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18.2.05

O Aviador



Dos realizadores ainda no activo, Scorcese é um dos meus dois ou três preferidos. Não obstante, 'Gangues de Nova Iorque' desapontou-me bastante e confesso que temia que 'O aviador' fosse outro pastelão. Felizmente não é nada disso, mas sim um belo 'biopic', género difícil, que tirando raríssimas excepções (como 'Lawrence da Arábia') não costuma trazer nada de novo. Claro que a matéria-prima era de eleição: a ascenção e queda de Howard Hughes, personagem bigger than life , pioneiro da aviação, produtor e realizador de cinema, playboy que incluiu no curriculum Katharine Hepburn ou Ava Gardner, e acabou paranóico e na mais completa solidão. Mas o filme tem mais trunfos: um surpreendente Leonardo di Caprio que veste na perfeição o fato de Howard Hughes, um ritmo inquebrável durante as 3 horas e, pese embora o facto de se centrar principalmente sobre os anos gloriosos e não sobre a decadência de Hughes, sente-se o Scorcese touch, algo de todo em todo ausente do seu filme anterior. Não é um 'Mean Streets', um 'Taxi driver' ou um 'Casino', mas é um filme que vale a pena ver e que talvez dê finalmente o merecido Oscar a Scorcese.

15.2.05

Saraband

Porque é que Saraband é um filme perfeito?



Os rostos. Os grandes planos dos rostos.



As palavras: "Eu sem ti seria mais pobre ou outra palavra que ainda não existe"



A música. As cores. As imagens.



A solidão. A repressão dos sentimentos. A ausência de sentimentos. A incomunicabilidade. O incesto. A morte. O medo da morte. As relações pais-filhos. As mulheres. O pessimismo. Alguma esperança.

11.2.05

Ordo



Louise é uma actriz famosa mas com a vida sentimental de rastos, depois de uma série de casamentos falhados. Se estivesse a morrer, provavelmente a sua última palavra não seria 'Rosebud', mas 'Ordo'. Ordo é o homem com quem casou aos 16 anos, muito, muito antes de ser uma celebridade. Ela pensa que ele foi o único homem que amou, ou quer voltar ao tempo em que era uma jovem inocente, e por isso resolve atraí-lo de volta. Instala-o na sua mansão e envolvem-se novamente, mas nem um nem outro parecem saber muito o que estão a fazer. O filme fez-me lembrar 'Swimming pool', não só pelas constantes cenas passadas na piscina, como pelo seu tom frio e cerebral, típico de Ozon. É um filme bem feito, com um argumento interessante, um grande actor e uma bela actriz, não desmerecendo os 5 euros, mesmo que daqui a 1 semana já esteja muito longe do nosso pensamento...

O nosso fantasma

O bug que ataca regularmente este blog e o faz desaparecer tornou a entrar em acção. É já uma companhia cá da casa, uma espécie de fantasma que volta e meia aparece para nos assombrar (ou ensombrar!). Assim, tal como um certo fantasma voltou para buscar uma certa senhora, quando este blog desaparecer de vez os leitores já sabem quem o levou...

