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16.5.06

Rize



David LaChapelle é um fotógrafo da moda bastante sui generis, mas infelizmente como realizador é bastante convencional. 'Rize', documentário filmado nos bairros negros de L.A. sobre novas formas de dança como o krumping, hesita entre o fascínio pelos corpos e(m) movimento (a la Leni Riefenstahl, que é expressamente citada no filme) e a análise politica (fazer parte de um grupo de dança como única alternativa a fazer parte de um gang) para a qual não tem unhas, e fica assim numa desconsolada terra de ninguém. E é pena, porque é mais uma oportunidade perdida de tratar como deve ser o tema da bomba de relógio que são os bairros negros das grandes cidades americanas - à semelhança do recentemente estreado 'Freedomland'. O desconsolo é ainda maior quanto o krumping & cª era um formidável pontapé de saída (o insólito aviso que aparece no inicio do filme – de que nenhuma imagem foi acelerada em estúdio – faz mesmo sentido!) para um homem com o olho treinado para os corpos, como LaChapelle o é mas aqui não o mostra totalmente. Um tiro ao lado.
Rize, E.U.A., 2005. Realização: David LaChapelle. Documentário. Com: the Clown, Lil C, Tight Eyez, Miss Prissy La Niña, Dragon.

14.5.06

Freedomland — A Cor do Crime



Este filme parte de uma investigação policial - o detective Lorenzo Council/Samuel L.Jackson, investiga o desaparecimento do filho de Brenda Martin/Julianne Moore, num bairro pobre dos suburbios - para nos traçar mais um retrato das relações inter-raciais nos States, um pouco à maneira de 'Crash-Colisão'. A policia pôs um bairro negro a ferro e fogo para tentar descobrir o miudo de 4 anos (branco), e a situação trouxe ao de cima todos os ódios e ressentimentos há muito acumulados entre os moradores e a policia. Lorenzo, um detective negro oriundo do bairro, tem que se mover entre os dois mundos, sendo olhado com desconfiança em ambos, para tentar descobrir a verdade e evitar uma guerra civil no local.
'Freedomland' tem vários problemas, o menor dos quais não é cair em todos os clichés do género sem deixar escapar um, quer ao nivel das personagens -o policia (negro) inteligente e de bom coração mas impulsivo, o seu colega compreensivo que lhe serve de contraponto, o policia mau e que não percebe nada (branco), etc. - quer ao nível das situações e da realização, absolutamente mediana e desinspirada. Não há nada de vagamente original, de novo, neste filme. No final, salvam-se apenas os actores : Julianne Moore está muito bem no papel da mulher desiquilibrada e quase histérica, mas corre o risco de ficar agarrada a este tipo de papeis - uma espécie de Isabelle Huppert americana; Samuel L. Jackson até na rotina se distingue e cumpre com distinção o seu enésimo papel deste tipo; e, finalmente, há que destacar Edie Falco (a mulher de Tony Soprano), soberba num papel pequeno mas marcante.
Freedomland, E.U.A., 2006. Realização: Joe Roth. Com: Samuel L. Jackson, Julianne Moore, Edie Falco, Ron Eldard, William Forsythe, Aunjanue Ellis, Anthony Mackie.

11.5.06

O novo mundo



Longos planos de Colin Farrell imerso na selva. Longos planos de Q`Orianka Kilcher (grande casting). Os pensamentos de Colin Farrell como pano de fundo em voz off. Os sons da selva ou da banda sonora omnipresentes. Meia dúzia de diálogos e um argumento que se poderia resumir em meia página. Nada que seja estranho a Terrence Malick, mas o suficiente para radicalizar opiniões e relançar a questão velhinha de mais de 100 anos sobre os caminhos do cinema, e da (in)dependência dos filmes em relação ao argumento (leia-se, da (in)dependência dos filmes em relação às artes que o precederam, nomeadamente à escrita e ao teatro).
Na minha opinião este filme é muito diferente de quase tudo o resto, mas não tanto por aí. Gus Van Sant, por exemplo, não tem feito outra coisa nos últimos tempos, que não explorar o lado visual, digamos assim, como forma de transmitir emoções em detrimento da palavra, do diálogo. Os noventa e sete minutos de 'Last days' parecem infinitamente maiores que os cento e trinta e cinco d´'O novo mundo'. O que distingue Malick, é um certo tom épico que dá ao filme, o que aliado a uma quase perfeição no modo de filmar, na captação da natureza e dos homens nela inserida, nos transmite um fascinio quase hipnótico. Nem se trata tanto da 'mensagem' passada por Farrell (e provavelmente partilhada pelo realizador) do novo mundo puro e idealizado em contraste com o velho mundo corrupto, que nem é muito enfatizada, mas sim de todo o modo como o relizador nos embala na sua deriva, nos envolve num universo imagético poderoso e original. É dificil não pensarmos que o grande cinema (também) é isto.
The new world, E.U.A., 2005. Realização: Terrence Malick. Com: Colin Farrell, Q`Orianka Kilcher, Christian Bale, Christopher Plummer, Wes Studi, David Thewlis, Ben Chaplin.

