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6.7.05

Sin City



Eis em filme a cidade do pecado de Frank Miller. Uma cidade a preto e branco, em que só há lugar para o vermelho do sangue (muito sangue) ou do vestido duma femme fatale, o verde ou o azul duns olhos ou dum descapotável (com a mala grande para caberem muitos cadáveres). Em que os heróis são na verdade uns anti-heróis, violentos, brutais, assassinos até, mas incapazes de tocar numa mulher (fatal); os vilões? bom, temos um pedófilo masoquista, um canibal sorridente, policias corruptos, um senador, um cardeal...
Primeira pergunta: conseguiria Robert Rodriguez passar para a tela este universo tão marcante? Resposta: com distinção. O filme é de uma fidelidade canina à BD, havendo uma transposição quase prancha a prancha do fantástico universo gráfico e estético de Frank Miller. É quase como se estivéssemos a ler os livros na tela. Não há aqui grandes densidades psicológicas, personagens de carne e osso? Who cares? A estética aqui é tudo. Como bom film noir que é, a principal personagem é o ambiente: a podridão, a decadência, as mulheres fantásticas, os carros rápidos, os heróis espirituosos, a hiper-violência; a cidade do pecado, em resumo.

4.7.05

Home at the End of the World/Uma Casa no Fim do Mundo


Há personagens que marcam de forma tão indelével a carreira de um actor que põem em causa o seu futuro. Aconteceu com Malcolm McDowell em Clockwork Orange, só o voltámos a ver esporadicamente em papéis tipificados de psicopata, aconteceu com John Travolta que depois de Grease e Saturday Night Feaver gravitou em filmes menores até ser recuperado por Tarantino em Pulp fiction. Ainda hoje Travolta não se livra de dar um pezinho de dança em quase todos os filmes em que participa. Aconteceu com Sissy Spacek, uma das actrizes deste filme. É impossivel vê-la sem que as imagens de um arsenal de facas de cozinha a voarem na sua direcção em Carrie não abram umas janelas de 'pop-up' no nosso cérebro. Fica o desafio a quem nos visita de deixar mais exemplos de que se lembrem.

Mas vamos ao filme: Acompanhamos três décadas na vida de Jonathan e Bobby desde a infância e adolescência na pacata Cleveland dos anos 60 e 70 até à fervilhante Nova Iorque dos anos 80. Três actores interpretam cada uma dessas fases das duas personagens principais. Acompanhamos também um pouco da evolução do comportamento sexual e social - e essa é a parte mais interessante do filme - desde o amor livre e as festas de swinging de final dos anos 60, passando pelo flower power e o movimento hippie no início dos anos 70, o punk e os songwriters de final de 70 até ao kitsh, ao início do movimento gay nos Estados Unidos, ao aparecimento da sida e ao começo da música electrónica de 80 (não falta o casaco de cabedal à Depeche Mode de Just can't get enough). Em Portugal só começámos a perceber o significado das palavras Gay e Sida com a morte do grande António Variações.

Chegados aos anos 80, Clare uma estilista de chapéus trendy Nova-Iorquina forma com Jonathan e Bobby um triângulo amoroso, mas em vez do habitual "Boy Loves Girl who Loves Boy" temos uma espécie de "Girl Loves Gay Boy (Jonathan) that likes her but Loves Bobby Who Loves Everyone". Há frases que em Português soariam muito mal... Confusos? Se virem o filme acharão tudo muito natural. Para Jonathan, Bobby e Clare o sexo não é mais do que a continuação natural do amor que sentem.

Se tivesse sido feito nos anos 80 hoje seria certamente um filme de culto para muitos adolescentes daquela altura, assim é um objecto curioso mas limitado.

PS: A Home tem uma das mortes mais brutais e inesperadas dos últimos anos, rivalizando com as cenas iniciais dos episódios de Sete palmos de terra.

2.7.05

Crash-Colisão



'Crash' é a estreia na realização cinematográfica do argumentista e realizador de TV Paul Haggis, que se tornou conhecido ao escrever o argumento de 'Million Dollar Baby'. 'Crash' é um filme-mosaico, a la Magnolia, sobre o racismo, ou mais concretamente sobre as tensões raciais que se sentem à flor da pele numa metrópole multi-étnica como Los Angeles. Há conflitos racistas entre latinos e asiáticos, entre asiáticos e pretos, entre brancos e os outros todos. Um polícia branco (Matt Dilon) humilha um casal de negros bem na vida, na melhor cena do filme; o carro do promotor público (Brandon Fraser) é assaltado por dois jovens negros, e enquanto ele fica preocupado com os votos que isso lhe pode custar na comunidade afro-americana, a sua mulher (Sandra Bullock) fica paranóica sempre que vê mais algum negro; um emigrante iraniano quase arruina a vida por se desentender com o latino que lhe vai arranjar a fechadura da porta da sua pequena loja; uma asiática e uma polícia latina chocam com o carro e trocam insultos racistas; etc., etc.
Como se vê Paul Haggis gosta de temas fortes, mas aqui falta-lhe a mão austera e clássica de Clint Eastwood para lhe limitar os excessos, quer a nível da realização (como a banda sonora de Mark Isham omnipresente nas cenas de maior tensão), quer a nível do próprio argumento, que vai interligando as cenas à base de coincidências (a la Magnolia...) com forte sabor déja-vu. Na minha opinião, um filme falhado.

