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7.5.05

Extensão Indie-Lisboa 2005 (II)




Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids venceu o Oscar na categoria de Documentário.

Zana Briski fotografa e realizadora, deve ter lido acerca deste bairro de prostituição de Calcutá num artigo da Vogue, ou num qualquer folheto duma agência de viagens. Depois terá tido uma visão provocada pelo excesso de incenso e decidiu viajar à procura de qualquer coisa.
A nossa Micro Madre Teresa chegou ao bairro e distribuiu uma dúzia de máquinas fotográficas baratinhas por algumas das crianças. Deu-lhes umas lições básicas de fotografia e o resultado foram algumas fotos que não envergonhariam a edição anual da World Press Photo. Pelo caminho tentou ‘salvar’ algumas das crianças eleitas matriculando-as em colégios internos. Somos informados no final que a maior parte dessas crianças voltou para casa por vontade própria ou dos pais.

Tenho que me vergastar porque o filme não me comoveu minimamente. Não sei se seria essa a intenção da realizadora. O que me atraiu foram precisamente as fotos que retratam aqueles rostos incríveis e aquelas cores saturadas por uma luz diferente. Vou pegar na minha máquina, em duas barras de incenso e comprar uma passagem para a Índia.

A intérprete



Sentamo-nos na cadeira e preparamo-nos para assistir a um filme-pipoca sofisticado. Sydney Polack ao leme, Nicole Kidman e Sean Penn na tripulação, a ONU como palco da trama, surgem mesmo reminiscências Hitchcockianas. Nicole é a intérprete do título: trabalha na ONU e um dia ouve uma conversa num dialecto obscuro, mas que ela entende, em que se fala do assassinato de um lider Africano. É um McGuffin como outro qualquer, pensamos enquanto nos enterramos um bocadinho mais na cadeira. Entra então em cena o Sean, o agente do FBI encarregue do caso. Começam aqui a surgir os primeiros sinais de desconfiança do espectador: não é que o homem está traumatizado com a perda da mulher, que não só o tinha deixado como quando ía voltar para ele tinha morrido, umas semanas atrás? Policia traumatizado? Onde é que já vimos isto? E a mulher morreu? Pois...assim já pode surgir algo entre ele e a Nicole, adivinharam. O problema é que a quimica entre os dois é um zero redondo. Nesta altura já nos remexemos na cadeira pouco convencidos, mas o pior é quando percebemos que o filme se interessa pelo...McGuffin! Ou seja, o McGuffin não é McGuffin, querem-nos mesmo contar uma história sobre ditadores Africanos corruptos, sobre a bondade da ONU e do TPI, sobre pessoas idealistas, enfim, um programa politicamente correcto completo! Não há paciência...
No final ficam-nos na retina uma magrissima Nicole Kidman e uma fantástica cena em que toda a gente se encontra num autocarro, esta sim digna de Hitch. É pouco, muito pouco.

5.5.05

Extensão Indie-Lisboa 2005 (I)



Numa altura em que a única sala de cinema de Aveiro que não era propriedade da distribuidora Lusomundo fechou, é de saudar a iniciativa do Teatro Aveirense de exibir algumas das curtas e longas metragens premiadas no festival Indie Lisboa 2005.

Private venceu o prémio Jameson!?! do público para a melhor longa metragem.

Uma família vive numa casa isolada a meio caminho entre uma aldeia palestiniana e um colunato Judeu. A casa é ocupada pelo exército Israelita que os intima a abandonar. A família fica confinada a um pequeno espaço no andar de baixo e os soldados ocupam o piso superior Uma metáfora da realidade israelo-palestiniana. Ficar e resistir passivamente não é a convicção de todos os membros da família. Num ambiente de terror a família tenta manter a dignidade e mesmo continuar as rotinas diárias. A reacção não violenta acentua o absurdo e irracional da situação. O realizador tenta ser imparcial, mostrando os sentimentos contraditórios dos soldados receosos dos ataques terroristas, mas que se vêm forçados numa guerra em que não reconhecem aquela família como seus inimigos.

