Recent Posts

14.3.05

Vanity Fair



Mira Nair realiza mais uma adaptação ao cinema do romance de William Makepeace Thackeray!
O argumento constrói um retrato implacável da Inglaterra dos anos 40 do século XIX.
A nobreza ociosa, empobrecida e cada vez mais ignorante tenta manter o seu estilo de vida através de casamentos de conveniência com membros da burguesia subitamente enriquecidos fruto do comércio com as colónias.
Para os comerciantes com dinheiro mas sem ‘berço’, comprar um título, ou adquiri-lo através do casamento é o único modo de ascensão social. Os nobres apreciam o dinheiro, mas nunca reconhecem esses novos membros das suas famílias como seus pares.

A primeira hora do filme é brilhante. O tom é leve mas pertinente, os diálogos são rápidos e mordazes, as tiradas espirituosas sucedem-se. Faz lembrar as melhores peças de Oscar Wilde.

Mas no pior estilo das fábulas de La Fontaine, depois da diversão vem o castigo. Os dramas de cordel aborrecem, os diálogos vulgarizam-se, a trama engorda, o filme arrasta-se até um final semi feliz (que não existe no livro) ao jeito de Bollywood.

Ainda assim o filme é simpático, interessante e tem um naipe de actores secundários fabuloso: Gabriel Byrne, Jim Broadbent, Bob Hoskins, Eileen Atkins, entre outros.

12.3.05

Un Long Dimanche de Fiancailles


Jean Pierre Jeunet conta uma estória que está no pólo oposto de Amélie - a comparação é inevitável.
Amélie era luminoso, alegre e intimista. Em Um longo Domingo de Noivado os planos abrem para tentar conter uma tristeza imensa, as cores diluem-se num tom sépia, o estilo é grandioso.
A música embaladora de Yann Tiersen dá lugar ao tom épico de Angelo Badalamenti, e a fábula a um realismo devastador, ainda que encantador em alguns momentos.

Jeunet continua a fazer uso de um narrador e de pequenos flashbacks para nos apresentar episódios da vida das várias personagens, e justificar o rumo da estória.
As suas personagens continuam a ter uma pureza quase infantil (não confundir com ingenuidade): Mathilde (Audrey “Amélie” Tautou), faz frequentemente pequenos jogos mentais - "Se eu chegar mais rapidamente àquela curva a correr do que o carro (que leva Manech, o grande amor de Mathilde para a guerra) então ele voltará".
Manech desaparece durante a guerra. Mathilde perde sempre estes jogos, mas nunca a esperança de voltar a encontrar Manech vivo.

O filme vai mostrando as cenas de horror da guerra das trincheiras à medida que Mathilde vai seguindo as pistas e montando o puzzle.

O ritmo do filme é inconstante, chega a ser confuso e enfadonho, e a investigação de Mathilde chega a fazer-nos pensar que estamos a ver mais um episódio de Miss Marple.

Jodie Foster e Marion Cotillard (Tina Lombardi) têm pequenas mas interessantes participações no filme, por se distanciarem das habituais personagens de conto de fadas - unidimensionais e assépticas - de Jeunet.

Quem odiou Amélie tem aqui uma boa notícia. Mathilde não provoca tantos anticorpos. Quem adorou Amélie poderá ficar desiludido com o tom mais realista deste filme.

Um Longo Domingo de Noivado não é um filme imprescindível, principalmente numa época com tantos filmes de qualidade, mas daqui a uns meses, quando chegar a silly season será certamente um filme a recuperar no clube de vídeo.

