Recent Posts

10.7.06

Eu, tu e todos os que conhecemos



‘Eu, tu e todos os que conhecemos’ é o primeiro filme da artista norte americana Miranda July . No centro do filme está uma história de amor improvável, entre um vendedor de sapatos (interpretado pelo excelente John Hawkes,a fazer-me lembrar o David Thewlis de ‘Naked‘ numa versão menos ácida) e uma condutora de taxi para idosos (!) que é artista nas horas vagas (interpretada por Miranda July, herself). Tudo neste centro é magnífico, romanticamente destrambelhado, desesperadamente terno, muito ‘punch-drunk love’ para usar uma referência inevitável. À sua volta podemos desenhar um círculo mais largo, que abrange todos os secundários: os filhos dele algo perdidos, os idosos de quem ela trata (os mais felizes), um colega dele que se envolve num estranho jogo erótico com duas adolescentes, uma directora de museu deprimida, uma miúda obcecada com o enxoval. Neste circulo o ambiente é mais 'Hapiness' (que como se sabe era um filme sobre tudo menos a felicidade), e na minha opinião menos interessante - aproxima-se mais da tradicional crónica desencantada dos subúrbios, retratada em n filmes independentes americanos. Sendo tentador servirmo-nos de outros realizadores para a caracterizarmos a ela, não se pense por isso que July é uma mera ‘aglutinadora’ de referências ou estilos: nada disso - é mesmo senhora de um tom próprio e inesperado. Não pondo de lado o ser uma artista/performer - veja-se como as ‘instalações’ da sua personagem, e nomeadamente a sua bela voz, dão um estranho tom poético ao filme - é uma cineasta (e argumentista) de corpo inteiro, e não uma artista que achou que já que fazia uns vídeos também podia fazer um filme para passar nas salas de cinema... (aliás, de passagem, farta-se de gozar com o mundo da arte moderna que naturalmente muito bem conhece.)
Não nos vamos esquecer tão cedo de Richard, o vendedor de sapatos que imolou uma mão como símbolo do fim do seu casamento, e que grita estar pronto para viver experiências superiores; nem de Christine, a artista amadora que sabe que os dois têm uma vida em comum à sua espera, mas que tal só pode acontecer se ele lhe telefonar. Quem não gostava de encontrar alguém como eles?
Me and You and Everyone We Know, E.U.A./Grã-Bretanha, 2005. Realização: Miranda July. Com: John Hawkes, Miranda July, Miles Thompson, Brandon Ratcliff, Carlie Westerman, Hector Elias, Brad William Henke, Natasha Slayton, Najarra Townsend.

7.7.06

...e o resto é paisagem (III)



Mais um filme para a lista aqui do lado - 'As Filhas do Botânico', de Sijie Dai. Mas nem tudo são más notícias: a estreia mais palpitante da semana, 'Eu, Tu e Todos os que Conhecemos', de Miranda July, está em exibição no Cidade do Porto. Conto em breve pôr aqui a sua crítica.

