Recent Posts

30.11.05

As Bonecas Russas / A Residência Espanhola


Mais interessante do que analisar cada um dos filmes, é constatar a evolução das personagens desde o ano que passaram juntos em Barcelona como estudantes do programa Erasmus em A Residência Espanhola, até que se voltam a encontrar passado alguns anos a pretexto do casamento de uma delas em São Petersburgo. Xavier (Roamain Duris), é agora um escritor à procura da estória perfeita e da mulher perfeita. Tarefa complicada para uma personagem egocêntrica e vampírica. Ele é o retrato robot da Geração X de Douglas Coupland: Pessoas na casa dos 30 anos desencantadas por não terem o reconhecimento que sonharam, cínicas em relação ao conceito tradicional de família que se desmoronou com o boom de divórcios a partir dos anos 70/80, integradas na sociedade à custa do adormecimento forçado da personalidade ou de criarem um fosso cada vez maior entre o 'Eu Privado' e o 'Eu Público', sempre insatisfeitas, obrigadas ao prolongamento da adolescência até à idade adulta. As Bonecas Russas fala-nos da dificuldade de duas pessoas pouco dispostas a ceder em manter uma relação, do efeito entorpecedor da rotina na paixão, da interrogação constante acerca das opções tomadas e da procura da felicidade.

"Por mais que nos estejamos a divertir há sempre uma festa melhor do que esta".
Les Poupées Russes, França, 2005. L'Auberge espagnole, França, 2002. Realização:Cédric Klapisch. Com: Romain Duris, Kelly Reilly, Audrey Tautou

27.11.05

Profundo azul



Jessica Alba num reduzido bikini, a mergulhar nas águas límpidas das Caraíbas, é tudo o que este filme tem para nos oferecer. O leitor que decida se isto é muito ou pouco...
Into the blue, EUA, 2004. Realização: John Stockwell. Com: Paul Walker, Jessica Alba, Scott Caan, Ashley Scott, Josh Brolin, James Frain.

26.11.05

Grizzly Man



Na semana em que em que estreou em Lisboa mais um documentário ('Rize', de David LaChapelle), chegou ao Porto 'Grizzly Man'. Nestes casos o resto do país é paisagem, mas seja como for, e como já aqui referimos, continuam a estrear regularmente documentários em Portugal, hábito saudável que esperemos que seja para durar.
Como o titulo indica, este filme não é sobre grizzlies (ursos-pardos), mas sobre o grizzly man, ou seja Timothy Treadwell, ambientalista americano sui generis que passou 13 verões (quando os ursos não estão a invernar) na companhia destes animais selvagens até ser comido por um. Como diz uma pessoa entrevistada no filme, estava mesmo a pedi-las. O que também estava mesmo a pedir, era ser feito um documentário sobre Treadwell, uma verdadeira personagem, inclassificável. Ex-candidato a actor (supostamente não conseguiu um papel em Cheers por pouco...), ex-alcoólico, ex-uma data de coisas, encontrou a sua redenção na companhia destes ursos. Todos os Verões passava uns meses embrenhado nas florestas do Alasca na sua companhia, ignorando as mais elementares regras de segurança - dizia que era o seu único protector contra os humanos hostis (auto-intitulava-se de kind warrior), filmava tudo e depois divulgava os filmes pelas escolas e na televisão, tendo-se tornado uma celebridade.
Não admira que Werner Herzog, realizador de projectos demenciais como 'Aguirre' ou 'Fitzcarraldo' se tenha interessado por ele. Como Herzog depressa se apercebeu, o verdadeiro protagonista dos filmes de Treadwell não são os ursos, mas o próprio Treadwell. Sempre impecavelmente barbeado, com a franja no sítio (ou com um lenço na cabeça), este discorre sobre tudo e mais alguma coisa em frente à câmara, tendo os ursos como pano de fundo. Não só sobre o antagonismo entre o mundo animal (puro, belo, inocente) e o mundo dos homens (que cada vez odiava mais), como também, e principalmente, sobre ele próprio: porque é que as namoradas não aguentavam muito tempo com ele, como tinha deixado a bebida graças aos ursos, quão corajoso era em lidar tão de perto com as feras, etc., etc. Um narcisismo delirante, que faz parecer Tarnation uma brincadeira de crianças.
Herzog ficou fascinado pela personagem, mas não pelas suas causas. Sendo ele próprio o narrador do filme (com o seu forte sotaque alemão), vai contrariando uma a uma as teses de Treadwell. Onde este via o mundo dos animais perfeito, Herzog vê um mundo em que os machos matam as crias para as fêmeas não terem que as amamentar e poderem fornicar (sic) de novo; onde Treadwell se achava o salvador dos ursos, Herzog contrapõe com números que mostram que estes estão longe do perigo de extinção; onde Treadwell via expressões de afecto no focinho de um urso, Herzog apenas vê um ser entediado a olhar para uma possível vitima; e por aí adiante. Este confronto entre duas personalidades como Treadwell e Herzog, é um dos pontos mais fascinantes do filme - se a matéria-prima era de eleição, um realizador como Herzog conseguiu construir com ela um objecto ainda mais brilhante.
Um grande documentário e seguramente um dos melhores filmes do ano.
Grizzly Man, EUA, 2005. Realização: Werner Herzog. Com: Timothy Treadwell, Amie Huguenard, Franc G. Fallico, Werner Herzog, Warren Queeney, William Fulton.