30.6.05

Jeux d'enfants/Amor ou Consequência



Jeux d'enfants é um filme inspirado em Amelie. Perdoem-me o óbvio mas a comparação é inevitável: as mesmas cores fortes, os mesmos planos picados, um narrador a contar pormenores da vida das personagens enquanto as imagens nos passam à frente dos olhos como se estivessemos a morrer, o mesmo tom fabulado.
Amelie era uma história de amor, Jeux d'enfants conta-nos a história de uma paixão obsessiva que recusa ser domada.

Desde a infância, Julien e Sophie envolvem-se num jogo como forma de escape aos problemas que vivem em casa. "Cape ou pas cape?" - Quem detém a pequena caixinha de música lança o desafio: - Atreves-te? Cumprido o repto a caixa muda de mãos. O jogo acompanha-os até à idade adulta, cada vez mais intenso, descontrolado. Fá-los rir, magoa-os, mas principalmente arrasa toda a gente à sua volta e isola-os.

O efeito Amelie apanhou-me de surpresa, e sinceramente desagradou-me a primeira parte do filme com os pequenos actores e as suas diabruras.
Depois Marion Cotillard que interpreta a Sophie adulta prende-nos totalmente a atenção.

O hedonismo de Julien e Sophie, a crueldade, o egoísmo e o inconformismo daquela paixão incomoda e faz-nos pensar. Uma boa surpresa este filme.

27.6.05

Cinema & Blogs (I)

Porque será que uma grande parte dos blogs portugueses sobre cinema são graficamente bastante elaborados, mas fraquinhos no conteúdo?

26.6.05

The Woodsman/O Condenado


The Woodsman apesar de uma passagem discreta pelas salas, teve regra geral boas críticas.Elogiaram a emoção contida de Kevin Bacon no papel de Walter, o minimalismo da narrativa, a química entre Bacon e a sua esposa Kyra Sedgwick que contracena com ele. O filme tem de facto esses atributos, é inegável também que Bacon consegue em todos os filmes em que participa criar empatia com o espectador. O realizador terá tido isso em conta quando deu a Bacon um papel complicado, em primeira análise repulsivo, e em que essa empatia é absolutamente necessária para nos dispor a conhecer mais sobre a mente de um pedófilo.
O problema é que The Woodsman é um filme plástico, pouco honesto. Nunca chegamos a saber exactamente porque é que Walter passou os últimos doze anos na prisão. Depois à boa maneira Americana do "fumei mas não inalei", Walter é apresentado como um homem consciente da sua anormalidade, consumido pela culpa, mas que nunca "fez mal às suas vítimas". As tentativas de Bacon para transmitir o inferno que vai na cabeça de Walter, e a luta que ele trava para dominar os seus instintos básicos não convencem. Todas as personagens secundárias com excepção de um brilhante Mos Def na pele do polícia que vigia Walter são tipificadas e caracterizadas como pedófilos em potência ou vítimas de abusos. O filme não sabe para onde ir e vai avançando à base de coincidências: a maria-rapaz que trabalha na mesma serração de Walter e que teve uma história de vítima de abuso, o pedófilo que tenta aliciar as crianças na escola em frente à casa de Walter, a menina que Walter segue e que provoca a revelação da sua monstruosidade e o coloca no caminho certo. Só falta a cena em que numa reunião de pedófilos anónimos diria: Olá eu sou o Walter e já não molesto nenhuma criança há um mês. Haveria alguém a bater palmas?

24.6.05

Casa de los Babys



John Sayles é um realizador pouco visto em Portugal, apesar de ser o autor de um dos melhores filmes dos anos 90, 'Lone Star'.
'Casa de los Babys', filme de 2003 que só agora cá chegou, é um objecto estranho. Filma meia dúzia de mulheres americanas no México, à espera que a burocracia local lhes permita adoptar um bebé de um orfanato. O tema do filme não é a adopção, nem o 'negócio' que representa em alguns países subdesenvolvidos: o que interessa ao realizador é mostrar-nos estas Americanas, as suas fragilidades e desequilíbrios, e principalmente o modo como se sentem e relacionam num ambiente estranho. Filmando com vagar e sensibilidade, John Sayles vai-nos então introduzindo no mundo destas mulheres, interessando-nos gradualmente por elas, no que conta com um grande trunfo- o magnifico elenco de actrizes que as interpretam: Marcia Gay Harden, Lili Taylor, Mary Steenburgen, Daryl Hannah, Maggie Gyllenhaan e Susan Lynch.

