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4.11.05

Os Fura Casamentos



Este filme é uma comédia romântica disfarçada de comédia disparatada. E funciona bem: tem dois bons actores, Vince Vaughn no género força da natureza, Owen Wilson num género mais contido, uma actriz, Rachel McAdams (Red Eye) que não sendo ainda a sucessora de Meg Ryan porque suspiramos, tem o ar queridinho q.b. para ser a namoradinha do publico, tem secundários de grande qualidade (Isla Fisher, Jane Seymour e o grande Christopher Walken) e, elemento determinante, tem bons gags e mantém o gás até final. Foi um sucesso inesperado na temporada de Verão dos Estados Unidos, o que não deixa de ser reconfortante numa época de filmes de efeitos espectaculares desmiolados, sequelas, remakes e afins.
Wedding Crashers, EUA, 2005. Realização: David Dobkin. Com: Owen Wilson, Vince Vaughn, Rachel McAdams, Isla Fisher, Christopher Walken, Jane Seymour, Bradley Cooper

3.11.05

Quando os sinos dobram



"Não pude impedir o vento de soprar, o ar de ser límpido como o cristal, não consegui esconder a montanha".
Esta declaração de desistência da jovem Madre Superiora Irmã Clodagh (Deborah Kerr), sintetiza na perfeição este filme, uma história de cinco freiras inglesas que tentam instalar uma missão num palácio abandonado nos Himalaias. Mas o vento, a montanha, o 'ar que parece exagerar tudo', a presença do cínico agente britânico local, do leviano jovem sobrinho do Marajá e duma lasciva adolescente, perturbam fortemente estas freiras, ressuscitando fantasmas psicológicos e sexuais que as levam a duvidar da fé e inclusive à loucura.
Filmado totalmente em estúdio (mas tendo paisagens espantosas), num Technicolor irreal, esta é uma das mais belas obras-primas da dupla Michael Powell/Emeric Pressburger, responsáveis por uma das filmografias mais insólitas da história do cinema.
Black Narcissus, Reino Unido, 1947; Realização: Michael Powell e Emeric Pressburger. Com: Deborah Kerr, Flora Robson, Jean Simmons, David Farrar,
Sabu, Esmond Knight

1.11.05

O crime do Padre Amaro



Há uns anos atrás caíram o Carmo e a Trindade cá na pátria por causa duma adaptação para a tela do 'Crime do Padre Amaro', por parte do mexicano Carlos Carrera. O filme, não obstante se passar no México e envolver umas histórias de narcotráfico, era bastante fiel, na essência, à obra-prima de Eça - além de que era um bom filme. Imagino o que não dirão agora esses defensores do 'puro' com esta adaptação muito, muito livre de Carlos Coelho da Silva...
O enredo é transferido de Leiria para um bairro dos subúrbios de Lisboa, tipo Zona J, onde vai parar o jovem Padre Amaro, sendo instalado pelo seu protector Cónego Dias em casa da devota Joaneira, de quem é amante. Não tardará muito até Amaro se envolver com a sua bela filha Amélia...As semelhanças com o romance de Eça ficam-se por aqui, afastando-se o argumento e caracterização das personagens (o Padre Amaro é um galã obcecado por sexo desde miúdo!) completamente do livro.
Diga-se desde já que este é um filme com inúmeros defeitos, começando na obsessão em mostrar o corpinho de Soraia Chaves (uma modelo, ao que sei, seguindo uma tradição inaugurada por Joaquim Leitão em 'Tentação'), e culminando num péssimo final rocambolesco. Apesar disso...confesso que segui o filme com curiosidade. Tendo sido realizado para a TV (vai ser transmitido na SIC em episódios), eu não o senti, sendo a câmara fluida e desenvolta, mostrando-nos bem o ambiente dum bairro deste género, dominado pela criminalidade ou pela indolência dos jovens, ao som do hip-hop de Sam The Kid . Temos ainda um conjunto impressionante de actores conhecidos da TV, desde Nicolau Breyner (o Cónego Dias) até Rui Unas (um cabeleireiro gay), passando por Diogo Morgado ou Ana Bustorff, que conseguem transmitir consistência às suas personagens. O resto é cinema mainstream, não se elevando muito além do género telefilme. Conseguiu prender o meu interesse, mas não ponho as mãos no fogo por ele...
O crime do Padre Amaro, Portugal, 2005. Realização: Carlos Coelho da Silva. Com: Jorge Corrula, Soraia Chaves, Nicolau Breyner, Glória Férias, Ana Bustorff, Nuno Melo, Margarida Miranda, Hugo Sequeira, Diogo Morgado, Rui Unas.

