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29.3.06

Terapia do amor



Contam-se pelos dedos de uma mão as actrizes que me levam a levantar do sofá e ir ao cinema ver qualquer filme em que entrem. Uma delas, os meus leitores mais fieis já sabem quem é - Scarlett Johansson. Outra, amor mais antigo, é Uma Thurman. A primeira é a nova musa de Woody Allen, a segunda foi eleita por Tarantino – estou bem acompanhado, como se vê. Mas como nem só com génios pode trabalhar uma diva de Hollywood, de vez em quando lá temos que arriscar e ir ver filmes em que as meninas entram, e que se não fosse por esse motivo jamais nos passaria pela cabeça vê-los na televisão, quanto mais dar 5€ e ir a um Shopping a um Domingo à tarde. Vem isto a propósito de ‘Terapia do amor’, escrito e realizado pelo (para mim) desconhecido Ben Younger. Uma Thurman é uma rica e sofisticada recém-divorciada que conta à sua terapeuta (Meryl Streep) as suas aventuras e desventuras com o novo namorado, 14 anos mais novo. A terapeuta, por sua vez anda preocupada com a nova namorada do seu filho que, além de ser mais velha que ele…não é judia! Naturalmente que não tardará a descobrir que esta última não é senão a sua paciente. O ponto de partida, como se vê é interessante e com potencial - nas mãos de um Woody Allen daria sem dúvidas pano para mangas. O problema é que Ben Younger não tem pernas para estas andanças, ao fim de meia hora já esgotou tudo o que a sua ideia tinha para dar e o filme anda a engonhar o resto do tempo. Uma vez que Meryl Streep apenas cumpre os mínimos, com uma composição algo caricatural e que o rapazito (Bryan Greenberg) não é mau actor mas é bastante desinteressante, resta-nos então, pois claro, Uma Thurman. Esta, aos 35 anos (e representando uma mulher de 37!) está mais bela e sensual que nunca (e nisso há que dar mérito ao realizador, pelo casting perfeito) e, acrescente-se por elementar justiça, é também uma muito boa actriz, pelo que vale cada cêntimo dos 5 euros e cada segundo dos 105 minutos que dispendemos com este filme.
Prime, E.U.A, 2005. Realização: Ben Younger. Com: Uma Thurman, Meryl Streep, Bryan Greenberg, Jon Abrams, Adriana Biasi, David Younger, Palmer Brown, Zak Orth.

24.3.06

Uma História de Violência



Tem-se dito a propósito deste filme que não parece um filme de Cronenberg. Eu concordo na medida em que ao ver o filme me foram passando vários realizadores pela cabeça, mas nunca o próprio Cronenberg. Na 'primeira parte' do filme, chamemos-lhe assim, pareceu-me que estava perante uma versão contemporânea de um tema clássico dos velhinhos westerns: um homem aparentemente normal mas que um acontecimento excepcional força a revelar uma faceta oculta e nos faz suspeitar de um passado misterioso. Depois na 'segunda parte', quando faz a viagem para fora da sua terra, uma sucessão de realizadores começou a vir-me à cabeça: Lynch (o encontro no bar), Kubrick (na viagem até à casa onde é levado), Tarantino (ou mais precisamente, uma paródia a Tarantino, em todas as cenas dentro da casa) e, no final, Spielberg. Só refiro isto para mostrar a minha dificuldade em 'encaixar' o filme, quer na obra de Cronenberg quer onde quer que seja. Para já, digo apenas que há muito tempo que não me sentia tão agarrado a ver um filme.
'Uma História de Violência' pode ser visto muito para além da sua visão mais imediata, como o título original deixa entrever. É, antes de mais, um filme sobre a contaminação pela violência. Quem entra no seu círculo, no seu raio de acção, nunca mais se consegue libertar dela. Tom Stall (Viggo Mortensen), desde logo, mas também a sua família, o seu filho e a sua mulher. O modo como o filho de Tom passa da ironia como arma de defesa, ao uso dos punhos, não pode deixar de ser visto como uma acção do pai, quer seja pelo seu 'exemplo' (involuntário) quer seja mesmo pelos genes! E que dizer da reacção da sua mulher (magnifica Maria Bello, que impregna o filme com um erotismo incomum) perante o seu 'novo' marido? Da sua mágoa, mas também da sua atracção (sexual) pelo homem capaz de violências insuspeitas - a fortíssima cena das escadas....? E dos seus conterrâneos, que o transformam num herói? Não é possível estar cara a cara com a violência e voltar atrás, voltar a ser inocente por assim dizer. Metáfora mais lata, aplicável a sociedades ou governos? Talvez, mas para mim verdade mais interessante quando aplicada ao individuo. A cena em que Tom sai da casa e se vai lavar no lago é crucial. Significa um 'baptismo' que inicia uma nova vida? Uma purificação para continuar em frente? Mas se 3 anos no deserto não foram suficientes, como poderá sê-lo este gesto? Tom é acolhido de volta ao lar, sem dúvida, mas o lar já não é o mesmo do inicio do filme e, significativamente, quem o reintegra é a única pessoa que permanece inocente.
Em Março está já encontrado o filme do ano? Suspeito bem que sim...
A History of Violence, E.U.A., 2005. Realização: David Cronenberg. Com: Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris, William Hurt, Ashton Holmes, Heidi Hayes, Peter MacNeill, Stephen McHattie, Greg Bryk.

