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9.7.05

Nota zero...



...para a organização do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde, pela substituição à última da hora da curta-metragem (41 minutos) de Jean Vigo 'Zéro de conduite' que iria passar ontem na secção filme-concerto, acompanhada dos músicos e dj's fanceses Troublemakers. A justificação lacónica dada pelos organizadores foi que a filha de Jean Vigo, e detentora dos direitos do filme, não gostou da projecção feita em Paris há umas semanas do mesmo acompanhado da banda sonora dos Troublemakers, e por isso não autorizou a sua passagem neste Festival. Bom, é difícil acreditar que só no próprio dia da exibição se tenha sabido disto em Vila do Conde, mas o mais incrível foi a resolução do problema: já que não havia 'Zéro de conduite' passaram um filme...dos Troublemakers! Que nem é bem um filme, mas um conjunto de imagens que acompanharam a sua actuação musical! O que está em causa não são as qualidades musicais do grupo francês, que executaram uma excelente banda-sonora para o seu próprio 'filme', aguçando-nos o apetite para como seria a que compuseram para o filme de Jean Vigo (e o facto da filha do realizador não ter gostado dos ambientes electrónicos dos Troublemakers não quer dizer muito, principalmente se pensarmos que a senhora deve ter mais de 70 anos...); a questão é que substituir mesmo em cima da hora um filme-concerto de uma obra chave da história do cinema por uma sessão de vj-eing é, no minimo, uma falta de respeito pelos espectadores...
ps: para aumentar a confusão, no site do festival (e impresso nos bilhetes!) pode-se ver que o filme concerto de dia 8 foi...SHORT FILMS WITH CHARLEY CHASE, LEO MCCAREY!

My voyage to Italy/A minha viagem a Itália




Começou a ser exibido esta semana no canal 2 um documentário em quatro episódios de Martin Scorcese dedicado ao cinema Italiano que o realizador admira. No primeiro episódio Scorcese falou sobre a fase neo-realista surgida a seguir à II Guerra Mundial, em que realizadores com poucos meios, muitas vezes com actores amadores, sem cenários, filmados com luz natural, capturavam pequenos momentos sobre a vida real e as emoções reais de pessoas comuns. Exemplos maiores do neo-realismo apontados pelo realizador: Ladri di biciclette de Vittorio De Sica e Germania anno zero de Roberto Rossellini.

The Upside of Anger/O lado bom da fúria



"Here we are now, entertain us"
Felizmente a famosa frase de Kurt Cobain não se aplica a este filme. Nada é fácil nem adquirido quando somos confrontados com uma estória com personagens de carne e osso em que nos projectamos em muitas situações. Podemos não gostar do que sentimos, mas é difícil ficarmos indiferentes.

6.7.05

Sin City



Eis em filme a cidade do pecado de Frank Miller. Uma cidade a preto e branco, em que só há lugar para o vermelho do sangue (muito sangue) ou do vestido duma femme fatale, o verde ou o azul duns olhos ou dum descapotável (com a mala grande para caberem muitos cadáveres). Em que os heróis são na verdade uns anti-heróis, violentos, brutais, assassinos até, mas incapazes de tocar numa mulher (fatal); os vilões? bom, temos um pedófilo masoquista, um canibal sorridente, policias corruptos, um senador, um cardeal...
Primeira pergunta: conseguiria Robert Rodriguez passar para a tela este universo tão marcante? Resposta: com distinção. O filme é de uma fidelidade canina à BD, havendo uma transposição quase prancha a prancha do fantástico universo gráfico e estético de Frank Miller. É quase como se estivéssemos a ler os livros na tela. Não há aqui grandes densidades psicológicas, personagens de carne e osso? Who cares? A estética aqui é tudo. Como bom film noir que é, a principal personagem é o ambiente: a podridão, a decadência, as mulheres fantásticas, os carros rápidos, os heróis espirituosos, a hiper-violência; a cidade do pecado, em resumo.

