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4.2.06

Fantasporto 2006



Já está aí a programação do Fantas 2006. O destaque vai inteirinho para a RETROSPECTIVA EXPRESSIONISMO ALEMÃO, que engloba os seguintes filmes:

A Mulher na Lua (Ale/Ger) de Fritz Lang
Aurora (Ale/Ger) de F.W.Murnau
Der Golem (Ale/Ger) de Henrik Galeen, Paul Wegener
Dr Mabuse (Ale/Ger) de Fritz Lang
Fausto (Ale/Ger) de F.W. Murnau
M – Matou (Ale/Ger) de Fritz Lang
Metropolis (Ale/Ger) de Fritz Lang
Nosferatu (Ale/Ger) de F. W. Murnau
Os Nibelundos 1: A Morte de Siegfried (Ale/Ger) de Fritz Lang
Os Nibelungos 2: A Vingança de Cremilde (Ale/Ger) de Fritz Lang

Citações (I)



"Faltar ao trabalho com a justificação que é doente por cinema é mais que justificativo, não é?"

"não me perguntem pela neve (Estava no cinema.)"

3.2.06

Kiss Kiss, Bang Bang



'Kiss kiss, Bang Bang' pretende ser uma paródia aos trillers 'noir', cheios de reviravoltas, com loiras e muitos tiros. É assim, um filme auto-referencial, estando todo o seu programa exposto no titulo - é copiado dum livro da critica Pauline Kael, que por sua vez o tinha ido buscar à série 007.
O narrador (e principal protagonista) aborda directamente o espectador enquanto lhe vai narrando a história, por vezes parando as imagens, por vezes andando para trás, por vezes para a frente, comentando o que se vai passando, etc. Um chico-esperto, em suma, que depressa nos cansa com as suas intromissões. Mas, quanto a mim, este filme tem um problema ainda mais sério: embora ria de si próprio, ri-se sozinho, ou seja dificilmente o espectador esboça mais que um sorriso. Há uma cena paradigmática: o nosso herói pretendendo assustar um 'vilão', põe uma bala na pistola, roda o tambor e dispara. Naturalmente que mata o infeliz, e depois comenta angustiado que a probabilidade era uma em oito. E o espectador ri-se? Não, apenas boceja ligeiramente enquanto pensa, 'esta foi à Tarantino'. E, claro, Tarantino ele próprio, já tinha ido buscar 'estas' a muitos lados, desde os filmes orientais aos Blaxpoitation... Ou seja, quando um filme assume e faz questão de expor todas as suas referências, só há dois caminhos: ou reinventa o género (como Tarantino o fez), ou querendo parodiá-lo (como Shane Black pretende) necessita de muita imaginação e desenvoltura para levar o espectador a entrar no seu jogo. Não bastam cenas requentadas e piadas já gastas!
Feitas as contas, há um unico motivo pelo qual valerá a pena ver este filme: Robert Downey Jr., um actor espantoso que infelizmente passa mais tempo a fazer desintoxicações que a representar...
Kiss Kiss, Bang Bang, E.U.A., 2005. Realização: Shane Black. Com: Robert Downey Jr., Val Kilmer, Michelle Monaghan, Corbin Bernsen, Dash Mihok, Larry Miller, Rockmond Dunbar.

30.1.06

Reis e Rainha



Durante grande parte das 2h30 deste filme estamos a ver dois filmes diferentes que se vão intercalando: um burlesco, kafkiano, sobre um homem, Ismael (grande papel de Mathieu Amalric), que é internado num hospital psiquiátrico sem saber porquê; o outro, dramático, frio, a la Bergman, sobre uma mulher, Nora, que enquanto assiste à morte do pai (grande personagem) vai revendo a sua vida.
O cinema de Desplechin é um cinema extremamente cerebral, em que se nota que tudo foi cuidado ao detalhe, com um lado teatral muito marcante, onde as emoções se tendem a perder. Aqui penso que falha em vários aspectos: nunca acreditei em Nora, a mulher que diz que amou três homens e matou dois deles - pareceu-me apenas uma mulher que não sabia bem o que queria, algo perdida, nunca a personagem bergmiana que o realizador pretendeu construir. Quanto a Ismael, segui com agrado a sua história, mas pareceu-me algo inconsequente, despropositada. Quanto ao elo de ligação entre estas duas personagens/histórias, confesso que também me pareceu pouco convincente, e para dizer a verdade, já nem me interessava muito. Na minha opinião, 'Reis e Rainha' não passa de um divertimento intelectual de Arnaud Desplechin, inteligente, de um virtuosismo e savoir-faire inegáveis, mas não mais do que isso.
Rois et reine, França, 2004. Realização: Arnaud Desplechin. Com: Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Catherine Deneuve, Maurice Garrel, Nathalie Boutefeu, Jean-Paul Roussillon, Magalie Woch.

