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7.12.06

Quanto me amas?



'Quanto me amas?' parece que foi feito de propósito para ilustrar todos os lugares-comuns que qualquer pateta ignorante repete alegremente sobre os filmes franceses: que as actrizes têm que se despir e que tem que haver muita conversa de chacha e pseudo-filosofia. Bertrand Blier pretende ser paródico, mas apenas consegue ser patético e realiza aquele que é certamente o filme mais irritantemente mau do ano.
Combien tu m`aimes?, França/Itália, 2005. Realização: Bertrand Blier. Com: Monica Bellucci, Bernard Campan, Gérard Depardieu, Jean-Pierre Darroussin, Edouard Baer, Farida Rahouadj, Sara Forestier.

4.12.06

Obrigado por fumar



'Obrigado por fumar' tem desde logo a atracção de podermos ver um lobbyista em acção, algo normal e aceite nos States, ao contrário da Europa onde estas coisas são feitas debaixo da mesa. Nick Naylor/Aaron Eckhart defende as tabaqueiras e é daquelas pessoas que sabem de cor os 38 estratagemas para ter sempre razão que Schopenhauer inventariou e ainda tem mais uns de reserva no bolso. Quando um oponente leva um adolescente fumador que contraiu cancro a um talk show em que Taylor também participa, este pergunta-lhe com uma lógica irrefutável: 'não acha que seria do nosso interesse que este nosso cliente tivesse uma vida o mais longa possível?' Estes momentos em que a verve de Taylor é deixada à solta são os melhores do filme, que tem ainda um verdadeiro achado nas reuniões dos MOD (merchants of death!) em que ele próprio, um lobbyista das armas (David Koechner) e uma do álcool (Maria Bello) discutem descontraidamente temas como qual dos sectores mata mais gente por dia (ganha de longe o do tabaco). Pena que o filme não possa viver apenas destes momentos, e vá perdendo gás à medida que o argumento se desenvolve, não atingindo as alturas que prometia. Contenta-se em ser uma comédia engraçada e inteligente, quando poderia ter sido uma sátira feroz e mortífera.
Thank You for Smoking, E.U.A., 2006. Realização: Jason Reitman. Com: Aaron Eckhart, Cameron Bright, Katie Holmes, Maria Bello, William H. Macy, Sam Elliott, David Koechner, Robert Duvall, Kim Dickens, Rob Lowe, Adam Brody.

3.12.06

A Rainha



Quase no final do filme, Isabel II desabafa algo do género: 'eles querem glamour, lágrimas e espectáculo - mas eu fui educada a manter os meus sentimentos em privado'. Eles são o povo, claro. O seu povo, que ela deixou de reconhecer após o modo histérico e irracional com que reagiu à morte da Princesa Diana. Pelo contrário, quem estava preparadíssimo para lidar com este novo mundo era o jovem recém-empossado primeiro-ministro Tony Blair. É o primeiro a saltar para a arena, fazendo o discurso fúnebre de Diana, com o famoso 'Princesa do povo' (cortesia do seu influente assessor Alastair Campbell). Fica horrorizado com a inabilidade (ou falta de vontade) da Rainha e dos seus conselheiros em lidar com os media e a opinião pública, e telefona-lhe angustiado a perguntar se já viu a última sondagem (pois...) sobre a monarquia. 'De onde veio esta gente!?' é o comentário que mais se ouve entre o entourage de Blair a propósito de Buckingham Palace.
Stephen Frears filma com placidez, proximidade e convicção estes dias em que algo mudou para sempre, dando-nos (com o contributo insubstituível de Helen Mirren) um magnífico retrato de Isabel II, fria e inteligente, que teve que engolir a seco um mundo onde não se revê. No seu mundo, a forma de lidar com os miudos após a morte da mãe, é envia-los à caça de veado na propriedade Escocesa de Balmoral. Quem também não fica mal na fotografia é Tony Blair, retratado como ambicioso, esperto, sempre atento à opinião pública, mas longe do político cínico e pragmático que se revelou ser. Tem mesmo algo de tocante o seu fascínio pela Rainha. A sua mulher diz-lhe que ele a põe no lugar da sua falecida mãe; ele defende-se dizendo que uma monarquia impopular também prejudicará o seu governo. Mas quem estará mais perto da verdade será Isabel II, que lhe diz: 'você defendeu-me quando eu estava na mó de baixo junto do povo, porque sabe que um dia lhe acontecerá o mesmo. Sem aviso e subitamente'.
The Queen, Grã-Bretanha/França/Itália, 2006. Realização: Stephen Frears. Com: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Alex Jennings, Helen McCrory, Sylvia Syms, Roger Allam, Tim McMullan.

