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8.8.06

A lula e a baleia



Um escritor famoso (Jeff Daniels, um favorito dos críticos, e meu também) está com dificuldades em editar o seu novo livro; a sua mulher (Laura Linney), por seu lado, está a emergir como escritora de sucesso, ela que nunca tinha escrito uma linha antes de o conhecer. O seu casamento, esse está naturalmente a ir por água abaixo e quem leva por tabela são os dois filhos do casal. O mais velho, de 15 ou 16 anos, anda confuso com os conselhos que o pai algo hippie lhe dá (não se prender à namorada); o mais novo, de 12 anos, perdeu completamente o rumo, dividido entre a Mãe que só pensa no jovem amante, e o pai que só tenta perceber porque é que a sua vida artística e pessoal se afundou. Noah Baumbach, que escreveu e realizou este filme tem sido comparado a Wes Anderson (com quem co-escreveu 'The Life Aquatic with Steve Zissou '), Sofia Coppola ou P.T. Anderson. Talvez ainda não esteja ao nível deles, mas faz sentido integrá-lo neste grupo. 'A lula e a baleia' tem algumas das melhores qualidades do cinema 'independente' (excelentes diálogos, personagens não formatadas, grandes actores, vontade de retratar um 'meio disfuncional') e não tem nenhum dos seus piores tiques autorais. Num ano cinematográfico de vacas magras, é mesmo do melhor que se pode ver nos ecrãs.
The Squid and the Whale, E.U.A., 2005. Realização: Noah Baumbach. Com: Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline, Anna Paquin, Halley Feiffer, William Baldwin.

6.8.06

Rentrée


Foto graciosamente enviada por uma paparazzi aquando do lançamento dos 'Piratas das Caraíbas' em Londres.

Depois de duas semanas a banhos, brevemente retomaremos as actividades, com critícas a alguns filmes atrasados e aos blockbusters de Verão! Até já.

23.7.06

Ninguém sabe



Uma mãe irresponsável e estouvada vai deixando os seus filhos sozinhos num apartamento por tempo indeterminado, à medida que arranja namorados. Um dia vai de vez e deixa-os entregues a si próprios. O mais velho, Akira (o extraordinário Yagira Yuya que por este filme ganhou o prémio de interpretação masculina no Festival de Cannes em 2004), de apenas 12 anos, fica a tomar conta da familia. Durante o maior período que consegue, este vai tentando dominar a situação - tem que arranjar dinheiro, pois o que a Mãe deixa não chega, tomar conta dos irmãos que passam o dia em casa (nenhum dos miúdos anda na escola e entraram mesmo no apartamento metidos em malas, às escondidas dos senhorios), tentar arranjar amigos no meio do isolamento em que vive. 'Ninguém sabe' é de um realismo cru e seco muito próximo do documentário, não dando praticamente nenhum momento de escape ao espectador. Não há aqui um momento sentimental, ali um momento cómico, que permitam o espectador soltar uma lágrima ou esboçar um sorriso - em suma, libertar algo de dentro de si. Hirokazu Kore-eda é intransigentemente neutro, e mesmo um dos momentos mais pungentes do filme, quando Akira vai ter com os diferentes pais dos irmãos para lhes pedir dinheiro (nunca lhe passa pela cabeça roubar - esta sua honestidade intrínseca é um dos pontos mais interessantes do filme) é filmado duma forma discretíssima pelo realizador japonês, que não por acaso aligeira essas cenas com uns diálogos bem-humorados. Esta vontade de evitar o sentimentalismo, sem dúvida uma virtude, acaba no entanto por se transformar na maior limitação do filme. Penso que Hirokazu Kore-eda não aprendeu inteiramente com os mestres realistas a dosear a crueza da narrativa com os momentos que toquem, que transcendam. Não sendo fácil apontar defeitos a 'Ninguém sabe', também não será fácil recordar cenas marcantes, momentos cinematográficos que se elevem (e todos nos lembramos de meia dúzia de cenas de 'Ladrões de bicicleta', por exemplo). Mas o filme vale a pena só pelo facto de conhecermos Akira, esse rapazinho triste, muito independente, honesto e desembaraçado, que me fez lembrar os que encontramos nos livros (nada realistas!) do seu compatriota Haruki Murakami!
Dare mo shiranai / Nobody Knows, Japão, 2004. Realização: Hirokazu Kore-eda. Com: Yagira Yuya, Kitaura Ayu, Kimura Hiei, Shimizu Momoko, You.