4.5.05

Recomeçou em grande



segunda-feira, 22h30, :2

2.5.05

A queda



Baseado nas memórias da secretária de Hitler, Traudl Junge, eis o relato dos últimos doze dias do ditador no famoso bunker em Berlim. O filme provocou uma enorme polémica, pois para além de ser o primeiro filme Alemão a abordar o tema em 60 anos, foi acusado de humanizar Hitler. O facto de ser Alemão é uma mais-valia inestimável, desde logo pelo simples facto de que é impossivel dar vida aos Nazis sem ser a falarem a áspera e dura língua alemã. Quanto à acusação de mostrar um Hiltler 'humano', penso que erra completamente o alvo. Com certeza que ele era um homem, não era um entre abstracto simbolizando o mal, e essa dimensão 'humana' (fazer festas ao cão, ser simpático e cortês com a secretária, demonstrar amor por Eva Braun) só aumenta o nosso horror, pois mostra-nos que o mal absoluto pode vir de um ser humano como nós. Além disso, o retrato do ditador é tudo menos simpático: é-nos mostrado um Hitler fanático, paranóico, racista, alheado da realidade, megalómano, com acessos de fúria, exigindo uma fidelidade acrítica e submissa a todos. Ou seja, são-nos mostradas as fraquezas e idiossincrasias de um ser humano, sem dúvida, mas nunca nos esquecemos que estamos a ver um criminoso. Neste aspecto penso que o filme é bastante realista, ou verdadeiro se se quiser. Bastante realistas são também as cenas de guerra passadas fora do bunker. Longe de descentrarem o filme, estas cenas, mostrando uma Berlim caótica e a arder, com as forças Russas cada vez mais perto, servem para realçar o alheamento demente que se passava no interior do bunker, com Hitler movendo no mapa divisões há muito destroçadas, planeando contra-ataques sem ter homens para isso, ordenando fuzilamentos impossíveis de cumprir.
Outro aspecto que penso que o filme trata corajosamente (e só um filme Alemão o poderia fazer) é o da relação entre os altos dignitários nazis (quem mandava) e o ‘povo’ alemão. Quando 60 anos depois ainda é difícil compreender o que levou grande parte de uma nação a seguir os planos criminosos de Hitler, este é um assunto incontornável a que ‘A queda’ não foge. Temos aqui a visão dos dois lados: quando alguns oficiais querem seguir uma estratégia que permita salvar o maior número possível de vidas civis, Goering responde que ‘os Nazis não se impuseram ao povo, antes foram mandatados por ele’, não podendo portanto ser feita essa separação; Hitler vai mais longe - diz que se o povo perder a guerra, então é porque não merece viver, chegando mesmo a fazer uma comparação com os macacos em que os mais fracos são espezinhados até à morte. Do lado do ‘povo’, digamos assim, aparece-nos no final do filme Traudl Junge, herself, a dizer que talvez fosse possível na altura tentar saber mais do que se estava a passar… Que outra coisa poderia dizer?

29.4.05

Não há regra sem excepção...



...por isso vou quebrar aquela que é a regra nº1 deste blog: só falar de cinema! A culpa é do Puto que já sabia que eu não ia resistir ao desafio. Pois bem, cá vai a minha resposta ao questionário que contagiou meia blogosfera:

Não podendo sair do fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A pergunta é esquisitíssima, mas como toda a gente tem respondido, vou fingir que também a percebi: uma qualquer antologia de poemas do Juan Luis Panero.

Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?
Por tantas...

Qual foi o último livro que compraste?
'Os filmes da minha vida/Os meus filmes da vida' de João Bénard da Costa, na feira de livros manuseados da Assirio & Alvim.

Qual o último livro que leste?
Foram dois: 'Norwegian Wood' de Haruki Murakami e 'Notas sobre o cinematógrafo' de Robert Bresson (tenho que pôr um post sobre este!)

Que livros estás a ler?
'Conversas com Wittgenstein' de O.K.Bouwsma.

Que (5) livros levarias para uma ilha deserta?
Levava só 4: os 4 volumes das obras completas de Jorge Luis Borges.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Passo só a 2 pessoas: à Xispinha e à Pipia. Porque são as únicas bloguistas que eu conheço (e que como nunca lêem este blog nunca vão responder!)

27.4.05

Sangue e ouro



Um critico do Daily Telegraph chamou a este filme o Taxi Driver iraniano. Está bem visto, mas para a imagem ficar completa temos que acrescentar umas pitadas do absurdo de Nova Iorque fora de Horas.
Hussein é um entregador de pizas, sendo o seu destino habitual os bairros ricos de Teerão. Durante estas deslocações, que efectua na sua motorizada noite fora, vai-se deparando com as mais diversas situações, desde ficar retido pela policia que está à espera da saída das participantes numa festa a decorrer no prédio onde ia fazer uma entrega, até ser convidado a partilhar a piza com o filho entediado de milionários emigrados nos EUA. Este contacto com um mundo que nunca alcançará, aliado às humilhações que sofre do dono de uma joalharia de luxo, vão aumentando o sentimento de frustração e revolta deste melancólico e narcotizado ex-combatente da guerra Irão-Iraque, levando-o à revolta. Jafar Panahi filma tudo isto no estilo lento e minucioso de Kiarostami (que assina o argumento), usando principalmente actores não profissionais como o fizeram Robert Bresson ou os neo-realistas, com quem não é descabido estabelecer comparações. Não será o filme mais original do ano, mas é dos mais bem filmados e a sua mistura de thriller, retrato social e fábula tem tudo para se tornar um clássico.