22.3.06

Chupa no dedo


"Chupa no dedo" é uma tradução infeliz do título original "Thumbsucker". É a história de um adolescente que não perdeu o resquício infantil de chuchar no dedo sempre que a vida parece estar contra ele. Os americanos chamam "Pacifier" à chucha, os Ingleses usam a palavra "Dummy". "Chupa no dedo" fez sucesso nos festivais de Berlin, Cannes e Sundance. Trata os problemas comuns dos adolescentes de forma séria embora sem grande originalidade e cai nos habituais códigos deste género de filmes. Destaques para Tilda Swinton que ficou conhecida pelo papel em Orlando e que protagoniza Nico num filme a estrear sobre a modelo-cantora dos Velvet Underground, e para a banda sonora com três músicas originais que Elliot Smith compôs antes de morrer.
Thumbsucker, E.U.A., 2005. Realização: Mike Mills. Com: Lou taylor Pucci, Tilda Swinton, Vincent D'Onofrio, Keanu Reeves.

Boa Noite, e Boa Sorte



Este é o segundo filme do ano de George Clooney enquanto liberal empenhado. Em Syriana era produtor e actor, aqui é também argumentista e realizador.
‘Boa noite e boa sorte’ é um filme estranho, filmado a preto e branco, económico na duração, nas palavras, no cenário, apresentando-se como um falso documentário. Baseando-se em factos reais, o dia a dia da equipa do programa ‘See It Now’ de Edward R. Murrow, que se atreveu a enfrentar directamente o sinistro senador McCarthy em plena época de caça às bruxas, o filme encena um dispositivo bastante interessante: se Murrow e a sua equipa são, naturalmente, interpretados por actores, já o senador McCarthy é…ressuscitado através de imagens de arquivo! O facto de só o vermos na televisão, permite esta opção de George Clooney que reforça o lado pseudo-documental do filme, remetendo o espectador para uma twilight zone entre ficção e realidade. O filme está apenas interessado em mostrar a coragem e capacidade de resistência de um homem, e sendo assim dispensa tudo o que é acessório mostrando-nos apenas uma série de episódios, de momentos chave que interessam. Não há bem uma história com princípio meio e fim – aliás quando eu o fui ver, já ia o genérico final a meio e ainda ninguém se tinha levantado, os espectadores apanhados de surpresa por um final abrupto e aberto. O maior trunfo do filme – este lado de falso documentário (politico) – é também a sua maior limitação, sabendo o filme a pouco. De uma obra de ficção exige-se mais arrojo que de um documentário, acho eu. Ainda assim é um filme diferente, com pormenores magníficos (Murrow passa literalmente o tempo todo a fumar - hoje em dia talvez não lhe fosse tão arriscado atacar alguém poderoso, mas ser-lhe-ia impossível sequer acender um cigarro no estúdio - venenosa farpa de Clooney) e com um fantástico elenco, que revela aos que andávamos distraídos, um grande actor: David Strathairn que desempenha discreta mas espantosamente o papel de Murrow. Se outros motivos não houvesse (e há), só por ele o filme já valia a pena.
Good Night, and Good Luck, E.U.A., 2005. Realização: George Clooney. Com: David Strathairn, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Ray Wise, Frank Langella, Jeff Daniels, George Clooney.