30.10.05

Wallace & Gromit: A maldição do Coelhomem



Confesso que este era um dos filmes mais aguardados por mim de há uns tempos para cá, o que me levou, coisa rara, a ir vê-lo logo na estreia. O motivo é simples: as 3 obras-primas protagonizadas pela dupla Wallace e Gromit nas curtas-metragens 'A grand day out' (1989), 'The Wrong Trousers' (1993) e 'A Close Shave' (1995). Depois delas, Nick Park treinou a mão numa longa-metragem realizando 'A fuga das galinhas' em 2000, para então se dedicar ao projecto de passar os seus geniais personagens para um filme de hora e meia em vez da meia hora habitual. Não se pense que a duração é uma questão de somenos: a rodagem de 'A Maldição do Coelhomem' começou no ano 2000, tendo demorado 5 anos até estar concluída! Nick Park e o seu pessoal dos estúdios Aardman utilizam bonecos de plasticina, dispensando quase totalmente a tecnologia digital, filmando fotograma a fotograma o que implica que um dia de trabalho rentável produza qualquer coisa como 10 segundos de filme!
A 'Maldição do Coelhomem' segue o mesmo modelo das duas ultimas curtas-metragens da dupla (ambas premiadas com o Oscar): os dois protagonistas vêem-se envolvidos numa história tipo policial, sendo que o ‘criminoso’ aqui é um coelho gigante que ameaça arruinar o Festival Anual de Vegetais Gigantes da Marquesa Florinda de Belaflor. Wallace como responsável pela Anti-Peste, tentará apanhar o coelho com a ajuda das habituais engenhocas que inventa, metendo-se pelo meio em inúmeros sarilhos e acabando o inteligente Gromit por salvar a situação. Este modelo atingira um cume inultrapassável a nível técnico, de ritmo narrativo, de imaginação, em 'The Wrong Trousers' e 'A Close Shave', pelo que as expectativas eram elevadíssimas. Conseguiria Nick Park manter este nível numa longa-metragem? Eu diria que não totalmente, mas esteve lá perto. O virtuosismo técnico mantém-se intocável, a imaginação também continua em alta, estando o filme cheio de piscadelas de olho cinematográficas, que vão desde os filmes de terror da Hammer ao King Kong - aliás a própria história é uma engraçada variante de um tema muitas vezes passado no grande ecrã (não digo qual para não estragar a surpresa). Penso que só falta ao filme conseguir manter o impecável ritmo das curtas-metragens que o precederam (certamente mais difícil quando a duração é 3 vezes maior), faltando-lhe também algum ‘golpe de asa', algum detalhe genial que marque, como o pinguim que se disfarçava de galinha em 'The Wrong Trousers', por exemplo. Mas tenho consciência que o defeito está do meu lado, que me habituei a exigir de Nick Park nada menos que uma obra-prima em cada filme, reclamando (pouquinho) quando ele se fica, como é o caso, por um filme muito bom!
Wallace & Gromit in The Curse of the Were-Rabbit, Grã-Bretanha, 2005. Realização: Nick Park e Steve Box. Longa-metragem de animação. Vozes (originais): Peter Sallis, Ralph Fiennes, Helena Bonham-Carter, Peter Kay.