2.7.06

A Condessa Russa



James Ivory tem um estilo a que, à falta de melhor, se costuma chamar académico. Com isto pretende-se designar uma produção cuidada, uma realização atenta e elegante mas sem rasgos de maior, um cuidado geral posto na coisa, que faz com que o produto final seja quase sempre se não distinto, pelo menos gracioso. Pode-se dizer que é um realizador da velha escola que dá primazia ao argumento, ancorando-se quase sempre em escritores de prestigío - Henry James, E.M.Forster e agora novamente Kazuo Ishiguro. Nos seus melhores momentos chega mesmo a realizar filmes muito bons, como 'Quarto com vista sobre a cidade' e seria provavelmente o realizador que eu escolheria para me adaptar um livro, caso eu fosse escritor - de certeza que se manteria fiel ao espirito da obra, e transporia com cuidado e neutralidade o texto escrito para o grande ecrã.
A acção de 'A condessa russa' passa-se na Xangai pré segunda guerra mundial, então um centro mundano onde diplomatas e espiões de vários países co-habitavam com nobres Russos fugidos do seu país. O filme centra-se no encontro entre dois seres perdidos na vida: um ex-promissor diplomata americano (Ralph Fiennes), que tendo perdido a mulher e cegado num acidente, cegou também metafóricamente para a vida, sendo o seu único desejo gerir um bar onde possa esquecer o que se passa fora das suas quatro paredes; e uma condessa russa exilada (Natasha Richardson), que trabalha como 'acompanhante' num bar, para sustentar a filha e as familiares do marido morto, também nobres russas na sua situação, que aceitam o seu dinheiro mas lhe criticam o modo de vida. Ivory filma com a competência habitual este ambiente de decadência sofisticada, mas precisava de uma actriz com mais chama para dar côr a este romance. Ralph Fiennes por seu lado, tem o perfil ideal para este tipo de papel, mas não consegue evitar alguns dos tiques em que caem todos os actores que interpretam cegos, lembrando assim o espectador, mais vezes do que o desejável, que está a assistir a uma representação. O resultado final é assim algo indistinto e fica a sensação de que este argumento merecia mais, mas mesmo assim não lamentei os quatro euros do bilhete. É que eu nestas coisas sou um bocado conservador: se o argumento for interessante, difícilmente dou o tempo por mal empregue...
The White Countess, Grã Bretanha/Estados Unidos/Alemanha/China, 2005. Realização: James Ivory. Com: Ralph Fiennes, Natasha Richardson, Vanessa Redgrave, Lynn Redgrave, Madeleine Potter, John Wood, Madeleine Daly, Hiroyuki Sanada, Allan Corduner.

29.6.06

Finalmente...



Finalmente houve uma evolução na lista aqui ao lado. Evolução neste caso é a lista encolher, claro. Um mês e meio depois de ter estreado em Lisboa, 'A comédia do poder', de Chabrol, chegou ao Porto!
(E não entra nenhum filme novo na lista, porque o único que estreou apenas em Lisboa, esta semana, 'História de Duas Irmãs', já passou no Fantasporto...há 2 anos atrás! )

25.6.06

Sem destino



'Sem destino' é uma adaptação do romance autobiográfico com o mesmo nome, do escritor húngaro Imre Kertész, Prémio Nobel da literatura em 2002 e até aí praticamente desconhecido fora da Alemanha, onde vive. O próprio Kertész, que tem sido literariamente comparado com Primo Levi, escreveu o argumento para esta estreia na realização do seu compatriota Lajos Koltai, habitual director de fotografia de István Szabó (incluindo o recente 'Being Julia').
O filme segue o trajecto de György Köves, um miúdo judeu de 14 anos, que é enviado para Auschwitz e depois para Buchenwald. A ingenuidade inicial rapidamente dá lugar ao espanto, à dor, e à sensação de absurdo - ele não fora criado como judeu praticante, nem nunca pensara muito nisso do que era ser judeu - porque é que lhe estava a acontecer aquilo tudo então? Koltai (como Kertész) não cai nunca no sentimentalismo, e estrutura o filme numa série de curtos planos fotografados numa cor sépia e brumosa, que mostrando cenas do dia a dia do miúdo e dos outros prisioneiros (a fila para o prato de sopa; as longas esperas alinhados de pé; a ajuda de um conterrâneo, a maldade de um guarda), vão entranhando no espectador a sensação da enorme estupidez de tudo aquilo, de quão próximos da desumanidade estamos.
Se tivermos em conta que um filme (ou qualquer obra de arte) sobre o holocausto tem sempre uma dimensão que o transcende, é mais uma peça de resistência ao esquecimento, como acender uma vela ou construir um memorial às vitimas, podemos dizer que vale sempre a pena voltar ao tema, mesmo depois de 'A lista de Schindler' (que Kertész qualificou de kitsch), de 'O pianista', de 'A vida é bela'. Independentemente disso, 'Sem destino' vale por si próprio enquanto objecto cinematográfico sensível mas sem concessões, bem filmado, fotografado e interpretado. Não obstante faltar um golpe de asa ao realizador para atingir níveis mais altos, consegue o essencial que é fazer o espectador perceber o porquê da escolha do título: quando Buchenwald é libertado, um oficial Americano ao perceber que György fala inglês, tenta convence-lo a não voltar para a Hungria ocupada pela União Soviética; o miúdo responde-lhe naturalmente que tem que voltar para a sua família. Claro que ele não pode saber que depois da guerra já nada será como antes: nem a sua família (o pai foi morto), nem os amigos (que só lhe fazem perguntas ocas sobre os campos de concentração), nem o seu país, que caído sobre as garras do estalinismo impedirá a liberdade de György durante muitos mais anos.
Sorstalanság / Fateless, Hungria/Alemanha/Grã-Bretanha, 2005. Realização: Lajos Koltai. Com: Marcell Nagy, Áron Dimény, Béla Dóra, Péter Vida, Zsolt Dér, Daniel Craig.