27.1.06

Livraria (IV)



Já aqui comentámos (e elogiámos) a 1ª edição deste livro. Saiu há uns meses, a tempo das compras de Natal, uma segunda edição 'revista e actualizada'. Folheando o livro não se encontra qualquer nota sobre quais foram as revisões e actualizações e muito menos quais os seus critérios. Bom, cabe então ao leitor, com alguma paciência, fazer o trabalho de casa. Comparando a minha edição (a 1ª) com a da Xispinha (a 2ª), chegámos às seguintes listagens:

Filmes que entram na 2ª Edição:
As aventuras de Priscilla, Rainha do deserto - Stephan Elliott (1994)
O casamento de Muriel- P.J. Hogan (1994)
Shine - Simplesmente genial - Scott Hicks (1996)
Lantana - Ray Lawrence (2001)
Herói - Yimou Zhang (2002)
O Senhor dos Aneis (II) - Peter Jackson (2002)
Oldboy - Chan-wook Park (2003)
Adeus Lenine - Wolfgang Becker (2003)
O Senhor dos Aneis (III) - Peter Jackson (2003)
Fahrenheit 9/11 - Michael Moore(2004)
A Paixão de Cristo - Mel Gibson (2004)
Colateral - Michael Mann (2004)
O Aviador - Martin Scorcese (2004)
Million Dollar Baby - Clint Eastwood (2004)

Filmes da 1ª edição que saem:
Dracula de Bram Stoker - Francis Ford Coppola (1992)
Candyman - Bernard Rose (1992)
A idade da inocência - Martin Scorcese (1993)
Estranhos prazeres - Kathryn Bigelow (1995)
O livro de cabeceira - Peter Greenaway (1996)
Rápido, barato e descontrolado - Errol Morris (1997)
Kundun - Martin Scorcese (1997)
Um mal nunca vem só - Guy Ritchie (1998)
Odishon, Anjo ou demónio - Takashi Miike (1999)
Ataquem a bomba de gasolina - Juyuso Seubgyuksageun (1999)
De olhos bem fechados - Stanley Kubrick (1999)
Irmão, onde estás? - Joel Coen (2000)
A.I. - Steven Spielberg (2001)
Chicago - Rob Marshall (2002)


Dando de barato o critério de pôr filmes de todos os anos, o que implica que entrem filmes posteriores à primeira edição (que é de 2003), pois só assim se pode fazer render o peixe com reedições futuras, há ainda assim muito para se dizer. Em alguns casos até se percebe a lei de 'compensações' levada a cabo no entra/sai: entra um documentário (Fahrenheit), sai outro (Rápido, barato...); entra Scorcese (O Aviador), sai Scorcese (A Idade da Inocência e Kundun); entra um filme coreano (Oldboy), sai um filme coreano (Ataquem a bomba...). No geral, no entanto, os critérios são difíceis de defender. Porque raio em 2003 'O casamento de Muriel' não era digno de figurar no livro, e dois anos depois já é? E contrariamente, porque é que a 'Idade da Inocência' é despromovido? Será que a percepção do que será o 'canone' se alterou em dois anos!? E porque é que Sofia Coppola continua sem ter direito a entrar no clube dos 1001? Sinceramente, e mesmo tendo em conta o caracter subjectivo e mesmo arriscado deste tipo de escolhas, esta 'revisão e actualização' parece-me muito aleatória...