21.7.06

Maria Madalena



Uma actriz (Juliette Binoche) interpreta o papel de Maria Madalena num filme, "This Is My Blood", e fica tão tocada pela personagem, que acabado o filme, voa para Jerusalém em peregrinação espiritual. Um apresentador de um programa de TV de sucesso (Forest Whitaker), vai ficando cada vez mais obcecado pela religião, pela fé, temas de que anda a tratar no seu programa, enquanto vai deixando a sua vida privada descambar pouco a pouco (a mulher está grávida e queixa-se de que ele não lhe liga). Ferrara volta, assim, ao tema da descoberta da fé e da redenção, que já tinha abordado em 'Polícia sem lei' (filme que muito me marcou quando o vi, mas que não me impressionou tanto quando o revi recentemente).
Ao início o filme agarrou-me, devido às três interessante personagens principais: as duas já citadas, e também a de Matthew Modine, o realizador de "This is my blood", filme baseado no Evangelho apócrifo de Maria Madalena (descoberto em 1945) e segundo o qual esta rivalizaria com Pedro pelo 'título' de discípulo dilecto de Cristo. Modine defende o seu filme com alarde mas temos sempre a sensação de que é mais um provocador com olho no dinheiro do escândalo que o artista intransigente de que tenta passar a imagem. Binoche e Whitaker são diferentes, são pessoas em crise que precisam de se agarrar a algo - são verdadeiramente tocadas pelo tema. Até aqui tudo bem, mas Ferrara perde-se quando carrega nos tons: por exemplo, quando faz coincidir uma explosão de uma bomba em Jerusalém, durante uma refeição em que participa Binoche, com uma crise que surge com o bebé de Whitaker. Aqui percebemos que Ferrara quer introduzir o seu tema, o da procura da fé, o da redenção (Whitaker que tinha dito a Binoche 'não saber falar com Deus', é a Ele que se dirige na hora de maior aperto, oferecendo a sua própria vida) um pouco à pressão, de um modo algo leviano e superficial. Não basta pegar em duas personagens algo perdidas na vida e pô-las a discorrer sobre Deus para transmitir algo de transcendente ao espectador - acreditei na crise pessoal de Whitaker, mas não acreditei na sua descoberta de Deus. O tema é dos mais difíceis e não aparecem Dreyers todos os dias. Apesar de tudo, Ferrara é um muito bom realizador, que filma muito bem, e sendo na minha opinião 'Maria Madalena' um filme falhado, é ainda assim um falhanço interessante.
Mary, Itália/França/Estados Unidos, 2005. Realização: Abel Ferrara; Com: Juliette Binoche, Forest Whitaker, Matthew Modine, Heather Graham, Marion Cotillard, Stefania Rocca.

18.7.06

14º Curtas Vila do Conde


Rapace, de João Nicolau

Tendo assistido a quatro das dez sessões da competição internacional do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde 2006, pareceu-me que a qualidade média era bastante razoável, pese embora não ter visto nenhuma obra-prima. Estava assim com bastante curiosidade em assitir às duas sessões destinadas aos filmes premiados, mas infelizmente as escolhas do juri (composto pelo realizador americano Bruce Posner, 0 crítico de cinema francês Philippe Azoury e a jornalista Maria João Seixas) não corresponderam ao nível qualitativo que esperava - a segunda sessão de filmes premiados foi mesmo a pior das seis que vi!
No ano em que pela primeira vez o Grande Prémio foi atribuido a um filme português, 'Rapace', de João Nicolau, podemos dizer que três anos depois da sua morte, João César Monteiro surge como uma referência para uma geração de novos cineastas portugueses. Se 'Rapace' tem uma parte final com estética kubrickiana e um ambiente geral de filme independente americano, é no entanto no realizador da Figueira da Foz que pensamos automaticamente ao vê-lo. As personagens da empregada e do menino (Sr.Mestre!), todos os diálogos, até o divertido rap cantarolado (assim de memória, é algo no género 'no meu bairro todos votam PS e nada acontece, eu voto BE não sei bem porquê, é algo pos-PC'), é tudo Monteiro puro. João Nicolou absorve bem, no entanto, estas influências e compõe uma curta com personalidade própria e tem ideias de cinema originais. Não desenvolvendo muito as personagens, nem podendo muito sustentar uma 'história' em 25 minutos, ficam no entanto esboços interessantes e um retrato consistente de uma certa juventude. Não foi o melhor filme que eu vi, mas foi dos mais interessantes, e João Nicolau é sem dúvida um realizador a seguir com atenção. João César Monteiro é também o nome que surge inevitavelmente ao vermos 'Cântico das criaturas', de Miguel Gomes, Grande Prémio da Competição Nacional. Infelizmente aqui não podemos falar em 'inspirado em', ou em 'homenagem a', mas sim em 'cópia de'. É, sem tirar nem pôr, uma imitação desinteressante do César Monteiro da altura de 'Silvestre'... Os restantes premiados também não se elevaram a grandes alturas, com excepção de 'By the kiss', Prémio UIP, uma curta francesa de Yann Gonzalez, com apenas 5 minutos em que observamos somente uma jovem a ser beijada arrebatadamente à vez por diversas pessoas, sob uma música envolvente. Às tantas parece que estamos a assistir a uma cena emocionalmente muito poderosa, quando na realidade não temos qualquer contextualização nem nada a priori que justifique este sentimento. Metáfora sobre o poder do cinema? Dos restantes prémios, como dissemos, não rezará a história: 'Rabbit' vencedor do Prémio animação, é divertido e até certo ponto original, mas está longe de ser uma obra-prima; 'Quelques miettes pout les oiseaux', documentário anódino sobre vendedores de gasolina na fronteira do Iraque (pois...) levou o prémio da categoria; o Prémio vídeo musical foi para o inglês Thomas Hicks, com um vídeo competente para uma bela música dos Gravenhurst; o Prémio do público (e os votados pelo público foram completamente diferentes dos escolhidos pelo juri) foi para 'À bras de corps', uma curta bem filmada e interpretada, sensível mas não muito original, sobre dois rapazinhos que se preparam para um dia na escola enquanto a mãe, algo misteriosamente, não consegue acordar; finalmente 'Ressonating surfaces', do belga Manon de Boer, Prémio filme experimental, encerrou a sessão e o festival, tendo os seus 39' sobre Rolnik, uma psicanalista brasileira que conviveu com Deleuze e Guattari, quase sempre com imagens desfocadas ou o écran em branco, provocado uma debandada geral do público...
Para o ano há mais.