23.6.06

A Noite Americana



Não há maior prova de amor ao cinema do que este filme. Tudo nele respira cinefilia, a começar pelo titulo (nome da técnica usada para filmar cenas nocturnas à luz do dia, colocando filtros na objectiva) e pelo seu realizador, François Truffaut, importantíssimo critico dos Cahiers du cinéma antes de ser realizador (e, já depois, autor da famosa entrevista a Hitchcock). E, claro está, o seu argumento: o dia a dia da equipa de realização do filme 'Meet Pamela', liderada pelo realizador Ferrand (interpretado por... Truffaut, himself). O filme é fascinante para o cinéfilo a vários níveis: desde logo pela oportunidade de assistir à (representação da ) rodagem de um filme, observando os inúmeros detalhes a ter em conta, desde as técnicas utilizadas (uma vela oca com uma lâmpada dentro; uma falsa janela; espuma a fazer de neve; etc; etc.), passando pelos pequenos pormenores que o realizador tem que decidir (como a cor de um carro ou o tamanho de uma pistola) e culminando nas condicionantes invisíveis ao público mas que influem directamente no argumento e realização, como o tempo de filmagem disponível, o que as companhias de seguros pagam ou não pagam, e até os instáveis humores dos actores ou, caso mais radical, a morte de um deles, tendo só parte do seu papel sido rodada. Num segundo nível, chamemos-lhe assim, o espectador vai-se divertindo a 'descobrir' as referências cinéfilas que vão aparecendo (é como aquela caixa que tem outra caixa dentro, que por sua vez tem outra caixa dentro, que por sua vez...), desde as mais óbvias - o realizador Ferrand/Truffaut recebe uma encomenda de livros e espalha-os à nossa frente (enquanto ouve ao telefone uma das musicas do filme, numa belissima cena), livros sobre Bunuel, Dreyer, Lubitsch, Godard, Hitchcock, Rossellini, Hawks, etc.; ou quando a equipa de filmagem vai rodar uma cena no exterior e passa pela Rua Jean Vigo - até aquelas mais para cinéfilos - um dos actores do filme dentro do filme, Alphonse, é interpretado por Jean-Pierre Léaud, cujo comportamento estouvado e impulsivo nos remete imediatamente para a personagem de Antoine Doinel, que Léaud interpretou em 5 filmes de Truffaut; numa cena, Alphonse pede um conselho a Ferrand sobre o próximo filme, doutro realizador, em que vai entrar, tal como Léaud fazia com Truffaut - e inclusive referências invisíveis que só fanáticos ou experts descobrirão - como alguns actores usarem roupa de outros filmes de Truffaut.