11.3.05

Fantasporto (III)



Nothing, de Vincenzo Natali, foi o vencedor do Grande Prémio Fantasporto 2005. Natali, aliás, é um repetente nestas andanças, tendo já ganho este prémio em 1999 com Cube, e o Prémio Especial do Júri o ano passado, com Cypher. Nothing é a história de dois freaks, Dave e Andrew, que moram juntos numa casa por baixo de 2 auto-estradas. Apesar de serem totalmente inofensivos, acabam por se meter, sem saberem muito bem como, numa série de encrencas que levam a que um dia tenham a casa cercada pela policia e por uma empresa de demolições. Estão em pânico a pensar no que fazer à vida, quando tudo à sua volta desaparece! Literalmente. Fora da casa só há o…nada, uma superfície branca semelhante a uma cama-elástica. A partir daqui temos apenas os dois actores neste cenário despido, quase como se estivéssemos a assistir a uma peça de teatro. Por vezes parecem duas personagens Becketianas, filosofando num cenário desolado, por vezes parecem personagens burlescas, fazendo desaparecer aquilo de que não gostam (é esta a explicação de tudo), mas a maior parte do tempo parecem aquilo que na realidade são: duas personagens de um filme ‘low budget’ à procura de um argumento. De facto, Natali e o seu argumentista Andrew Miller não conseguem desenvolver a (boa) ideia original, e grande parte do tempo é passado a encher pneus, sem saberem muito bem o que fazer com as suas personagens. Talvez Nothing tivesse dado uma boa curta-metragem, mas para hora e meia de filme era preciso muito mais.
Como conclusão diga-se apenas que o facto deste filme, que não é mau mas não ultrapassa a mediania, ter ganho o Fantas diz muito sobre o festival. É que tenho o palpite que o problema não foi uma má escolha do júri, se calhar não havia era muito melhor por onde escolher…

8.3.05

Mar Adentro



Este filme é quase perfeito do ponto de vista formal. O problema é que não se trata de um filme de ‘suspense’, em que normalmente as explicações são escassas e a acção se sobrepõe ao conteúdo. Alejandro Amenábar não deixa respirar as relações, evita o confronto, tem pânico de causar algum desconforto, e prefere o vídeo-clip de 30 segundos com banda sonora a condizer para passar a mensagem mais rapidamente.

E simplifica. Muito. Dum lado a Espanha inculta rural e católica, do outro, os cultos, liberais e urbanos. Dum lado as pessoas a quem Ramon Sampedro dá uma justificação maior às suas pequenas vidas, do outro as que o querem ajudar a cumprir a sua vontade.
Dum lado as pessoas que podem amar do outro Ramon.

Somos demasiado dirigidos, e quando termina e deixamos de sentir a mão do realizador, o feitiço vai embora. Ficam várias interpretações femininas magníficas. Fica o retrato ainda que esboçado de uma família rural galega com que certamente muitos portugueses encontrarão pontos de identificação, a começar pela Língua. Fica o humor de Ramon.

Fica Julia (Belén Rueda), no seu primeiro papel em cinema.

4.3.05

Sideways



A propósito de Garden State, já aqui falei de 'pequenos filmes' cuja qualidade advém dos actores e do argumento. O realizador pega num grande argumento (muitas vezes escrito ou adaptado por ele próprio), escolhe os actores à medida, agita muito devagarinho e o resultado é um filme muito cá de casa. Acontece que de vez em quando o resultado sai tão bem, tão bem, que o filme transcende o mero estatuto de filme-que-não-é-uma-obra-prima-mas-do-qual-gostamos-muito, e atinge o estatuto de quase-quase-obra-prima ou mesmo obra-prima-e-pronto. Exemplos recentes? É fácil: Punch Drunk Love e The Royal Tenenbaums. E Sideways, pois claro (os dois primeiros são comédias melancólicas; Sideways é mais um filme melancólico com momentos cómicos). O ponto de partida é simples: Miles e Jack tiram umas férias pela California vinhateira. O objectivo do primeiro, um professor e escritor não publicado que anda deprimido desde o divórcio, é apreciar vinhos (é um enófilo, embora às vezes carregue demais nos copos), o do segundo, um actor de séries e anúncios, é aproveitar a ultima semana antes do casamento para dar umas quecas. A partir daqui temos um dos melhores filmes deste início de ano (já de si invulgarmente bom), baseado, pois então, num argumento em que todos os diálogos e todas as cenas são perfeitos, e no fantástico quarteto de actores: Thomas Haden Church, Virginia Madsen (que não via há longos anos, desde Hot Spot), Sandra Oh e, dominando todo o filme, Paul Giamatti, cujo facto de não ter sido sequer nomeado, fica como a maior barbaridade dos Óscares deste ano.