4.7.05

Home at the End of the World/Uma Casa no Fim do Mundo


Há personagens que marcam de forma tão indelével a carreira de um actor que põem em causa o seu futuro. Aconteceu com Malcolm McDowell em Clockwork Orange, só o voltámos a ver esporadicamente em papéis tipificados de psicopata, aconteceu com John Travolta que depois de Grease e Saturday Night Feaver gravitou em filmes menores até ser recuperado por Tarantino em Pulp fiction. Ainda hoje Travolta não se livra de dar um pezinho de dança em quase todos os filmes em que participa. Aconteceu com Sissy Spacek, uma das actrizes deste filme. É impossivel vê-la sem que as imagens de um arsenal de facas de cozinha a voarem na sua direcção em Carrie não abram umas janelas de 'pop-up' no nosso cérebro. Fica o desafio a quem nos visita de deixar mais exemplos de que se lembrem.

Mas vamos ao filme: Acompanhamos três décadas na vida de Jonathan e Bobby desde a infância e adolescência na pacata Cleveland dos anos 60 e 70 até à fervilhante Nova Iorque dos anos 80. Três actores interpretam cada uma dessas fases das duas personagens principais. Acompanhamos também um pouco da evolução do comportamento sexual e social - e essa é a parte mais interessante do filme - desde o amor livre e as festas de swinging de final dos anos 60, passando pelo flower power e o movimento hippie no início dos anos 70, o punk e os songwriters de final de 70 até ao kitsh, ao início do movimento gay nos Estados Unidos, ao aparecimento da sida e ao começo da música electrónica de 80 (não falta o casaco de cabedal à Depeche Mode de Just can't get enough). Em Portugal só começámos a perceber o significado das palavras Gay e Sida com a morte do grande António Variações.

Chegados aos anos 80, Clare uma estilista de chapéus trendy Nova-Iorquina forma com Jonathan e Bobby um triângulo amoroso, mas em vez do habitual "Boy Loves Girl who Loves Boy" temos uma espécie de "Girl Loves Gay Boy (Jonathan) that likes her but Loves Bobby Who Loves Everyone". Há frases que em Português soariam muito mal... Confusos? Se virem o filme acharão tudo muito natural. Para Jonathan, Bobby e Clare o sexo não é mais do que a continuação natural do amor que sentem.

Se tivesse sido feito nos anos 80 hoje seria certamente um filme de culto para muitos adolescentes daquela altura, assim é um objecto curioso mas limitado.

PS: A Home tem uma das mortes mais brutais e inesperadas dos últimos anos, rivalizando com as cenas iniciais dos episódios de Sete palmos de terra.

2.7.05

Crash-Colisão



'Crash' é a estreia na realização cinematográfica do argumentista e realizador de TV Paul Haggis, que se tornou conhecido ao escrever o argumento de 'Million Dollar Baby'. 'Crash' é um filme-mosaico, a la Magnolia, sobre o racismo, ou mais concretamente sobre as tensões raciais que se sentem à flor da pele numa metrópole multi-étnica como Los Angeles. Há conflitos racistas entre latinos e asiáticos, entre asiáticos e pretos, entre brancos e os outros todos. Um polícia branco (Matt Dilon) humilha um casal de negros bem na vida, na melhor cena do filme; o carro do promotor público (Brandon Fraser) é assaltado por dois jovens negros, e enquanto ele fica preocupado com os votos que isso lhe pode custar na comunidade afro-americana, a sua mulher (Sandra Bullock) fica paranóica sempre que vê mais algum negro; um emigrante iraniano quase arruina a vida por se desentender com o latino que lhe vai arranjar a fechadura da porta da sua pequena loja; uma asiática e uma polícia latina chocam com o carro e trocam insultos racistas; etc., etc.
Como se vê Paul Haggis gosta de temas fortes, mas aqui falta-lhe a mão austera e clássica de Clint Eastwood para lhe limitar os excessos, quer a nível da realização (como a banda sonora de Mark Isham omnipresente nas cenas de maior tensão), quer a nível do próprio argumento, que vai interligando as cenas à base de coincidências (a la Magnolia...) com forte sabor déja-vu. Na minha opinião, um filme falhado.

30.6.05

Jeux d'enfants/Amor ou Consequência



Jeux d'enfants é um filme inspirado em Amelie. Perdoem-me o óbvio mas a comparação é inevitável: as mesmas cores fortes, os mesmos planos picados, um narrador a contar pormenores da vida das personagens enquanto as imagens nos passam à frente dos olhos como se estivessemos a morrer, o mesmo tom fabulado.
Amelie era uma história de amor, Jeux d'enfants conta-nos a história de uma paixão obsessiva que recusa ser domada.

