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12.10.05

Os Irmãos Grimm



Terry Gilliam sempre nos deu a conhecer realidades alternativas, bastante condimentadas pela loucura, algures entre o fantástico e a demência, entre o sonhar acordado e a embriaguez. Neste filme sobre uma hipotética aventura dos brilhantes irmãos Grimm consegue um equilíbrio invejável.
Os irmãos Will e Jake são dois charlatões que ganham a vida a desmascarar falsas assombrações e mitos fabricados por eles. Mas um dia eles é que são desmascarados e posteriormente confrontados com uma maldição real residente num bosque. A forma como o argumento se serve dos próprios contos imaginados pelos famosos contadores de histórias (Capuchinho Vermelho, Hansel e Gretel, Branca de Neve, Bela Adormecida, etc.) e os encaixa na acção tortuosa é, no mínimo, engenhosa. Gilliam aventura-se neste imaginário, tal como Tim Burton o fez, mas não se serve da artificialidade dos cenários como estética predominante, apoiando-se antes no negrume da fábula, na sujidade dos diálogos e nos pormenores estapafúrdicos. Aliás, isto não é novidade no ex-Monty Python, mas aqui é destilado e servido como veneno apetecível. E que bem me soube!
[O Puto]
The Brothers Grimm, República Checa/EUA, 2005. Realização: Terry Gilliam. Com: Matt Damon, Heath Ledger, Lena Heady, Peter Stormare, Jonathan Pryce, Monica Bellucci.

10.10.05

Alice



Como li algures, Alice é o filme português de que se fala. Teve uma boa campanha de marketing, uma boa recepção no Festival de Cannes e boas criticas na generalidade da imprensa portuguesa - se terá público é outra história.
Na minha opinião, alguns dos motivos pelos quais o filme tem sido elogiado são baseados em equívocos. Desde logo, haverá uma nova visão de Lisboa. Não sendo Lisboeta, nem conhecendo particularmente bem a cidade, não serei a melhor pessoa para contrariar esta afirmação, mas parece-me que o facto de Marco Martins a fotografar de manhã ou ao escurecer, com tempo cinzento, permanentemente com uma fotografia escura, fugindo ao 'cliché' da luminosidade da cidade não implica por si só uma visão diferente. Nem por mostrar filas de transito intermináveis ou multidões anónimas: por aqui o filme tanto podia ser passado em Lisboa como noutra grande metrópole qualquer. Aliás penso mesmo que estes longos planos de estradas, de ruas, do aeroporto, estilizados, com cores artificiais, repetitivos, acabam por ter o efeito contrário ao pretendido pelo realizador: em vez de transmitirem um ambiente geral de dor, de perda, acabam por se tornar decorativos e monótonos, abafando as personagens e os sentimentos, fazendo lembrar algum do pior Wim Wenders. O mesmo se pode dizer da interpretação de Nuno Lopes: compor uma personagem lacónica, sonâmbula, algo autista, é o mais óbvio para transmitir dor e não me parece que seja especialmente difícil um papel destes. Compare-se por exemplo a languidez escura de Alice com a luminosidade gélida de Saraband, com as suas personagens bem vivas, mas onde os sentimentos de dor e de perda nos atingem de maneira bem mais profunda. Outro equívoco tem a ver com a velhinha questão do cinema português, das suas especificidades, do seu virar de costas ao público. Este seria um filme diferente, um filme de autor mas virado para o público. Este parece-me um equívoco dos grandes: Alice tem algumas das marcas registadas que o grande público (de pior) associa ao cinema português, nomeadamente uma fotografia escura e um desenvolvimento narrativo lento (para não dizer chato). Salva-se o som, muito acima da média. Cinema de autor não umbiguista há um realizador a faze-lo, e muito bom, em Portugal - mas chama-se João Canijo. Posto isto, refiram-se as qualidades do filme, que também as tem: um magnifico conjunto de actores secundários (incluindo Beatriz Batarda, que na prática tem um papel secundaríssimo), uma excelente banda sonora de Bernardo Sassetti e uma boa ideia de argumento, não totalmente desenvolvida, que são os sketchs cómicos de Nuno Lopes e Miguel Guilherme que compõem o necessário contraponto à história principal.
Alice, Portugal, 2005. Realização: Marco Martins. Com: Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Miguel Guilherme, Ana Bustorff, Laura Soveral, Gonçalo Wallenstein.