15.7.06

...e o resto é paisagem (IV)



Tenho a impressão que agora que o calor aperta e as pessoas começam a ir de férias, começam também a ser depejados uma série de filmes atrasados nas salas do Porto. Esta semana é a vez de 'Maria Madalena', de Ferrara, dois meses e meio depois da estreia em Lisboa. Em altura de curtas em Vila do Conde, vamos ver se há tempo para o ver.

12.7.06

A comédia do poder



É impossível ouvirmos as palavras 'política externa francesa' sem as associarmos a negócios obscuros entre multinacionais francesas ligadas ao estado, e ditadores corruptos Africanos. Escândalos como o da Elf e outros, lembram-nos que antes dos States entrarem neste campo, há muito que as velhas colónias europeias, com a França à cabeça, davam cartas... Chabrol, crítico repetente dos pequenos pecados da burguesia rural, vira agora a sua lente ampliadora para a capital e para os políticos e financeiros de topo. Para isso utiliza o seu método habitual de impregnar uma radiografia implacável dos podres da sociedade com fortes tons de ironia e mordacidade, usando agora como arma uma juiz inclemente e com espirito justiceiro (Isabelle Huppert) que resolve atacar pelos cornos um esquema a la Elf. Huppert compõe a sua personagem de um modo perfeito- é fria, irritante, obcecada, cínica, mas ainda assim possuindo humor e humanidade (esta última manifestando-se através do seu sobrinho, Félix/Thomas Chabrol, personagem secundária muito bem engendrada). Aliás, num toque de humor certeiro, a sua personalidade é resumida no seu nome - Jeanne Charmant-Killman! Quanto ao realizador, podemos dizer que aos 76 anos está no topo da sua forma. A única coisa de que poderá ser acusado é de não surpreender ou inovar, porque de resto poucos realizadores filmam tão bem como ele e ainda menos contam tão bem uma história. Mais uma vez teremos que contar com ele quando fizermos o balanço dos melhores do ano...
L`Ivresse du Pouvoir, França/Alemanha, 2005. Realização: Claude Chabrol. Com: Isabelle Huppert, François Berléand, Patrick Bruel, Robin Renucci, Maryline Canto, Thomas Chabrol.

