Recent Posts

22.5.06

3...Extremos



Este filme retoma uma prática que parece ter ressuscitado ultimamente, a dos filmes em 'episódios', dirigidos por diferentes realizadores. Temos aqui 3 autores da 'nova vaga' asiática: o prolífico e imprevisivel realizador de culto japonês Takashi Miike, o coreano Park Chan-wook que atingiu o reconhecimento internacional com 'Oldboy' e o para mim desconhecido chinês Fruit Chan. O tema que une os 3 episódios (ou, melhor dizendo, as 3 curtas metragens de cerca de 40 minutos cada) não é muito claro, mas poderemos falar aproximadamente em 'crueldade'. Têm também em comum o facto de os seus protagonistas estarem todos ligados ao mundo das artes: uma escritora, uma actriz e um realizador de cinema. Como é usual neste tipo de obras a várias mãos, o resultado final é desiquilibrado. O melhor episódio é o de Miike, sobre os sonhos de uma escritora que remetem para um episódio da sua infância, quando trabalhava com a irmã e o pai num circo - é bonito e misterioso. No segundo lugar do pódio fica Park Chan-wook, que mais uma vez combina a sua exuberante faceta de esteta (magníficos decors e fotografia) com a sua obsessão por histórias de vigança requintadas e crueis. Em último fica Fruit Chan, com uma variação macabra mas banal do eterno tema da actriz que se recusa a aceitar a perda da juventude.
Saam gaang yi / Three...Extremes, Hong Kong/Coreia do Sul/Japão, 2004. Realização: Chan-wook, Takashi Miike, Fruit Chan. Com: Miriam Yeung Chin-wah, Bai Ling, Tony Leung Ka-fai («Dumplings»); Lee Byeong-heon, Im Won-hi, Kang Hye-jeong («Cut»); Hasegawa Kyoko, Watabe Atsuro («Box»).

18.5.06

Corta!



Começa hoje o Corta!, Festival de Curtas Metragens do Porto e prolonga-se até Sábado, na Biblioteca Almeida Garrett, Palácio de Cristal.

16.5.06

Rize



David LaChapelle é um fotógrafo da moda bastante sui generis, mas infelizmente como realizador é bastante convencional. 'Rize', documentário filmado nos bairros negros de L.A. sobre novas formas de dança como o krumping, hesita entre o fascínio pelos corpos e(m) movimento (a la Leni Riefenstahl, que é expressamente citada no filme) e a análise politica (fazer parte de um grupo de dança como única alternativa a fazer parte de um gang) para a qual não tem unhas, e fica assim numa desconsolada terra de ninguém. E é pena, porque é mais uma oportunidade perdida de tratar como deve ser o tema da bomba de relógio que são os bairros negros das grandes cidades americanas - à semelhança do recentemente estreado 'Freedomland'. O desconsolo é ainda maior quanto o krumping & cª era um formidável pontapé de saída (o insólito aviso que aparece no inicio do filme – de que nenhuma imagem foi acelerada em estúdio – faz mesmo sentido!) para um homem com o olho treinado para os corpos, como LaChapelle o é mas aqui não o mostra totalmente. Um tiro ao lado.
Rize, E.U.A., 2005. Realização: David LaChapelle. Documentário. Com: the Clown, Lil C, Tight Eyez, Miss Prissy La Niña, Dragon.

14.5.06

Freedomland — A Cor do Crime



Este filme parte de uma investigação policial - o detective Lorenzo Council/Samuel L.Jackson, investiga o desaparecimento do filho de Brenda Martin/Julianne Moore, num bairro pobre dos suburbios - para nos traçar mais um retrato das relações inter-raciais nos States, um pouco à maneira de 'Crash-Colisão'. A policia pôs um bairro negro a ferro e fogo para tentar descobrir o miudo de 4 anos (branco), e a situação trouxe ao de cima todos os ódios e ressentimentos há muito acumulados entre os moradores e a policia. Lorenzo, um detective negro oriundo do bairro, tem que se mover entre os dois mundos, sendo olhado com desconfiança em ambos, para tentar descobrir a verdade e evitar uma guerra civil no local.
'Freedomland' tem vários problemas, o menor dos quais não é cair em todos os clichés do género sem deixar escapar um, quer ao nivel das personagens -o policia (negro) inteligente e de bom coração mas impulsivo, o seu colega compreensivo que lhe serve de contraponto, o policia mau e que não percebe nada (branco), etc. - quer ao nível das situações e da realização, absolutamente mediana e desinspirada. Não há nada de vagamente original, de novo, neste filme. No final, salvam-se apenas os actores : Julianne Moore está muito bem no papel da mulher desiquilibrada e quase histérica, mas corre o risco de ficar agarrada a este tipo de papeis - uma espécie de Isabelle Huppert americana; Samuel L. Jackson até na rotina se distingue e cumpre com distinção o seu enésimo papel deste tipo; e, finalmente, há que destacar Edie Falco (a mulher de Tony Soprano), soberba num papel pequeno mas marcante.
Freedomland, E.U.A., 2006. Realização: Joe Roth. Com: Samuel L. Jackson, Julianne Moore, Edie Falco, Ron Eldard, William Forsythe, Aunjanue Ellis, Anthony Mackie.