7.5.06

Os produtores



Este filme é um dos objectos mais estranhos presentemente em exibição nas salas portuguesas. É uma comédia musical, com alguns actores improváveis como Matthew Broderick e Uma Thurman. Dizer que 'Os produtores' está no limite do kitsh, do mau gosto ou da pura idiotice, é dizer pouco: o filme passa mesmo esse limite vastas vezes. O seu segredo, no entanto, é nunca descarrilar completamente - a cada derrapagem (voluntária), depressa volta à faixa de rodagem correcta e nos maravilha com uma piada acima da média (e tem várias), com uma coreografia imaginativa (e são inúmeras), com mais um achado no argumento, já de si bastante retorcido. Acrescentemos a seu favor um conjunto notável de actores (com destaque para Nathan Lane, mas também para Matthew Broderick) e a coragem de fazer um filme destes - há quanto tempo não se via um musical de 'linhagem clássica' nas salas? (e não falamos de musicais pos-modernos tipo 'Moulin Rouge). Pode ser uma mera questão de nostalgia, mas a verdade é que é impossivel um cinéfilo não simpatizar com este filme desusado.
The Producers, E.U.A., 2005. Realização: Susan Stroman. Com: Nathan Lane, Matthew Broderick, Uma Thurman, Will Ferrell, Gary Beach, Roger Bart Bart, Gary Beach.

2.5.06

A criança



Seis anos depois de David Cronenberg ter atribuído uma polémica Palma de Ouro a 'Rosetta', o ano passado foi a vez de Emir Kusturica dar o prémio máximo de Cannes aos irmãos Dardenne por este 'A criança', preterindo, entre outros candidatos sonantes, 'Uma história de violência' de Cronemberg lui méme. O mínimo que se pode dizer é que Luc e Jean-Pierre Dardenne estão muito bem cotados entre alguns dos seus mais ilustres colegas de oficio...
A primeira sensação que se tem ao ver este filme é que os realizadores belgas não mudaram nem um milímetro nestes anos. Estamos perante o mesmo realismo cru, as mesmas histórias arrancadas ao 'outro lado' da sociedade, as mesmas personagens marginais e com um instinto de sobrevivência feroz. Mantêm também as suas qualidades e os seus defeitos como realizadores. Das primeiras, desde logo, o talento de desencantar extraordinários actores para as suas personagens: depois de Emilie Dequenne (Rosetta), temos agora Jérémie Renier (Bruno), magnifico no papel do pequeno marginal que vai fazendo o que pode para sobreviver - roubar, pedir, jogar e, um dia, vender a filha de meia dúzia de dias sem dizer nada à mãe e sua namorada. Outra qualidade que lhes aprecio é não pretenderem doutrinar-me, não me pretenderem mostrar que o mundo é injusto com os seus pobrezinhos coitadinhos com aureola de santos. Bruno é totalmente amoral, e mesmo quando no fim faz o correcto, quando tem uma espécie de acção redentora, ficamos sempre na dúvida se não o terá feito porque era o melhor para si naquele momento. Tal como em Rosetta, o instinto de sobrevivência comanda sempre, é o que determina as suas acções, e não é assim fácil tirar conclusões destas últimas cenas - e eu gostei bastante do final por causa desta ambiguidade. Quanto aos defeitos do Dardenne, enfim, digamos que os seus filmes não são para todos os estómagos - a sua vontade intransigente de realismo torna-os por vezes pesados, algo arrastados, parecendo que cada meia hora de película se multiplica por duas. Por vezes temos ideia de estar a assistir a um longo documentário sobre um tema incómodo - ou se vai para a sala com uma certa pré-disposição, ou nem vale a pena pôr lá os pés. Penso que foi Pedro Mexia quem falou uma vez de filmes bons chatos. Eis um belo exemplo!
L´ Enfant, Bélgica/França, 2005. Realização: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Com: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet, Stéphane Bissot, Mireille Bailly.