29.10.05

Serenity



Quem mora em Lisboa ou no Porto não faz ideia dos tormentos por que passa quem ainda teima em preferir uma sala de cinema ao dvd caseiro, mas mora num qualquer outro canto da pátria. Embora em qualquer terreola de média dimensão haja hoje em dia um (ou mais) shopping(s), os filmes exibidos nunca são os que o cinéfilo um bocadinho mais exigente (ou curioso) quer ir ver. Que é como quem diz, aqueles geralmente mais estrelados, com melhores criticas, ou simplesmente que despertaram mais curiosidade por isto ou aquilo. Sendo assim, uma pessoa às vezes sente-se como aqueles casais que estão na fila da bilheteira do AMC a decidir qual o filme que vão ver, usando critérios como o cartaz, a sinopse que vem no folheto, ou mesmo o horário.
Tendo presente este intróito, não me perguntem qual foi o critério que me levou a ir ver 'Serenity', eu que nem sou grande fã de filmes de ficção científica. Talvez tenha sido o facto de ser um filme invisível: não encontrei uma única crítica sobre ele em toda a imprensa portuguesa! Ao fim de meia hora de filme estava-me a interrogar se este era péssimo ou apenas fraquinho - e chegado ao fim ainda não tinha uma resposta definitiva. Mas na realidade, penso que é apenas...anacrónico! Tudo nele parece fora de tempo, pertencente a outra época: as naves espaciais (modelos verdadeiros, nada de naves virtuais) parecem vindas direitinhas duma série de TV dos anos 80, o actor principal saído de um filme de série B, a star uma espécie de Christina Ricci dos suburbios, e dos actores secundários nem vale a pena falar - incluem uma rapariga (pouco) vestida com roupinhas indianas, transferida directamente do 'Barbarella'. Temos ainda um argumento que mete um governo interplanetário totalitário (a Aliança), uma rapariga psíquica, uns zombies que aqui se chamam Reavers, e já nem me lembro bem do fio condutor disto tudo...
A ideia com que fiquei, foi que o ecrã de repente tinha sintonizado a RTP Memória. Quando o filme acabou mudei de canal, passei ao programa seguinte e nunca mais me lembrei do que tinha acabado de ver.
Serenity, EUA, 2005. Realização: Joss Whedon. Com: Nathan Fillion, Gina Torres, Alan Tudyk, Morena Baccarin, Adam Baldwin, Chiwetel Ejiofor.

26.10.05

Dentro de Garganta Funda



Talvez devido ao efeito Michael Moore, de repente tornou-se normal aparecerem documentários no circuito comercial. O ano passado tivemos 'The Friedmans', 'Super size me', 'Ser e ter', 'Fahrenheit 9/11', este ano 'Tarnation', 'Mondovino' e agora este 'Inside deep Throat', se não me escapa nenhum.
O 'fenómeno Garganta Funda' é conhecido: feito em meia dúzia de dias com 25.000 dólares, desencadeou um escândalo inusitado nos Estados Unidos, sendo perseguido pelas autoridades e banido em 23 estados, polémica que muito contribuiu para os 600 milhões de dólares que facturou, tornando-o eventualmente o filme mais lucrativo de sempre. Pessoas que nunca tinham visto um filme pornográfico na vida, faziam fila para assistirem às famosas cenas de sexo oral de Linda Lovelace, que se tornou uma estrela do dia para a noite. Entretanto decorria um furioso debate sobre erotismo e pornografia e, mais do que isso, sobre censura e liberdade de expressão. Nunca os seus autores o imaginariam...
Este filme centra-se assim em duas vertentes: mostra-nos as condições de realização do filme, as motivações de quem o fez (falando o produtor na vontade de fazer filmes como...Godard!), mas também tenta apanhar o ar do tempo (inicio da década de 70), perceber as condições sociais que proporcionaram todo o escândalo e discussão à volta do filme. Seguindo o modelo tradicional de documentários deste género (modelo superiormente ridicularizado por Woody Allen em 'Zelig', que nunca mais nos permitiu ver um documentário da mesma forma), intercala uma voz off (de Dennis Hopper) com depoimentos de pessoas associadas ao filme desde o realizador Gerard Damiano e o produtor Lou Peraino (duas personagens...) a ex-agentes do FBI e distribuidores, mas também de inúmeras personalidades que vão desde Camille Paglia a Gore Vidal, de Norman Mailer a Hugh Hefner, de Wes Craven (que começou a carreira como realizador de filmes porno!) a John Waters. Reunir este 'elenco' extraordinário é aliás um dos grandes trunfos dos realizadores, Fenton Bailey e Randy Barbato, sendo os outros o enorme sentido de humor exibido ao longo de todo o documentário, e ainda a capacidade de dar voz a toda a gente, não obstante ser óbvio o lado pelo qual os realizadores sentem simpatia. Mesmo que o leitor nunca tenha visto 'Garganta Funda' (e num inquérito feito a actuais porno stars, nenhuma sabia o que era tal coisa...), não dará por mal empregue o tempo a ver 'Dentro de Garganta Funda'- até porque é mais divertido que qualquer outro filme em cartaz.
Inside Deep Throat, EUA, 2005. Realização: Fenton Bailey e Randy Barbato. Documentário.