11.5.06

O novo mundo



Longos planos de Colin Farrell imerso na selva. Longos planos de Q`Orianka Kilcher (grande casting). Os pensamentos de Colin Farrell como pano de fundo em voz off. Os sons da selva ou da banda sonora omnipresentes. Meia dúzia de diálogos e um argumento que se poderia resumir em meia página. Nada que seja estranho a Terrence Malick, mas o suficiente para radicalizar opiniões e relançar a questão velhinha de mais de 100 anos sobre os caminhos do cinema, e da (in)dependência dos filmes em relação ao argumento (leia-se, da (in)dependência dos filmes em relação às artes que o precederam, nomeadamente à escrita e ao teatro).
Na minha opinião este filme é muito diferente de quase tudo o resto, mas não tanto por aí. Gus Van Sant, por exemplo, não tem feito outra coisa nos últimos tempos, que não explorar o lado visual, digamos assim, como forma de transmitir emoções em detrimento da palavra, do diálogo. Os noventa e sete minutos de 'Last days' parecem infinitamente maiores que os cento e trinta e cinco d´'O novo mundo'. O que distingue Malick, é um certo tom épico que dá ao filme, o que aliado a uma quase perfeição no modo de filmar, na captação da natureza e dos homens nela inserida, nos transmite um fascinio quase hipnótico. Nem se trata tanto da 'mensagem' passada por Farrell (e provavelmente partilhada pelo realizador) do novo mundo puro e idealizado em contraste com o velho mundo corrupto, que nem é muito enfatizada, mas sim de todo o modo como o relizador nos embala na sua deriva, nos envolve num universo imagético poderoso e original. É dificil não pensarmos que o grande cinema (também) é isto.
The new world, E.U.A., 2005. Realização: Terrence Malick. Com: Colin Farrell, Q`Orianka Kilcher, Christian Bale, Christopher Plummer, Wes Studi, David Thewlis, Ben Chaplin.

7.5.06

Os produtores



Este filme é um dos objectos mais estranhos presentemente em exibição nas salas portuguesas. É uma comédia musical, com alguns actores improváveis como Matthew Broderick e Uma Thurman. Dizer que 'Os produtores' está no limite do kitsh, do mau gosto ou da pura idiotice, é dizer pouco: o filme passa mesmo esse limite vastas vezes. O seu segredo, no entanto, é nunca descarrilar completamente - a cada derrapagem (voluntária), depressa volta à faixa de rodagem correcta e nos maravilha com uma piada acima da média (e tem várias), com uma coreografia imaginativa (e são inúmeras), com mais um achado no argumento, já de si bastante retorcido. Acrescentemos a seu favor um conjunto notável de actores (com destaque para Nathan Lane, mas também para Matthew Broderick) e a coragem de fazer um filme destes - há quanto tempo não se via um musical de 'linhagem clássica' nas salas? (e não falamos de musicais pos-modernos tipo 'Moulin Rouge). Pode ser uma mera questão de nostalgia, mas a verdade é que é impossivel um cinéfilo não simpatizar com este filme desusado.
The Producers, E.U.A., 2005. Realização: Susan Stroman. Com: Nathan Lane, Matthew Broderick, Uma Thurman, Will Ferrell, Gary Beach, Roger Bart Bart, Gary Beach.