10.2.05

Vera Drake



Vera Drake é uma força da natureza. Sendo empregada doméstica em casa de familias ricas, dedica o seu tempo livre a ajudar os pobres. Visita-os, leva-lhes um cházinho, convida-os até para jantar em sua casa. Dentro deste espírito, tem também uma actividade que os seus próximos não suspeitam: 'ajuda raparigas em dificuldades', como ela diz. Ou seja, faz abortos clandestinos, uma vez que o aborto ainda é ilegal na Inglaterra dos anos 50, onde decorre a acção. Mike Leigh, um veterano do 'realismo inglês', tem aqui um dos seus filmes mais políticos e simultaneamente com mais sucesso: vencedor do Leão de Ouro em Veneza e nomeado para 3 Oscares. Mas, quanto a mim, o problema está justamente neste lado político do filme, que leva Mike Leigh a um esquematismo que torna tudo pouco credível. Comecemos pela família de Vera Drake, género pobrezinhos mas honrados, com o marido empregado na oficina do irmão e sempre a dizer que têm muita sorte, a filha sempre curvada que trabalha numa fábrica de lâmpadas, o seu namorado que mal abre a boca e está sempre com ar infeliz (apesar de sentir muito feliz por ter conhecido aquela família). Por contraste temos os ricos, superficiais e arrogantes, e aquela que é a personagem mais ridicularizada pelo realizador/argumentista: a cunhada de Vera Drake, que já foi pobre mas agora tem algumas posses e se comporta como nova-rica. Mas há mais: se é fácil acreditar que Vera Drake não levava nada pelo seu trabalho clandestino, uma vez que tudo era feito num espirito de ajuda aos mais desfavorecidos, já é mais difícil acreditar que não soubesse que a sua amiga não cobrava nada às 'clientes' que angariava, ou que não tivesse noção dos riscos do que fazia para as mulheres que ajudava. E que em vinte anos ninguém tivesse morrido em consequência destes abortos caseiros e sem condições. Ou seja, para demonstrar a sua 'tese' (e o problema não está na tese), que Vera Drake - e, subentende-se, as outras mulheres que faziam abortos clandestinos- era uma heroína/mártir e que a lei é que estava errada, Mike Leigh pinta tudo a preto e branco, quando sabemos que no mundo real as coisas raramente assim são: geralmente não são pretas nem brancas, são cinzentas. Por isso, apesar do tom realista, raramente me acreditei tão pouco nas personagens como nas deste filme.

9.2.05

Em fuga



Este filme, realizado em 1999 por Bruno Almeida, um português radicado nos Estados Unidos, é curioso a vários níveis. Desde logo, pelos nomes nele envolvidos: o argumentista é Joseph Minion, o mesmo de 'Nova Iorque fora de horas', e os dois actores principais são Michael Imperioli e John Ventimiglia (respectivamente Chistopher e Artie - o chef, dos Sopranos). Este último é Louie, um presidiário que foge duas semanas antes de acabar a pena e telefona ao seu amigo Albert (M.Imperioli), que a principio se tenta descartar dele, mas que acaba por o acompanhar ao longo da noite. Os dois vão deambulando por Nova Iorque, vivendo diversas peripécias que por vezes roçam o absurdo, mas que vão reforçando a sua amizade. Pelo caminho vão-se cruzando com diversas personagens da fauna nova iorquina, o que permite ao espectador ir identificando uma série de secundários conhecidos como Joaquim de Almeida, Joseph R.Gannascoli (Vito dos... Sopranos), Drena de Niro (enteada de Robert) e até... Agnés Jaoui! Tudo isto filmado com uma fotografia sombria, que dá ao filme um ar 'sujo', algo artificial, uma espécie de continuação 'caseira' de 'Nova Iorque fora de horas'. Ou seja, estando longe do que se espera dum filme português, também está distante das produções hollywoodianas típicas, não tendo sequer os 'tiques' de que enferma muito do cinema independente Americano. Talvez seja um filme que está, como dizia António Variações da sua música, algures entre Braga e Nova Iorque...

4.2.05

Out of the past/O arrependido



Há vários finais de filmes de que gosto particularmente. Desde o famosíssimo final de 'Citizen Kane', passando pelo do 'Homem que matou Liberty Valance' ou o do 'Vertigo'. Mas o deste filme, com Virginia Huston a perguntar ao miúdo surdo-mudo se ele acha que Robert Mitchum ia fugir com Jane Greer, é inultrapassável.

31.1.05

Team America



Os criadores da série mais politicamente incorrecta de sempre, South Park, trocaram os desenhos recortados por marionetas, mas mantêm o humor escatológico e subversivo de sempre. De um lado temos o Team America, os policias do mundo, prontos a tratar dos terroristas em qualquer canto da terra, provocando inconsciente e alegremente alguns danos colaterais pelo caminho, como a destruição da torre Eiffel, do Louvre, ou de umas quantas piramides do Egipto. Do outro, terroristas árabes e tchetchenos, liderados por Kim Jung Il (que troca os r pelos l como é da praxe, e é apresentado como um psicopata solitário) tendo como seus aliados as estrelas 'liberais' de Hollywood, lideradas por Alex Baldwin, que se acham a consciência do mundo e são o maior bombo da festa. O filme não consegue manter o ritmo o tempo todo, abusa dos interlúdios musicais sendo por vezes algo chato, mas tem momentos muito divertidos (como o ataque suicida de Michel Moore- a doninha socialista), verdadeiros achados (a marioneta de Matt Damon só sabe dizer o próprio nome) e tem uma imparcialidade verdadeiramente democrática: ninguém, mas mesmo ninguém, fica bem na fotografia.