29.4.06

A não perder...



As crónicas sobre o Indie Lisboa no Babugem, o blog português onde melhor se escreve sobre cinema.



A polémica sobre a permanência/não permanência de João Bénard da Costa à frente da Cinemateca, no da literatura e no Auto-Retrato.

26.4.06

Firewall



'Firewall' é o centésimo quinquagésimo quarto filme de acção indistinto despejado pela máquina de Hollywood nas salas de cinema este ano. Não vale a pena o leitor sair de casa para o ver - todos os domingos à tarde passa um filme destes na TVI.
Firewall, E.U.A., 2006. Realização: Richard Loncraine. Com: Harrison Ford, Paul Bettany, Virginia Madsen, Mary Lynn Rajskub, Robert Patrick, Robert Forster, Alan Arkin.

25.4.06

Lisboetas



Os lisboetas de que o título deste documentário fala são os imigrantes que vieram procurar uma vida melhor na capital portuguesa. Africanos, brasileiros, chineses, paquistaneses e, principalmente, europeus de leste. Chamar-lhe lisboetas, disse o realizador, é já "um acto político". Sem dúvida, mas não se pense que estamos aqui perante um manifesto género Michael Moore. Nada disso. Sergio Trefaut prefere um papel 'invisivel', o de mostrar cenas da vida destes imigrantes e deixar as conclusões para o espectador. Temos assim a oportunidade de ver o país de fora, num sentido duplo: através dos olhos destes recém-lisboetas e através dos nossos próprios do lado de cá da câmara. E a imagem não é muito boa. Algumas das cenas mais conseguidas do filme são as que nos fazem rir das nossas próprias misérias, por exemplo quando uma russa em conversa com um familiar gaba o clima português (está na praia), mas se lamenta do péssimo sistema escolar do país; ou quando vemos um pequeno empreiteiro a tentar arranjar mão de obra barata e explorada, numa cena digna do Gato Fedorento. Ou seja, ao mostrar-nos como tratamos os que vêm de fora, ao mostrar-nos a sua vida e opiniões, Trefaut está-nos a retratar a nós. Que fiquemos mal na fotografia, não é certamente culpa dele. Afinal de contas, qual de nós espectadores, não reconhece o Portugalzinho aqui fotografado?
Lisboetas, Portugal, 2004. Realização: Sérgio Trefaut. Documentário.

24.4.06

Alida Valli (31/05/1921 - 22/04/2006)



Foi namorada de Orson Welles n´'O terceiro homem', foi a condessa Livia Serpieri em 'Sentimento', de Visconti e, personal favourite, Maddalena Anna Paradine n´'O caso Paradine', do mestre Hitchcock.

23.4.06

Infiltrado



'Infiltrado' é um heist movie (subgénero'filme de reféns') competente, mas não mais do que isso. Contando com um número impressionante de estrelas (Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Chiwetel Ejiofor, Christopher Plummer) não era o filme que se esperaria de Spike Lee, nomeadamente depois do mui sui generis 'Ela odeia-me'. Não tanto por não ser um filme 'independente', mas claramente uma grande produção 'à Hollywood', mas mais por não se notar a 'marca' Spike Lee, sendo ele um realizador tão idiossincrático. Mostra-nos uma Nova Iorque multi-cultural, o protagonista é um negro, há uma referência ou outra a árabes, mas... so what? Nada que seja suficiente para se tirar qualquer mensagem daqui. Aliás penso que se têm tirado conclusões politicas deste filme por se saber que é de Spike Lee, mais que por outro motivo qualquer - fosse o filme realizado por um qualquer tarefeiro e ninguém veria nele mais do que o que lá está. Onde ainda assim se nota mais o dedo do realizador é na realização, sendo o ritmo mais lento que o habitual em filmes deste género, bem como na ausência de qualquer grande surpresa ou reviravolta a la Mamet, mostrando que Lee não liga assim tanto à história, estando mais interessado nas suas personagens.
Sendo o maior sucesso comercial de sempre de Spike Lee, não será no entanto por 'Infiltrado' que o realizador verá o seu nome inscrito na história do cinema...
Inside Man, E.U.A., 2006. Realização: Spike Lee. Com: Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Chiwetel Ejiofor, Christopher Plummer, Willem Dafoe, Carlos Andrés Gómez, Kim Director, James Ransone, Peter Gerety, Victor Colicch.