2.5.06

A criança



Seis anos depois de David Cronenberg ter atribuído uma polémica Palma de Ouro a 'Rosetta', o ano passado foi a vez de Emir Kusturica dar o prémio máximo de Cannes aos irmãos Dardenne por este 'A criança', preterindo, entre outros candidatos sonantes, 'Uma história de violência' de Cronemberg lui méme. O mínimo que se pode dizer é que Luc e Jean-Pierre Dardenne estão muito bem cotados entre alguns dos seus mais ilustres colegas de oficio...
A primeira sensação que se tem ao ver este filme é que os realizadores belgas não mudaram nem um milímetro nestes anos. Estamos perante o mesmo realismo cru, as mesmas histórias arrancadas ao 'outro lado' da sociedade, as mesmas personagens marginais e com um instinto de sobrevivência feroz. Mantêm também as suas qualidades e os seus defeitos como realizadores. Das primeiras, desde logo, o talento de desencantar extraordinários actores para as suas personagens: depois de Emilie Dequenne (Rosetta), temos agora Jérémie Renier (Bruno), magnifico no papel do pequeno marginal que vai fazendo o que pode para sobreviver - roubar, pedir, jogar e, um dia, vender a filha de meia dúzia de dias sem dizer nada à mãe e sua namorada. Outra qualidade que lhes aprecio é não pretenderem doutrinar-me, não me pretenderem mostrar que o mundo é injusto com os seus pobrezinhos coitadinhos com aureola de santos. Bruno é totalmente amoral, e mesmo quando no fim faz o correcto, quando tem uma espécie de acção redentora, ficamos sempre na dúvida se não o terá feito porque era o melhor para si naquele momento. Tal como em Rosetta, o instinto de sobrevivência comanda sempre, é o que determina as suas acções, e não é assim fácil tirar conclusões destas últimas cenas - e eu gostei bastante do final por causa desta ambiguidade. Quanto aos defeitos do Dardenne, enfim, digamos que os seus filmes não são para todos os estómagos - a sua vontade intransigente de realismo torna-os por vezes pesados, algo arrastados, parecendo que cada meia hora de película se multiplica por duas. Por vezes temos ideia de estar a assistir a um longo documentário sobre um tema incómodo - ou se vai para a sala com uma certa pré-disposição, ou nem vale a pena pôr lá os pés. Penso que foi Pedro Mexia quem falou uma vez de filmes bons chatos. Eis um belo exemplo!
L´ Enfant, Bélgica/França, 2005. Realização: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne. Com: Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione, Olivier Gourmet, Stéphane Bissot, Mireille Bailly.

29.4.06

A não perder...



As crónicas sobre o Indie Lisboa no Babugem, o blog português onde melhor se escreve sobre cinema.



A polémica sobre a permanência/não permanência de João Bénard da Costa à frente da Cinemateca, no da literatura e no Auto-Retrato.

26.4.06

Firewall



'Firewall' é o centésimo quinquagésimo quarto filme de acção indistinto despejado pela máquina de Hollywood nas salas de cinema este ano. Não vale a pena o leitor sair de casa para o ver - todos os domingos à tarde passa um filme destes na TVI.
Firewall, E.U.A., 2006. Realização: Richard Loncraine. Com: Harrison Ford, Paul Bettany, Virginia Madsen, Mary Lynn Rajskub, Robert Patrick, Robert Forster, Alan Arkin.

25.4.06

Lisboetas



Os lisboetas de que o título deste documentário fala são os imigrantes que vieram procurar uma vida melhor na capital portuguesa. Africanos, brasileiros, chineses, paquistaneses e, principalmente, europeus de leste. Chamar-lhe lisboetas, disse o realizador, é já "um acto político". Sem dúvida, mas não se pense que estamos aqui perante um manifesto género Michael Moore. Nada disso. Sergio Trefaut prefere um papel 'invisivel', o de mostrar cenas da vida destes imigrantes e deixar as conclusões para o espectador. Temos assim a oportunidade de ver o país de fora, num sentido duplo: através dos olhos destes recém-lisboetas e através dos nossos próprios do lado de cá da câmara. E a imagem não é muito boa. Algumas das cenas mais conseguidas do filme são as que nos fazem rir das nossas próprias misérias, por exemplo quando uma russa em conversa com um familiar gaba o clima português (está na praia), mas se lamenta do péssimo sistema escolar do país; ou quando vemos um pequeno empreiteiro a tentar arranjar mão de obra barata e explorada, numa cena digna do Gato Fedorento. Ou seja, ao mostrar-nos como tratamos os que vêm de fora, ao mostrar-nos a sua vida e opiniões, Trefaut está-nos a retratar a nós. Que fiquemos mal na fotografia, não é certamente culpa dele. Afinal de contas, qual de nós espectadores, não reconhece o Portugalzinho aqui fotografado?
Lisboetas, Portugal, 2004. Realização: Sérgio Trefaut. Documentário.