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30.11.06

Casino Royale



Em ‘Casino Royale’ James Bond puxa mais do gatilho do que diz piadas assassinas, apanha mais no corpinho do que nos outros filmes todos juntos, corre, corre e torna a correr atrás de vilões mas rebola-se pouco com Bond girls , esfalfa-se todo e passa o filme com a cara arranhada e o corpo feito num oito. Para cúmulo chega a pôr de lado o seu proverbial cinismo e, imagine-se, apaixona-se (na realidade como este é supostamente o ‘primeiro episódio’, o cinismo veio daqui – da tampa que apanha).
Daí até ‘refundar o género’, ‘ganhar uma espessura que nunca teve’, e outras loas que tem recebido vai um passo de gigante. Se ganhou numas coisas, perdeu noutras (eu gostava das piadas assassinas e do cinismo). Casino Royale é um 007 competente e um filme de acção regular, não mais. Já agora, Daniel Craig está muito bem neste estilo musculado e, quanto mais não fosse, valia a pena ver o filme só por causa de Eva Green. Esta sim, tem entrada directa no top das mais belas Bond Girls.
Casino Royale, Grã-Bretanha/República Checa/Alemanha/E.U.A, 2006. Realização: Martin Campbell. Com: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright, Giancarlo Giannini, Caterina Murino, Simon Abkarian, Jesper Christensen.

28.11.06

Os amantes regulares



'Os amantes regulares' tem alguns dos planos mais belos que podemos ver este ano nas salas de cinema. A austera e quase sobrenatural fotografia a preto e branco de William Lubtchansky (colaborador habitual de Rivette ou Iosseliani, por exemplo), aliada ao irreprensível olhar estético do realizador, emergem-nos num ambiente único, a que estamos pouco habituados nesta época dominada por filmes formatados e sem risco. Neste campo, parece que estamos a ver um filme que não é deste tempo, mas mais do tempo que relata: 1968.
Sendo um olhar pessoal (e desencantado) sobre o Maio de 68, o filme é mais do que isso. O capitulo inicial mostra-nos a luta entre estudantes e policia, incluindo uma longa e estranha sequência filmada de longe, recordando-nos algo entre uma reportagem e uma cena de batalha num filme histórico. A seguir entramos no dia-a-dia dos seus protagonistas, comprometidos mas pas trop com a revolução, que basicamente passam o dia a fumar ópio - uma visão oposta ao romantismo de Bertolucci em 'Os sonhadores'. O romantismo aqui é guardado para a terceira parte, a história de amor entre Louis Garrel e Clotilde Hesme, intensa e bela, mas contaminada pelo ar da época: como pode ele pedir-lhe fidelidade? Como pode ela pedir-lhe que espere por si?
Fossem estes 'episódios' (cada um com direito a título) vistos separadamente, e eu poucos fotogramas tiraria ao filme. Mas não são, e as 3 horas de duração são excessivas, exigindo uma resistência que poucos espectadores terão - é difícil manter a nossa atenção durante tanto tempo, por maior que seja a nossa disponibilidade. Assim sendo, 'Os amantes regulares' teria necessitado, na minha opinião, de um bom corte aquando da montagem - eu apostaria na segunda parte, nas longas sequências em que apenas se fumam drogas em casa de Antoine. Não foi esse o entendimento de Philippe Garrel e tornou assim o todo menos do que a soma das partes.
Les Amants Réguliers, França, 2004. Realização: Philippe Garrel. Com: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Maurice Garrel.