22.11.05

Flightplan



M. Night Shyamalan inaugurou com O Sexto Sentido um sub-género dos filmes de mortos-vivos. Exemplos recentes: The Forgotten, The Others, Birth e Flightplan. Todos estes sucedâneos têm uma estrutura comum que vale a pena dissecar: como base servem-se de um acontecimento traumático que provoca um sentimento de perda profundo no protagonista, capaz de lhe induzir dúvidas acerca do seu estado mental e de envolver o espectador numa estória pouco verosímil. Normalmente os pormenores acerca desse acontecimento são desvendados cirurgicamente ao longo do filme. O truque destes filmes passa por dar ao espectador em cada momento a informação mínima para o manter ligado ao filme deixando-o preencher o vazio criado com algumas hipóteses. É o velho jogo do gato e rato. Numa altura em que os anti-depressivos, os ansiolíticos e as consultas psiquiátricas se banalizaram e a fronteira entre a sanidade e a alienação se esbate, é mais fácil criar os necessários laços de identificação com o espectador. Outro elemento comum a estes filmes são as crianças, ou como objecto da perda - The Others, The Forgotten, Flightplan - ou como ponte de ligação entre o mundo dos vivos e dos mortos - O Sexto Sentido e Birth. A superprotecção que é dedicada actualmente às crianças e o terror causado pela ideia de alguma coisa de mal lhes acontecer justifica a primeira situação. A inocência e a confusão própria das crianças entre a realidade e a imaginação são usadas na segunda. Com a excepção de o Sexto Sentido o protagonista é uma mulher. Os argumentistas destes filmes permanecem ligados à ideia da mulher como ser mais sensível e manipulável do que o homem. Tecnicamente os filmes são também semelhantes: Fotografia escura, movimentos lentos de uma câmara fixa, banda sonora agreste. Outro elemento comum é a escassez de personagens e de ambientes cénicos. Convém ao realizador conter o mais possível a acção do filme, aumentando dessa forma o desejado efeito claustrofóbico e reduzindo os elementos de perturbação.

Flightplan começa bem porque cumpre todas estas premissas. O facto de a acção se passar quase exclusivamente num avião, um espaço reduzido e demarcado, com regras próprias, onde existe logo à partida uma tensão natural em todos os passageiros e tripulação que potencia qualquer situação de risco, e de se estabelecerem rapidamente grupos com comportamentos tipificados ajuda o realizador a criar um ambiente nervoso. O filme falha no entanto por completo na manutenção desse ambiente e na gestão do mistério. O realizador não quis ou não soube centrar o filme na questão principal: O alegado desaparecimento de uma menina que ninguém viu com a excepção da mãe e que não consta dos registos do voo, e as dúvidas que se colocam em relação à sanidade dessa mulher cujo corpo do marido viaja num caixão no porão do avião a caminho dos Estados Unidos. Este jogo psicológico que seria o suficiente para fazer um bom filme é rapidamente abandonado. A contenção dá lugar ao espectáculo, e à acção. A atenção do espectador é desviada da perda para a causa da perda e o filme parte-se em dois. O segundo filme que nos passa a ser servido não é nada original, tem todos os tiques dos maus filmes de acção e usa inclusivamente os acontecimentos do 11/9 para tentar manipular emoções primárias.
FlightPlan, EUA 2005, Realização: Robert Schwentke, Com: Jodie Foster, Peter Sarsgaard, Sean Bean, Kate Beahan.