17.3.06

Walk the line



'Walk the line' está imbuído de música do inicio ao fim. As canções de Johnny Cash (e de June Carter) impõem um ritmo contagiante ao filme, pondo o espectador a bater o pé durante as suas duas horas e um quarto. Mas não se pense que estamos perante um alinhamento de canções que têm uma história por trás como pretexto, uma sucessão de videoclips. Nada mais longe da verdade. 'Walk the line' consegue-nos guiar por alguns recantos marcantes da personalidade e da vida de Johnny Cash, dando-nos também de passagem um retrato duma certa América puritana e conservadora.
Tal como 'Capote' se concentra na meia dúzia de anos em que o escritor escreveu 'A sangue frio', este filme também se centra principalmente num período relativamente curto da vida de Cash: os anos em que conheceu, se apaixonou e tentou conquistar June Carter. Foram os anos da fama, das digressões com Jerry Lee Lewis, com Roy Orbison, com Elvis, mas também anos de desequilíbrio, de drogas e álcool, com o casamento com uma mulher que nunca esteve na mesma onda que ele a deteriorar-se e, sempre, sempre com a sombra do pai, um homem que toda a vida lhe minou a auto-estima, a pairar sobre ele. Em pólos opostos, são as duas figuras centrais da sua vida naquela época, e o realizador sublinha isso na cena final entre o cantor e o pai, depois da estabilidade que June lhe trouxe, que é discretamente genial.
Claro que é impossível falar deste filme sem falar dos seus actores: Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon. Ganham a aposta de (alto) risco de James Mangold de os pôr a eles próprios a cantar as canções de Johnny e June e, mais do que isso, transformam-se mesmo em Johnny e June. Se existe algo como um casting perfeito, está aqui um exemplar. E, na minha opinião, ficou por atribuir o Oscar a Joaquin Phoenix , indiscutivelmente um dos maiores actores da actualidade. E fala-vos o fã número um de Philip Seymour Hoffman!
Walk the line, E.U.A., 2005. Realização: James Mangold. Com: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick, Dallas Roberts, Dan John Miller, Larry Bagby, Shelby Lynne.

13.3.06

Coisa ruim



'Coisa ruim', que abriu a última edição do Fantasporto, é uma coisa rara: um filme fantástico português. Passado numa pequena povoação perdida no monte, para onde um professor resolve ir morar com a família depois de lá herdar um velho casarão, o filme remete-nos desde o inicio para o característico mundo do Portugal profundo, com as suas superstições, as suas lendas, o seu catolicismo medieval, habitado por pessoas fechadas e desconfiadas. Um mundo que remete para a nossa infância e acorda algo num canto da nossa memória há muito nublado. Mais do que pretender assustar o espectador com surpresas ou truques, os realizadores vão antes envolvendo-o neste clima de diz-se que, de indícios, de coisa entrevistas, de pressentimentos, de fantasmas. E se o espectador não se sente verdadeiramente assustado, sente-se no entanto envolvido numa estranha atmosfera sobrenatural, é levado para uma zona de fronteira do racional e do irracional que se torna inquietante. Tudo isto se deve, não tanto ao argumento, enésima variação do tema 'casa assombrada' embora com o necessário golpe de asa de o enquadrar esplendidamente neste ambiente muito português, mas acima de tudo à excelente realização de Tiago Guedes e Frederico Serra. Porque, diga-se, este é um filme muito bem filmado, com belos planos e enquadramentos, com transições imaginativas, com uma montagem irrepreensível, optando sempre pelo eliptico em vez do demonstrativo. Uma grande surpresa.
Coisa Ruim, Portugal, 2006. Realização: Tiago Guedes e Frederico Serra. Com: Adriano Luz, Manuela Couto, Sara Carinhas, Afonso Pimentel, João Santos, José Pinto.