27.11.06

Infame



'Infame' é inegavelmente prejudicado por chegar às salas depois de Capote. Tal como este, cobre os anos em que Truman Capote andou a escrever 'A sangue frio', mas naturalmente ressente-se do facto de aquela curiosidade biográfica, digamos assim, que o espectador teria por este período decisivo para a consagração de Capote, ter sido já satisfeita pelo muito competente filme que o antecedeu. 'Infame' acaba assim por ser uma variação sobre o mesmo tema. Carrega ainda mais na excentricidade do escritor (o seu guarda roupa é todo um programa), deleita-se com o ambiente endinheirado, sofisticado e mundano onde este se movia (por contraste com a terriola do Kansas para onde foi investigar o assassinato dos Clutter) e, factor mais distintivo, vai muito mais longe do que 'Capote' na relação entre Truman e Perry, o 'assassino-terno' que tanto fascinou o escritor. Enquanto o filme de Bennett Miller não sugeria mais do que uma atracção algo doentia de Capote pelo criminoso, aqui há declaradamente uma atracção homossexual mútua, em parte consumada.
Na minha opinião 'Infame' é um filme inferior a 'Capote' por um simples motivo: é mais descritivo, mais demonstrativo, quer-nos enfiar deliberadamente mais informação pela goela abaixo, em vez de nos deixar algum espaço, uma aberta para respirarmos. Onde 'Capote' sugere, 'Infame ' professa. Há no entanto um aspecto que é impossível não salientar: os seus actores. Num filme que tem um elenco impressionante, não podemos deixar de referir três interpretações: em primeiro lugar a do desconhecido Toby Jones que consegue a proeza impossível de meter a (óptima) interpretação de Philip Seymour Hoffman num chinelo; depois, a de Sandra Bullock, que pela primeira vez na vida não só não assassina um filme em que entra, como está francamente bem no papel da discretamente inteligente Harper Lee, a amiga de Capote e escritora de 'To Kill a Mockingbird' (que, diga-se de passagem, deu um belo filme de Robert Mulligan); e finalmente a mais curiosa - a de Daniel Craig, que numa altura em que está na berra pelo desempenho do durão e cínico James Bond, encarna aqui o aleijado e desamparado criminoso Perry Smith.
Infamous, E.U.A., 2006. Realização: Douglas McGrath. Com: Toby Jones, Sandra Bullock, Daniel Craig, Lee Pace, Peter Bogdanovich, Jeff Daniels, Hope Davis, Gwyneth Paltrow, Isabella Rossellini, Sigourney Weaver.

25.11.06

No comments



"Tal como qualquer pessoa razoavelmente culta sabe, a verdadeira grandeza do legado histórico do cinema italiano, a sua contribuição histórica para a cultura europeia e universal do século XX, não reside no neo-realismo ou em qualquer outra excentricidade só apropriada para intelectuais degenerados, mas em três géneros únicos: os westerns-spaghetti, as comédias eróticas da década de 1970 e - sem dúvida alguma, o maior de todos - o peplum, espectáculo histórico (Hercules contra Maciste, etc.)"

Slavoj Žižek, 'A subjectividade por vir'

23.11.06

16 Blocks



'16 Blocks' tinha, à partida, um argumento com os requisitos necessários para me agradar. Um policia alcoólico e na mó de baixo (Bruce Willis) tem uma hipótese de redenção num trabalho aparentemente simples que lhe calha por acaso : transportar um prisioneiro (Mos Def) da esquadra até ao tribunal, 16 quarteirões à frente (daí o título). Acontece que este vai depor contra um conjunto de polícias, e estes farão tudo que está ao seu alcance para que ele não chegue ao seu destino. Um western disfarçado, em suma. A primeira parte até se vê bem, polícia (bom) e criminoso em fuga pelas ruas da Chinatown nova iorquina, num jogo da caça e do rato com os polícias (maus).
Acontece que às tantas o nosso par se encontra encurralado num autocarro (estes filmes são sempre uma variação de 'Rio Bravo'). O dito autocarro tem os pneus furados e está cercado por metade da policia de Nova Iorque com o aparato que conhecemos: carros atravessados, barreiras de protecção, atiradores, etc., etc. Eis se não quando, o nosso herói (que já levou uns tiros e tem a mão direita inutilizada) põe o autocarro em marcha (deitado no chão para não apanhar outro balázio), leva tudo à frente e vira na primeira esquina (sempre deitado), enquanto o autocarro é alvejado, os vidros são partidos e são arremessadas bombas de gás lacrimogéneo lá para dentro. Miraculosamente quando a polícia lá entra...este está vazio! - já os nossos heróis se evaporaram e continuam tranquilamente a sua fuga a pé pelas ruas nova iorquinas... A partir desta cena, sem dúvida a mais estupidamente inverosímil do ano, no melhor estilo tom-atropela-jerry-e-este-torna-a-aparecer-na-cena-seguinte-pronto-para-outra, é impossível levar o filme a sério. Este aliás acaba por ir definhando até a um final chocho e lamechas, mas nessa altura há muito que nos tínhamos desinteressado.
16 Blocks, E.U.A./Alemanha, 2006. Realização: Richard Donner. Com: Bruce Willis, Mos Def, David Morse, Jenna Stern, Casey Sander.

