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11.3.06

Mrs. Henderson



Ao contrário do que sucede no campo da literatura, o cinema britânico não é conhecido por ter dado grandes obras-primas ao mundo. De facto, de quantos realizadores ingleses de topo o leitor é capaz de se lembrar? De Hitchcock (que filmou os seus melhores filmes na América), de David Lean e, os mais cinéfilos, de Michael Powell. Se pensarmos em realizadores actuais, não vamos muito além de Mike Leigh, Neil Jordan e Stephen Frears, qualquer um deles bastante irregular. Vem isto a propósito de 'Mrs.Henderson', realizado precisamente por Stephan Frears e interpretado por duas glórias do cinema de terras de Sua Magestade: Judi Dench e Bob Hoskins. Frears, que já tocou em variadissimos géneros, tem uma obra prima no curriculum, o neo-noir 'The grifters' ('Anatomia do Golpe'), e vários outros filmes acima da média ('Ligações perigosas', 'Alta Fidelidade'). Infelizmente, não é o caso deste 'Mrs.Henderson', baseado na história verídica de uma viúva que resolve investir o dinheiro herdado na compra de um teatro, teatro este que se distinguirá em vários aspectos: será o primeiro a exibir sessões contínuas, o primeiro a mostrar 'actrizes' nuas e, finalmente, o único a permanecer aberto durante os bombardeamentos alemães a Londres na 2ª Guerra Mundial. Simultaneamente com a parte histórica, vai-nos sendo mostrada a inevitável parte sentimental - a relação de amor-ódio (mais amor, claro) entre a excêntrica proprietária do teatro e o seu temperamental encenador. Infelizmente o filme nunca descola de uma mediania simpática, de uma competência anónima, estando perigosamente próximo de um telefilme (ousado) da BBC. A passar à frente.
Mrs. Henderson Presents, Grã-Bretanha, 2005. Realização: Stephen Frears. Com: Dench, Bob Hoskins, Kelly Reilly, Will Young, Thelma Barlow, Christopher Guest.

9.3.06

Oscares



Depois do excelente palmarés do ano passado, os Oscares deste ano são para esquecer.
* O filme vencedor (que também levou o Oscar de melhor argumento original atrelado) é um sub-Magnolia fraquinho.
* O realizador vencedor devia ter ganho o prémio há 20 anos atrás com 'Tempestade de Gelo' , esse sim uma obra prima, não agora com 'Brokeback Mountain' . Este filme também proporcionou o Oscar de melhor argumento adaptado para Larry McMurtry, Oscar esse que lhe devia ter sido dado há 35 anos por 'The Last Picture Show' .
* O actor vencedor é um grande actor, mas já não há paciência para papeis pensados ao milímetro para o Oscar.
* Da actriz vencedora não posso falar que ainda não vi 'Walk the line', mas o seu discurso foi anedótico.
* O actor secundário vencedor é um bom actor, um bom realizador, e uma das poucas stars dignas desse nome. E até leva a estatueta por uma personagem interessante . Se é desempenho para Oscar (e porquê actor secundário?) é que tenho mais duvidas...
* A actriz secundária vencedora...bom! Deve ter sido o Oscar mais fácil de ganhar de sempre! Qual a dificuldade daquele papel!?

3.3.06

Amor em fuga



'Amor em fuga', de 1979, é o último capítulo duma aventura sem paralelo na história do cinema: a aventura em cinco 'episódios' da vida de Antoine Doinel, iniciada vinte anos antes com 'Os 400 golpes'. Este último filme não é o melhor da série - talvez se possa mesmo dizer que nenhum filme do 'ciclo Doinel' é tão bom como o anterior. É, no entanto, um filme estranho e muito original - um filme para amantes de Truffaut (onde se inclui o autor destas linhas). Há aqui uma espécie de resumo da vida de Doinel, sendo intercaladas cenas do seu passado (tiradas dos outros 4 filmes com esta personagem - brilhante ideia) e reaparecendo mesmo personagens dos anteriores filmes - Colette (de 'Antoine e Colette') e um antigo amante da mãe, M.Lucien (que aparecia brevemente n´'Os 400 golpes'). Uma das cenas mais marcantes do filme tem aliás lugar quando Doinel e Lucien visitam a campa da mãe de Doinel, e Lucien lhe diz que a mãe o amava a seu modo. É impossível não vermos aqui uma reconciliação de Truffaut com a sua mãe (dois alertas, no entanto: 1 - Antoine Doinel é das personagens menos sentimentais que eu já vi; impulsivo, nunca pára para pensar!; 2 - Embora o Doinel d´'Os 400 golpes' tenha inegavelmente muito de Truffaut, o dos últimos filmes tem tanto ou mais de Jean-Pierre Léaud, o actor que o interpretou ao longo de vinte anos).
Truffaut, ao contrário do público que fez dele um sucesso, nunca ficou satisfeito com o filme e chamou-lhe mesmo 'uma fraude'. Não concordando com Truffaut (e nem sempre o autor é quem tem razão nestes casos!), penso que percebo, pelo menos parcialmente, porquê: talvez neste, mais que em qualquer outro dos seus filmes, se compreenda a frase que um dia o realizador disse: "Quando estão terminados, apercebo-me que os meus filmes são sempre mais tristes do que eu pensava".
L´Amour en fuite, França, 1979. Realização: François Truffaut; Com: Jean-Pierre Léaud, Marie-France Pisier, Barnerias Dorothee, Rosy Varte, Claude Jade, Marie Henriau, Lucien Julien Bertheau, Daniel Mesguich.

