Recent Posts

31.12.04

A porta no chão



Ted e Marion (Jeff Bridges e Kim Basinger - ambos excelentes) são um casal que se afundou depois da morte dos dois filhos adolescentes num acidente de viação. Um dia, Ted, que é um famoso escritor de contos infantis, contrata um jovem universitário que o admira para seu assistente. Este apaixona-se por Marion, que até aí vivia alheada do mundo e à beira da ruptura emocional, e para seu espanto esta encoraja-o e acaba por se envolver com ele. A metáfora é óbvia: ela vê nele os filhos que perdeu, tendo assim uma relação incestuosa (para não falarmos em necrofilia...) por interposta pessoa. Quanto a Ted, entretém-se pintando mulheres nuas e sendo-lhe infiel com elas. No meio disto tudo, move-se a pequena Ruth, a filha de quatro anos do casal, obcecada com as fotografias dos irmãos mortos que nunca conheceu e que cobrem toda a casa (acabando por se ferir ao partir o vidro de uma), que assiste a uma cena de sexo da mãe com o adolescente e ao pai a passear-se nu pela casa... mais cenas simbólicas e metafóricas para mentes Freudianas analisarem! Aliás esta é uma marca deste estranho (digamos assim) filme-baseado num livro de John Irving-e até temos direito a uma personagem secundária que só aparece para nos explicar o sentido metafórico do título 'A porta no chão'...

23.12.04

TOP TEN 2004



1 - Lost in translation, Sophia Coppola
2 - Before sunset, Richard Linklater
3 - Bully, Larry Clark
4 - Eternal sunshine of the spotless mind, Michel Gondry
5 - O regresso, Andrei Zviaguintsev
6 - Capturing the Friedmans, Andrew Jarecki
7 - In the cut, Jane Campion
8 - The village, M.Night Shyamalan
9 - American Splendor, Shari Springer Berman e Robert Pulcini
10 - Kill Bill 2, Quentin Tarantino

19.12.04

Imortal



'Immortel (ad vitam)' é a adaptação cinematográfica de Enki Bilal da sua trilogia de BD 'Nikopol', passada numa Manhattan futurista habitada por humanos, mutantes e extraterrestres. O filme combina personagens animadas por computador com actores de carne e osso (combinação nem sempre feliz, parecendo por vezes que estão a contacenar pessoas e 'bonecos') e recria a estética gélida e cinzenta das BD's de Bilal. Não acrescenta grande coisa aos livros, mas também não os desmerece: os fans ficarão satisfeitos e os iniciados com vontade de ler os quadradinhos.

15.12.04

Diários de Che Guevara



Em 1952 Ernesto Guevara (Gael García Bernal), então um estudante de medicina de vinte e poucos anos, iniciou uma viagem de mota pela América Latina na companhia do seu amigo Rodrigo de la Serna (Alberto Granado). Partiu como um jovem despreocupado e voltou um potencial revolucionário. O filme pretende mostrar esta transformação, do simpático Fuser no mítico Che. Para esse efeito é-nos dado o antes e o depois da ‘consciencialização social’ de Guevara. Ultrapassada a primeira parte da viagem, despachada em 3 ou 4 sketchs dos dois amigos a caírem da velha Poderosa, a mota de Rodrigo, dá-se o momento da ‘revelação’ quando encontram um casal de desempregados que tenta arranjar emprego nas minas, e se apercebem das duras condições de vida da gente humilde. A partir daí, o comportamento de Ernesto altera-se, exemplificado na cena em que abdica de ir com Rodrigo namoriscar duas irmãs, para visitar uma idosa doente. Estamos então preparados para o episódio chave do filme: a chegada à leprosaria de Machu Pichu, dirigida autoritariamente por um grupo de freiras. Aí Che, revela o seu novo ser: dá a mão aos leprosos sem luvas (o que era contrário aos regulamentos apesar de não haver perigo de contágio) e, cena suprema, no dia do seu aniversário atravessa a nado (apesar de ser asmático) o rio que separa os sãos dos leprosos, sendo recebido em apoteose por estes. Ou seja, comportamentos de um mártir mais do que de um revolucionário. Um mártir que põe a sua saúde em perigo pelos mais desfavorecidos, que sofre por eles, que luta por uma igualdade de direitos e tratamento entre todos. Como tem sido repetidamente referido, uma atitude que antes de ser socialista é Cristã, e nem vale a pena ir mais longe neste paralelismo Che/Cristo que o filme potencia, e de que a iconografia de ambos é um outro exemplo. Não faço ideia se o futuro revolucionário e implacável Che começou por aqui o seu processo de ‘formação revolucionária’, é uma teoria como outra qualquer, mas o filme é linear de mais nesta construção do Che-mártir, nunca sentimos verdadeiramente essa transformação interior de um homem. A culpa não pode ser atribuida apenas ao argumento, a realização de Walter Salles também não ajuda muito, com algumas soluções cinematograficamente infelizes (para não ir mais longe) como a cena da travessia do rio em câmara lenta sob o aplauso dos leprosos e musica de fundo a condizer. Não é um filme mau, mas o seu sucesso de estima é mais devido ao mito Che, do que às suas qualidades intrínsecas.

