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10.1.05

História de Marie e Julien



Em 2004 estrearam em Portugal dois filmes de proeminentes realizadores da Nouvelle Vague: 'Agente triplo' de Eric Rohmer (84 anos) e este filme de Jaques Rivette (76 anos). Uma dúzia de anos depois d´'A bela impertinente' o realizador volta a filmar com Emmanuelle Béart, a Marie do título, uma mulher misteriosa que reaparece de repente na vida de um relojoeiro chantagista (Julien/Jerzy Radziwilowikz). Durante as primeiras duas horas, filmadas no peculiar estilo lento e demorado de Rivette, assistimos à história de amor de Marie e Julien. O que mais fica são as belas cenas de sexo entre os dois (muito carnais, mas muito pudicas), havendo também por lá uma história de chantagem, o MacGuffin deste filme. Quando a história parece não ter mais para dar, e os espectadores mais impacientes ou menos familiarizados com Rivette já estarão exasperados com o arrastar do enredo, eis que nos é revelada a surpresa que o argumento nos reservava (e diremos apenas que é bastante surpreendente e desconcertante). O problema é que nesta fase já a nossa atenção está algo adormecida, e a 'reviravolta' não tem o impacto que teria uma hora antes... Não seremos nós a criticar Rivette, um grande realizador, mas o cineasta 'Nouvelle Vague' cá da casa continua ser Rohmer.

5.1.05

Finding Neverland



Este filme é a ilustração da célebre frase de Flaubert, aplicada a J.M.Barrie: 'Peter Pan c'est moi'. Às tantas é dito "cada vez que alguém afirma que não acredita em fadas, morre uma". Nem mais: é este espírito que é preciso ter ao ver o filme. Se acreditarmos em fadas, é um filme perfeito.

3.1.05

5x2



Cinco cenas na vida de um casal, começando no dia da assinatura formal do divórcio e acabando na altura em que se conheceram. Ou seja, sabemos desde logo que o casal se separou, e vemos assim os restantes 4 episódios à procura dos motivos para tal, o que justifica a opção de filmar do fim para o início. A ele (Stéphane Freiss) nunca o conhecemos bem, é reservado e misterioso nas suas acções. A ela, temos a sensação que a conhecemos há muito, é a Valeria Bruni-Tadeschi de outros filmes, simpática, sensual, um pouco perdida. Cinco cenas para explicar o fim de uma relação de meia dúzia de anos são pouco? Talvez, mas cinquenta ou cem também não chegariam de certeza. O que fica entre elas cabe à imaginação do espectador, e se ao fim não temos a certeza de perceber o porquê da cena inicial (o divórcio), talvez Marion e Gilles também não o saibam explicar muito bem. Há pistas, há sintomas, mas o resto depende dos sentimentos de cada um. François Ozon sem perder o lado cerebral que lhe é caracteristico, desta vez comove-nos amiúde, talvez porque tudo isto nos é familiar, porque saibamos que a vida é assim mesmo.

31.12.04

A porta no chão



Ted e Marion (Jeff Bridges e Kim Basinger - ambos excelentes) são um casal que se afundou depois da morte dos dois filhos adolescentes num acidente de viação. Um dia, Ted, que é um famoso escritor de contos infantis, contrata um jovem universitário que o admira para seu assistente. Este apaixona-se por Marion, que até aí vivia alheada do mundo e à beira da ruptura emocional, e para seu espanto esta encoraja-o e acaba por se envolver com ele. A metáfora é óbvia: ela vê nele os filhos que perdeu, tendo assim uma relação incestuosa (para não falarmos em necrofilia...) por interposta pessoa. Quanto a Ted, entretém-se pintando mulheres nuas e sendo-lhe infiel com elas. No meio disto tudo, move-se a pequena Ruth, a filha de quatro anos do casal, obcecada com as fotografias dos irmãos mortos que nunca conheceu e que cobrem toda a casa (acabando por se ferir ao partir o vidro de uma), que assiste a uma cena de sexo da mãe com o adolescente e ao pai a passear-se nu pela casa... mais cenas simbólicas e metafóricas para mentes Freudianas analisarem! Aliás esta é uma marca deste estranho (digamos assim) filme-baseado num livro de John Irving-e até temos direito a uma personagem secundária que só aparece para nos explicar o sentido metafórico do título 'A porta no chão'...

23.12.04

TOP TEN 2004



1 - Lost in translation, Sophia Coppola
2 - Before sunset, Richard Linklater
3 - Bully, Larry Clark
4 - Eternal sunshine of the spotless mind, Michel Gondry
5 - O regresso, Andrei Zviaguintsev
6 - Capturing the Friedmans, Andrew Jarecki
7 - In the cut, Jane Campion
8 - The village, M.Night Shyamalan
9 - American Splendor, Shari Springer Berman e Robert Pulcini
10 - Kill Bill 2, Quentin Tarantino

19.12.04

Imortal



'Immortel (ad vitam)' é a adaptação cinematográfica de Enki Bilal da sua trilogia de BD 'Nikopol', passada numa Manhattan futurista habitada por humanos, mutantes e extraterrestres. O filme combina personagens animadas por computador com actores de carne e osso (combinação nem sempre feliz, parecendo por vezes que estão a contacenar pessoas e 'bonecos') e recria a estética gélida e cinzenta das BD's de Bilal. Não acrescenta grande coisa aos livros, mas também não os desmerece: os fans ficarão satisfeitos e os iniciados com vontade de ler os quadradinhos.