2.3.06

Capote



A minha motivação para ir ver um ‘biopic’ depende muito do meu interesse pelo biografado. Sendo que o género tem dados algum dos maiores pastelões da história de Hollywood, só muito dificilmente sairei de casa para assistir a um. Neste caso abri uma excepção precisamente por o filme ser sobre quem é: Truman Capote. Acho ‘A sangue frio’ um excelente livro e gostei muito de ‘Boneca de luxo’ ('Breakfast at Tiffany's'), filme de Blake Edwards com a bela Audrey Hepburn, baseado na novela homónima daquele escritor.
Em boa verdade, este filme do estreante Bennett Miller cobre apenas meia dúzia de anos da vida de Capote, os anos em que ele escreveu ‘A sangue frio', romance-documental sobre o assassinato de uma família inteira numa terreola do Kansas por dois ex-presidiários. O filme centra-se essencialmente no relacionamento de Capote, personagem sui generis, afectada, como modos de dandy e uma auto-confiança ilimitada, com um dos assassinos, por quem ficou fascinado, com quem se identificou devido à infância difícil que ambos tinham tido e ao seu lado ‘sensível’. Esta abordagem é bastante interessante, focando vários temas sem entrar pela psicologia barata: a atracção algo doentia de Capote por um assassino, mas também o seu calculismo (quando já tinha tudo o que precisava do seu ‘protegido’ desinteressa-se do seu destino) e a sua ambição: antes de tudo o mais queria escrever um grande livro e sabia que o conseguiria. Tudo o resto só lhe interessava desde que fosse útil para este objectivo.
Obviamente, 'Capote' é principalmente e antes de mais nada, um ataque do mais genial secundário do actual cinema Americano, Philip Seymour Hoffman, ao Óscar. Ao que parece (nunca vi ou ouvi filmagens de Truman Capote) este mimetiza até ao milímetro os tiques e a voz do escritor que interpreta e, de qualquer modo, compõe uma personagem absolutamente credível, transmitindo na perfeição o seu lado ‘bigger than life’. Papel para Óscar, sem sombra de dúvida, mas que terá um adversário de peso: Joaquim Phoenix…interpretando Johny Cash, no outro biopic do ano! Dia 5 se verá.
Capote, E.U.A., 2005. Realização: Bennett Miller; Com: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper.

28.2.06

Fantasporto - Simpathy for Lady Vengeance



'Simpathy for Lady Vengeance' é o último filme da trilogia sobre vingança do coreano Park Chan-wook, depois de 'Sympathy for Mr. Vengeance' (penso que ainda inédito entre nós) e 'Oldboy', uma das surpresas da passada temporada cinematográfica. Os meus sentimentos em relação a este filme foram-se alterando durante o seu visionamento. Inicialmente, a sua exuberante fotografia e a imponente banda sonora fizeram-me pensar em Wong Kar-Wai (e este, apesar do seu universo ser completamente diferente, parece-me uma influência incontornável do cineasta coreano); depois, pareceu-me que era Park Chan-wook a imitar Park Chan-wook, uma história de vingança a milhas da do seu filme anterior; mas, finalmente, quando chegou a hora da vingança propriamente dita, aquela pela qual o espectador de 'Oldboy' ansiava, aí sim, já me pareceu estar presente perante um filme de Park Chan-wook! Não sendo a vingança tão elaborada nem original como em 'Oldboy' (é mesmo uma variação sofisticada de um tema de... Agatha Christie!), é ainda assim surpreendente e fascina o espectador. Com a diferença de esta vez o realizador nos pôr a rir. Não com cenas disparatadas, mas com planos de tortura, com modos de assassinato! Park Chan-wook a rir-de de Park Chan-wook? Provavelmente. O que se perdeu em concisão e surpresa relativamente a 'Oldboy', ganhou-se em elaboração formal a todos os níveis neste 'Simpathy for Lady Vengeance'. Não obstante, eu continuo a preferir o primeiro.
De qualquer modo, e se dúvidas ainda existissem, aqui está mais um evidência de que o mais insólito cinema da actualidade vem da Ásia, quer seja do japonês Takeshi Miike ou do Coreano Park Chan-wook. Aliás tenho pena de não ter assistido também aqui no Fantas ao filme em 3 episódios 'Three...extremes', que junta precisamente estes dois realizadores e o chinês Fruit Chan, sobre o tema da crueldade...
Chinjeolhan geumjassi, Coreia do Sul, 2005. Realização: Park Chan-wook. Com: Choi Min-sik, Yeong-ae Lee, Song Kang-ho, Shin Ha-kyun, Bae Du-n.

