo dos carris, ler livros sobre comboios e observar os mesmos (o verdadeiro trainspotting). É um filme que chega com vários prémios de festivais de cinema, e conquista de imediato a nossa simpatia. De uma forma despretenciosa toca em vários temas 'difíceis': o ser diferente, a solidão, a amizade, até o amor. Para isso bastam três ou quatro grandes actores, um argumento em que nada está a mais e uma forte ideia de cinema por parte do realizador, o estreante Tom McCarthy.

27.10.04

She wore a yellow ribbon/Os dominadores



Este segundo volume da trilogia sobre a a cavalaria Americana (entre Forte Apache e Rio Grande), foi o único filmado por John Ford a cores. E, desde logo, somos surpreendidos pela deslumbrante fotografia deste filme, de uma enorme beleza plástica, com cores 'artificiais', que nos fazem lembrar os grandes mestres da pintura holandesa e italiana.
Esta é uma obra desencantada (crepuscular, como se costuma dizer), em que sob o pretexto de uma homenagem aos homens da cavalaria, nos é dado um magnifico retrato da personagem principal: John Wayne, um capitão da cavalaria a poucos dias da reforma compulsiva, uma dessas personagens tão Fordianas, um solitário, com uma mágoa que adivinhamos mas não sabemos de onde vem, nostálgico de um tempo que não volta mais. Uma obra prima.

26.10.04

Before sunset



Jesse e Celine voltam a encontrar-se nove anos depois de terem passado um único dia juntos (a história de Before sunrise). Durante 80 minutos seguimo-los em ‘tempo real’ , a passearem por Paris enquanto conversam. Não há outras personagens, nenhum ‘incidente’, mesmo os cenários são indiferentes. Apenas duas personagens a falarem. Sobre si próprias. Sobre as suas vidas, as suas ilusões e desilusões, a dificuldade em manter relações (ela), o casamento rotineiro (ele). E, sobretudo, a interrogarem-se sobre o que teria sido a sua vida se se tivessem reencontrado à 9 anos como tinham combinado. Será que ainda estariam juntos? Será que teriam ultrapassado os obstáculos que se vão entrepondo em todas as relações e ainda continuariam apaixonados? Eles vão dizendo que não, que era impossível, mas a verdade é que passaram quase 9 anos a pensar nisso e querem acreditar que sim. Que estavam destinados um ao outro. Que tudo teria sido diferente (para melhor) nas suas vida. E nós, os espectadores também queremos acreditar nisso. Vamo-nos embrenhando na sua conversa, ora com um sorriso, ora com o coração apertado, ora com nostalgia (e já foi dito que este filme funciona como um espelho para o espectador). Que aqui não há lugar para histórias cor de rosa nem príncipes encantados. Apenas duas pessoas que já apanharam alguns pontapés da vida, mas que insistem em ver uma luz no fundo do túnel. Before sunset é mais que um excelente filme romântico. É um filme romântico que os cépticos não desdenharão.

22.10.04

Supremacia


Seguindo a velha regra Hollywoodiana de passar para a tela os best-sellers literários, surgiu em 2002 'The Bourne Identity/Identidade desconhecida', baseado na trilogia de Robert Ludlum sobre Jason Bourne, um agente da CIA que na sequência de uma missão secreta fica amnésico. O resultado era um filme de espionagem acima da média, em que um sonâmbulo Matt Damon percorria meia Europa na companhia de Franka Potente (Run Lola Run) a tentar perceber quem era e o que lhe tinha acontecido. Seguido outra máxima Hollywoodiana, em 2004 surgiu a inevitável sequela: 'The Bourne Supremacy/Supremacia'. Doug Liman passou a produtor e deixou a cadeira de realizador para Paul Greengrass e o minimo que se pode dizer é que este arruina o filme, com uma realização histérica que faz um vídeo da MTV parecer mais parado que o mar morto. Ou seja, só recomendável a fans impedernidos de R.Ludlum. E mesmo estes farão melhor em esperar pelo terceiro capítulo da saga que (vai uma aposta?), há-de surgir nos cinemas um dia destes...

18.10.04

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera



De Kim Ki-Duk, realizador do bizarro 'Bordel do lago', não se esperaria um filme como este: minimalista, com meia duzia de diálogos, prácticamente todo centrado na relação entre um velho monge budista e o seu discipulo. Filme circular, sobre a inexorabilidade dos sentimentos e paixões humanos, é uma das boas surpresas da temporada.

15.10.04

Colateral



Tom Cruise, de cabelo e barba de 3 dias grisalhos, fato cinzento de marca e pose niilista, é um assassino que obriga um taxista a conduzi-lo pela noite fora, enquanto executa uma série de assassinatos para que foi contratado. Colateral é um filme de acção com pretensões filosóficas (não totalmente falhadas), que tira excelente partido da terceira personagem: a cidade de Los Angeles.

A vida é um milagre



Emir Kusturika criou, com meia dúzia de filmes, um dos universos mais pessoais e identificáveis do actual panorama cinematográfico. Ninguém se admire que daqui a uns tempos se use o epíteto Kusturikiano, como hoje usamos Felliniano, por exemplo. Mas esta forte marca autoral tem um risco: o de o realizador se começar a repetir, a usar sempre a mesma 'fórmula'. E, se Kusturica escapava a esta armadilha em 'Gato branco, gato preto', que apesar de não trazer nada de novo, era tão perfeito que funcionava como uma espécie de 'best of' da sua obra, neste seu último filme o efeito de 'déja vu' sobrepôe-se a tudo o resto. Para isso contribui a fragilidade do argumento, espécie de Romeu e Julieta nas Balcãs, o que o torna o seu filme mais fraco atá à data (o seu único filme fraco até à data, pode-se dizer). Bloqueio criativo temporário? A ver no próximo filme.

8.10.04

The village



The village tem muitos pontos a favor: poucos filmes de terror nos conseguem sobressaltar tanto como este (que não pretende ser de terror); tem uma bela história de amor (até várias); tem excelentes actores (com destaque para Adrien Brody, o maluquinho da aldeia, William Hurt, espécie de patriarca biblico e, last but not the least, a serenamente bela Bryce Dallas Howard); tem uma fotografia melancólica e ocre que nos embala. Mas, o que Shyamalan pretenderia que fosse o ponto forte do filme é o seu ponto fraco: a história, a das surpresas, a do fim-reviravolta que os espectadores de Shyamalan obrigatóriamente esperam. Não só as surpresas são algo decepcionantes (e é cansativa esta obrigatoriedade da surpresa final), como a história (bastante reaccionária) não é totalmente convincente.
Uma nota final sobre as insistentes comparações entre M.Night Shyamalan e Hitchcock. Embora continue a considerar o primeiro um dos mais originais realizadores da actualidade, em minha opinião esta comparação com o mestre não faz qualquer sentido. Basta lembrarmo-nos de Vertigo, em que , ao contrário da peça em que o filme é inspirado, a meio do filme nos é mostrado que Judy é Madeleine. Ou, como explica Hitch a Truffaut: "estamos de volta ao dilema de sempre: queremos suspense ou queremos surpresa?".

Spartan - O rapto



A filha do presidente dos Estados Unidos é raptada e Scott/Val kilmer, um agente das forças especiais, é encarregue de a resgatar. É este o pretexto para David Mamet tratar do seu tema de sempre: as aparências iludem, o que parece não é. Não sendo um Mamet vintage (são-o House of games ou o 'atípico' State & Main), ainda assim está uns furos acima dos thrillers que vão passando pelas salas de cinema.