Recent Posts

26.11.04

Lilith



'Lilith e o seu destino' (é o estranho título que recebeu em Portugal), rodado em 1964, foi o último filme realizado por Robert Rossen, realizador mais conhecido por 'The Hustler/A vida é um jogo' , de que Scorcese faria uma sequela em 1986, 'A cor do dinheiro'. O filme conta com um excelente cast, que incluí Warren Beatty, Peter Fonda (magnífico) e Gene Hackman (num dos seus primeiros papeis no cinema), mas é totalmente dominado por Jean Seberg, a actriz de 'À bout de souffle/O acossado'. Esta compõe uma enigmática e fascinante Lilith, uma paciente de um Hospital Psiquiátrico, que vive num mundo só dela - que incluí uma língua própria - e que possui uma estranha aura que afecta todos os que a rodeiam, que se vão enredando na sua teia e sendo atraídos para o seu mundo de loucura. 'Quero deixar a marca do meu desejo em todas as criaturas vivas’ diz a um ciumento mas irremediavelmente seduzido Vincent/Warren Beatty, 'se fosse César fá-lo-ia com a espada, se fosse poeta com palavras, como sou Lilith tenho que o fazer com o meu corpo'. Lilith faz parte daquela restrita galeria cinematográfica de mulheres perturbadas e perturbantes, mesmo ao lado de Marnie.

23.11.04

O tempo do lobo



Depois de 'A Pianista', Michael Haneke volta a filmar uma obra perturbante com Isabelle Huppert. Esta é uma mulher da cidade que foge com a família para a sua casa de campo depois de ter havido um cataclismo na Terra, não nos é dito qual. Após o marido ser assassinado, ela erra pelos campos com os dois filhos pequenos, acabando por se juntarem a um grupo de pessoas numa antiga estação ferroviária. Não há electricidade, a água e a comida são racionadas, o ambiente é de desolação e angústia. Neste mundo caótico é o instinto de sobrevivência que manda, e o realizador expõe as fraquezas e mesquinhez humanas sem contemplações, até ao ponto de incomodar o espectador. Sendo uma obra cuja temática se integra no universo de Michael Haneke, desde 'Jogos perigosos' à 'Pianista' , talvez o filme que mais se possa comparar com este , pela sua radicalidade e 'teatralidade' seja Dogville, de Lars von Trier.

19.11.04

The Manchurian candidate/O candidato da verdade



Remake d´'O Enviado da Manchúria', de John Frankenheimer (1962), este filme transporta a teoria da conspiração para a América dos dias de hoje, levando a paranóia aos limites do inverosímil. Sabemos o principal desde práticamente o início, não jogando o filme com qualquer efeito de suspense ou surpresa, afastando-se assim do esquema do thriller convencional. Apesar disto, e de ser precisa uma boa dose de credulidade para engolir o argumento (embora a realidade nos ande sempre a mostrar que ultrapassa a ficção...), a superior realização de Jonathan Demme mantém a nossa atenção presa durante as duas horas de filme.

Comme une image/Olhem para mim



Agnés Jaoui e Jean-Pierre Bacri voltam a ser co-argumentistas e actores de um filme realizado pela primeira, depois do sucesso d´'O Gosto dos Outros'. 'Olhem para mim' é uma espécie de sequela deste, mas com personagens diferentes. Ou melhor, a personagem principal mantém-se: a burguesia francesa, desta vez representada por uma jovem gordita complexada com esse facto e com o pai famoso que nem repara nela e tem uma namorada da sua idade, a professora de música da jovem gordita e o seu marido escritor que de repente tem sucesso graças ao pai famoso da jovem gordita, um jovem desempregado que se apaixona pela jovem gordita, etc. O tom é de comédia elegante, os diálogos fluídos, mas as personagens, com excepção do pai da jovem gordita (Jean-Pierre Bacri), não nos ficam na retina como no filme anterior.

17.11.04

We Don't Live Here Anymore /Desencontros



Jack (Mark Ruffalo) e Hank (Peter 7 palmos de terra Krause) são dois amigos que estão insatisfeitos com os seus casamentos. Jack tem um caso com Edith (Naomi Watts), a mulher de Hank, e este deseja Terry (Laura Dern - à quanto tempo...), a mulher do primeiro. Ou seja, a premissa do filme não é lá muito original: dois casais cansados do casamento, com angústias existenciais, que procuram no adultério uma fuga, nem que seja por reacção (como Terry). Um tema mais que batido (lembramo-nos de Bergman e Woody Allen, só para citar os melhores) que precisava de um argumentista, e já agora de um realizador, forte e original, para escapar à rotina. Infelizmente não é o que acontece: o argumento parece escrito por um aluno aplicado de um curso de escrita criativa e a realização não descola da banalidade. No fim salvam-se as duas actrizes: uma é das mais talentosas da sua geração; a outra, das mais belas.