26.2.06

Syriana



Syriana é um triller politico sobre a promiscuidade entre os interesses das corporations e os de governos mais ou menos corruptos, sejam eles de países do terceiro mundo ou o governo Americano, itself. O filme é estruturado em 'mosaico', como agora se usa dizer, ou o seu realizador e argumentista não fosse Stephen Gaghan, o argumentista de Traffic (filme que lhe deu o Óscar de melhor argumento adaptado, para o qual foi novamente nomeado com Syriana). Naturalmente, um filme político sobre negócios sujos, hoje em dia só pode girar à volta de um tema: o petróleo, pois claro. A fusão de duas petrolíferas é o mote que desencadeia toda a teia de acontecimentos, e vamos seguindo várias personagens, que têm esse centro gravitacional em comum: um veterano agente da CIA; um discreto mas implacável advogado que investiga comportamentos ilegais das grandes companhias (não necessariamente para as incriminar - tudo aqui é uma questão de interesses); um especialista em assuntos energéticos que se torna consultor de um jovem Emir Árabe que quer alterar as regras no seu país, fugindo à orbita Americana; dois jovens árabes desempregados que acabam nas malhas do terrorismo islâmico; etc.
Como já foi visto, o tema não podia estar mais na ordem do dia. Quanto ao resto, diga-se que a realização é competente, o argumento intrincado e vagamente confuso como convém, e não há nada fora do sítio, mas também nada de muito exaltante ou original. As duas horas do filme passam-se bem, mas depois dificilmente voltaremos a pensar nele (o que não é muito abonatório para um filme 'de mensagem'). Aliás, só não terá passado mais despercebido devido ao envolvimento de George Clooney no projecto (Matt Damon também é um dos actores do filme, só faltando Alec Baldwin para completar o naipe de liberais de Hollywood implacavelmente satirizado em Team America!). Clooney, além de produtor (tal como Steven Soderbergh), compõe também a personagem mais marcante do filme, um agente da CIA desiludido, gordíssimo e com uma espessa barba descuidada, nos antípodas da sua imagem de galã. Esta personagem deu-lhe a nomeação para melhor actor secundário, proporcionando assim muito maior visibilidade ao filme, nitidamente um projecto onde se empenhou pessoalmente e que o confirma cada vez mais como uma estrela com 'consciência politica', assim uma espécie de sucessor de Warren Beatty.
Syriana, E.U.A., 2005. Realização: Stephen Gaghan. Com: George Clooney, Matt Damon, Jeffrey Wright, Chris Cooper, Mazhar Munir, Alexander Siddig, Christopher Plummer, Amanda Peet, William Hurt, Tim Blake Nelson.

25.2.06

Fantasporto (II)