25.1.06

Odete



Depois da consagração em “O Fantasma”, João Pedro Rodrigues regressa a mais um conto urbano. Tal como na primeira obra, a cidade e os seus submundos servem de cenário a relatos aparentemente normais neste contexto mas que vão caminhando por terrenos cada vez mais bizarros.
Conta o percurso convergente de dois personagens. Rui (Nuno Gil) perde o seu namorado Pedro num acidente de automóvel e a partir daí a sua vida perde o rumo e o sentido, o que o conduz a uma vivência de solidão errante e de frieza depressiva. Odete (Ana Cristina de Oliveira) tem um percurso inverso. Evolui da solidão para uma obsessão, através de uma vida virtual quase calculista. Ambos possuem alienação espelhada no olhar, acentuada por uma desligação do mundo real. Aos cenários principais – um supermercado, um cemitério e um bar gay – são dadas novas funções, a versatilidade e o contraste imperam e é revista a noção do sobrenatural.
Muito se falou sobre o desempenho dos actores (para alguns fraco), mas penso que aqui é o labor de realização que sobressai. Não é um filme embriagante, mas o retrato das emoções onde não devem estar e a ausência destas onde seria expectável é muito bem transmitido, apesar de n’”O Fantasma” a corda ter sido mais esticada.
Odete, Portugal, 2005. Realização: João Pedro Rodrigues. Com: Ana Cristina Oliveira, Nuno Gil, Teresa Madruga.

23.1.06

Onde está a verdade?



Lanny Morris (Kevin Bacon) e Vince Collins (Colin Firth) eram os entertainers mais famosos dos anos 50, nomeadamente devido às maratonas televisivas que faziam com objectivos de beneficência. Um dia uma empregada de hotel apareceu morta na banheira da suite onde estavam hospedados - a dupla, então no auge da fama, foi ilibada de qualquer responsabilidade, mas separou-se para sempre. Quinze anos depois, a jornalista Karen O`Connor (Alison Lohman), que participara em criança no último programa de Morris e Collins, tenta descobrir a verdade sobre esse dia fatídico.
'Onde está a verdade' é uma espécie de policial com tons de film noir, embuido de um erotismo pouco comum nos filmes de Hollywood, e proporciona um grande papel a Kevin Bacon. O seu único defeito será o facto de, não obstante ter um desenvolvimento narrativo e cinematográfico sem mácula, ser algo indistinto, não possuindo aquela marca 'autoral' característica dos melhores filmes de Egoyan ('Exotica', 'A viagem de Felicia', 'Futuro Radioso'). Penso mesmo que só se nota o seu dedo em dois pormenores: um é mais especifico - todos os flashbacks da 'tele-maratona da poliomielite’ são Egoyan puro; o outro é mais geral, mais difícil de descrever, tem algo a ver com o mergulhar nos lados mais inconfessáveis, mais obscuros dos seres humanos, que faz com que saiamos deste filme, como de todos de Egoyan, vagamente deprimidos.
Where the Truth Lies, Canadá/Grã-Bretanha/EUA, 2005 Realização: Atom Egoyan. Com: Kevin Bacon, Colin Firth, Alison Lohman, Sonja Bennett, Rachel Blanchard.

20.1.06

Match Point



Ao fim de quarenta anos de carreira, com pelo menos uma dúzia de obras-primas realizadas pelo caminho (e quantos realizadores -actuais ou do passado - se podem gabar do mesmo?), Woody Allen trocou os Estados Unidos pela Inglaterra. A burguesia Nova Iorquina dá lugar à upper class Londrina, devidamente representada por um cast Britânico.
Chris Wilton/Jonathan Rhys-Meyers é um professor de ténis que chega à alta sociedade por via do casamento com a simpática filha de um milionário aristocrata, mas tem fantasias com a americana Nola Rice/Scarlett Johansson. Como ter uma sem abdicar da outra é a questão que se põe a Chris.
'Match Point' é um (muito) bom filme, mas tem um problema: Allen já abordou as questões éticas que lhe estão subjacentes em 'Crimes e Escapadelas', na minha opinião uma das maiores obras-primas que o cinema nos deu nos últimos 30 anos. Não há mal nenhum em um artista voltar a um tema que lhe é caro - e muitos não fizeram outra coisa ao longo da vida. Billy Wilder, para nos cingirmos a outro dos maiores, voltou no final da carreira a filmar uma história sobre uma antiga estrela de cinema (em 'Fedora'), quase 30 anos depois d' 'O crepúsculo dos Deuses'. Mas as semelhanças entre Match Point e 'Crimes...' são muitas: Rhys-Meyers tem exactamente o mesmo problema que teve Martin Landau, resolve-o da mesma forma, e tem as mesmas dúvidas existenciais depois. A sensação de déja vu é inevitável. Se bem que, para sermos sinceros, a moral da história varia um pouco. A de 'crimes e escapadelas' era simples e brutal: o crime compensa e a vida é para quem não tem escrúpulos. Em 'Match point' o crime continua a compensar, a falta de escrúpulos também, mas...desde que se tenha sorte! O genial fim do filme apenas confirma a metáfora inicial do narrador: a vida é como uma partida ténis - por vezes a bola bate na rede e se cai para um lado perdemos, se cai para o outro ganhamos.
Match Point, Estados Unidos/Grã-Bretanha, 2005. Realização: Woody Allen. Com: Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson, Emily Mortimer, Matthew Goode, Brian Cox, Penelope Wilton.