19.11.05

O fiel jardineiro



Fui ver este filme com um receio: como é que o estilo folclórico do brasileiro Fernando Meirelles combinaria com o estilo sóbrio e cínico do britânico Le Carré? Felizmente a minha apreensão era infundada - a combinação resulta surpreendentemente bem. É um pouco como a relação entre os dois protagonistas desta história: duas personalidades opostas que se encaixam na perfeição.
Justin Quayle (Ralph Fiennes) é o fiel jardineiro, um pacato diplomata britânico que só pensa nas suas plantas, até ao dia em que conhece Tessa (Rachel Weisz) numa conferência. Esta após o interpelar de uma forma agressiva e irritante com um discurso 'esquerdista', acaba por o convidar para sua casa, onde lhe faz um pedido surpreendente: que a leve com ele para África, como mulher, como amante, como amiga, não interessa como!
Após terem casado, e já instalados em África, levam duas vidas paralelas: ela é uma activista empenhada em investigar os podres do capitalismo no terreno; ele refugia-se no seu jardim, tendo o tipo de vida em Nairóbi que teria em Londres ou em Xangai. Ela é inconveniente, incómoda, irritante; ele é pacato, conservador, insosso. Um casamento de conveniência, dir-se-ia. Só após o desaparecimento de Tessa percebemos a realidade: se não há casamentos perfeitos, este estava lá perto. Ela não lhe falava das suas actividades para o proteger. Ele dava-lhe toda a liberdade, mas estava lá para o que fosse preciso. Percebemos também que a conspiração envolvendo farmacêuticas não é mais que o McGuffin do filme. Este filme é a história de um grande amor. Um grande amor em África. Este ponto é importante, porque África é a terceira grande personagem desta história. A África profunda, de que já tínhamos tido um cheirinho no 'Senhor da Guerra', não a Tunisia ou o Egipto que conhecemos dos pacotes turísticos. É aqui que a escolha de Fernando Meirelles se revela adequada. O seu estilo nervoso, com uma montagem agressiva, que se pode tornar cansativo e gratuito (veja-se a 'Cidade de Deus'), casa no entanto bem com as cores e o desalinho africanos, captando bem uma realidade que nos é estranha.
Temos assim um bom filme a partir de um bom romance, seguindo uma linha recente de que são exemplos 'O americano tranquilo' (Noyce/Green) ou 'A culpa humana' (Benton/Roth). E é também a melhor adaptação de Le Carré ao grande ecrã que já vi.

The Constant Gardener, Grã-Bretanha/Alemanha, 2005. Realização: Fernando Meirelles. Com: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Danny Huston, Pete Postlethwaite, Gerard McSorley, Hubert Koundé.

18.11.05

O Pequeno Orador



Ontem, pela primeira vez na vida, participei num evento na qualidade de...bloguista!

15.11.05

And Now For Something Completely Different


Curb your enthusiasm - primeiro estranha-se, depois entranha-se!

Tem algo de Seinfeld (ou Seinfeld tem algo dele!), tem algo de Woody Allen, mas...é algo completamente diferente!
Ladies and gentlemen, Mr.Larry David!

12.11.05

Senhor da Guerra




Durante uma hora assistimos a uma viagem guiada ao mundo do tráfico internacional de armas. Yuri Orlov (Nicholas Cage), um emigrante Ucraniano nos E.U.A, conta-nos num tom profundamente irónico a sua ascensão meteórica de Zé-Ninguém a maior traficante mundial de armas. Quem são os seus melhores clientes (os ditadores Africanos corruptos e psicopatas), as qualidades necessárias para a função (acima de tudo imaginação e capacidade de desenrasque), a maneira de aproveitar os fundos ilimitados da ONU e contornar a Lei Internacional, a verdadeira sorte grande que lhe saiu a ele e aos 'colegas de profissão' quando Gorbachov deu o golpe final na U.R.S.S. e o arsenal militar da segunda maior potência militar ficou disponível no mercado negro. Esta viagem é fascinante, principalmente devido a Nicholas Cage, o único actor que poderia compor esta personagem assim: irónica, amoral ('esta guerra não é minha', poderia ser o seu lema), mas ao mesmo tempo humana (ele próprio é incapaz de matar alguém pelas suas mãos) e até humilde (a enorme fortuna que junta serve mais para manter o nível de vida desejado pela mulher, do que para satisfazer a sua vaidade pessoal). Ele acima de tudo gosta do que faz e fá-lo melhor que ninguém - é isso que o que verdadeiramente lhe interessa.
Na última meia hora Andrew Niccol resolve moralizar a história e quase estraga tudo. Felizmente não chega ao ponto de pôr Orlov/Cage com problemas de consciência, o que assassinaria a personagem e o filme, mas transfere esses problemas para os que lhes estão mais próximos e pôe-os a ter comportamentos inverosímeis escusados (e como disse Mankiewicz, ao contrário da vida, um filme tem que fazer sentido). Seja como for, tem um final cínico ao nível da primeira parte e que redime o realizador daquela deriva moralista, mantendo o filme quase, quase nas quatro estrelitas.
Lord of War, E.U.A., 2005. Realização: Andrew Niccol. Com: Nicolas Cage, Jared Leto, Bridget Moynahan, Ethan Hawke, Ian Holm.

