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23.1.06

Onde está a verdade?



Lanny Morris (Kevin Bacon) e Vince Collins (Colin Firth) eram os entertainers mais famosos dos anos 50, nomeadamente devido às maratonas televisivas que faziam com objectivos de beneficência. Um dia uma empregada de hotel apareceu morta na banheira da suite onde estavam hospedados - a dupla, então no auge da fama, foi ilibada de qualquer responsabilidade, mas separou-se para sempre. Quinze anos depois, a jornalista Karen O`Connor (Alison Lohman), que participara em criança no último programa de Morris e Collins, tenta descobrir a verdade sobre esse dia fatídico.
'Onde está a verdade' é uma espécie de policial com tons de film noir, embuido de um erotismo pouco comum nos filmes de Hollywood, e proporciona um grande papel a Kevin Bacon. O seu único defeito será o facto de, não obstante ter um desenvolvimento narrativo e cinematográfico sem mácula, ser algo indistinto, não possuindo aquela marca 'autoral' característica dos melhores filmes de Egoyan ('Exotica', 'A viagem de Felicia', 'Futuro Radioso'). Penso mesmo que só se nota o seu dedo em dois pormenores: um é mais especifico - todos os flashbacks da 'tele-maratona da poliomielite’ são Egoyan puro; o outro é mais geral, mais difícil de descrever, tem algo a ver com o mergulhar nos lados mais inconfessáveis, mais obscuros dos seres humanos, que faz com que saiamos deste filme, como de todos de Egoyan, vagamente deprimidos.
Where the Truth Lies, Canadá/Grã-Bretanha/EUA, 2005 Realização: Atom Egoyan. Com: Kevin Bacon, Colin Firth, Alison Lohman, Sonja Bennett, Rachel Blanchard.

20.1.06

Match Point



Ao fim de quarenta anos de carreira, com pelo menos uma dúzia de obras-primas realizadas pelo caminho (e quantos realizadores -actuais ou do passado - se podem gabar do mesmo?), Woody Allen trocou os Estados Unidos pela Inglaterra. A burguesia Nova Iorquina dá lugar à upper class Londrina, devidamente representada por um cast Britânico.
Chris Wilton/Jonathan Rhys-Meyers é um professor de ténis que chega à alta sociedade por via do casamento com a simpática filha de um milionário aristocrata, mas tem fantasias com a americana Nola Rice/Scarlett Johansson. Como ter uma sem abdicar da outra é a questão que se põe a Chris.
'Match Point' é um (muito) bom filme, mas tem um problema: Allen já abordou as questões éticas que lhe estão subjacentes em 'Crimes e Escapadelas', na minha opinião uma das maiores obras-primas que o cinema nos deu nos últimos 30 anos. Não há mal nenhum em um artista voltar a um tema que lhe é caro - e muitos não fizeram outra coisa ao longo da vida. Billy Wilder, para nos cingirmos a outro dos maiores, voltou no final da carreira a filmar uma história sobre uma antiga estrela de cinema (em 'Fedora'), quase 30 anos depois d' 'O crepúsculo dos Deuses'. Mas as semelhanças entre Match Point e 'Crimes...' são muitas: Rhys-Meyers tem exactamente o mesmo problema que teve Martin Landau, resolve-o da mesma forma, e tem as mesmas dúvidas existenciais depois. A sensação de déja vu é inevitável. Se bem que, para sermos sinceros, a moral da história varia um pouco. A de 'crimes e escapadelas' era simples e brutal: o crime compensa e a vida é para quem não tem escrúpulos. Em 'Match point' o crime continua a compensar, a falta de escrúpulos também, mas...desde que se tenha sorte! O genial fim do filme apenas confirma a metáfora inicial do narrador: a vida é como uma partida ténis - por vezes a bola bate na rede e se cai para um lado perdemos, se cai para o outro ganhamos.
Match Point, Estados Unidos/Grã-Bretanha, 2005. Realização: Woody Allen. Com: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Matthew Goode, Brian Cox, Penelope Wilton.