23.6.05

Heróis Imaginários



O suicídio. É o ponto de partida e um tema recorrente neste filme escrito e realizado pelo jovem Dan Harris. Até o Kurt Cobain é chamado à baila.
A família fragmenta-se após o evento fatídico, perfeitamente justificado pelo suicida. O filho adolescente (um surpreendente Emile Hirsch) dispersa-se pelas dúvidas e angústias do final da adolescência, acompanhado do seu amigo igualmente inadaptado. A mãe (Sigourney Weaver) experimenta marijuana como forma de aliviar o tédio, o que lhe estimula o sarcasmo e um sentido de humor ora sensato ora patético. O amargo pai (Jeff Daniels) deambula em estado semi-vegetativo, consumido pela perda e pela desilusão. O fio condutor do filme não é muito definido, mas as peças vão-se juntando, e o puzzle disfuncional vai-se adensanso. Os pormenores dispersos, a incoerência comportamental, a apatia e a crise de atitudes temperam este drama agridoce, com personagens que tão facilmente apaixonam como nos repelem.
Tem uma parte final a la "Secrets and Lies", onde as surpresas atacam suavemente de todo o lado, embora sem lágrimas das novelas venezuelanas. Um filme que nos entra de mansinho e se aconchega, quentinho, quentinho, como um balde de água. Splash!

[O Puto]

Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith



Tanto culto cinéfilo por esta saga e, em particular, tanto alarido por este episódio final da prequela Star Wars merecem um post aqui no Duelo ao Sol. Afinal, é neste episódio que se desfazem algumas dúvidas (se é que as havia) e os pormenores da origem do maior vilão da sci-fi é revelado.
Depois dos dois primeiros episódios algo insípidos (os próprios fãs acérrimos o admitem), era obrigação de George Lucas oferecer-nos algo de mais relevante. É certo que na génese da saga o projecto era pessoal, mas com a dimensão que atingiu isso já não pode ser reclamado. O argumento é algo previsível, mesmo para quem não seguiu atentamente a epopeia, mas os efeitos especiais são irrepreensíveis. É nestes e nas cenografias artificiais que gravita a atenção. Os actores não têm espaço para desenvolver os personagens, ao contrário dos (agora chamados de) episódios 4, 5 e 6, mas também não é algo em que se deva depositar expectativas. A Natalie Portman esteve bem (“no woman, no cry”), o Hayden Christensen ainda é muito novo e tem muito que provar, mas o que mais proliferam são personagens secundários (e terciários e quaternários e...). Não há aqui, portanto, aquele carisma que se destacava em Han Solo, Chewbacca, R2-D2, C-3PO, Yoda, Princesa Leia ou até em Luke Skywalker ou Darth Vader. O filme passa-se em velocidade expresso (apesar da duração), pois há muito que contar, há algumas fatalidades, mas nada que dê margem de manobra para divagações ou fluidez de emoção. Desconfio que George Lucas, findo o filme, deve ter pensado “Este já está despachado!”.
Mas há certas coisas que me intrigam neste episódio (e na Guerra das Estrelas em geral), mas que provavelmente são fundamentos do género. Entre elas estão estas:
- Porque é que os vilões (principalmente os humanos, pois dos outros já nem falo) são sempre feios? Mesmo Anakin Skywalker tem que perder os membros e queimar-se todo para assumir em pleno esse papel;
- Nessa galáxia muito, muito distante, e muito avançada tecnologicamente, a cirurgia plástica não evoluiu?
- Será que alguma vez pronunciaram “Count Dooku” (interpretado por um breve Christopher Lee) em português?

[O Puto]

A Canção Mais Triste do Mundo



A Brasileira, no Chiado, numa sexta-feira à tarde: "Olha! Está um filme no King, chamado «A Canção Mais Triste do Mundo», que promete! É sobre uma mulher que perde as pernas e substitui-as por umas próteses de vidro cheias de cerveja". Que ideia hilariante! É preciso dizer mais alguma coisa para me convencer a ver este filme? Não. E lá fomos nós.
A acção do filme passa-se no Canadá, durante a depressão dos anos 30, com a lei seca a imperar no país vizinho. A implacável dona de uma fábrica de cerveja (Isabella Rosselini), decide promover um concurso mundial para apurar qual a música mais triste do mundo. Claro que isto não passa de um golpe comercial para promover o consumo de cerveja. Aí entram os outros quatro personagens centrais. Há o representante dos EUA, o homem que nunca se comove e que se faz acompanhar de um aparato "broadwayano". A sua namorada ninfomaníaca, um misto de maluquinha de Arroios e personagem de um filme do Manoel de Oliveira. O seu irmão, um virtuoso mas hipersensível violoncelista, abandonado pela mulher. O pai deles, um velho demente empenhado em compensar a sua amada pela perda das duas pernas (engano seu). As situações caricatas, os toques de bizarria e as extravagâncias dos personagens são filmados num preto e branco desfocado e artificial, vindo-nos à memória David Lynch de "Eraserhead" ou "O Homem Elefante", ou então partes de "Nadja" de Michael Almereyda. Mas os pontos em comum ficam-se por aqui, pois o bizarro por vezes dá lugar ao ridículo. Mas vale a pena ver algumas cenas hilariantes, que não lembram ao diabo. As pernas cheias de cerveja são imbatíveis. Porém, no seu conjunto, o filme é algo disperso e o interesse vai-se desprendendo, culminando num final previsível.

[O Puto]