28.1.05

Nathalie



Catherine é uma ginecologista de meia-idade, que um dia descobre que o marido, Bernard, tem uns 'casos' ocasionais. Ele jura-lhe que a ama, que nunca lhe contou nada por ser tão banal, que ela o pode esquecer pois não tem qualquer importância. Mas Catherine não o consegue, e toma uma decisão algo insólita: contrata uma prostituta sofisticada para o seduzir. As suas intenções não são muito claras: tem esperança que o marido rejeite os avanços daquela, para assim ficar mais descansada, apesar de ele lhe ter confessado os seus affaires? Ao início talvez, mas depois de um ou dois encontros Nathalie - nome sugerido por Catherine à prostituta - lhe dizer que foram para a cama, Catherine quer saber todos os detalhes e continua-lhe a pagar para ela manter os encontros com o marido e lhe contar todos os pormenores. Para Nathalie, as coisas são claras: em vez dos habituais clientes homens, tem aqui uma cliente especial, uma mulher que se excita ao ouvir os relatos dos encontros sexuais do marido com a amante. Para o espectador, não é assim tão claro. Tanto Catherine como Bernard são seres fechados, que pouco falam, que pouco se deixam conhecer. As motivações de Catherine tanto podem ser as que Nathalie pensa, como poderão ser mais complexas. Um escape ao casamento rotineiro. Um pretexto para ela própria ter um caso. Uma vontade deliberada de se humilhar. Nunca temos a certeza sobre o que ela pensa ou sente. Mesmo o final do filme, um final surpreendente, diz-nos mais sobre Nathalie e Bernard do que sobre Catherine. Sobre ela não sabemos nada. Ou sabemos alguma coisa: sabemos que foi ela que escolheu o nome de Nathalie; que sugeriu a sedução ao marido; que encorajou a que todos os pormenores lhe fossem contados; que foi quem viveu mais intensamente aquele romance; que Nathalie, no fundo, é Catherine.

27.1.05

Closer/Perto demais



Dan/Jude Law, um escritor de obituários com aspirações a escritor conhece na rua, e devido a um acidente, Alice/Natalie Portman, uma striper americana acabada de aterrar em Londres. Resultado: amor à primeira vista. Larry/Clive Owen, um dermatologista, conhece Anna/Julia Roberts, uma fotógrafa, num oceanário devido a uma partida que lhe pregaram. Resultado: amor à primeira vista. Mas isto não se fica por aqui: Jude Law vai-se sentir atraído por Julia Roberts e vice-versa, Clive Owen por Natalie Portmana e vice-versa...A regra da atracção domina o filme, com as personagens a não resistirem em envolver-se umas com as outras, entrando às tantas o argumento um tanto ao quanto na inverosimilhança com o agora deixo-te, agora volto para ti. Ou pelo menos não nos é mostrado o suficiente para percebermos estas voltas e reviravoltas. Tudo a ver com sexo? Aparentemente sim, pelo menos as personagens passam a vida a falar disso, em excelentes diálogos em que tudo é dito e em que tudo é perguntado. Curiosamente quem mais reticências tem em falar de sexo é Alice, a striper, que é também a personagem mais forte do filme - e Natalie Portman, que ganhou o Globo de Ouro, arranca a melhor interpretação de todas. Clive Owen (que também ganhou o globo) tem uma voz magnifica e deve ser um excelente actor de teatro, mas aqui dá a impressão de passar o filme a declamar. Quanto a Julia Roberts tem a personagem mais fraca para defender (ou ela não lhe consegue dar a espessura suficiente) e Jude Law, bom, ainda não é desta que prova ser um actor a sério...Seja como for, numa altura em que 90% da produção de Hollywood se destina a teenagers, sabe bem ver um sólido filme para adultos.