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18.10.06

Os aristocratas



Há uma velha piada que circula há dezenas de anos no meio do show business americano. A sua singularidade reside no facto de praticamente só o final ser 'obrigatório'. De resto, cada um a conta conforme a sua imaginação ditar. Uma regra não escrita que prevalece entre os cómicos profissionais é mesmo que quanto menos limites houver a contá-la, melhor ela funciona (embora nem todos concordem que seja uma grande piada!). 'Os aristocratas' é isto: um documentário de uma hora e um quarto sobre esta anedota. Dezenas de comediantes, desde celebridades (como Robin Williams, Eric Idle, Whoopi Goldberg ou...Cartman, de South Park!) até aqueles que só serão conhecidos nos E.U.A., contam a sua versão, qual delas a mais escatológica, politicamente incorrecta, abjecta, ordinária, de mau gosto, sei lá que mais. Digamos que temas como a defecação ou o incesto são dos mais glosados...
Aquilo que poderia ser apenas um objecto insólito - que o é! - acaba no entanto por ser muito mais do que isso: à medida que os intervenientes do filme vão reflectindo sobre esta anedota, porque é que mete piada ou não, porque gostam dela ou não, percebe-se que do que aqui se fala é de liberdade de expressão, e dos limites que existem (ou não) sobre aquilo de que nos podemos rir. Um tema mais que actual e pertinente, portanto, que o realizador Paul Provenza superiormente embrulha com uma capa divertidíssima e original - e prova que é mesmo possível rirmo-nos de uma anedota à quinquagésima versão!
The Aristocrats, E.U.A., 2005. Realização: Paul Provenza. Documentário. Com: Jason Alexander, Drew Carey, George Carlin, Billy Connolly, Gilbert Gottfried, Eric Idle, Eddie Izzard, Penn Jillette, Richard Lewis, Kevin Pollack, Paul Reiser, Andy Richter, Don Rickles, Chris Rock, Jeffrey Ross, Bob Saget, Sarah Silverman, Doug Stanhope, Jon Stewart, Fred Willard, Robin Williams, Steven Wright.

15.10.06

Uma família à beira dum ataque de nervos



Os Hoover dirigem-se à Califórnia numa velha 'pão de forma' amarela, para a miúda mais nova participar num desses monumentos à parvoíce mais deprimente que são os concursos de beleza infantil dos States. Quem é esta família? O pai da miúda inventou um método em 9 passos para se atingir o sucesso (mas como não o consegue vender está à beira da bancarrota) e profere a palavra 'vencedor' de cinco em cinco minutos (mas é obviamente um looser chapado); o tio é um académico especialista em Proust que se tentou suicidar porque o aluno por quem se apaixonou preferiu o seu concorrente, que ainda por cima foi canonizado como o maior especialista americano em Proust (remetendo-o a ele para a segunda posição); o irmão da miúda é um adolescente leitor de Nietzsche, que fez um voto de silêncio até entrar para a força aérea; o avô é viciado em drogas e pornografia e é quem ensaia a miúda (gordinha!) para o concurso de misses; e finalmente a mãe, pessoa mais equilibrada, tenta evitar que a casa vá abaixo. 'Uma família à beira dum ataque de nervos' é como um filme de Wes Anderson sem as bizarrias de Wes Anderson, impregnado do sentido de crítica social de Tod Solondz, mas substituindo o tom 'melancómico' destes por um humor abertamente contagiante, por vezes a roçar o burlesco.
Que a dupla Jonathan Dayton e Valerie Faris (vêm dos telediscos, mas graças a Deus não se nota nem por um segundo) tenha assinado o filme mais divertido do ano, pegando numa família disfuncional para atacar um dos pilares mais firmemente arreigados da sociedade americana - a cultura do 'sucesso' - eis um feito digno dos maiores encómios, que o torna também num dos melhores filmes do ano.
Little Miss Sunshine, E.U.A., 2006. Realização: Jonathan Dayton e Valerie Faris. Com: Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carell, Abigail Breslin, Paul Dano, Alan Arkin.