10.12.04

Alexandre, o Grande



O que dizer ao fim das 3 horas de visão deste 'Alexander', projecto de há longos anos de Oliver Stone, finalmente concretizado com um orçamento astronómico de 150 milhões de Dólares e que se arrisca a tornar num enorme flop de bilheteira? Comecemos pelo elenco, recheado de nomes sonantes: Colin Farrell defende o melhor que pode o Alexandre melancólico e martirizado que lhe deram e Angelina Jolie está surpreendentemente bem no papel de Olympia, a sua mãe. Quanto aos restantes actores, bom, não há nenhum que tenha verdadeiramente uma personagem com alguma espessura para encarnar: Anthony Hopkins (Ptolomeu) limita-se a servir de narrador, Val Kilmer (Filipe, pai de Alexandre) faz de bêbado em meia dúzia de cenas, e todos os outros se confinam a papeis secundários sem relevo. Quanto ao argumento, é a maior calamidade do filme: tem uma obsessão com a homossexualidade de Alexandre, insitindo na sua paixão por Hephaestion até à exaustão, padece de uma notória falta de ritmo, e está pejado de cenas ridiculas ou insólitas (como a da noite de núpcias). Finalmente refiram-se as cenas das batalhas: são o melhor do filme, mas depois do 'Senhor dos Aneis' é difícil ficarmos impressionados com elas (ou com quaisquer outras). Para rematar, tudo isto é embrulhado por mais um pastelão de Vangelis! Ou seja, um falhanço completo? Bem, há dois ou três momentos de grande beleza visual e um certo tom 'kitsh' e exagerado que não salvam o filme, longe disso, mas...não acho impossível que um dia este estampanço ainda se transforme num filme de culto.

6.12.04

(Estando mais ou menos resolvidos os problemas que levaram a que este blog estivesse indisponível durante uns dias, retoma agora o seu funcionamento normal. Brevemente serão postadas novas entradas.)

3.12.04

Super size me



Durante um mês Morgan Spurlock comeu três vezes por dia no McDonalds e não fez qualquer tipo de exercício físico, para no final descobrir a pólvora: que tinha engordado mais de 10 kilos e estava com a saúde de rastos. 'Super size me' é um documentário-denúncia, à la Michael Moore, divertido e descontraído, que aponta ao novo alvo favorito dos consumidores (e advogados) Americanos depois da paranóia anti-tabaco: a industria de fast-food.

30.11.04

2046



Há uns anos atrás 'Chungking Express' foi uma revelação. Um argumento rarefeito, sobre a solidão e as relações humanas numa grande urbe moderna, com o seu tempo acelerado, as suas cores frenéticas, o seu movimento contínuo. Desde aí, Wong Kar- Wai, anda sempre a fazer o mesmo filme. Foi refinando o estilo (a fotografia, o guarda roupa, a banda sonora são sempre imaculados), mas foi perdendo alma. 2046 é uma variação de 'In the mood for love' e, tal como este, é formalmente intocável mas emocionalmente frio. As suas personagens solitárias e os ambientes urbanos em que se movem não deixaram de nos fascinar, mas já não nos marcam.

26.11.04

Lilith



'Lilith e o seu destino' (é o estranho título que recebeu em Portugal), rodado em 1964, foi o último filme realizado por Robert Rossen, realizador mais conhecido por 'The Hustler/A vida é um jogo' , de que Scorcese faria uma sequela em 1986, 'A cor do dinheiro'. O filme conta com um excelente cast, que incluí Warren Beatty, Peter Fonda (magnífico) e Gene Hackman (num dos seus primeiros papeis no cinema), mas é totalmente dominado por Jean Seberg, a actriz de 'À bout de souffle/O acossado'. Esta compõe uma enigmática e fascinante Lilith, uma paciente de um Hospital Psiquiátrico, que vive num mundo só dela - que incluí uma língua própria - e que possui uma estranha aura que afecta todos os que a rodeiam, que se vão enredando na sua teia e sendo atraídos para o seu mundo de loucura. 'Quero deixar a marca do meu desejo em todas as criaturas vivas’ diz a um ciumento mas irremediavelmente seduzido Vincent/Warren Beatty, 'se fosse César fá-lo-ia com a espada, se fosse poeta com palavras, como sou Lilith tenho que o fazer com o meu corpo'. Lilith faz parte daquela restrita galeria cinematográfica de mulheres perturbadas e perturbantes, mesmo ao lado de Marnie.

23.11.04

O tempo do lobo



Depois de 'A Pianista', Michael Haneke volta a filmar uma obra perturbante com Isabelle Huppert. Esta é uma mulher da cidade que foge com a família para a sua casa de campo depois de ter havido um cataclismo na Terra, não nos é dito qual. Após o marido ser assassinado, ela erra pelos campos com os dois filhos pequenos, acabando por se juntarem a um grupo de pessoas numa antiga estação ferroviária. Não há electricidade, a água e a comida são racionadas, o ambiente é de desolação e angústia. Neste mundo caótico é o instinto de sobrevivência que manda, e o realizador expõe as fraquezas e mesquinhez humanas sem contemplações, até ao ponto de incomodar o espectador. Sendo uma obra cuja temática se integra no universo de Michael Haneke, desde 'Jogos perigosos' à 'Pianista' , talvez o filme que mais se possa comparar com este , pela sua radicalidade e 'teatralidade' seja Dogville, de Lars von Trier.