30.11.06

Casino Royale



Em ‘Casino Royale’ James Bond puxa mais do gatilho do que diz piadas assassinas, apanha mais no corpinho do que nos outros filmes todos juntos, corre, corre e torna a correr atrás de vilões mas rebola-se pouco com Bond girls , esfalfa-se todo e passa o filme com a cara arranhada e o corpo feito num oito. Para cúmulo chega a pôr de lado o seu proverbial cinismo e, imagine-se, apaixona-se (na realidade como este é supostamente o ‘primeiro episódio’, o cinismo veio daqui – da tampa que apanha).
Daí até ‘refundar o género’, ‘ganhar uma espessura que nunca teve’, e outras loas que tem recebido vai um passo de gigante. Se ganhou numas coisas, perdeu noutras (eu gostava das piadas assassinas e do cinismo). Casino Royale é um 007 competente e um filme de acção regular, não mais. Já agora, Daniel Craig está muito bem neste estilo musculado e, quanto mais não fosse, valia a pena ver o filme só por causa de Eva Green. Esta sim, tem entrada directa no top das mais belas Bond Girls.
Casino Royale, Grã-Bretanha/República Checa/Alemanha/E.U.A, 2006. Realização: Martin Campbell. Com: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright, Giancarlo Giannini, Caterina Murino, Simon Abkarian, Jesper Christensen.

28.11.06

Os amantes regulares



'Os amantes regulares' tem alguns dos planos mais belos que podemos ver este ano nas salas de cinema. A austera e quase sobrenatural fotografia a preto e branco de William Lubtchansky (colaborador habitual de Rivette ou Iosseliani, por exemplo), aliada ao irreprensível olhar estético do realizador, emergem-nos num ambiente único, a que estamos pouco habituados nesta época dominada por filmes formatados e sem risco. Neste campo, parece que estamos a ver um filme que não é deste tempo, mas mais do tempo que relata: 1968.
Sendo um olhar pessoal (e desencantado) sobre o Maio de 68, o filme é mais do que isso. O capitulo inicial mostra-nos a luta entre estudantes e policia, incluindo uma longa e estranha sequência filmada de longe, recordando-nos algo entre uma reportagem e uma cena de batalha num filme histórico. A seguir entramos no dia-a-dia dos seus protagonistas, comprometidos mas pas trop com a revolução, que basicamente passam o dia a fumar ópio - uma visão oposta ao romantismo de Bertolucci em 'Os sonhadores'. O romantismo aqui é guardado para a terceira parte, a história de amor entre Louis Garrel e Clotilde Hesme, intensa e bela, mas contaminada pelo ar da época: como pode ele pedir-lhe fidelidade? Como pode ela pedir-lhe que espere por si?
Fossem estes 'episódios' (cada um com direito a título) vistos separadamente, e eu poucos fotogramas tiraria ao filme. Mas não são, e as 3 horas de duração são excessivas, exigindo uma resistência que poucos espectadores terão - é difícil manter a nossa atenção durante tanto tempo, por maior que seja a nossa disponibilidade. Assim sendo, 'Os amantes regulares' teria necessitado, na minha opinião, de um bom corte aquando da montagem - eu apostaria na segunda parte, nas longas sequências em que apenas se fumam drogas em casa de Antoine. Não foi esse o entendimento de Philippe Garrel e tornou assim o todo menos do que a soma das partes.
Les Amants Réguliers, França, 2004. Realização: Philippe Garrel. Com: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, Eric Rulliat, Nicolas Bridet, Maurice Garrel.

27.11.06

Infame



'Infame' é inegavelmente prejudicado por chegar às salas depois de Capote. Tal como este, cobre os anos em que Truman Capote andou a escrever 'A sangue frio', mas naturalmente ressente-se do facto de aquela curiosidade biográfica, digamos assim, que o espectador teria por este período decisivo para a consagração de Capote, ter sido já satisfeita pelo muito competente filme que o antecedeu. 'Infame' acaba assim por ser uma variação sobre o mesmo tema. Carrega ainda mais na excentricidade do escritor (o seu guarda roupa é todo um programa), deleita-se com o ambiente endinheirado, sofisticado e mundano onde este se movia (por contraste com a terriola do Kansas para onde foi investigar o assassinato dos Clutter) e, factor mais distintivo, vai muito mais longe do que 'Capote' na relação entre Truman e Perry, o 'assassino-terno' que tanto fascinou o escritor. Enquanto o filme de Bennett Miller não sugeria mais do que uma atracção algo doentia de Capote pelo criminoso, aqui há declaradamente uma atracção homossexual mútua, em parte consumada.
Na minha opinião 'Infame' é um filme inferior a 'Capote' por um simples motivo: é mais descritivo, mais demonstrativo, quer-nos enfiar deliberadamente mais informação pela goela abaixo, em vez de nos deixar algum espaço, uma aberta para respirarmos. Onde 'Capote' sugere, 'Infame ' professa. Há no entanto um aspecto que é impossível não salientar: os seus actores. Num filme que tem um elenco impressionante, não podemos deixar de referir três interpretações: em primeiro lugar a do desconhecido Toby Jones que consegue a proeza impossível de meter a (óptima) interpretação de Philip Seymour Hoffman num chinelo; depois, a de Sandra Bullock, que pela primeira vez na vida não só não assassina um filme em que entra, como está francamente bem no papel da discretamente inteligente Harper Lee, a amiga de Capote e escritora de 'To Kill a Mockingbird' (que, diga-se de passagem, deu um belo filme de Robert Mulligan); e finalmente a mais curiosa - a de Daniel Craig, que numa altura em que está na berra pelo desempenho do durão e cínico James Bond, encarna aqui o aleijado e desamparado criminoso Perry Smith.
Infamous, E.U.A., 2006. Realização: Douglas McGrath. Com: Toby Jones, Sandra Bullock, Daniel Craig, Lee Pace, Peter Bogdanovich, Jeff Daniels, Hope Davis, Gwyneth Paltrow, Isabella Rossellini, Sigourney Weaver.