11.3.06

Mrs. Henderson



Ao contrário do que sucede no campo da literatura, o cinema britânico não é conhecido por ter dado grandes obras-primas ao mundo. De facto, de quantos realizadores ingleses de topo o leitor é capaz de se lembrar? De Hitchcock (que filmou os seus melhores filmes na América), de David Lean e, os mais cinéfilos, de Michael Powell. Se pensarmos em realizadores actuais, não vamos muito além de Mike Leigh, Neil Jordan e Stephen Frears, qualquer um deles bastante irregular. Vem isto a propósito de 'Mrs.Henderson', realizado precisamente por Stephan Frears e interpretado por duas glórias do cinema de terras de Sua Magestade: Judi Dench e Bob Hoskins. Frears, que já tocou em variadissimos géneros, tem uma obra prima no curriculum, o neo-noir 'The grifters' ('Anatomia do Golpe'), e vários outros filmes acima da média ('Ligações perigosas', 'Alta Fidelidade'). Infelizmente, não é o caso deste 'Mrs.Henderson', baseado na história verídica de uma viúva que resolve investir o dinheiro herdado na compra de um teatro, teatro este que se distinguirá em vários aspectos: será o primeiro a exibir sessões contínuas, o primeiro a mostrar 'actrizes' nuas e, finalmente, o único a permanecer aberto durante os bombardeamentos alemães a Londres na 2ª Guerra Mundial. Simultaneamente com a parte histórica, vai-nos sendo mostrada a inevitável parte sentimental - a relação de amor-ódio (mais amor, claro) entre a excêntrica proprietária do teatro e o seu temperamental encenador. Infelizmente o filme nunca descola de uma mediania simpática, de uma competência anónima, estando perigosamente próximo de um telefilme (ousado) da BBC. A passar à frente.
Mrs. Henderson Presents, Grã-Bretanha, 2005. Realização: Stephen Frears. Com: Dench, Bob Hoskins, Kelly Reilly, Will Young, Thelma Barlow, Christopher Guest.

9.3.06

Oscares



Depois do excelente palmarés do ano passado, os Oscares deste ano são para esquecer.
* O filme vencedor (que também levou o Oscar de melhor argumento original atrelado) é um sub-Magnolia fraquinho.
* O realizador vencedor devia ter ganho o prémio há 20 anos atrás com 'Tempestade de Gelo' , esse sim uma obra prima, não agora com 'Brokeback Mountain' . Este filme também proporcionou o Oscar de melhor argumento adaptado para Larry McMurtry, Oscar esse que lhe devia ter sido dado há 35 anos por 'The Last Picture Show' .
* O actor vencedor é um grande actor, mas já não há paciência para papeis pensados ao milímetro para o Oscar.
* Da actriz vencedora não posso falar que ainda não vi 'Walk the line', mas o seu discurso foi anedótico.
* O actor secundário vencedor é um bom actor, um bom realizador, e uma das poucas stars dignas desse nome. E até leva a estatueta por uma personagem interessante . Se é desempenho para Oscar (e porquê actor secundário?) é que tenho mais duvidas...
* A actriz secundária vencedora...bom! Deve ter sido o Oscar mais fácil de ganhar de sempre! Qual a dificuldade daquele papel!?