18.1.06

Máquina zero



Sam Mendes, encenador teatral inglês, teve uma entrada de leão em Hollywood: o seu primeiro filme, 'Beleza Americana' foi um sucesso de público e critica e levou para casa 5 Óscares incluindo o de melhor filme e melhor realizador. Naturalmente que lhe seria difícil repetir o sucesso e de facto o seu segundo filme, 'Caminho para a perdição', parece não ter agradado a ninguém. Eu pessoalmente gostei, tal como gostei deste 'Máquina zero', tendo os filmes pelo menos dois pontos em comum: revisitam um género clássico (neste o filme de guerra, naquele o filme negro) e fazem-no muito bem, sendo superiormente realizados e interpretados. Não terão é uma marca autoral tão distinta como 'Beleza Americana', sendo difícil falar de um 'estilo' Sam Mendes, como até certo ponto podemos falar de um 'estilo' Woody Allen, ou Scorcese, ou Spielberg. Pode-se até discutir se 'Beleza Americana' não é muito um filme do argumentista Alan Ball (que é também o criador de 'Sete palmos de terra')...
'Máquina zero' segue o fuzileiro Anthony Swofford (Jake Gyllenhaal) na sua campanha na Guerra do Golfo. Embora seja um atirador de elite, passa meio ano no deserto sem ter oportunidade de dar um único tiro e a sua principal preocupação é combater o tédio. Os seus colegas não são muito diferentes e só pensam na melhor maneira de se divertirem ou, quando se preocupam com algo, é com as namoradas infiéis que estão à solta na América. Exceptuando o sargento (negro) e um ou dois latinos que falam para as câmaras de televisão no seu orgulho por servirem a pátria, ninguém está minimamente interessado na guerra (de que aliás mal se apercebem). É certo que sentem orgulho em ser 'jarheads', mas isso deve-se mais ao sentimento de pertença a um grupo, de estarem integrados numa comunidade, que a outro motivo qualquer.
Embora 'Apocalypse Now' e 'O caçador' sejam referidos durante 'Máquina zero', este está mais próximo de 'Os três reis' do que de qualquer um daqueles. Se os filmes sobre a 2ª guerra mundial eram sobretudo heróicos e patrioticos e os sobre a guerra do Vietname críticos e desencantados, os da guerra do golfo são abertamente cínicos e paródicos.
Jarhead, EUA, 2005. Realização: Sam Mendes. Com: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Laz Alonso, Brian Geraghty, Jamie Foxx, Skyler Stone, Wade Williams, Katherine Randolph, Chris Cooper.

17.1.06

Amor de verão


Duas raparigas lindíssimas. Uma toca 'O Cisne' de Sain-Saens no violoncelo, a outra mora por cima do pub 'O Cisne'. Uma anda a cavalo a outra tem uma mota sem motor. Uma é educada, mimada e cínica a outra é rude e genuína. Para além das diferenças aparentes que as fascinam e atraem está a mesma desorientação adolescente. O sexo, a religião, a desagregação familiar, a morte e a inadaptação são temas que aproximam as duas raparigas e que as ligam numa cumplicidade obsessiva. A banda sonora é excelente: Lovely Head-Goldfrapp (que saudade dos Goldfrapp de Felt Mountain);Três Caravelas - Caetano Veloso; La Foule - Edith Piaf.
Ou o filme é imperdível ou tanta beleza toldou-me os sentidos. Deixo essa dúvida aos leitores.
My Summer of Love, Grã-Bretanha, 2004. Realização: Paul Pavlikovsky. Com: Nathalie Press, Emily Blunt, Paddy Considine, Dean Andrews.