7.10.05

A Dama de Honor



Depois de no ano passado terem estreado nas salas portuguesas filmes de Eric Rohmer e Jaques Rivette , este ano tivemos Godard (A nossa música) e agora Chabrol. Ou seja, todos os pontas de lança da Nouvelle Vague (Truffaut, como se sabe, morreu prematuramente em 1984).
Chabrol, que já vai em mais de 50 filmes, tem realizado o que por vezes se designa por 'thriller de costumes' - parte de uma história de cariz mais ou menos policial para criticar a burguesia francesa. Desta vez adapta Ruth Rendell (como em 'A cerimónia), tal como já adaptou Patricia Highsmith (tal como o seu mestre Hitchcock).
Philippe conhece Senta no casamento da irmã deste, de quem é a dama de honor. Desde logo ela lhe declara que foram feitos um para o outro e vai-o envolvendo no seu mundo, que ao inicio parece de fantasia mas inofensivo, mas que se revela malsão e perigoso - Senta acha que são predestinados e estão para além do bem e do mal. Diga-se que esta história não é especialmente original, mas depressa percebemos que ao contrário do que o titulo indica, a personagem principal do filme, a que verdadeiramente interessa a Chabrol, é Philippe e não Senta. Ele é o jovem responsável, o amparo da mãe e da irmã rebelde, braço direito do patrão (que lhe quer dar sociedade), que tem uma vida monótona e sem sobressaltos. Aliás ele próprio conta ao seu patrão o 'segredo' para conseguir o que consegue: 'bom senso'. Apesar disso, apesar das suas resistências, do seu esforço, não consegue (ou não quer) libertar-se da teia em que Senta o vai prendendo. Nunca percebemos muito bem os seus sentimentos em relação a ela: há uma forte componente sexual (e, já agora, fetichista), mas também não será alheia à sua atracção a personalidade doentia que Senta lhe vai revelando, e que sentimos sempre que irá levar este rapaz bem comportado à perdição.
Aos 74 anos Chabrol não tem nada a aprender em termos de cinema: a mise en scène é perfeita, os actores muito bem escolhidos (Laura Smet uma escolha pouco óbvia, com pouco ar de femme fatal; Benoît Magimel excelente, sonolento mas sedutor), a fotografia (de Eduardo Serra), oscilando entre a luminosidade exterior e a obscuridade da cave de Senta, magnifica. Dirão alguns que Chabrol fez mais do mesmo. Será, mas quando o resultado é tão bem conseguido, tão superior a quase tudo o que anda por aí, para mim chega e sobra. Que mantenha este nível por muitos anos e filmes é o que desejo.
La demoiselle d'honneur, França/Alemanha/Itália, 2004. Realização: Claude Chabrol. Com: Benoît Magimel, Laura Smet, Aurore Clement, Bernard Le Coq, Solene Bouton.

1.10.05

Bordadeiras


Este filme vive numa aparente contradição: sendo um filme de temática realista, exibe uma estética apuradíssima, desde a fotografia ao guarda-roupa. Fazendo um resumo do argumento - Claire, uma jovem de 17 anos mais ou menos em ruptura com a familia, esconde a sua gravidez de toda a gente, despede-se do emprego no Intermarché e encontra refugio junto de uma bordadeira de alta costura que acabou de perder o filho - pensamos num filme de Mike Leigh; mas toda a ambiência do filme, a beleza da sua fotografia, o cuidado posto nos pormenores como as mudanças de penteado da protagonista, nos remete para um filme como 'A rapariga do brinco de pérola'. Aliás há fortes parecenças entre Lola Naymark com o cabelo tapado e Scarlett Johansson com a touca naquele filme. Esta parte é importante porque introduz um elemento de estranheza no filme: Lola Naymark não sendo Scarlett Johansson, também não parece caixa de supermercado e a luminosidade da fotografia 'amacia' um pouco a história, nunca sentindo o espectador aquele ambiente 'rugoso' dos filmes do realismo britânico. Apesar disso, a sensibilidade demonstrada pela realizadora em relação à sua personagem principal, a sua atenção aos detalhes, faz-nos acreditar na personagem e na sua história. E percebemos que na sua calma obstinação, Claire não é menos forte que Rosetta ou Vera Drake.
Brodeuses, França, 2004. Realização: Eléonore Faucher. Com: Lola Naymark, Ariane Ascaride, Thomas Laroppe, Marie Félix, Arthur Quehen.

30.9.05

James Dean (08/02/1931-30/09/1955)



Apenas 3 filmes -' A Leste do Paraíso' de Elia Kazan, 'Fúria de Viver' de Nicholas Ray, 'O Gigante' de George Stevens - e a morte aos 24 anos ( ao volante de um Porsche 550 Spyder) bastaram para criar o mito.