22.11.06

Robert Altman (20/02/1925-20/11/2006)



Morreu aos 81 anos Robert Altman. Realizou dezenas de filmes, alguns dos quais têm lugar cativo na história do cinema. É obrigatório citar 'Nashville' (1975), 'O jogador' (1992) e - 0 meu preferido - 'Short cuts' (1993), adaptação de vários contos de Raymond Carver. O seu último filme, 'A Prairie Home Companion', estreado este ano e ainda em exibição nas salas de cinema, teve como "assistente de realização", devido à avançada idade do realizador, P.T. Anderson, facto cujo simbolismo não passou despercebido, dada a reconhecida influência de Altman na obra deste.

Breves



* Já está na Liga dos Blogues Cinematográficos o ranking do mês de Outubro (mês em que as estreias dos dois lados do Atlântico andaram algo dessincronizadas). O filme do mês foi 'A Dália Negra' de Brian De Palma, com uma média de 7,68 em 45 votantes.

* A não perder: um blogue com previsões para os Oscares!

* Agradecer a António Rosa a extrema amabilidade de nos considerar um dos melhores blogues temáticos cá do burgo.

Aditamento: O In mente e o (eter) também votaram em nós na iniciativa do Geração Rasca. Muito obrigado a ambos.

20.11.06

O Perfume



'O perfume' (o livro) é um best seller perene: já vendeu qualquer coisa como 15 milhões de exemplares e ainda hoje, mais de 20 anos depois da sua publicação, a probabilidade de um nosso vizinho na praia ou no avião o estar a ler é elevada. Só admira, assim, que tenha demorado tanto tempo a chegar ao grande ecrã. Ao que parece, não só Süskind (uma espécie de recluso) se mostrou sempre reticente em vender os seus direitos, como uma série de realizadores que se interessaram pelo livro - incluindo Kubrick , Scorsese e Tim Burton! - acabaram por o declarar 'infilmável'. Seja como for, 10 milhões de euros acabaram por convencer o escritor alemão a ceder os direitos autorais ao seu compatriota Bernd Eichinger (produtor de 'A queda') e a criança foi parar às mãos de Tom Tykwer, realizador de 'Corre Lola, corre' e dum muito bom episódio no recente 'Paris je t'aime'.
Toda a gente já conhecerá o seu enredo base, mas vale a penas recordar: passado na Paris do século 18, conta-nos a história de Jean-Baptiste Grenouille, que nasceu com duas características especiais - não tem cheiro (o que o torna 'invísivel' para os restantes seres humanos, ideia algo desperdiçada no filme) e possui um olfacto inigualável. A dificuldade, já se vê, está precisamente no cerne do argumento: como filmar um sentido como o olfacto?
Tom Tykwer simplifica imensamente a narrativa, amputando o filme da parte mais flaubertianamente irónica do livro - aquela em que Grenouille é mostrado como atracção de feira por um Marquês iluminado - e despacha em 2 minutos a mais insólita - a dos longos anos de isolamento do nosso heroí numa caverna na montanha. Concentra-se na parte mais sanguinolenta - Greunoille como assassino de jovens virgens - e carrega um pouco no voyeurismo, embora a cena a la Spencer Tunick até seja comedida. Quanto à questão central do olfacto, despacha-a com uma série de grandes planos do nariz do herói (27, segundo consta) que evidentemente é o mesmo que filmar repetidamente a cabeça de alguém para mostrar os seus profundos pensamentos. Apesar de tudo, o filme tem os seus méritos: sólidos valores de produção (não parece uma coisa pobrezinha europeia a armar-se em grande produção de Hollywood - parece mesmo uma grande produção), um bom casting (o actor principal é como a Coca Cola - primeiro estranha-se, depois entranha-se), uma bela fotografia e - qualidade maior sem a qual as anteriores seriam irrelevantes - nota-se que o realizador sabe o que está a fazer e, goste-se mais ou menos, tem uma ideia de cinema. Fica, assim, um degrau acima do telefilme de luxo. Não é certamente um Chanel 5, mas também não direi que não é flor que se cheire. C'est comme ci, comme ça.
Perfume: The Story of a Murderer, Alemanha/França/Espanha, 2006. Realização: Tom Tykwer. Com: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Corinna Harfouch, Birgit Minichmayr.

Uma boa ideia...