3.3.06

Amor em fuga



'Amor em fuga', de 1979, é o último capítulo duma aventura sem paralelo na história do cinema: a aventura em cinco 'episódios' da vida de Antoine Doinel, iniciada vinte anos antes com 'Os 400 golpes'. Este último filme não é o melhor da série - talvez se possa mesmo dizer que nenhum filme do 'ciclo Doinel' é tão bom como o anterior. É, no entanto, um filme estranho e muito original - um filme para amantes de Truffaut (onde se inclui o autor destas linhas). Há aqui uma espécie de resumo da vida de Doinel, sendo intercaladas cenas do seu passado (tiradas dos outros 4 filmes com esta personagem - brilhante ideia) e reaparecendo mesmo personagens dos anteriores filmes - Colette (de 'Antoine e Colette') e um antigo amante da mãe, M.Lucien (que aparecia brevemente n´'Os 400 golpes'). Uma das cenas mais marcantes do filme tem aliás lugar quando Doinel e Lucien visitam a campa da mãe de Doinel, e Lucien lhe diz que a mãe o amava a seu modo. É impossível não vermos aqui uma reconciliação de Truffaut com a sua mãe (dois alertas, no entanto: 1 - Antoine Doinel é das personagens menos sentimentais que eu já vi; impulsivo, nunca pára para pensar!; 2 - Embora o Doinel d´'Os 400 golpes' tenha inegavelmente muito de Truffaut, o dos últimos filmes tem tanto ou mais de Jean-Pierre Léaud, o actor que o interpretou ao longo de vinte anos).
Truffaut, ao contrário do público que fez dele um sucesso, nunca ficou satisfeito com o filme e chamou-lhe mesmo 'uma fraude'. Não concordando com Truffaut (e nem sempre o autor é quem tem razão nestes casos!), penso que percebo, pelo menos parcialmente, porquê: talvez neste, mais que em qualquer outro dos seus filmes, se compreenda a frase que um dia o realizador disse: "Quando estão terminados, apercebo-me que os meus filmes são sempre mais tristes do que eu pensava".
L´Amour en fuite, França, 1979. Realização: François Truffaut; Com: Jean-Pierre Léaud, Marie-France Pisier, Barnerias Dorothee, Rosy Varte, Claude Jade, Marie Henriau, Lucien Julien Bertheau, Daniel Mesguich.

2.3.06

Capote



A minha motivação para ir ver um ‘biopic’ depende muito do meu interesse pelo biografado. Sendo que o género tem dados algum dos maiores pastelões da história de Hollywood, só muito dificilmente sairei de casa para assistir a um. Neste caso abri uma excepção precisamente por o filme ser sobre quem é: Truman Capote. Acho ‘A sangue frio’ um excelente livro e gostei muito de ‘Boneca de luxo’ ('Breakfast at Tiffany's'), filme de Blake Edwards com a bela Audrey Hepburn, baseado na novela homónima daquele escritor.
Em boa verdade, este filme do estreante Bennett Miller cobre apenas meia dúzia de anos da vida de Capote, os anos em que ele escreveu ‘A sangue frio', romance-documental sobre o assassinato de uma família inteira numa terreola do Kansas por dois ex-presidiários. O filme centra-se essencialmente no relacionamento de Capote, personagem sui generis, afectada, como modos de dandy e uma auto-confiança ilimitada, com um dos assassinos, por quem ficou fascinado, com quem se identificou devido à infância difícil que ambos tinham tido e ao seu lado ‘sensível’. Esta abordagem é bastante interessante, focando vários temas sem entrar pela psicologia barata: a atracção algo doentia de Capote por um assassino, mas também o seu calculismo (quando já tinha tudo o que precisava do seu ‘protegido’ desinteressa-se do seu destino) e a sua ambição: antes de tudo o mais queria escrever um grande livro e sabia que o conseguiria. Tudo o resto só lhe interessava desde que fosse útil para este objectivo.
Obviamente, 'Capote' é principalmente e antes de mais nada, um ataque do mais genial secundário do actual cinema Americano, Philip Seymour Hoffman, ao Óscar. Ao que parece (nunca vi ou ouvi filmagens de Truman Capote) este mimetiza até ao milímetro os tiques e a voz do escritor que interpreta e, de qualquer modo, compõe uma personagem absolutamente credível, transmitindo na perfeição o seu lado ‘bigger than life’. Papel para Óscar, sem sombra de dúvida, mas que terá um adversário de peso: Joaquim Phoenix…interpretando Johny Cash, no outro biopic do ano! Dia 5 se verá.
Capote, E.U.A., 2005. Realização: Bennett Miller; Com: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins Jr., Chris Cooper.