13.10.06

As filhas do botânico



'As filhas do botânico' é uma história de amor entre duas mulheres, filmado num tom intimista e pontuado por um par de cenas eroticamente explícitas. Não será talvez aquilo que mais esperaríamos de um realizador chinês, mas o facto de Dai Sijie estar radicado em França explicará algo. Este exílio também lhe permite relembrar-nos de um aspecto de que por vezes nos esquecemos agora que a China está na moda (segundo li há dias, já é o terceiro ou quarto destino turístico mais procurado do mundo): que estamos perante uma ditadura que, como todas, é não apenas repressiva no aspecto politico, mas também brutalmente reaccionária e intolerante no campo dos costumes e da moral.
O filme não escapa a uma certa mediania, a uma competência 'académica', esbanjando por exemplo a tensão erótica criada no início mas esquecida durante longo tempo - há um hesitar entre o intimitismo e o libelo que o prejudica gravemente. Ainda assim vale a pena vê-lo pelos momentos de beleza que nos proporciona: das paisagens e das suas discretamente sensuais protagonistas.
Zhiwuyuan / Les Filles du Botaniste, França/Canadá, 2006. Realização: Daï Sijie. Com: Mylène Jampanoï, Li Xiaoran, Dongfu Lin, Wang Weidong, Nguyen Van Quang.

9.10.06

Transe



Mais do que um filme sobre imigrantes apanhadas nas redes de tráfico de mulheres na Europa, 'Transe' é um filme sobre uma mulher que cai nas mãos duma dessas máfias da prostituição. Tudo que diz respeito a processos e métodos de trabalho destas redes é elíptico e vago, fugindo a realizadora a sete pés de qualquer estilo documental. O que lhe interessa é acompanhar, no seu peculiar ritmo lento, o processo de decomposição mental desta mulher, enquanto vagueia da Rússia natal para a Alemanha (onde tenta um trabalho legal), depois para Itália (para onde é enviada como escrava sexual para uma mansão, na parte menos interessante do filme, que envolve cenas teatrais e insólitas) e finalmente aterrando em Portugal. Tirando meia dúzia de planos das gélidas paisagens russas, e um um ou dois de personagens secundárias, todo o filme se centra sobre Ana Moreira, sobre o seu 'transe', a sua transformação de uma mulher que inicialmente quer arriscar e tentar algo, até se tornar um fantasma que vagueia pelos sítios, agarrando-se aqui e ali a alguma réstia de esperança. É assim impossível falar de 'Transe' sem falar da sua actriz, que incarna sem mácula todos os pesadelos da sua personagem - a sua dor, o seu alheamento, a sua desesperada esperança. Acompanharia de bom grado os ditirambos que tem recebido, não fosse o caso de me parecer que este tipo de papéis -sofredores, sobrexpostos- acabam sempre por cair num certo estereótipo - apesar de ser menos culpa da actriz do que do papel que lhe foi dado. Teresa Vilaverde filma tudo isto com elegância e savoir faire, há mesmo um virtuosismo na fotografia, na montagem, nos enquadramentos, que é até um pouco exibicionista. O resultado final é que não obstante o filme nos transmitir algo sobre o sofrimento e o desamparo de um ser humano, é tão frio como as gélidas paisagens russas que nos vai mostrando.
Transe, Portugal, 2006. Realização: Teresa Vilaverde. Com: Ana Moreira, Viktor Rakov, Robinson Stévenin, Iaia Forte, Andrey Chadov, Tim, Filippo Timi, Dinara Droukarova.

6.10.06

Click



Se o leitor, num momento de insanidade, tiver a ideia de ir ver 'Click', deixo-lhe aqui um conselho: vá aqui e veja o trailer. Duas das três cenas com piada do filme estão lá. Não precisa de me agradecer por ter poupado cinco euros.
Click, E.U.A., 2006. Realização: Frank Coraci. Com: Adam Sandler, Kate Beckinsale, Christopher Walken, David Hasselhoff, Henry Winkler.