10.7.06

Eu, tu e todos os que conhecemos



‘Eu, tu e todos os que conhecemos’ é o primeiro filme da artista norte americana Miranda July . No centro do filme está uma história de amor improvável, entre um vendedor de sapatos (interpretado pelo excelente John Hawkes,a fazer-me lembrar o David Thewlis de ‘Naked‘ numa versão menos ácida) e uma condutora de taxi para idosos (!) que é artista nas horas vagas (interpretada por Miranda July, herself). Tudo neste centro é magnífico, romanticamente destrambelhado, desesperadamente terno, muito ‘punch-drunk love’ para usar uma referência inevitável. À sua volta podemos desenhar um círculo mais largo, que abrange todos os secundários: os filhos dele algo perdidos, os idosos de quem ela trata (os mais felizes), um colega dele que se envolve num estranho jogo erótico com duas adolescentes, uma directora de museu deprimida, uma miúda obcecada com o enxoval. Neste circulo o ambiente é mais 'Hapiness' (que como se sabe era um filme sobre tudo menos a felicidade), e na minha opinião menos interessante - aproxima-se mais da tradicional crónica desencantada dos subúrbios, retratada em n filmes independentes americanos. Sendo tentador servirmo-nos de outros realizadores para a caracterizarmos a ela, não se pense por isso que July é uma mera ‘aglutinadora’ de referências ou estilos: nada disso - é mesmo senhora de um tom próprio e inesperado. Não pondo de lado o ser uma artista/performer - veja-se como as ‘instalações’ da sua personagem, e nomeadamente a sua bela voz, dão um estranho tom poético ao filme - é uma cineasta (e argumentista) de corpo inteiro, e não uma artista que achou que já que fazia uns vídeos também podia fazer um filme para passar nas salas de cinema... (aliás, de passagem, farta-se de gozar com o mundo da arte moderna que naturalmente muito bem conhece.)
Não nos vamos esquecer tão cedo de Richard, o vendedor de sapatos que imolou uma mão como símbolo do fim do seu casamento, e que grita estar pronto para viver experiências superiores; nem de Christine, a artista amadora que sabe que os dois têm uma vida em comum à sua espera, mas que tal só pode acontecer se ele lhe telefonar. Quem não gostava de encontrar alguém como eles?
Me and You and Everyone We Know, E.U.A./Grã-Bretanha, 2005. Realização: Miranda July. Com: John Hawkes, Miranda July, Miles Thompson, Brandon Ratcliff, Carlie Westerman, Hector Elias, Brad William Henke, Natasha Slayton, Najarra Townsend.

7.7.06

...e o resto é paisagem (III)



Mais um filme para a lista aqui do lado - 'As Filhas do Botânico', de Sijie Dai. Mas nem tudo são más notícias: a estreia mais palpitante da semana, 'Eu, Tu e Todos os que Conhecemos', de Miranda July, está em exibição no Cidade do Porto. Conto em breve pôr aqui a sua crítica.

2.7.06

A Condessa Russa



James Ivory tem um estilo a que, à falta de melhor, se costuma chamar académico. Com isto pretende-se designar uma produção cuidada, uma realização atenta e elegante mas sem rasgos de maior, um cuidado geral posto na coisa, que faz com que o produto final seja quase sempre se não distinto, pelo menos gracioso. Pode-se dizer que é um realizador da velha escola que dá primazia ao argumento, ancorando-se quase sempre em escritores de prestigío - Henry James, E.M.Forster e agora novamente Kazuo Ishiguro. Nos seus melhores momentos chega mesmo a realizar filmes muito bons, como 'Quarto com vista sobre a cidade' e seria provavelmente o realizador que eu escolheria para me adaptar um livro, caso eu fosse escritor - de certeza que se manteria fiel ao espirito da obra, e transporia com cuidado e neutralidade o texto escrito para o grande ecrã.
A acção de 'A condessa russa' passa-se na Xangai pré segunda guerra mundial, então um centro mundano onde diplomatas e espiões de vários países co-habitavam com nobres Russos fugidos do seu país. O filme centra-se no encontro entre dois seres perdidos na vida: um ex-promissor diplomata americano (Ralph Fiennes), que tendo perdido a mulher e cegado num acidente, cegou também metafóricamente para a vida, sendo o seu único desejo gerir um bar onde possa esquecer o que se passa fora das suas quatro paredes; e uma condessa russa exilada (Natasha Richardson), que trabalha como 'acompanhante' num bar, para sustentar a filha e as familiares do marido morto, também nobres russas na sua situação, que aceitam o seu dinheiro mas lhe criticam o modo de vida. Ivory filma com a competência habitual este ambiente de decadência sofisticada, mas precisava de uma actriz com mais chama para dar côr a este romance. Ralph Fiennes por seu lado, tem o perfil ideal para este tipo de papel, mas não consegue evitar alguns dos tiques em que caem todos os actores que interpretam cegos, lembrando assim o espectador, mais vezes do que o desejável, que está a assistir a uma representação. O resultado final é assim algo indistinto e fica a sensação de que este argumento merecia mais, mas mesmo assim não lamentei os quatro euros do bilhete. É que eu nestas coisas sou um bocado conservador: se o argumento for interessante, difícilmente dou o tempo por mal empregue...
The White Countess, Grã Bretanha/Estados Unidos/Alemanha/China, 2005. Realização: James Ivory. Com: Ralph Fiennes, Natasha Richardson, Vanessa Redgrave, Lynn Redgrave, Madeleine Potter, John Wood, Madeleine Daly, Hiroyuki Sanada, Allan Corduner.