9.11.05

Eros Terapia



'Eros Terapia' está dividido em duas partes. A primeira denomina-se 'Eros' e é uma espécie de introdução às personagens e ao ambiente do filme. Conhecemos Adam um advogado de meia-idade que pretende reconquistar a sua ex-mulher que o trocou por... uma mulher. Sabendo dos instintos protectores daquela, inventa que caiu dum teleférico e ficou parcialmente amnésico, convindo-lhe morar em terrenos familiares, pelo que se instala na garagem da casa que partilhavam. Entretanto conhece Bruno, um jovem que trabalha num 'centro de reabilitação' (em que se curam as pessoas satisfazendo os seus fetiches masoquistas!), que lhe promete que vai conseguir que a mulher volte para ele. Por esta amostra se percebe que o tom do filme é de farsa, e nesta primeira parte consegue ser bastante divertido, gozando deliberadamente com uma série de lugares comuns, a que não escapa a critica cinematográfica 'intelectual' - a realizadora Danièle Dubroux foi critica dos Cahiers du Cinema, e uma das personagens (a mais antipática!) também é critica duma revista avant garde. O pior vem na segunda e mais longa parte do filme, denominada 'Tanatos' - as expectativas criadas são mortas uma a uma (passe o trocadilho), enrolando-se o argumento numa série de situações bizarras e que não chegam a lado nenhum. Talvez a realizadora tenha querido carregar na farsa até ao ponto do surrealismo, mas sai-lhe o tiro ao lado, alinhando cenas de um simbolismo primário e psicologias de pacotilha, naquele estilo muito intelectual, cheio de citações cultas, muito obcecado com sexo mas incapaz de dizer um palavrão - muito francês, em suma. O resultado é que o próprio filme se torna mais ridículo do que aquilo que pretende ridicularizar, nem os excelentes actores (com destaque para Melvil Poupaud), nem algum humor que sobrevive da primeira parte o salvando. Um acto falhado.
Eros Thérapie, França, 2004. Realização: Danièle Dubroux. Com: Catherine Frot, Isabelle Carré, François Berléand, Melvil Poupaud.

5.11.05

Last Days — Últimos Dias




Gus Van Sant tem tido um percurso estranho. Ganhou nome no cinema independente, realizando filmes como o excelente 'Drugstore Cowboy' ou o filme de culto 'My Own Private Idaho' (com River Phoenix e Keanu Reeves). Depois do estampanço chamado 'Even Cowgirls Get the Blues', realizou 'To die for', que daria um Globo de Ouro a Nicole Kidman, entrando assim numa fase mais 'comercial', digamos. Podemos incluir nesta fase 'Good Will Hunting' (com Robin Williams) e Finding Forrester (com Sean Connery), tendo feito pelo meio a sua polémica versão/cópia de 'Psycho'. Quando muita critica já lhe fazia o funeral e o dava como 'aburguesado', em 2002 lançou um ovni chamado 'Gerry' que apanhou toda a gente de surpresa. Filmava dois jovens perdidos no deserto, uma longa hora e quarenta sem diálogos, um verdadeiro teste ao espectador que penava tanto quanto os protagonistas. Esta experiência-limite inspiraria os seus filmes seguintes, baseados em casos reais: 'Elephant' segue um grupo de miúdos envolvidos no massacre de Columbine, limitando-se a mostrar o seu dia a dia e deixando as conclusões para o espectador. E agora 'Last days', baseado nos últimos dias de vida de Kurt Cobain (mas com uma personagem chamada Blake). Gus Van Sant filma Blake a errar pela casa ou pelos bosques adjacentes, sempre pedrado ou ressacado, escondendo-se de toda a gente e não falando com ninguém. A montagem faz o filme andar para trás e para a frente, reforçando o efeito contemplativo, melancólico, mesmo narcotizante do filme - às tantas parece que estamos a ver a mesma cena infinitamente. Obviamente a ideia não é vermos o mundo em que Blake/Cobain vivia naqueles últimos dias, a ideia é sentirmos o mundo em que ele vivia. Na minha opinião o resultado depende muito da adesão do espectador, da sua disponibilidade. Compreendo quem adorou o filme (porque interiorizou aquele estado de espírito), como compreendo quem o detestou (porque apanhou seca ou achou tudo ridículo). Eu comecei por me deixar envolver, mas às tantas o efeito quebrou-se e já só suspirava pelo final...
Last Days, EUA, 2005. Realização: Gus Van Sant. Com: Michael Pitt, Lukas Haas, Asia Argento, Scott Green, Nicole Vicius.