Desde a infância, Julien e Sophie envolvem-se num jogo como forma de escape aos problemas que vivem em casa. "Cape ou pas cape?" - Quem detém a pequena caixinha de música lança o desafio: - Atreves-te? Cumprido o repto a caixa muda de mãos. O jogo acompanha-os até à idade adulta, cada vez mais intenso, descontrolado. Fá-los rir, magoa-os, mas principalmente arrasa toda a gente à sua volta e isola-os.

O efeito Amelie apanhou-me de surpresa, e sinceramente desagradou-me a primeira parte do filme com os pequenos actores e as suas diabruras.
Depois Marion Cotillard que interpreta a Sophie adulta prende-nos totalmente a atenção.

O hedonismo de Julien e Sophie, a crueldade, o egoísmo e o inconformismo daquela paixão incomoda e faz-nos pensar. Uma boa surpresa este filme.

27.6.05

Cinema & Blogs (I)

Porque será que uma grande parte dos blogs portugueses sobre cinema são graficamente bastante elaborados, mas fraquinhos no conteúdo?

26.6.05

The Woodsman/O Condenado


The Woodsman apesar de uma passagem discreta pelas salas, teve regra geral boas críticas.Elogiaram a emoção contida de Kevin Bacon no papel de Walter, o minimalismo da narrativa, a química entre Bacon e a sua esposa Kyra Sedgwick que contracena com ele. O filme tem de facto esses atributos, é inegável também que Bacon consegue em todos os filmes em que participa criar empatia com o espectador. O realizador terá tido isso em conta quando deu a Bacon um papel complicado, em primeira análise repulsivo, e em que essa empatia é absolutamente necessária para nos dispor a conhecer mais sobre a mente de um pedófilo.
O problema é que The Woodsman é um filme plástico, pouco honesto. Nunca chegamos a saber exactamente porque é que Walter passou os últimos doze anos na prisão. Depois à boa maneira Americana do "fumei mas não inalei", Walter é apresentado como um homem consciente da sua anormalidade, consumido pela culpa, mas que nunca "fez mal às suas vítimas". As tentativas de Bacon para transmitir o inferno que vai na cabeça de Walter, e a luta que ele trava para dominar os seus instintos básicos não convencem. Todas as personagens secundárias com excepção de um brilhante Mos Def na pele do polícia que vigia Walter são tipificadas e caracterizadas como pedófilos em potência ou vítimas de abusos. O filme não sabe para onde ir e vai avançando à base de coincidências: a maria-rapaz que trabalha na mesma serração de Walter e que teve uma história de vítima de abuso, o pedófilo que tenta aliciar as crianças na escola em frente à casa de Walter, a menina que Walter segue e que provoca a revelação da sua monstruosidade e o coloca no caminho certo. Só falta a cena em que numa reunião de pedófilos anónimos diria: Olá eu sou o Walter e já não molesto nenhuma criança há um mês. Haveria alguém a bater palmas?

24.6.05

Casa de los Babys



John Sayles é um realizador pouco visto em Portugal, apesar de ser o autor de um dos melhores filmes dos anos 90, 'Lone Star'.
'Casa de los Babys', filme de 2003 que só agora cá chegou, é um objecto estranho. Filma meia dúzia de mulheres americanas no México, à espera que a burocracia local lhes permita adoptar um bebé de um orfanato. O tema do filme não é a adopção, nem o 'negócio' que representa em alguns países subdesenvolvidos: o que interessa ao realizador é mostrar-nos estas Americanas, as suas fragilidades e desequilíbrios, e principalmente o modo como se sentem e relacionam num ambiente estranho. Filmando com vagar e sensibilidade, John Sayles vai-nos então introduzindo no mundo destas mulheres, interessando-nos gradualmente por elas, no que conta com um grande trunfo- o magnifico elenco de actrizes que as interpretam: Marcia Gay Harden, Lili Taylor, Mary Steenburgen, Daryl Hannah, Maggie Gyllenhaan e Susan Lynch.