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13.6.05

Kung-Fu-Zão



'Kung-Fu-Zão' é o fantástico titulo português de 'Kung Fu Hustle', filme produzido, realizado, co-escrito e interpretado por Stephen Chow e cujas cenas de acção foram coreografadas pelo mítico Yuen Wo Ping, um mestre de Hong-Kong tornado famoso no ocidente pelas coreografias de 'O tigre e o Dragão', 'Matrix' ou 'Kill Bill'. O filme é um cocktail bizarro de filme de artes marciais, musical, burlesco e filme de gangsters, com umas pitadas de western-spaghetti (os fabulosos assassinos-músicos) e mesmo melodrama. Também poderia ser descrito como uma mistura de uma ópera non-sense com um videogame violento, mas o seu verdadeiro universo é o do cartoon, em que uma personagem é trucidada por um comboio numa cena e aparece na seguinte a dizer uma piada idiota com a maior naturalidade.
'Kung-Fu-Zão' bateu todos os recordes de bilheteira em Hong-Kong, mas para o espectador ocidental é um verdadeiro ovni - quem não gostar de ser surpreendido e preferir jogar pelo seguro, é melhor ir ver o 'Star Wars'...

9.6.05

Temporada de patos



Flama e Moko são dois amigos de 14 anos, que tencionam passar mais um domingo do modo habitual: a jogar videogames enquanto comem piza e emborcam coca-colas. Dois acontecimentos, porém, vão-lhes alterar a rotina. Primeiro entra-lhes pela casa dentro a vizinha de 16 anos, que quer usar o forno para fazer um bolo. Depois têm um problema com o entregador de pizas: como este chega uns segundos atrasado em relação aos 30 minutos estipulados, não lhe querem pagar a piza (um belo hábito que deveria ser importado para o nosso país), mas este não reconhece o atraso e recusa-se a arredar pé. Um verdadeiro impasse mexicano, portanto. Solução? Um videojogo de futebol entre eles e o entregador ...
Estão assim lançados os dados para o que o filme nos pretende mostrar: as relações e os pequenos jogos que se vão estabelecendo entre as quatro personagens, que acabam por passar toda a tarde juntas, nunca a câmara saindo do apartamento. Claro que um pressuposto tão minimalista só se aguenta se o argumento estiver à altura, o que é o caso, doseando um certo sentido de humor extravagante (que nos arranca umas boas gargalhadas), com um ambiente sombrio que se torna verdadeiramente deprimente. Não é uma comédia melancólica a la Wes Anderson, nem um filme melancólico com momentos cómicos como Sideways: é deprimente mesmo. Sem dúvida devido ao facto de todas as personagens terem uma angústia interior que vamos descobrindo, de todas desejarem que a vida fosse diferente, sentimentos esses simbolizados no título (a metáfora com a necessidade de migração dos patos). Corajosamente filmado num belo preto e branco, é mais um filme mexicano que vale a pena, e mais um nome de um realizador deste país a reter - Fernando Eimbcke .

8.6.05

Continua em grande



No último episódio de Sete palmos de terra o realizador deu-nos mais um pormenor delicioso: A imagem de Ruth Fisher e George Sibley a entrarem numa festa fez-nos lembrar o famoso quadro de Grant Wood (1891-1942) "American Gothic". Infelizmente não consegui encontrar essa imagem.É apenas uma curiosidade de uma série, em que especialmente nos últimos episódios nos tem mostrado emoções e sentimentos tão fortes que nos deixam atordoados e a precisar de uma bebida branca em dose dupla de preferência.



American Gothic remains one of the most famous paintings in the history of American art. It is a primary example of Regionalism, a movement that aggressively opposed European abstract art, preferring depictions of rural American subjects rendered in a representational style. The painting has become part of American popular culture, and the couple has been the subject of endless parodies. Some believe that Wood used this painting to satirize the narrow-mindedness and repression that has been said to characterize Midwestern culture, an accusation he denied. The painting may also be read as a glorification of the moral virtue of rural America or even as an ambiguous mixture of praise and satire. http://www.artic.edu/artaccess/AA_Modern/pages/MOD_5.shtml

3.6.05

Uma boa companhia



Não há que disfarçar: vamos ver o filme por causa de Scarlett Johansson e temos uma agradável surpresa: a menina tem uma participação secundária, mas mesmo assim saímos do cinema a achar que o filme valeu a pena. Pode-se considerar 'Uma boa companhia’ como uma comédia ligeira, mas no fundo é aquilo que 'A interprete' não conseguiu ser: um bom filme 'politico' (sobre a actual moda da fusão de empresas e consequentes despedimentos em massa, os famosos take-overs e let-downs), de elegante recorte clássico, solidamente ancorado num grupo de excelentes actores, com natural destaque para o veterano Dennis Quaid e o novato Topher Grace. Se pensarmos que o seu realizador e argumentista Paul Weitz ainda há meia dúzia de anos andava a fazer 'American Pies', temos aqui um verdadeiro milagre...

Ghost World



Porque será que naquelas discussões sobre grandes filmes adaptados de grandes livros, nunca ninguém se refere a 'Ghost World'?

31.5.05

TOPMANIA II/2

Refiz o post original porque não cumpria o pressuposto de escolher apenas um filme por década.