24.4.05

Assalto à 13ª esquadra



Gosto muito de filmes sobre policias, talvez porque seja o 'género' que hoje em dia mais se aproxima dos extintos westerns, dos quais sou um saudosista sem remédio. Esta aproximação filmes de policias/filmes de cowboys faz particularmente sentido em 'Assalto à 13ª esquadra' (o original), em que Carpenter se inspirou declaradamente num subgénero típico dos westerns em que um sheriff corajoso e meia dúzia de ajudantes tinham que defender o forte ou a terreola de um grupo de bandidos ou de índios, e muito particularmente na obra-prima de Hawks, Rio Bravo. Confesso que vi o filme de Carpenter (entretanto convertido num clássico série B) há longos anos e que a minha memória dele é muito difusa. Seja como for, e mesmo tendo sobre si o peso destas comparações, Jean-François Richet, mesmo não sendo um Jean-Pierre Melville, aguenta-se bem. O filme tem defeitos óbvios: não explora até ao limite o espaço claustrófobo da esquadra, insistindo em trazer desnecessariamente as personagens para o exterior, abusa da psicologia barata do policia traumatizado (mas em compensação goza que se farta com a psicóloga de serviço), e nem todos as personagens convencem, com destaque para a de Laurence Fishburne, o bandido imperturbável com voz de Othello. Mas tem também muitas qualidades: confirma o percurso de Ethan Hawke a caminho de se tornar um improvável herói de filmes de acção, consegue manter a tensão e o nosso interesse durante as 2 horas e, numa época de mega efeitos especiais, mantém um saudável ambiente de filme série B, não abusando para além do necessário da pirotecnia. Nada mau.

17.4.05

Head-On/A esposa turca



A omnipresente banda sonora deste filme é uma mistura de canções tradicionais turcas com musicas pop dos anos 80, desde os Depeche Mode aos Sisters of Mercy, reflectindo bem o espírito do filme. 'A esposa turca' começa em Hamburgo e acaba em Istambul, sendo os personagens emigrantes turcos da segunda geração, ou melhor, alemães de origem turca (tal como o realizador, Fatih Akin, e a maioria dos actores). Este balançar entre dois mundos está na génese do filme e contamina-o do princípio ao fim. Aliás pode-se dizer que há vários filmes dentro deste filme, o cómico, o absurdo, o trágico, o erótico. Estes vão-se sucedendo e cruzando à medida que nos vai sendo contada a história de Sibel e Cahit, dois suicidas potenciais que arranjam um casamento de conveniência para a primeira fugir à família conservadora. O filme é longo de mais, desequilibrado, por vezes insólito (ao longo do filme vão aparecendo, como uma espécie de separadores, imagens de uma orquestra nas margens do Bósforo, em Istambul, a interpretar canções melodramáticas turcas), mas tem uma energia e uma vida própria que o afastam definitivamente do género telefilme-sobre-emigrantes-e-choques-culturais, apesar de também ser um bom retrato do mundo fechado e conservador dos emigrantes turcos na Alemanha, tal como 'Ganhar a vida' o era dos emigrantes portugueses em França. É um filme que vale bem os 5 euros, mas não deixa de ser surpreendente que tenha vencido inúmeros prémios, incluindo o Urso de Ouro de Berlin 2004.

10.4.05

Livraria (II)