Apesar da abertura oficial do Fantasporto 2006 apenas ter ocorrido ontem à noite, um dos eventos mais apetecíveis desta edição já se desenrolou ao longo da semana passada - a já aqui referida 'RETROSPECTIVA EXPRESSIONISMO ALEMÃO'. Como ainda não tinha tido oportunidade de assistir a qualquer sessão, ontem ataquei uma jornada dupla: primeiro 'Fausto' (1926) e depois 'Nosferatu' (1922), ambos de F.W.Murnau, um dos maiores (para muitos o maior) cineastas do mudo. 'Nosferatu' será porventura a mais conhecida obra de Murnau, e tem algumas das imagens mais iconográficas da história do cinema. Mais de oitenta anos e toneladas de efeitos especiais depois, ainda não foi realizada uma versão de 'Drácula' que se lhe compare. Quanto a 'Fausto', foi para mim uma revelação. Nunca tinha visto este filme e, numa palavra, fiquei deslumbrado.
Mas mais do que falar dos filmes, sobre os quais já quase tudo foi dito, gostaria de me referir às cópias apresentadas. No programa do Fantas é indicado: v.o. leg.espanhol para 'Fausto' e v.o.leg.inglês para 'Nosferatu. Sendo ambos os filmes mudos, a indicação versão original só se poderá referir aos entretítulos, penso eu! Ora não foi isso que aconteceu: não havia legendas, mas sim os próprios entretítulos eram em espanhol e inglês, o que não é rigorosamente a mesma coisa. Não se trata de um preciosismo ou esquisitice da minha parte - os entretítulos eram parte integrante do trabalho criativo dos autores do mudo, como pode facilmente constatar quem assistiu ao recentemente reposto nas salas 'Aurora', em que por exemplo numa frase em que se falava dum afogamento, as próprias letras iam caindo, como que afundando-se. Os entretitulos dos filmes de outro mestre do mudo, D.W.Griffith, tinham inclusivamente a sua assinatura estampada! Se no caso de 'Nosferatu' os entretítulos, ingleses, ainda eram cuidados, com um tipo de letra usado na altura (talvez reproduzindo os originais), no caso de 'Fausto', em espanhol, eram uma desgraça, com uma letra tipo Times New Roman ou algo no género, ainda por cima com uma tradução que me pareceu descuidada.
Mais grave ainda, na minha opinião, é outro aspecto: as bandas sonoras que acompanharam ambos os filmes. Para começar não há qualquer indicação sobre elas no programa, e se na de 'Nosferatu' é indicado no início do filme quem a compôs e executou, na de 'Fausto' ficamos na mais completa ignorância. Sendo moda hoje em dia compor bandas sonoras para filmes mudos, é preciso ter um enorme cuidado e sensibilidade ao faze-lo. Não nos esqueçamos que se está a adicionar a uma obra de arte um elemento em que o seu criador não pensou, sendo assim de certo modo uma alteração daquela. Devido a isto e ao facto da maior expressividade dos actores do mudo, o compositor de musicas para filmes mudos, mais que que ninguém, deveria ter sempre presente a máxima de Robert Bresson: 'o que é para o olhar não deve ser redundante com o que é para o ouvido'. Infelizmente este conselho não foi seguido pelos autores das bandas sonoras que acompanharam estes filmes, ambas oriundas da música electrónica, sendo bastante impositivas e sobrepondo-se irritantemente às imagens, nomeadamente na primeira meia hora de 'Fausto'. Os seus autores esqueceram-se que as pessoas pagam bilhete para assistir a um filme, não para ouvir música acompanhada de imagens.
Não obstante estas duas obras-primas sobreviverem a isto e muito mais, não podemos deixar de lamentar a falta de cuidado da organização do Fantas com as cópias que apresentou. Se já seria um desleixo grave numa sala normal, então no âmbito de um festival de cinema...

22.2.06

Os três enterros de um homem



O argumentista deste filme é Guillermo Arriaga, conhecido por baralhar as coordenadas espacio-temporais das suas histórias, ora com muito bons resultados (Amor cão), ora com muito maus (21 gramas). Aqui só se nota a sua 'marca' no inicio do filme, em que demoramos algum tempo a perceber o que é que se passa quando. Depois disso, a complexidade está toda guardada para a narrativa em si, e não para a forma como esta se desenrola. E ainda bem. 'Os três enterros...' é um 'filme de fronteira', género com tradição própria em Hollywood (exemplo próximo e óbvio: 'Um corpo no deserto' de John Sayles). Passa-se entre a fronteira do Texas (onde um cego ouve um relato de um jogo de futebol em espanhol, apesar de não entender uma palavra) e o México (onde uns miudos assistem a uma soap opera apesar de não perceberem nada) e o seus protagonistas são Mexicanos que buscam emprego nos States, guardas fronteiriços e vaqueiros. E a paisagem claro, fotografada magnificamente por Chris Menges em tons baços e quentes, que nos remete para o universo dos westerns. Tanto assim é que quando uma personagem olha para uma montra com plasmas até estranhamos, pois já tínhamos recuado instintivamente 50 anos, apesar de a acção se passar nos dias de hoje.
Tommy Lee Jones, que aqui se estreia na realização cinematográfica, citou como sua principal influência Sam Peckinpah e faz sentido: não só o titulo original ecoa o Peckinpahniano 'Bring Me the Head of Alfredo Garcia', como a violência e a secura daquele estão todas aqui, embora de um modo mais subtil. Como em todo os bons filmes há vários níveis de interpretação neste, e todas as personagens são mais complexas do que parecem à primeira vista: o assassino de Melquiades Estrada é um homem racista e violento, mas acaba por encontrar a redenção; Peter Perkins (Tommy Lee Jones), a única pessoa que procura a verdade e quer cumprir o desejo de um amigo morto, revela aqui e ali traços de um carácter mórbido e até violento; e mesmo Melquiades, que só queria ser enterrado na sua terreola não era quem parecia ser. Os próprios secundários relevam maior profundidade do que aparentavam (o xerife que não queria chatices; a mulhera adultera-grande personagem; a mulher do assassino).
Não obstante ser um pouco longo demais, 'Os três enterros de um homem' mostra-nos que um grande actor pode ser um grande realizador. E temos o exemplo de Clint Eastwood...
The Three Burials of Melquiades Estrada, Estados Unidos/França, 2005. Realização:Tommy Lee Jones. Com: Tommy Lee Jones, Barry Pepper, Julio Cedillo, Dwight Yoakam, January Jones, Melissa Leo, Vanessa Bauche, Levon Helm.