4.10.06

A Senhora da Água



Actualmente só estamos habituados a aceitar a pura fantasia em dois tipos de filmes: em sagas a la Senhor dos Anéis, obras assumidamente no domínio do fantástico, com elfos e hobbits , ou nos filmes de terror, em que acreditamos em zombies e quejandos com a maior facilidade. Já fábulas intimistas, em que seres humanos como nós, que vivem num mundo como o nosso, convivem com seres de outros mundos, são vítimas do maior cepticismo. O riquíssimo imaginário das histórias infantis, fantasiosas, sem lógica, maravilhosas, praticamente não entra no cinema para adultos, excepção feita a Spielberg cuja tendência para a lamechice muitas vezes estraga a coisa.
É precisamente neste mundo das histórias de embalar que se inscreve este último filme de M.Night Shyamalan, um dos mais originais e inventivos contadores de histórias do cinema actual. 'Lady in the Water', que tem sido muito atacado por motivos extra-filme (a suposta megalomania do realizador, o divórcio com a Disney, etc., etc.) é uma fábula sobre seres dum outro mundo, aquático, que vêm ao mundo dos humanos (mais precisamente a um microcosmos - um daqueles condomínios com uma piscina no meio), maravilhosamente filmada, fotografada, cenografada (não sei se a palavra existe), interpretada. É cinema em estado puro, ficção sem necessidade de buscar qualquer tipo de realismo, naturalismo, ou mesmo lógica. Coisas aliás que nunca preocuparam os grandes artistas: basta pensar em David Lynch, não é preciso ir mais longe. Os seres humanos deste filme aceitam naturalmente a presença de uma ninfa entre eles, e nessa naturalidade está um dos fascínios do filme. O único que duvida, porque acha que sabe tudo, que interpreta tudo racional e dogmaticamente, não acaba bem. Que seja um crítico cinematográfico é uma tentação que Shyamalan poderia ter evitado - as metáforas evidentes são as menos interessantes. O tom de comédia que se insinua pela ficção também nem sempre resulta, 'cortando' por vezes o ar sobrenatural que respiramos. Pequenos pecados que, juntamente com a sensação que a 'história' não é tão poderosa quanto o realizador-argumentista pretenderia, impedem, na minha modesta opinião, que o filme se alcandore ao estatuto de obra-prima. Mas não garanto que o futuro não me desminta...
Lady in the Water, E.U.A., 2006. Realização: M. Night Shyamalan. Com: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Bob Balaban, Jeffrey Wright, Sarita Choudhury, Freddy Rodriguez, Bill Irwin, Jared Harris, M. Night Shyamalan.

2.10.06

Topmania



A liga dos blogues cinematográficos elegeu os 50 melhores filmes dos anos 60 . Recém-chegado à liga, com apenas meia dúzia de dias para pensar, optei por me abster desta votação (mas não falharei mais nenhuma!). Grosso modo a lista não foge muito ao meu gosto e penso que o primeiro lugar ficou muito bem entregue, não obstante o meu preferido ser o que ficou em oitavo. Eis o top ten:

1 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odissey), Stanley Kubrick, 1968

2 Era Uma Vez no Oeste (C'era una Volta il West), Sergio Leone, 1968

3 Psico (Psycho), Alfred Hitchcock, 1960

4 Os Pássaros (The Birds), Alfred Hitchcock, 1963

5 Persona, Ingmar Bergman, 1966

6 O Anjo Exterminador (El Angel Exterminador), Luis Buñuel, 1960

7 Blow Up (Blow Up), Michelangelo Antonioni, 1966

8 O Homem Que Matou Liberty Valance (The Man Who Shot Liberty Valance), John Ford, 1962

9 Oito e Meio(Fellini 8½), Federico Fellini, 1963

10 O Desprezo (Le Mépris), Jean-Luc Godard, 1963

27.9.06

98 octanas



É conhecida a definição de António Variações - que a sua música estaria algures entre o Minho e Nova Iorque. Poder-se-ia dizer algo semelhante deste novo filme de Fernando Lopes: que está a meio caminho entre um certo cinema americano (os film noir, os road movies) e um certo cinema português (mais difícil de justificar esta última parte - mas que é muito português, lá disso não há duvidas). Não há aqui grande narrativa, apenas duas personagens que se encontram numa estação de serviço (o símbolo por excelência de um novo Portugal, 'moderno') e vão país fora à deriva, ao sabor do vento (raramente vi um filme passado tanto tempo num carro). Ele (Rogério Samora) foge de algo que desconhecemos, ela (a bela Carla Chambel) busca algo, também não sabemos muito bem o quê. Tu que buscas companhia, e eu que busco quem amar, como cantava Variações? O fio narrativo é ténue e apenas vamos apanhando algo aqui e ali, através dos diálogos entre as duas personagens (escritos pelo realizador e pelo crítico João Lopes), artificiais, rarefeitos, ríspidos, ora coloquiais ora pomposos, conversas de surdos o mais das vezes. Jogam um jogo entre os dois em que o espectador nem sempre consegue entrar.
'98 octanas' é belissimamente filmado, quase que não há um plano que não valha por si, que não valha muitos filmes que por aí andam. É também desequilibrado, com situações mal resolvidas (por exemplo: toda a cena com a avó, que parece um episódio metido à força no corpo do filme), com pormenores insólitos (a cena do cameo de Joaquim Leitão). Mas é também um filme com força, que arrisca, que não é formatado, por onde passa uma aura de mistério e de erotismo não muito vulgar.
98 octanas, Portugal, 2006. Realização: Fernando Lopes: Com: Rogério Samora, Carla Chambel, Márcia Breia, Fernando Heitor, Joaquim Leitão, Fernando Lopes.