O título “1001 filmes para ver antes de morrer” diz tudo sobre o objectivo deste livro. Coordenado por Steven Jay Schneider, um crítico norte-americano, conta com textos escritos por quase 60 colaboradores de várias nacionalidades, sendo no entanto a grande maioria norte-americanos. Uma listagem destas é sempre discutível ou até polémica, mas 1001 filmes permitem uma margem suficiente para não deixar de fora (quase) nenhum grande clássico. O livro começa com ‘A viagem à lua’ de Georges Meliès [1902] (e porque não começar com o reconhecidamente primeiro filme -completo e estruturado- da história do cinema, a ‘Chegada de um comboio’ de Louis Lumiére ?) e termina com ‘Kill Bill 1’ de Tarantino [2003].
Os autores tentam atingir um equilíbrio entre filmes que se destacaram pelo seu sucesso comercial, pelo artístico, ou por serem representativos de um género (documentário, animação, etc.) ou movimento (blaxpoitation, por ex.). Assim sendo, não é de admirar que o realizador mais representado (de longe), seja um que conciliou o sucesso comercial com o reconhecimento artístico: Alfred Hitchcock, que tem direito a 18 entradas. O mesmo se pode dizer do segundo mais representado, Howard Hawks (11 entradas), repartindo o terceiro lugar, com 10 filmes cada, dois ‘autores’, Ingmar Bergman (primeiro europeu) e Stanley Kubrick, fechando a escassa lista dos ‘2 dígitos’. Bergman à parte, os realizadores em actividade mais representados são Steven Spielberg e Martin Scorcese, ambos com 9 filmes listados, tantos como John Ford e Luis Bunuel. Não creio que a história venha a ser assim tão generosa com eles, principalmente para com o primeiro…
Falando agora um pouco das nacionalidades representadas, refira-se que não há um único realizador Português seleccionado, o que não será surpresa para ninguém, penso: Manoel de Oliveira, muito bem cotado em certos círculos Europeus, não atingiu ainda assim o reconhecimento internacional de um Kiarostami (4 filmes) ou de um Angelopoulos (2 filmes), por exemplo, enquanto que João César Monteiro é demasiadamente idiossincrático e penso que mesmo desconhecido, para aparecer numa compilação deste género. Naturalmente a cinematografia mais representada é a Americana, seguida da Europeia, com autores como os já citados Bergman e Bunuel, mas também Godard, Fellini, Renoir e até Bresson e Dreyer, representados com entre 8 e 4 filmes. Por contraste, mestres japoneses como Ozu e Mizoguchi não têm direito a mais de 3 filmes, menos por exemplo, do que Paul Verhoeven - e até o cinéfilo mais empedernido poderia morrer descansado sem ter visto nenhum filme deste holandês! Seja como for, o tempo já fez a sua selecção, e não há nenhum grande realizador do passado que, melhor ou pior, não esteja representado. É mais interessante olhar para os realizadores em actividade, aqueles cuja selecção é mais arriscada. É, assim, curioso notar que um realizador que caminha a passos largos para se tornar um clássico, Clint Eastwood, apenas esteja representado por 3 filmes (mesmo se tivermos em conta que o livro é anterior a 'Mystic River' e 'Million Dollar Baby'), contrastando com os já referidos Spielberg, Scorcese ou mesmo Woody Allen (7 filmes). A ‘nova geração’ Americana está bem representada, com Tarantino (3 filmes), P.T.Anderson (2), Wes Anderson (2) e até Spike Jonze e David O.Russel (1 filme cada) – falta Sophia Coppola, mas à data ainda não tinha realizado a sua opus magna; a Europeia nem tanto, mas aqui os consensos são mais difíceis: a geração pos - Von Trier (4 filmes) e Almodôvar (3) está praticamente ausente, não estando presente nenhum filme de François Ozon, por exemplo. Isto aliado ao facto de só termos um Kusturika, reforça a sensação de que a Europa teve menor atenção…Em compensação, há uma atenção especial às emergentes cinematografias orientais, de Taiwan (Ming-liang, Edward Yang, Ang Lee), Japão (Miyazaki, Miike), Hong-Kong (Kar-wai), China (Chen Kaige, Zhang Yimou) ou Coreia do Sul (Sang-jin). Seja como for, a única grande ausência que me saltou à vista foi Nick Park, criador dos excelentes Wallace & Gromit, talvez por se inserir num género muito particular, as curtas-metragens de animação.
Mas passemos aos textos em si, que procuram fazer uma sinopse do argumento e uma análise critica do filme. Naturalmente que com 60 pessoas a escreve-los, os resultados são algo desiguais, embora resultem num todo razoavelmente homogéneo. Não se podendo atingir grande profundidade com 200 ou mesmo 500 palavras, as análises são de um modo geral leves mas interessantes, embora se abuse um pouco de expressões do género ‘um filme muito imitado, mas nunca ultrapassado’ ou ‘o melhor filme de sempre passado num talho’. Outra critica que se poderá apontar é o facto de por vezes o autor do texto não se mostrar particularmente entusiasmado com o filme que está a analisar, o que poderá levar o leitor a perguntar porque raio foi então seleccionado!
Concluindo, e apesar destes pequenos reparos, pode-se dizer que é um livro francamente aconselhável, dada a boa representatividade quer dos filmes mais importantes da história do cinema (não obstante cada leitor certamente lamentar a ausência de um ou mais dos seus filmes favoritos (*)), quer das tendências do cinema actual, bem como pelo interesse que a grande maioria dos textos desperta, mesmo sobre filmes que à partida não nos motivariam muito. São novecentas e tal páginas que se devoram a eito, e isso não é elogio de somenos!

(*) E este é um exercício que os cinéfilos não deixarão de fazer. Eu pessoalmente lamento(entre muitas outras) as ausências de 'Irmãos Inseparáveis' (Cronenberg), 'Lilith' (Robert Rossen) ou, já agora…'Duelo ao Sol'!