
Há uma velha piada que circula há dezenas de anos no meio do show business americano. A sua singularidade reside no facto de praticamente só o final ser 'obrigatório'. De resto, cada um a conta conforme a sua imaginação ditar. Uma regra não escrita que prevalece entre os cómicos profissionais é mesmo que quanto menos limites houver a contá-la, melhor ela funciona (embora nem todos concordem que seja uma grande piada!). 'Os aristocratas' é isto: um documentário de uma hora e um quarto sobre esta anedota. Dezenas de comediantes, desde celebridades (como Robin Williams, Eric Idle, Whoopi Goldberg ou...Cartman, de South Park!) até aqueles que só serão conhecidos nos E.U.A., contam a sua versão, qual delas a mais escatológica, politicamente incorrecta, abjecta, ordinária, de mau gosto, sei lá que mais. Digamos que temas como a defecação ou o incesto são dos mais glosados...
Aquilo que poderia ser apenas um objecto insólito - que o é! - acaba no entanto por ser muito mais do que isso: à medida que os intervenientes do filme vão reflectindo sobre esta anedota, porque é que mete piada ou não, porque gostam dela ou não, percebe-se que do que aqui se fala é de liberdade de expressão, e dos limites que existem (ou não) sobre aquilo de que nos podemos rir. Um tema mais que actual e pertinente, portanto, que o realizador Paul Provenza superiormente embrulha com uma capa divertidíssima e original - e prova que é mesmo possível rirmo-nos de uma anedota à quinquagésima versão!
The Aristocrats, E.U.A., 2005. Realização: Paul Provenza. Documentário. Com: Jason Alexander, Drew Carey, George Carlin, Billy Connolly, Gilbert Gottfried, Eric Idle, Eddie Izzard, Penn Jillette, Richard Lewis, Kevin Pollack, Paul Reiser, Andy Richter, Don Rickles, Chris Rock, Jeffrey Ross, Bob Saget, Sarah Silverman, Doug Stanhope, Jon Stewart, Fred Willard, Robin Williams, Steven Wright.





É precisamente neste mundo das histórias de embalar que se inscreve este último filme de M.Night Shyamalan, um dos mais originais e inventivos contadores de histórias do cinema actual. 'Lady in the Water', que tem sido muito atacado por motivos extra-filme (a suposta megalomania do realizador, o divórcio com a Disney, etc., etc.) é uma fábula sobre seres dum outro mundo, aquático, que vêm ao mundo dos humanos (mais precisamente a um microcosmos - um daqueles condomínios com uma piscina no meio), maravilhosamente filmada, fotografada, cenografada (não sei se a palavra existe), interpretada. É cinema em estado puro, ficção sem necessidade de buscar qualquer tipo de realismo, naturalismo, ou mesmo lógica. Coisas aliás que nunca preocuparam os grandes artistas: basta pensar em David Lynch, não é preciso ir mais longe. Os seres humanos deste filme aceitam naturalmente a presença de uma ninfa entre eles, e nessa naturalidade está um dos fascínios do filme. O único que duvida, porque acha que sabe tudo, que interpreta tudo racional e dogmaticamente, não acaba bem. Que seja um crítico cinematográfico é uma tentação que Shyamalan poderia ter evitado - as metáforas evidentes são as menos interessantes. O tom de comédia que se insinua pela ficção também nem sempre resulta, 'cortando' por vezes o ar sobrenatural que respiramos. Pequenos pecados que, juntamente com a sensação que a 'história' não é tão poderosa quanto o realizador-argumentista pretenderia, impedem, na minha modesta opinião, que o filme se alcandore ao estatuto de obra-prima. Mas não garanto que o futuro não me desminta...