16.10.05

O Castelo andante



'O Castelo Andante' é o terceiro filme de Hayao Miyazaki que estreia em Portugal, depois de 'Princesa Mononoke' e 'A Viagem de Chihiro'. Miyazaki, que começou a ser conhecido por ser animador da clássica série de TV 'Conan, o rapaz do futuro', é imensamente popular no seu país ('Princesa Mononoke' foi à altura o segundo filme mais lucrativo da história do Japão, a seguir ao 'Titanic') e foi recentemente descoberto pela crítica ocidental ('A Viagem de Chihiro' ganhou o Urso de Ouro da Berlinale 2002). Ao contrário dos filmes anteriores, em que o realizador também assinava o argumento, 'O Castelo andante' baseia-se numa história da escritora inglesa Diana Wynne Jones, que no entanto se adapta que nem uma luva ao habitual universo de Miyazaki: um universo paralelo povoado por espíritos, por Deuses, por animais que falam, situado do outro lado do Espelho.
Movendo-se algures entre a fábula com mensagem, como o era a 'Princesa Mononoke', e o delírio surrealista de 'A Viagem de Chihiro', este filme conta-nos a história de Sophie, uma chapeleira de 18 anos a quem é lançado um feitiço que a transforma numa velhinha. Procura então refugio no castelo do belo mas amaldiçoado feiticeiro Howl, onde para além deste convive com o seu ajudante Markl, com o demónio de fogo Calcifer e com a Bruxa do Nada. O filme é um retrato desta 'família disfuncional' (mas unida, ao contrário da verdadeira família de Sophie), em que cada um tem os seus problemas e tem que lutar para os resolver e, de passagem, é também um manifesto anti-bélico.
Miyasaki mantém-se fiel à animação tradicional, numa época em que toda a gente já se rendeu ao digital, o que dá um aspecto anacrónico e estranho aos seus filmes, que não se parecem com mais nenhuns. Não acrescentando nada de novo à sua obra, 'O Castelo Andante' é ainda assim um bom filme que não desiludirá os fãs do realizador japonês. Aguardamos agora a estreia da 'Maldição do Coelhomem', de outro mestre da animação contemporânea, o grande Nick Park.
Hauru no ugoku shiro /Howl`s Moving Castle, Japão, 2004. Realização: Hayao Miyazaki. Longa-metragem de animação.

15.10.05

Red Eye



‘Red Eye’ é o mais recente membro de uma longa linhagem de filmes de suspense que baseiam o argumento no facto de serem passados em espaços fechados, quer seja numa casa, num navio, num comboio, etc., etc., de que o membro mais ilustre (e modelo inultrapassável) é 'A corda', do mestre Hitchcock. Geralmente as regras são simples: a história desenrola-se num falso 'tempo real' e tenta jogar com o efeito claustrofobico para aumentar a tensão.
Red Eye segue as regras, mas comete dois pecados graves. Sinal dos tempos, o tal espaço fechado é neste caso um avião, em que uma pessoa é coagida por outra a fazer um telefonema x, ou um parente seu em terra será executado. A premissa é interessante e com bastante potencial, mas infelizmente está longe de ser levada ao limite, revelando pouca imaginação nas situações criadas, sendo quase todo o jogo do rato e do gato que se estabelece entre os dois bastante previsível. É este o primeiro pecado de Red Eye: não surpreende o espectador, não há tensão psicológica (não obstante o excelente desempenho de Cillian Murphy), em suma, falta-lhe verdadeiro suspense. O segundo pecado é ainda mais grave: o realizador tira as personagens do espaço fechado (o avião), e trá-las cá para fora, envolvendo-as numa série de perseguições tipo cartoon, metendo uns momentos de "suspense" a la 'Scream' e culminando com o final mais previsível dos últimos tempos. Resumindo: é um filme pipoca banal, bom para ver na TV num Domingo chuvoso. Vá-se lá perceber porque é que grande parte da crítica portuguesa engraçou com ele...
Red Eye, EUA, 2005. Realização: Wes Craven. Com: Rachel McAdams, Cillian Murphy, Brian Cox , Jayma Mays, Jack Scalia.