15.1.06

Nada a esconder



Michael Haneke não é um cineasta de temas fáceis. Nos seus anteriores filmes já nos mostrou dois jovens psicopatas que se divertem a aterrorizar familias da classe alta ('Funny Games'), uma solitária e emocionalmente complexa professora de musica que só encontra o prazer numa relação masoquista ('A pianista') ou um mundo apocaliptico onde reina a desolação e os instintos primários de sobrevivência ('O tempo do lobo').
O inicio de de 'Nada a esconder' mostra-nos um longo plano fixo de uma casa, assim sem mais - enquanto se vai desenrolando o genérico na horizontal. Uma cassete com esta filmagem é enviada aos donos da casa, um bem sucedido apresentador de um programa literário da televisão e a sua mulher. Não obstante o caracter aparentemente inócuo do conteudo da cassete estes ficam logo apreensivos, e o espectador (principalmente o conhecedor de Haneke) também. Outras cassetes se seguem e a interrogação cresce: quem as manda e porquê? Dir-se-ia estarmos perante um policial, mas a atenção do realizador foca-se sobretudo nas reacções do casal: ele sabe mais do que diz à mulher e esta não admite nem suporta essa falta de confiança instalando-se um clima de ruptura entre eles. Até aqui tudo bem, esta tensão é magnificamente explorada, suportada nos dois excelentes actores, Daniel Auteuil e Juliette Binoche(e já se notam os seus 42 anos!). O pior é quando começa a surgir a explicação do mistério: estará tudo ligado à infância de Auteuil e a uns ex-empregados magrebinos dos seus pais. Auteuil carrega ainda hoje um sentimento de culpa sobre algo que se passou (apesar de ter 6 anos na altura!) e percebemos a metáfora óbvia: é do sentimento de culpa da França em relação ao seu passado colonial que Haneke nos quer falar. O filme é sempre muito ambiguo, nunca temos certezas sobre nada e o final é mesmo algo desconcertante, ficando tudo muito em aberto. Mas também isso não interessa muito, já que o filme há muito que trocara o policial pelo politico, pelo que é na psicanálise (colectiva?) e não na investigação detectivesca que se têm que encontrar as respostas.
Eu preferia que se tivesse ficado pelo policial, mas aí, em boa verdade, não seria um filme de Haneke.
Caché, França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005. Realização: Michael Haneke. Com: Daniel Auteuil, Juliette Binoche, Maurice Benichou, Annie Girardot.

14.1.06

A descida



Um grupo de amigas amantes de desportos radicais resolve explorar um conjunto de grutas. Uma vez lá dentro, rapidamente se apercebem que estão perdidas e não conseguem encontrar a saída. Não demora muito tempo para também perceberem que não estão sozinhas…
Como se vê, o ponto de partida é clássico e não deve nada à originalidade. No entanto, o realizador Neil Marshall aprendeu com os mestres que nestas situações de desespero, tanto ou mais que o inimigo externo, o maior adversário que se depara a um grupo é a tensão que se cria entre os seus elementos. O stress extremo não aguça apenas o instinto e sentido de sobrevivência destas amigas: também desperta as suas rivalidades, os mal entendidos por resolver, os ressentimentos reprimidos. E é por aqui que o filme nos agarra, mostrando-nos pacientemente o deteriorar das relações dento do grupo, com os pequenos egoísmos de cada uma e a infinita mesquinhez e desconfiança dos seres humanos a vir cada vez mais ao de cima, delapidando assim de vez as poucas chances de sobrevivência que tinham à partida. Mas não se depreenda daqui que estamos perante um exercício 'intelectual' ou contemplativo. Nada disso! O filme tem cenas verdadeiramente arrepiantes, lutas e perseguições ferozes (e relembremos que os protagonistas são todos mulheres!) , um ambiente claustrofobico por vezes quase insuportável e mais sangue que todos os filmes de Peter Jackson pré-‘Senhor dos Anéis’ juntos! Todos os condimentos de um bom filme de terror série B estão lá, sendo assim ainda maior o seu mérito por se demarcar claramente acima desta categoria. Não sendo eu um grande amante ou conhecedor do género, posso no entanto assegurar que este é o melhor filme de terror que vi em anos.
The Descent, Grã-Bretanha, 2005. Realização: Neil Marshall. Com: Shauna Macdonald, Natalie Mendoza, Alex Reid, Nora-Jane Noone, MyAnna Buring, Saskia Mulder.