Metropolis (1927), Fritz Lang
A night at the opera (1935), Sam Wood
Spellbound (1945), Alfred Hitchcock
The seven year itch (1955), Billy Wilder
Midnight Cowboy (1969), John Schlesinger
A clockwork orange (1971), Stanley Kubrick
Drugstore Cowboy (1989), Gus Van Sant
Wild at heart (1990), David Lynch

Nicotina



Este filme tem 2 méritos:
1) O facto de ter passado completamente despercebido pelas salas de cinema, reconcilia-nos momentaneamente com os gostos dos espectadores portugueses.
2) É um excelente exemplo da diferença entre ser inspirado por e copiar: Amor Cão é um bom filme, nitidamente inspirado em Pulp Fiction; Nicotina é uma cópia rasca dos dois.

30.5.05

TOPMANIA

Inspirado numa lista feita pela revista Time e também aqui, eis os meus filmes favoritos de cada década:



The General (1927), Buster Keaton
M (1931), Fritz Lang
Casablanca (1942), Michael Curtiz
Vertigo (1958), Alfred Hitchcock
The man who shot Liberty Valance (1962), John Ford
Cet obscur objet du désir (1977), Luis Buñuel
Dead Ringers (1988), David Cronenberg
Pulp Fiction (1994), Quentin Tarantino
Lost in translation (2003), Sofia Coppola

P.S.: Embora um grande número dos meus filmes favoritos sejam dos anos 50 e 60, paradoxalmente não tive grandes dúvidas em escolher os 2 representantes destas décadas! As maiores dificuldades? Décadas de 40, 90 e 00...

26.5.05

Tarnation



O dicionário inglês-português diz-nos que Tarnation é o equivalente em calão americano a damned. Esta palavra conhecemos, mas vale a pena ver a primeira tradução que o dicionário nos dá para ela: 'votado às penas eternas'. De facto não haveria melhor titulo para este auto-retrato de Jonathan Caouette: com 2 ou 3 anos foi adoptado por uma família que o espancava regularmente, aos 4 anos assistiu à violação da mãe por um desconhecido que lhes deu boleia, aos 11 realizava os seus próprios home movies , filmando-se a si próprio vestido de drag queen a queixar-se da violência dum suposto marido, aos 13 disfarçava-se de 'miúda gótica' para entrar em bares gay para maiores de 18, etc., etc. Enquanto isto ia convivendo com as perturbações mentais da Mãe (que adorava), sempre a entrar e a sair de Hospitais psiquiátricos onde recebia tratamentos à base de choques eléctricos que a desequilibraram para sempre...não espanta que o realizador tenha achado que a sua vida dava um filme!
No modo como este filme foi feito reside a sua maior originalidade, que lhe trouxe um assinalável reconhecimento. Desde tenra idade que Jonathan Caouette se filmava a si próprio e à família com uma câmara super 8 oferecida pelos avós - pegou então em todo este material (mais de 160 horas!), juntou-lhe fotografias, gravações do atendedor de chamadas, filmes caseiros, etc., misturou tudo no computador com um programa iMovie e colou-lhe umas legendas e uma banda sonora imaculada. O resultado é uma espécie de cruzamento entre 'Capturing the Friedmans ' e um filme underground gay, sendo por vezes comovente, por vezes alucinado, sempre narcisista, frequentemente chato, não raras vezes irritante. Ah! - e tudo isto feito com 200 dólares!

23.5.05

A pequena Lili



Este filme realizado pelo francês Claude Miller é livremente baseado
n´'A gaivota', transpondo a acção para a actualidade. Ao início o argumento segue mais ou menos fielmente a peça de Tchékhov, sendo uma espécie de versão modernaça: assim Treplev, o escritor que procurava novas formas dá lugar a Julien, realizador de um filme experimental montado por computador; Nina é a nossa Lili,a sua namorada e actriz do filme; Arkadina é Mado, naturalmente não uma grande dama dos palcos, mas uma movie star; e Trigorin é Brice, o amante e realizador famoso dos seus filmes. Esta primeira parte, chamemos-lhe assim, é francamente mazinha, sendo as personagens meras caricaturas das originais, com destaque para Julien, um menino mimado e mal-educado, a milhas do revoltado e complex(ad)o Treplev. Às tantas, no entanto, o argumento tem um golpe de asa, afastando-se completamente de Tchékhov e propondo um rumo alternativo para as personagens, voltando engenhosamente à peça no final. Embora nunca atinja altos voos, torna-se francamente mais interessante: libertando-se do pesado fardo das comparações dá alguma vida própria às personagens e consegue mesmo provocar alguma expectativa no espectador conhecedor da peça.
Falemos agora dos actores: o filme foi feito nitidamente para Ludivine Sagnier, mas na minha opinião ela está a milhas da sensualidade exibida em Swimming Pool, não obstante nos prendar com um nu integral ainda o filme está no genérico inicial! Quanto a Robinson Stévenin (Julien), um actor que parece incrivelmente um cruzamento entre Jonnny Depp e Emmanuelle Béart sem a beleza de nenhum deles, está bem melhor no papel de pessoa-que-encontrou-a-paz que no de menino zangado; Nicole Garcia (Mado) e Bernard Giraudeau (Brice) despacham a coisa com competência mas não mais, e assim o destaque vai inteirinho para dois actores que interpretam personagens secundárias: Jean-Pierre Marielle dá-nos um magnífico Simon/Sorin e Julie Depardieu uma muito bela Jeanne-Marie/Masha, personagem que aqui ganha grande relevo e a única que rivaliza com a original.