Fantasporto (II)



karen Black, actriz principal de Firecracker, subiu ao palco antes da exibição do filme.
A senhora que tem 10 anos em cada ruga disfarçada com botox, fez dezenas de papéis em filmes de série B e ficou conhecida pela participação em Easy Rider e Nashville. Parece que também ganhou dois globos de ouro e foi nomeada para os Óscares.
Foi o grande momento da noite. Comportou-se como uma verdadeira diva decadente, daquelas que tomam dois valiuns com vodka ao pequeno-almoço.
Convidou os fotógrafos a deslocarem-se para o outro lado do palco para lhe apanharem o melhor lado e cantou depois de bater com a cabeça no microfone.
O filme deixa uma forte impressão... negativa. É uma mistura oxidada de Twin Peaks com Freaks com Fargo.
Numa comunidade fortemente religiosa e supersticiosa (sinónimos?) do interior dos estados unidos, dois irmãos procuram a redenção e a libertação da mãe, nos braços de uma cantora de um espectáculo itinerante, aonde habitam as tais figuras do filme de Tod Browning. A mãe e a cantora são interpretadas por Karen Black, numa óbvia alusão ao complexo de Édipo. Acontece um crime. Entra a sheriff da cidade saída do filme dos irmão Cohen (máscula, integra e provavelmente republicana). O realizador alterna entre o preto-e-branco nas cenas de tensão familiar e religiosa, e a cor saturada para as cenas de Freak Show. O truque barato acentua o enjoo.
Mike Patton tem também dois papéis no filme. Não é um grande actor. Devia-se limitar a usar a voz poderosa de crooner em anúncios de lixívia.

Uma palavra para a organização do Fantas: A impressão que fica nos últimos anos é que tem vergonha do festival que faz.
Queria ter um festival com filmes “sérios”, mas como não pode competir com Cannes ou Berlim, nem com o festival independente de Sundance, transformou o Fantas num produto híbrido. Continuam a aparecer os filmes gore, de terror ou de ficção científica que justificaram o festival, mas aparecem também estes filmes medianos (ou mesmo maus) com pretensões arty. Também começou a privilegiar as antestreias, como se trouxesse algum valor acrescentado a um festival como o Fantas exibir um filme duas semanas antes de entrar no circuito comercial.

A palavra final vai para o público do Fantas. É sem dúvida um público em permanente êxtase. Faz lembrar os concertos em que o público está em delírio antes do primeiro acorde da banda. No Fantas o público fica louco por poder bater palmas num cinema, usar uma credencial ao pescoço, e assistir a um filme, mesmo que muito mau, num festival com alguma projecção internacional

Brevemente...

...allen_douglas vai começar a colaborar neste blog! Depois de muita insistência e árduas negociações, finalmente podemos anunciar esta contratação de inverno, garantidamente mais eficaz que o Mota e o Delibasic (ou lá como é que ele se chama) juntos!

3.3.05

Brevemente...

2.3.05

A não perder...

...o novo TOP da Xispinha

1.3.05

Topmania

Com a devida vénia à inspiradora desta secção (a quem pago uma fortuna em direitos de autor), eis o primeiro Top, o de VILÕES:



1. Reverend Harry Powell (Robert Mitchum) - The Night of the Hunter

2. Frank Booth (Dennis Hopper) - Blue Velvet

3. Hans Beckert (Peter Lorre) - M

4. Hall 9000 (voz de Douglas Rain) - 2001: A space odyssey

5. Alex (Malcolm McDowell) - Clockwork orange

6. Eve Harrington (Anne Baxter) - All about Eve

7. Marl Lewis (Karlheinz Bohm) - Peeping Tom

8. Maddalena-Anna Paradine (Alida Valli)+ Juíz Lord Horfield (Charles Laughton) - The Paradine Case

9. Henry (Michael Rooker) - Henry: Portrait of a serial killer

10. Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) - The silence of the lambs