13.1.06

Sophie Scholl: Os últimos dias



O cinema alemão começou desde a queda do muro de Berlim a fazer contas com o período nazi da forma mais objectiva e neutral possível.
Este filme mostra um lado pouco conhecido da II Guerra Mundial: A existência de grupos de resistência interna, que tentavam através da distribuição clandestina de panfletos passar informações alegadamente pouco conhecidas do povo Alemão, como a existência de campos de concentração, o exterminio em massa de judeus, ou o número de mortes na frente da batalha e apelavam para o fim da guerra.
Sophie Scholl foi uma estudante universitária membro do grupo de resistência Weisse Rose (Rosa Branca) que foi julgada e condenada á morte juntamente com o irmão. O interrogatório do agente da Gestapo a Sophie prolonga-se durante quase todo o filme. Sophie é uma personagem complexa: tem uma convicção forte e serena dos ideais que defende mas alguma ingenuidade acerca dos riscos que corre e dos efeitos que o seu tipo de luta poderiam alcançar.
Como objecto documental o filme é interessante, mostrando o protocolo de interrogatório e de julgamento mas falha na manutenção da tensão com alguns diálogos redundantes, situações estereotipadas e alguns personagens demasiado lineares.
Sophie Scholl - Die letzten Tage, Alemanha, 2005. Realização: Marc Rothemund. Com: Julia Jentsch, Fabian Hinrichs, Gerald Alexander Held, Johanna Gastdorf, André Hennicke.

11.1.06

C3 Ciclo Cine Concerto - Guarda



O Teatro Municipal da Guarda exibe durante este mês cinco filmes musicados ao vivo. Já agora gostava de ver por cá a versão de Couraçado Potemkine musicado pelos Pet Shop Boys.

10.1.06

Aurora



Um dos acontecimentos cinematográficos de 2005 foi sem dúvida a reposição em sala de 'Aurora', clássico entre os clássicos, primeiro filme do alemão Murnau em Hollywood. Depois da estadia em Lisboa chega neste início de ano ao Porto.
Os prazeres que se podem obter com a visão de um clássico são inúmeros, desde logo observar as experimentações feitas numa arte jovem de 30 anos, mas já no auge das suas potencialidades. As inovações de 'Aurora' são mais que muitas, sendo de realçar o excelente partido tirado dos efeitos sonoros, curiosamente no mesmo ano do primeiro filme falado da história do cinema ('The Jazz Singer' de Alan Crosland, 1927). Outro prazer de ver um clássico é reconhecermos a influência que teve no que o seguiu, fazendo-nos lembrar este ou aquele filme posterior! Isto tanto se pode dar em aspectos óbvios (é impossível não pensar em 'Citizen Kane' ao ver as extraordinárias profundidades de campo de Aurora) como em pormenores mais subtis (a mim toda a sequência da cidade me fez lembrar...Jean Renoir!). É assim uma espécie de regresso ao futuro!
Claro que tudo isto não passaria de curiosidade de museu para aficionados se o filme já não nos dissesse nada. Mas acontece que a simplicidade e a beleza de 'Aurora', a sua combinação perfeita de comédia e tragédia, nos tocam hoje como há oitenta anos. É essa outra marca de um clássico. 'Aurora' foi ao seu tempo um enorme fracasso comercial, prova que ontem como hoje o público nem sempre adere à primeira às obras mais inovadoras e brilhantes. Mas o verdadeiro juiz das grandes obras de arte não é o público nem os críticos da sua época: é o tempo. E é o facto de 'Aurora' ter passado esta dura prova que me permitiu vê-lo numa sala repleta, oito décadas depois da sua estreia.
Sunrise: A Song of Two Humans, EUA, 1927. Realização: F.W. Murnau. Com: George O`Brien, Janet Gaynor, Margaret Livingston, Bodil Rosing, J Farrell MacDonald.

6.1.06

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