25.9.06

Sven Nykvist (03/12/1922 - 20/09/2006)




'Most of all I miss working with Sven Nykvist, perhaps because we are both utterly captivated by the problems of light, the gentle, dangerous, dreamlike, living, dead, clear, misty, hot, violent, bare, sudden, dark, springlike, falling, straight, slanting, sensual, subdued, limited, poisonous, calming, pale light. Light'.
(Ingmar Bergman, citado em 'Making Pictures: A Century of European Cinematography')


Sven Nykvist, que faleceu a semana passada, foi um dos maiores directores de fotografia da história do cinema. Tornado conhecido pela sua pareceria com Bergman, seria também 'requisitado' por outros realizadores na Europa e nos Estados Unidos que queriam trabalhar com o mestre. Deixou o seu nome ligado a uma quantidade incrível de obras-primas da sétima arte - é assim impossivel resumir a sua filmografia, mas ainda assim gostaria de aqui citar alguns filmes que ele fotografou, obedecendo apenas ao critério do gosto pessoal: 'O Silêncio', 'Persona', Lágrimas e suspiros', 'Cenas da vida conjugal', “Fanny e Alexander', de Bergman; 'Uma outra mulher' e 'Crimes e escapadelas' de Woody Allen; 'O sacrifício', de Tarkovsky.

24.9.06

World Trade Center



Mal se soube que Oliver Stone iria filmar 'World Trade Center', a polémica não mais abandonou a obra. Primeiro foi a direita americana a torcer o nariz ao nome do realizador. Isto antes de o filme estrear, porque depois passou a tecer-lhe loas e foi a vez de a esquerda franzir o sobrolho ao seu 'patriotismo'. Não há duvida que é um filme patriota, mas Stone antes de mais é americano, e dificilmente iria escolher um acontecimento em que a América foi atacada para criticar o seu país - não tem lógica a surpresa de muitos por Stone não exibir aqui a sua costela contestatária, presente em grande parte da sua obra. Dito isto, acrescente-se que ser 'patriota' diz tanto dum filme como dizer de uma pintura que é azul ou amarela. Como já foi dito, pelo menos desde Griffith que o cinema americano nos tem dado excelentes filmes 'patriotas'. Deixando agora estas questões laterais que têm toldado a discussão sobre 'World Trade Center', olhemos então para as questões cinematográficas, as que interessam para aqui. Na minha opinião este é um filme totalmente falhado. Stone chega ao tema do 11 de Setembro tomando um desvio interessante: filma dois polícias que foram chamados às torres logo após o embate dos aviões, que ficaram lá presos e que finalmente foram dos raríssimos que saíram de lá com vida. Paralelamente filma a angústia das famílias destes homens, presas à televisão sem saber nada deles, se estão vivos ou mortos. A montagem vai assim alternando os diálogos dos dois homens imobilizados sob os escombros das torres enquanto esperam que surja alguma ajuda, com as reacções das suas mulheres e restante família em casa. Esta abordagem com bastante potencial dramático é arruinada pelo facto de Stone não escapar a nenhum cliché acerca do herói corajoso e íntegro, que tem a mulher perfeita e compreensiva, que forma a família ideal, que veio directamente de um outro planeta. Os diálogos entre os dois homens são irritantemente repetitivos, não saindo nunca do 'se saíres daqui com vida diz à minha mulher que eu a amava muito'. Do mesmo modo a reacção das suas famílias é estereotipada até ao infinito, era um marido tão bom, um pai extremoso, o filho que quer ir salvar o pai e descarrega na mãe, a mãe que se culpa pela reacção do filho, enfim, um puxar à lágrima fácil e superficial. Stone nitidamente não sabe o que há-de fazer com as suas personagens e consegue a proeza de transformar grande parte do filme numa monotonia inacreditável, desperdiçando ainda pelo caminho duas das mais interessantes actrizes da actualidade, Maggie Gyllenhaal e Maria Bello, que só têm banalidades para dizer. Na última meia hora o filme ainda arrebita um bocadinho, quando os dois homens são descobertos por um iluminado que à revelia das autoridades resolveu fazer buscas por contra própria, noite dentro. Aí o companheirismo, a solidariedade, a abnegação das forças de salvamento dão um bocadinho daquele tom humanista, genuinamente heróico, que tinha faltado até então. Infelizmente nem neste momento Stone foge ao lugar-comum, introduzindo um paramédico a quem a droga tinha perdido, que encontra aqui uma espécie de redenção... (bom, pelo menos há uma pessoa neste filme que não é perfeita).
O resultado final é um enorme bocejo, que faz 'Voo 93' parecer uma obra-prima.
World Trade Center, E.U.A., 2006. Realização: Oliver Stone. Com: Nicolas Cage, Michael Peña, Maggie Gyllenhaal, Maria Bello, Jay Hernandez, Armando Riesco, Michael Shannon, Frank Whaley, Stephen Dorff.