12.11.04

Agente triplo



Três anos depois do magnífico a 'Inglesa e o Duque', Eric Rohmer realiza um novo filme de época. Agente triplo é também um filme de espionagem, passado no meio dos russos brancos, exilados em Paris nos anos trinta. Apesar de ser um filme de espionagem não tem, que eu me lembre, uma única cena de acção. Até quando Fiodor foge dos seus compatriotas, limita-se a sair pela porta e desaparecer. Aqui estamos no domínio da palavra. Agente triplo é o filme mais verboso do ano, mas até quase ao fim estamos às escuras sobre tudo: se Fiodor é ou não um agente duplo ou triplo; se não conta tudo à mulher para a proteger ou para a enganar; quais são as suas verdadeiras motivações. Como bom espião, faz do segredo a alma do negócio, apesar de estar sempre a discorrer sobre tudo. De resto, mesmo se Agente Triplo não é uma das obras primas de Rohmer, este, aos 84 anos, filma com a elegância de sempre: a mise en scéne é perfeita, os diálogos mantêm o (elevado) nível rohmeriano e os actores (desconhecidos) são excelentes.

10.11.04

Os Sopranos



Nesta quinta temporada d'Os Sopranos, há um facto a destacar (para além da entrada do grande Steve Buscemi): o protagonismo ganho pela personagem Adriana (Drea de Matteo). O último episódio exibido na :2 (o nº57), em que surge algo no ar entre Tony e Adriana, e em que nós, os espectadores, sabemos que não passou duma 'possibilidade', mas as personagens não sabem para desespero de Christopher, é uma obra prima digna de figurar no top ten do ano. Aliás, a verdade é só uma: poucos filmes chegam aos calcanhares desta série

1.11.04

Suspeita



Joan Fontaine é uma herdeira tímida e pouco atraente que casa com um oportunista mas sedutor Cary Grant. Pouco tempo depois começa-se a convencer de que este a quer matar. Como sempre em Hitchcock as coisas são mais complexas do que parecem à primeira vista, e o espectador ficará sempre na dúvida se está na presença de um verdadeiro assassino ou se tudo o que está a ver não se passará apenas na cabeça de uma mulher neurótica e fantasista que quer que o marido seja um assassino.

Noite escura



Depois de nos contar a história de uma mulher de Sines que mandava matar o marido (em Sapatos pretos), de nos mostrar o mundo dos emigrantes portugueses em França (no magnífico Ganhar a vida, o seu melhor filme até à data), João Canijo conduz-nos agora numa viagem ao fim da noite do Portugal profundo. Noite escura é uma adaptação da tragédia de Euripedes Ifigénia em Áulis para o cenário de uma casa de alterne, em que proprietário entrega a filha mais nova à mafia russa para salvar a pele. E é um retrato perturbante do 'país real', daquele que de vez em quando nos lembramos que existe através de uma notícia da TVI ou do Correio da Manhã, mas que ignoramos no nosso dia a dia: um Portugal rasca, feio, amoral e violento. Tudo isto muito bem filmado, e servido por excelentes actores, com destaque para Beatriz Batarda que compõe mais uma grande personagem feminina na obra de Jão Canijo, depois de Rita Blanco em Ganhar a vida.

29.10.04

A estação



Fin é uma anão de poucas falas que herda uma casa numa estação de caminho de ferro. Muda-se para lá para se isolar do mundo e se dedicar às suas paixões: passear ao longo dos carris, ler livros sobre comboios e observar os mesmos (o verdadeiro trainspotting). É um filme que chega com vários prémios de festivais de cinema, e conquista de imediato a nossa simpatia. De uma forma despretenciosa toca em vários temas 'difíceis': o ser diferente, a solidão, a amizade, até o amor. Para isso bastam três ou quatro grandes actores, um argumento em que nada está a mais e uma forte ideia de cinema por parte do realizador, o estreante Tom McCarthy.