28.9.05

From here to eternity



Alma - I won't marry you because I don't want to be the wife of a soldier...Because nobody's gonna stop me from my plan. Nobody, nothing. Because I want to be proper...Yes, proper. In another year, I'll have enough money saved. Then, I'm gonna go back to my hometown in Oregon and I'm gonna build a house for my mother and myself, and join the country club and take up golf. And I'll meet the proper man with the proper position to make a proper wife who can run a proper home and raise proper children. And I'll be happy because when you're proper, you're safe.
Prewitt - You got guts, honey. I hope you can pull it off.
Alma - I do mean it when I say I need you 'cause I'm lonely. You think I'm lying, don't you?
Prewitt - Nobody ever lies about being lonely.

26.9.05

Ela odeia-me



Há (pelo menos) dois filmes neste novo Spike Lee: o primeiro é um filme político, uma critica explicita a Bush e dum modo geral ao 'grande capital', às corporações; o segundo é uma farsa, uma sátira a entrar no campo do burlesco aos estereótipos sexuais, raciais, comportamentais. O primeiro filme, o filme politico, sobre um alto funcionário duma multinacional arruinado por denunciar os podres da empresa e que se compara a ele próprio com o segurança que despoletou o escândalo Watergate, não é lá muito interessante. O segundo, o burlesco, sobre o modo como esse funcionário sobrevive depois de ser despedido - engravidando lésbicas endinheiradas - é hilariante, no melhor estilo do Woody Allen de há uns anos. O resultado é uma salgalhada algo difícil de digerir, mas que vale o esforço.
She hate me, EUA, 2004. Realização: Spike Lee. Com: Anthony Mackie, Kerry Washington, Dania Ramirez, Ellen Barkin, Monica Bellucci.

23.9.05

A não perder...

...os Mais Inspirados Nomes de Filmes. No Topmania.

21.9.05

Film Posters of the 50's


Pessoa amiga ofereceu-me este livro e 'li-o' de uma ponta à outra de um só fôlego. Recordemos que a década de 50 foi uma das mais brilhantes da história do cinema, mas também, como nos é dito por Tony Nourmand (co-organizador do livro com Graham Marsh) na introdução, foi nos anos cinquenta que pela primeira vez o cinema teve um sério concorrente: a televisão. De modo que houve que explorar as novidades tecnológicas só possíveis no grande ecrã: o Technicolor, o Cinemascope e o 3-D. Como defende Nourmand, estas novidades tiveram eco no trabalho dos artistas que tinham que criar posters que atraíssem o público ao cinema.
Surgiram assim uma série de nomes que criaram obras de arte a milhas do que se faz hoje em dia, em que os cartazes raramente ultrapassam a mera fotografia dos actores principais. Nomes como os excepcionais Saul Bass (EUA) ou Jan Lenica (Polónia), mas também criativos anónimos que trabalhavam para os grandes estúdios e criaram cartazes fantásticos de filmes série B e de ficção-cientifica, por exemplo, de que temos aqui magníficos exemplos.
Um livro imperdivel.

18.9.05

Napoleon Dynamite


Não se entende a razão de este filme não ter estreado nas salas e ter apenas sido lançado em vídeo. Não foi certamente pelo excesso de filmes de qualidade, ou falta de salas. A indústria da distribuição de cinema custa a perceber que cada vez menos os espectadores dependem dos seus caprichos para poderem ver os filmes que lhes interessam.

Napoleon Dynamite suscitou opiniões extremadas! Atomo! considerou-o um dos melhores filmes de 2004, not_alone não o achou tão entusiasmante, mas numa coisa penso estarmos todos de acordo: A cena final de dança é já um clássico!
Devo confessar que começei por torcer o nariz. Pareceu-me mais uma comédia sobre adolescentes num liceu Americano.
E é! - mas é uma comédia sobre adolescentes nerds. Neste filme, o termo nerd (para o qual não existe uma tradução capaz em Português) não se aplica a miúdos de óculos que passam o dia a jogar playstation - nada tão sofisticado - mas a indíviduos sem a mínima noção do ridículo, ou das regras da sociedade. Se a beleza está nos olhos do observador, as piadas e as siuações cómicas em Napoleon Dynamite dependem de quem o vê. O filme foge completamente à formatação habitual das comédias: Não há ponto e contraponto, não há construcção de piadas, não há ritmo e muito menos existe um punch-line. Napoleon Dynamite irá parecer um objecto estranho e repugnante ou merecedor de culto, dependendo do grau de identificação do espectador com este universo. Como escreveu Harry Madox acerca de outro objecto estranho - Os bravos não têm descanso - "o leitor que veja por sua conta e risco".