25.11.06

No comments



"Tal como qualquer pessoa razoavelmente culta sabe, a verdadeira grandeza do legado histórico do cinema italiano, a sua contribuição histórica para a cultura europeia e universal do século XX, não reside no neo-realismo ou em qualquer outra excentricidade só apropriada para intelectuais degenerados, mas em três géneros únicos: os westerns-spaghetti, as comédias eróticas da década de 1970 e - sem dúvida alguma, o maior de todos - o peplum, espectáculo histórico (Hercules contra Maciste, etc.)"

Slavoj Žižek, 'A subjectividade por vir'

23.11.06

16 Blocks



'16 Blocks' tinha, à partida, um argumento com os requisitos necessários para me agradar. Um policia alcoólico e na mó de baixo (Bruce Willis) tem uma hipótese de redenção num trabalho aparentemente simples que lhe calha por acaso : transportar um prisioneiro (Mos Def) da esquadra até ao tribunal, 16 quarteirões à frente (daí o título). Acontece que este vai depor contra um conjunto de polícias, e estes farão tudo que está ao seu alcance para que ele não chegue ao seu destino. Um western disfarçado, em suma. A primeira parte até se vê bem, polícia (bom) e criminoso em fuga pelas ruas da Chinatown nova iorquina, num jogo da caça e do rato com os polícias (maus).
Acontece que às tantas o nosso par se encontra encurralado num autocarro (estes filmes são sempre uma variação de 'Rio Bravo'). O dito autocarro tem os pneus furados e está cercado por metade da policia de Nova Iorque com o aparato que conhecemos: carros atravessados, barreiras de protecção, atiradores, etc., etc. Eis se não quando, o nosso herói (que já levou uns tiros e tem a mão direita inutilizada) põe o autocarro em marcha (deitado no chão para não apanhar outro balázio), leva tudo à frente e vira na primeira esquina (sempre deitado), enquanto o autocarro é alvejado, os vidros são partidos e são arremessadas bombas de gás lacrimogéneo lá para dentro. Miraculosamente quando a polícia lá entra...este está vazio! - já os nossos heróis se evaporaram e continuam tranquilamente a sua fuga a pé pelas ruas nova iorquinas... A partir desta cena, sem dúvida a mais estupidamente inverosímil do ano, no melhor estilo tom-atropela-jerry-e-este-torna-a-aparecer-na-cena-seguinte-pronto-para-outra, é impossível levar o filme a sério. Este aliás acaba por ir definhando até a um final chocho e lamechas, mas nessa altura há muito que nos tínhamos desinteressado.
16 Blocks, E.U.A./Alemanha, 2006. Realização: Richard Donner. Com: Bruce Willis, Mos Def, David Morse, Jenna Stern, Casey Sander.

22.11.06

Robert Altman (20/02/1925-20/11/2006)



Morreu aos 81 anos Robert Altman. Realizou dezenas de filmes, alguns dos quais têm lugar cativo na história do cinema. É obrigatório citar 'Nashville' (1975), 'O jogador' (1992) e - 0 meu preferido - 'Short cuts' (1993), adaptação de vários contos de Raymond Carver. O seu último filme, 'A Prairie Home Companion', estreado este ano e ainda em exibição nas salas de cinema, teve como "assistente de realização", devido à avançada idade do realizador, P.T. Anderson, facto cujo simbolismo não passou despercebido, dada a reconhecida influência de Altman na obra deste.

Breves



* Já está na Liga dos Blogues Cinematográficos o ranking do mês de Outubro (mês em que as estreias dos dois lados do Atlântico andaram algo dessincronizadas). O filme do mês foi 'A Dália Negra' de Brian De Palma, com uma média de 7,68 em 45 votantes.

* A não perder: um blogue com previsões para os Oscares!

* Agradecer a António Rosa a extrema amabilidade de nos considerar um dos melhores blogues temáticos cá do burgo.

Aditamento: O In mente e o (eter) também votaram em nós na iniciativa do Geração Rasca. Muito obrigado a ambos.