17.11.06

Livraria



Na introdução, o autor de ‘o que Sócrates diria a Woody Allen’, Juan Antonio Rivera (professor catedrático de filosofia na Universidade de Barcelona), explica-nos os seus propósitos: “Escrevi este livro como uma introdução à filosofia para amantes de cinema e, simultaneamente uma introdução ao cinema para amantes de filosofia (filofilósofos)”.
O livro é dividido em duas ‘bobinas’, uma dedicada a ‘questões psicológicas’, outra dedicada a ‘questões morais’. Fundamentalmente o que o autor faz é discutir e apresentar questões filosóficas, nomeadamente no domínio da ética, através da análise de determinados filmes. Estes podem ser clássicos como ‘The reckless moment’ de Olphus ou ‘Há lodo no cais’ de Kazan (sobre a ‘formação do gosto moral’), ‘Hanna e suas irmãs’ ou ‘Citizen kane’ (‘o que não se pode conseguir pela força de vontade’), ‘The man with the golden arm’ de Preminger ou ‘Lost weekend’ de Billy Wilder (‘como combater a falta de vontade’ - não se deixe enganar pelo titulo: a partir do conceito de metapreferências o autor discute de uma forma muito interessante a falta de vontade; não tem nada a ver com discursos de 'auto-ajuda'!); podem ser filmes mainstream mais ou menos ignorados como The Family Man (penso que por cá se chamou Dois destinos) de Brett Retner, com Nicholas Cage, longamente tratado nos capítulos ‘ outras vidas são possíveis’ e ‘a árvore de decisão vital’, em que é analisado o fascinante tema das escolhas que efectuamos em dados momentos da nossa vida, da incerteza sobre até onde essas escolhas nos conduzirão e do modo como afectarão outras pessoas além de nós – os chamados ‘efeitos borboleta horizontais’, de que também é dado o clássico exemplo de ‘It´s a wonderful time’, de Capra (qual o cinéfilo que não se lembra da cena em que o ‘anjo de segunda classe’ Clarence mostra a George/James Stwart como seria a vida na sua pequena cidade caso ele não tivesse nascido?). A propósito vale a pena citar as últimas frases deste capítulo, exemplificativas da ironia erudita e despretensiosa do autor: 'e o filme termina com uma emocionante exaltação do amor fati nietzcheano' (conceito já antes discutido, que ninguém se assuste!). E conclui : 'este é seguramente o único ponto de contacto entre Nietzche e Capra'. Temos ainda temas abordados a partir de filmes desconhecidos, como ‘o tédio como fonte de maldade’ analisado a partir de ‘Calle mayor’, de Juan Antonio Bardem - onde se prova o talento do autor pois não só nos consegue prender na mesma a atenção como nos provoca a vontade irreprimível de ver o filme em questão; e claro, temos associações mais óbvias para o leigo, como ‘a preferência ética por viver num mundo real’ analisada com base em ‘Truman Show’ e no inevitável ‘Matrix’, cujo apelo junto dos espectadores de cinema rivaliza com o que tem tido junto dos filósofos, desde Zizek (que recorde-se foi buscar o titulo do seu livro ‘Bem vindo ao deserto do real’ a uma frase de Neo) até Desidério Murcho. Como sintetiza Rivera, ‘pondo de lado a estética futurista e as psicadélicas artes marciais, o assunto de 'Matrix' parece importado da metafísica platónica'.
Apresentada a estrutura e conteúdo do livro, elogiemos agora a maneira como está escrito, de uma forma sempre muito clara, acessível e interessante, sem deixar nunca de ser rigoroso e objectivo, inscrevendo-se na linhagem anglo-saxónica de divulgação da filosofia, sem tecnicismos desnecessários mas sem atraiçoar a sua verdadeira natureza. Este feito é tanto mais notável quanto além dos filósofos clássicos como Platão ou Kant, aparecerem aqui outros mais actuais como Robert Nozick ou Jon Elster, bem como conceitos como ‘subprodutos’ ou ‘apetite de fausto’ (abordado a partir de filmes tão diversos como 'Desafio total’, ‘A rosa purpura do cairo’ e ‘The red shoes’) com que um leigo estará certamente menos familiarizado. O maior elogio que se pode fazer ao autor é que nos faz repensar os filmes que aborda e já conheciamos, nos provoca a vontade de ver os que desconhecemos e nos faz olhar definitivamente para qualquer filme com outros olhos.