A um nível mais profundo, notaremos que este é o filme mais autobiográfico de Truffaut desde 'Os 400 golpes'. Não tanto pelo facto de ele próprio entrar e representar um realizador (e de facto imaginamos que Ferrand não deve ser muito diferente de Truffaut), mas pelos temas tocados pelo filme: como o próprio realizador disse, "todos os conflitos de 'A Noite Americana' e 'Meet Pamela' dizem respeito a problemas de identidade e paternidade". Recordemos que Truffaut nunca conheceu o pai e foi criado pela mãe que não o amava ("a minha mães morreu", diz o jovem Doinel numa famosa sequência d´'Os quatrocentos golpes'), tendo sido um adolescente problemático que apenas encontrou alguma tranquilidade no mundo do cinema - conta-se que na sua juventude chegava a ir ao cinema 3 vezes por dia e terá visto mais de 3000 filmes em 10 anos! Não é assim de admirar, que ao contrário de outros filmes sobre o mundo da sétima arte (de que é paradigmático o cáustico ‘Crepúsculo dos Deuses' de Billy Wilder), 'A Noite Americana' seja um acto de amor ao cinema, apresentado como mais importante e perfeito do que a vida, um tema que sempre foi caro a Truffaut. Quando uma assistente foge com um duplo durante as rodagens, uma personagem comenta: "eu deixaria um homem por um filme, mas nunca deixaria um filme por um homem"! E a actriz Julie Baker (Jacqueline Bisset), que dorme com Alphonse, traindo o marido que ama, apenas para este não ir atrás da namorada e abandonar as rodagens, exclama às tantas "a vida é repugnante". Os filmes, por seu lado - como diz Alphonse a Ferrand - "são mais harmoniosos do que a vida, não há engarrafamentos, não há tempos mortos".
La nuit américaine, França, 1973. Realizador: François Truffaut. Com: François Truffaut, Nathalie Baye, Jean-Pierre Léaud, Jacqueline Bisset.

22.6.06

...e o resto é paisagem


Já aqui me queixei de ser impossível ver um grande número de filmes fora de Lisboa e do Porto. O que eu não pensei é que a situação chegasse ao ponto a que chegou: temos que tirar também o Porto do mapa das estreias. Agora, há cada vez mais filmes (especialmente os distribuidos pela Atalanta) que estreiam apenas com uma cópia - numa sala de Lisboa - indo depois para o Porto quando calhar (e muitas vezes quando o impacto do seu lançamento - as critícas, as notícias, etc. - já se esbateu). Em relação à semana passada, a lista aqui do lado, que tentarei manter o mais possível actualizada, engordou em 4 filmes! Em suma, continuamos à espera do Ozon, do Chabrol, etc., etc.

18.6.06

Hard Candy



'Hard Candy' traz como cartão de visita o prémio de melhor filme de Sitges - Festival de Cinema da Catalunha 2005, prémio esse que em 2004 foi atribuído a 'Oldboy' e em 2003 a 'Zatôichi', de Takeshi Kitano - boas companhias, portanto.
O filme parte de uma premissa interessante, resumida na sua tag line: e se o capuchinho vermelho comesse o lobo mau? Um fotógrafo de trinta e tal anos conhece uma miúda de 14 num chat da internet e acabam por combinar um encontro in loco. Logo aí notamos algo de estranho, longe dos estereótipos: ele é um jovem bem parecido e bem-falante ('não tens ar de quem precisa de conhecer raparigas na net', diz-lhe a miúda), ela é surpreendentemente adulta e bem articulada para a sua idade. Desde logo iniciam uma espécie de combate verbal, sendo que ela nunca lhe fica atrás em inteligência, em resposta pronta, em capacidade de sedução. E ainda ele não viu nada... uma vez em sua casa, ela droga-o e amarra-o, começando então a verdadeira batalha, em que ele está definitivamente em desvantagem. É confrontado pela miúda com o facto de ser um pedófilo e ter de pagar por isso, e nada do que ele faz dá resultado: dialoga, suplica, ameaça, grita, humilha-se, enfurece-se - ela mantém-se imperturbável e vai-lhe explicando com toda a calma do mundo que não adianta ele fazer nada. Ela controla a situação, é inteligente, determinada e tem tudo planeado ao milímetro. Estamos aqui na parte mais conseguida do filme - toda a longa sequência da 'vingança' , moralmente muito ambígua (repare-se que o homem não chegou a fazer nada à miúda, e nega-lhe sempre ser pedófilo, mas é 'torturado' sem apelo nem agravo - e não podemos desvendar mais!), é muito bem feita, um verdadeiro tour de force do realizador David Slade e dos dois actores (Patrick Wilson e Ellen Page), tendo ainda um bom contributo na fotografia asséptica de Jo Willems. Pena é Slade não ter percebido que o seu maior trunfo estava precisamente nesta 'concentração de meios': um cenário (o interior da casa), dois actores, um diálogo cerrado e sem concessões, centrado no que interessa - o jogo psicológico entre os dois protagonistas. Pelo contrário, o realizador (ou o argumentista) resolveu complicar, dando uma importância desmedida à parte menos interessante do argumento (uma paixão nunca resolvida do homem) e embarca num final rocambolesco e com toques simbólicos francamente desnecessários. Não obstante este contra, bem como uns certos tiques nervosos com a câmara (que denunciam a sua formação nos videoclips) e uma escolha infeliz da banda sonora -uma musiquinha com uma batida irritante (é uma pena, mas é raro hoje em dia encontrar uma boa banda sonora) - vale a pena, ainda assim, reter o nome de David Slade. E, acima de tudo, o da magnifica actriz que é Ellen Page.