12.10.05

Os Irmãos Grimm



Terry Gilliam sempre nos deu a conhecer realidades alternativas, bastante condimentadas pela loucura, algures entre o fantástico e a demência, entre o sonhar acordado e a embriaguez. Neste filme sobre uma hipotética aventura dos brilhantes irmãos Grimm consegue um equilíbrio invejável.
Os irmãos Will e Jake são dois charlatões que ganham a vida a desmascarar falsas assombrações e mitos fabricados por eles. Mas um dia eles é que são desmascarados e posteriormente confrontados com uma maldição real residente num bosque. A forma como o argumento se serve dos próprios contos imaginados pelos famosos contadores de histórias (Capuchinho Vermelho, Hansel e Gretel, Branca de Neve, Bela Adormecida, etc.) e os encaixa na acção tortuosa é, no mínimo, engenhosa. Gilliam aventura-se neste imaginário, tal como Tim Burton o fez, mas não se serve da artificialidade dos cenários como estética predominante, apoiando-se antes no negrume da fábula, na sujidade dos diálogos e nos pormenores estapafúrdicos. Aliás, isto não é novidade no ex-Monty Python, mas aqui é destilado e servido como veneno apetecível. E que bem me soube!
[O Puto]
The Brothers Grimm, República Checa/EUA, 2005. Realização: Terry Gilliam. Com: Matt Damon, Heath Ledger, Lena Heady, Peter Stormare, Jonathan Pryce, Monica Bellucci.

10.10.05

Alice



Como li algures, Alice é o filme português de que se fala. Teve uma boa campanha de marketing, uma boa recepção no Festival de Cannes e boas criticas na generalidade da imprensa portuguesa - se terá público é outra história.
Na minha opinião, alguns dos motivos pelos quais o filme tem sido elogiado são baseados em equívocos. Desde logo, haverá uma nova visão de Lisboa. Não sendo Lisboeta, nem conhecendo particularmente bem a cidade, não serei a melhor pessoa para contrariar esta afirmação, mas parece-me que o facto de Marco Martins a fotografar de manhã ou ao escurecer, com tempo cinzento, permanentemente com uma fotografia escura, fugindo ao 'cliché' da luminosidade da cidade não implica por si só uma visão diferente. Nem por mostrar filas de transito intermináveis ou multidões anónimas: por aqui o filme tanto podia ser passado em Lisboa como noutra grande metrópole qualquer. Aliás penso mesmo que estes longos planos de estradas, de ruas, do aeroporto, estilizados, com cores artificiais, repetitivos, acabam por ter o efeito contrário ao pretendido pelo realizador: em vez de transmitirem um ambiente geral de dor, de perda, acabam por se tornar decorativos e monótonos, abafando as personagens e os sentimentos, fazendo lembrar algum do pior Wim Wenders. O mesmo se pode dizer da interpretação de Nuno Lopes: compor uma personagem lacónica, sonâmbula, algo autista, é o mais óbvio para transmitir dor e não me parece que seja especialmente difícil um papel destes. Compare-se por exemplo a languidez escura de Alice com a luminosidade gélida de Saraband, com as suas personagens bem vivas, mas onde os sentimentos de dor e de perda nos atingem de maneira bem mais profunda. Outro equívoco tem a ver com a velhinha questão do cinema português, das suas especificidades, do seu virar de costas ao público. Este seria um filme diferente, um filme de autor mas virado para o público. Este parece-me um equívoco dos grandes: Alice tem algumas das marcas registadas que o grande público (de pior) associa ao cinema português, nomeadamente uma fotografia escura e um desenvolvimento narrativo lento (para não dizer chato). Salva-se o som, muito acima da média. Cinema de autor não umbiguista há um realizador a faze-lo, e muito bom, em Portugal - mas chama-se João Canijo. Posto isto, refiram-se as qualidades do filme, que também as tem: um magnifico conjunto de actores secundários (incluindo Beatriz Batarda, que na prática tem um papel secundaríssimo), uma excelente banda sonora de Bernardo Sassetti e uma boa ideia de argumento, não totalmente desenvolvida, que são os sketchs cómicos de Nuno Lopes e Miguel Guilherme que compõem o necessário contraponto à história principal.
Alice, Portugal, 2005. Realização: Marco Martins. Com: Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Miguel Guilherme, Ana Bustorff, Laura Soveral, Gonçalo Wallenstein.