17.2.06

O Segredo de Brokeback Mountain



"Brokeback Mountain" é um filme politico no sentido em que 'Filadélfia' o era. Dito de outra maneira, é um sinal dos tempos, apesar de se passar entre os anos 60 e os 80 (em boa verdade a acção parece passar-se muito antes, pois como se sabe há várias Américas e este filme passa-se na profunda, não na Nova Iorque de Andy Warhol). Posto isto, pode-se dizer genuinamente que "Brokeback Mountain" é uma história de amor impossível, um melodrama, e não um 'filme gay'. Ang Lee pega no assunto com pinças, mostra o que tem a mostrar (sexo entre os dois protagonistas, por exemplo), mas quase tudo aqui é elíptico e subentendido. Estamos longe do universo de um Todd Haynes, por exemplo. Na minha opinião é até elíptico demais: temos dois homens que se amam, que se encontram de longe em longe e pronto. Sabemos que ao longo de vinte anos o amor não esmorece (por ser proibido?), sabemos que se vão tentando adaptar à vidinha, mas não os conhecemos suficientemente bem para sentir o seu drama. Os westerns (é discutível que estejamos perante um western, mas a comparação faz sentido) com os seus grande espaços sempre foram propícios à contemplação e ao laconismo, mas Ang Lee exagera e o filme arrasta-se muito. Eu sei que a ideia é mesmo mostrar a passagem do tempo (estranhamente os protagonistas não envelhecem! - exceptuando Jack deixar crescer um bigode 'gay'), mas por vezes cai-se no decorativo, no repetitivo, como se o realizador tivesse metido o cruise control. Não se escapa também a alguns estereótipos arreigados. Exemplo: mal um protagonista se senta num bar a afogar as mágoas numa caneca de cerveja, logo uma moçoila compreensiva se senta ao seu colo, pronta para lhe oferecer compreensão e o que mais ele quiser. Não era mau que a vida fosse assim!
Depois da semi-desilusão 'Match Point', a desilusão 'Brokeback Mountain'. O ano não está a começar bem...
Brokeback Mountain, E.U.A., 2005. Realização: Ang Lee. Com: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid.

12.2.06

Shopgirl - Uma Rapariga Cheia de Sonhos



Tem-se assistido nos últimos anos à recuperação de actores conhecidos por fazerem filmes supostamente cómicos mas que não iam para além da boçalidade, para interpretarem personagens sofisticadas, cínicas, desencantadas e adormecidas. Nada mais fácil para um actor caído no esquecimento do que interpretar-se a ele próprio. Steve Martin começa agora a fazer um percurso semelhante ao de Bill Murray numa tentativa consciente ou não de credibilização. Shopgirl tem várias semelhanças com Lost in Translation mas Steve Martin (que também assina o argumento) não tem o mesmo carisma de Bill Murray. Martin construíu uma estória com o formato clássico do trio amoroso. A originalidade de Shopgirl é que nenhuma das partes tem consciência de que esse triângulo exista. A personagem feminina é a única com ilusões em relação ao amor. Ela é ingénua mas forte e verdadeira e tem a qualidade rara de conseguir revelar o melhor das pessoas com quem se relaciona. Ironicamente ela é a única que fica a perder. Shopgirl é uma estória com um ritmo linear. As personagens mantêm um registo discreto, não há twists, não há grandes momentos cómicos ou trágicos. Duas pessoas simplesmente cruzam-se e estabelecem uma ligação. Simples e perturbador.
Shopgirl, EUA, 2005. Realização: Anand Tucker. Com: Steve Martin, Claire Danes, Jason Schwartzman.