Hard Candy, E.U.A., 2005; Realização: David Slade. Com: Patrick Wilson, Ellen Page, Sandra Oh.

14.6.06

Gabrielle



'Gabrielle', adaptação de um conto de Joseph Conrad (The Return), é um filme formalmente estranho: por um lado remete para uma peça de teatro - é praticamente todo filmado em interiores (uma casa), em dois ou três cenários (quarto, sala de jantar, salão) e usa e abusa de longos monólogos entoados de um modo algo artificial; por outro lado, utiliza obsessivamente várias técnicas especificamente cinematográficas - passagem recorrente do preto e branco para cores e vice versa, utilização abundante de grandes planos, inscrição de frases no ecrã. O resultado transmite uma sensação de estranheza ao espectador, cortando algo da sua 'suspenção da descrença', mas ao mesmo tempo envolvendo-o numa atmosfera de sumptuosidade que cai bem com a altivez dos seus protagonistas (ia escrevendo actores, em vez de protagonistas). Mais do que de Mankiewickz, lembrei-me (muito) dos últimos filmes de Rohmer.
A história, adaptada de Conrad como já disse, gira à volta do dilema de uma casal da alta burguesia do inicio do século XX: como pode o seu casamento sobreviver depois de um dos seus elementos ter cometido adultério e ter quase abandonado tudo? A questão depressa se transforma em quem ama quem, analisando os dois à lupa os seus sentimentos e motivações, quer em conversas entre eles, quer em monólogos (repare-se na espantosa confissão de Isabel Hupert à criada), resultando numa batalha verbal, psicanalítica e recriminatória, sobre os anos do seu casamento tranquilo e silencioso. No final fica quem queria ir embora, e vai embora quem queria ficar - ou seja, ninguém fica bem. Um duro realismo incrustado na artificialidade dos meios.
Gabrielle, França/Alemanha/Itália, 2005. Realização: Patrice Chéreau. Com: Isabelle Huppert, Pascal Greggory, Claudia Coli, Thierry Hancisse, Chantal Neuwirth, Thierry Fortineau.

4.6.06

Escolha mortal



'Escolha mortal', realizado pelo deconhecido John Hillcoat, mas com argumento assinado por Nick Cave, é um western metafísico e violento passado no deserto australiano. Há decapitações, chicoteamentos, torturas, mas as lacónicas personagens que praticam estes actos (e podem estar de ambos os lados da lei) também são capazes de citar poetas, discorrer sobre a harmonia da natureza ou buscar a redenção. Num filme com vários pontos de interesse (da fotografia ao elenco), o menor não é notar como Nick Cave insere admirávelmente o seu universo 'Antigo Testamento' na tradição cinematográfica do 'western desencantado' que vem de Sam Peckinpah e onde podemos enquadrar também Os três enterros de um homem.
The Proposition, Austrália/Grã-Bretanha, 2005. Realização: John Hillcoat. Com: Winstone, Guy Pearce, Emily Watson, Danny Huston, Tom Budge, Richard Wilson, John Hurt.