15.12.04

Diários de Che Guevara



Em 1952 Ernesto Guevara (Gael García Bernal), então um estudante de medicina de vinte e poucos anos, iniciou uma viagem de mota pela América Latina na companhia do seu amigo Rodrigo de la Serna (Alberto Granado). Partiu como um jovem despreocupado e voltou um potencial revolucionário. O filme pretende mostrar esta transformação, do simpático Fuser no mítico Che. Para esse efeito é-nos dado o antes e o depois da ‘consciencialização social’ de Guevara. Ultrapassada a primeira parte da viagem, despachada em 3 ou 4 sketchs dos dois amigos a caírem da velha Poderosa, a mota de Rodrigo, dá-se o momento da ‘revelação’ quando encontram um casal de desempregados que tenta arranjar emprego nas minas, e se apercebem das duras condições de vida da gente humilde. A partir daí, o comportamento de Ernesto altera-se, exemplificado na cena em que abdica de ir com Rodrigo namoriscar duas irmãs, para visitar uma idosa doente. Estamos então preparados para o episódio chave do filme: a chegada à leprosaria de Machu Pichu, dirigida autoritariamente por um grupo de freiras. Aí Che, revela o seu novo ser: dá a mão aos leprosos sem luvas (o que era contrário aos regulamentos apesar de não haver perigo de contágio) e, cena suprema, no dia do seu aniversário atravessa a nado (apesar de ser asmático) o rio que separa os sãos dos leprosos, sendo recebido em apoteose por estes. Ou seja, comportamentos de um mártir mais do que de um revolucionário. Um mártir que põe a sua saúde em perigo pelos mais desfavorecidos, que sofre por eles, que luta por uma igualdade de direitos e tratamento entre todos. Como tem sido repetidamente referido, uma atitude que antes de ser socialista é Cristã, e nem vale a pena ir mais longe neste paralelismo Che/Cristo que o filme potencia, e de que a iconografia de ambos é um outro exemplo. Não faço ideia se o futuro revolucionário e implacável Che começou por aqui o seu processo de ‘formação revolucionária’, é uma teoria como outra qualquer, mas o filme é linear de mais nesta construção do Che-mártir, nunca sentimos verdadeiramente essa transformação interior de um homem. A culpa não pode ser atribuida apenas ao argumento, a realização de Walter Salles também não ajuda muito, com algumas soluções cinematograficamente infelizes (para não ir mais longe) como a cena da travessia do rio em câmara lenta sob o aplauso dos leprosos e musica de fundo a condizer. Não é um filme mau, mas o seu sucesso de estima é mais devido ao mito Che, do que às suas qualidades intrínsecas.

10.12.04

Alexandre, o Grande



O que dizer ao fim das 3 horas de visão deste 'Alexander', projecto de há longos anos de Oliver Stone, finalmente concretizado com um orçamento astronómico de 150 milhões de Dólares e que se arrisca a tornar num enorme flop de bilheteira? Comecemos pelo elenco, recheado de nomes sonantes: Colin Farrell defende o melhor que pode o Alexandre melancólico e martirizado que lhe deram e Angelina Jolie está surpreendentemente bem no papel de Olympia, a sua mãe. Quanto aos restantes actores, bom, não há nenhum que tenha verdadeiramente uma personagem com alguma espessura para encarnar: Anthony Hopkins (Ptolomeu) limita-se a servir de narrador, Val Kilmer (Filipe, pai de Alexandre) faz de bêbado em meia dúzia de cenas, e todos os outros se confinam a papeis secundários sem relevo. Quanto ao argumento, é a maior calamidade do filme: tem uma obsessão com a homossexualidade de Alexandre, insitindo na sua paixão por Hephaestion até à exaustão, padece de uma notória falta de ritmo, e está pejado de cenas ridiculas ou insólitas (como a da noite de núpcias). Finalmente refiram-se as cenas das batalhas: são o melhor do filme, mas depois do 'Senhor dos Aneis' é difícil ficarmos impressionados com elas (ou com quaisquer outras). Para rematar, tudo isto é embrulhado por mais um pastelão de Vangelis! Ou seja, um falhanço completo? Bem, há dois ou três momentos de grande beleza visual e um certo tom 'kitsh' e exagerado que não salvam o filme, longe disso, mas...não acho impossível que um dia este estampanço ainda se transforme num filme de culto.

6.12.04

(Estando mais ou menos resolvidos os problemas que levaram a que este blog estivesse indisponível durante uns dias, retoma agora o seu funcionamento normal. Brevemente serão postadas novas entradas.)

3.12.04

Super size me



Durante um mês Morgan Spurlock comeu três vezes por dia no McDonalds e não fez qualquer tipo de exercício físico, para no final descobrir a pólvora: que tinha engordado mais de 10 kilos e estava com a saúde de rastos. 'Super size me' é um documentário-denúncia, à la Michael Moore, divertido e descontraído, que aponta ao novo alvo favorito dos consumidores (e advogados) Americanos depois da paranóia anti-tabaco: a industria de fast-food.