18.1.06

Máquina zero



Sam Mendes, encenador teatral inglês, teve uma entrada de leão em Hollywood: o seu primeiro filme, 'Beleza Americana' foi um sucesso de público e critica e levou para casa 5 Óscares incluindo o de melhor filme e melhor realizador. Naturalmente que lhe seria difícil repetir o sucesso e de facto o seu segundo filme, 'Caminho para a perdição', parece não ter agradado a ninguém. Eu pessoalmente gostei, tal como gostei deste 'Máquina zero', tendo os filmes pelo menos dois pontos em comum: revisitam um género clássico (neste o filme de guerra, naquele o filme negro) e fazem-no muito bem, sendo superiormente realizados e interpretados. Não terão é uma marca autoral tão distinta como 'Beleza Americana', sendo difícil falar de um 'estilo' Sam Mendes, como até certo ponto podemos falar de um 'estilo' Woody Allen, ou Scorcese, ou Spielberg. Pode-se até discutir se 'Beleza Americana' não é muito um filme do argumentista Alan Ball (que é também o criador de 'Sete palmos de terra')...
'Máquina zero' segue o fuzileiro Anthony Swofford (Jake Gyllenhaal) na sua campanha na Guerra do Golfo. Embora seja um atirador de elite, passa meio ano no deserto sem ter oportunidade de dar um único tiro e a sua principal preocupação é combater o tédio. Os seus colegas não são muito diferentes e só pensam na melhor maneira de se divertirem ou, quando se preocupam com algo, é com as namoradas infiéis que estão à solta na América. Exceptuando o sargento (negro) e um ou dois latinos que falam para as câmaras de televisão no seu orgulho por servirem a pátria, ninguém está minimamente interessado na guerra (de que aliás mal se apercebem). É certo que sentem orgulho em ser 'jarheads', mas isso deve-se mais ao sentimento de pertença a um grupo, de estarem integrados numa comunidade, que a outro motivo qualquer.
Embora 'Apocalypse Now' e 'O caçador' sejam referidos durante 'Máquina zero', este está mais próximo de 'Os três reis' do que de qualquer um daqueles. Se os filmes sobre a 2ª guerra mundial eram sobretudo heróicos e patrioticos e os sobre a guerra do Vietname críticos e desencantados, os da guerra do golfo são abertamente cínicos e paródicos.
Jarhead, EUA, 2005. Realização: Sam Mendes. Com: Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard, Laz Alonso, Brian Geraghty, Jamie Foxx, Skyler Stone, Wade Williams, Katherine Randolph, Chris Cooper.

17.1.06

Amor de verão


Duas raparigas lindíssimas. Uma toca 'O Cisne' de Sain-Saens no violoncelo, a outra mora por cima do pub 'O Cisne'. Uma anda a cavalo a outra tem uma mota sem motor. Uma é educada, mimada e cínica a outra é rude e genuína. Para além das diferenças aparentes que as fascinam e atraem está a mesma desorientação adolescente. O sexo, a religião, a desagregação familiar, a morte e a inadaptação são temas que aproximam as duas raparigas e que as ligam numa cumplicidade obsessiva. A banda sonora é excelente: Lovely Head-Goldfrapp (que saudade dos Goldfrapp de Felt Mountain);Três Caravelas - Caetano Veloso; La Foule - Edith Piaf.
Ou o filme é imperdível ou tanta beleza toldou-me os sentidos. Deixo essa dúvida aos leitores.
My Summer of Love, Grã-Bretanha, 2004. Realização: Paul Pavlikovsky. Com: Nathalie Press, Emily Blunt, Paddy Considine, Dean Andrews.