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16.12.06

O Paraíso, Agora!



Apesar de cada uma das três personagens principais de 'O Paraíso, Agora!' representar obviamente um ponto de vista (palestiniano) do conflito israelo-palestiniano, vemo-las ainda assim como seres de carne e osso e não meros estereótipos - e este é o primeiro trunfo do filme. Ambos os bombistas-suicidas, Khaled e Said, têm dúvidas, mas os seus motivos e comportamentos são muito diferentes. Há duas cenas fundamentais para os percebermos: Khaled depois de uma primeira tentativa abortada de ler o seu último discurso para uma câmara, à segunda esquece o papel e recomenda à mãe o melhor local para comprar filtros para a água. Não obstante estar sempre a falar em Ala, até ao fim é-lhe difícil esquecer os assuntos mundanos. Said é diferente: na sua suposta última noite, não resiste a ir a casa de Suha, a mulher por quem provavelmente está apaixonado. Depois de sair, pára e lança-lhe um último olhar. Este não é de hesitação. Said, filho de um colaboracionista que foi executado quando ele era ainda miúdo, sabe que o que vai fazer é inevitável; será talvez um vislumbre do que poderia ter sido a sua vida se a história não se lhe tivesse atravessado à frente. Pelo contrário Suha, filha de um herói, não tem dúvidas nenhumas: violência gera mais violência e o caminho não é aquele - mas não há nada que possa fazer. O segundo trunfo do filme é este: Hany Abu-Assad está mesmo interessado nos conflitos interiores das suas personagens, todas têm a sua simpatia e talvez todas reflictam alguma parte de si, do que ele pensa como palestiniano. Não há aqui uma história a preto e branco. Mas o facto de ser Said quem sobressai como a mais forte personagem do filme, aquela para onde se dirige a simpatia do espectador, não pode deixar de ser visto como uma nota pessimista do realizador. Said talvez nem acredite muito que a sua acção mude alguma coisa - mas entre não fazer nada e executá-la, não hesita. O seu destino era esse.
Paradise Now, França/Alemanha/Holanda/Israel, 2005. Realização: Hany Abu-Assad. Com: Kais Nashef, Ali Suliman, Lubna Azabal, Amer Hlehel, Hiam Abbass.

13.12.06

A ler



Este post de João Lopes. Vale a pena ler na íntegra, mas gostaria de salientar a seguinte passagem que subscrevo palavra por palavra (sublinhado meu):

Vive-se, hoje em dia, uma crise profunda na percepção/recepção do pensamento crítico (a que, como é óbvio, os próprios críticos não serão estranhos). Não é entenda-se, uma crise por causa de “bons” ou “maus” críticos — o crítico “certo” para um espectador será sempre o crítico “errado” para o espectador do lado. E só quem queira menosprezar a sua própria inteligência poderá querer (ou crer) que o exercício da crítica, no cinema ou em qualquer outra área, funcione como uma verdade evangélica. É uma crise que se liga com a indiferença dominante pela contradição, pela criatividade como dinâmica de contradições, pela pluralidade dos filmes e da vida. É, acima de tudo, uma crise cultural que promove a infantilização generalizada de olhares e comportamentos. E é sempre triste descobrir que há espectadores que não querem pensar a SUA relação com os filmes, preferindo viver o cinema como um exercício de fanatismo clubista. Nesse sentido, é a cinefilia (não o cinema) que está a morrer.

Um Mundo Catita



Inspirada em séries como THE OFFICE ou CURB YOUR ENTUSIASM, brevemente numa televisão perto de si... UM MUNDO CATITA.

Esta série será uma ficção sobre a vida e obra de Manuel João Vieira, famoso actor, pintor e candidato à presidência, vocalista de grupos como Enapá 2000 ou Irmãos Catita. Composta por seis episódios de 30 minutos cada, a série será filmada em suporte de alta definição (HD) e película (16mm), num investimento significativo na qualidade de imagem.

O lançamento está previsto para o Verão de 2007, com ante-estreia pública no início do próximo ano.

Mais aqui.

12.12.06

5 minutos de fama







Este blogue ficou no TOP 10 da categoria Melhor Blog Temático 2006, na votação promovida pelo Geração Rasca. Desde que Crash ganhou o Oscar de melhor filme o ano passado, que não se via algo ser tão escandalosamente sobrevalorizado! Mas claro que agradecemos na mesma a quem votou em nós.

11.12.06

História de duas irmãs



Salvo raras excepções, o sector 'filmes de terror' em Hollywood está reservado ao mercado teen. Praticamente só se faz a enésima variação de 'Scream' ou uma nova adaptação de um qualquer jogo de computador. Não admira assim que os exemplares mais estimulantes do género nos últimos anos tenham vindo das cinematografias asiáticas, incluindo nomes como Takashi Miike ou mesmo Park Chan-wook (alargando um pouco o conceito de filme de terror). 'História de Duas Irmãs', realizado em 2003 pelo sul coreano Kim Ji-Wun, foi o vencedor do Grande Prémio do Fantasporto no ano seguinte e devido a um daqueles mistérios em que as distribuidoras portuguesas são pródigas, apareceu nas salas este ano. Apesar deste e dos vários outros prémios que recebeu (além de ter sido um grande êxito de bilheteira na Coreia), o filme é apenas razoável. Encaixa no chamado horror psicológico, vivendo de sugestões, fantasmas entrevistos e alguns toques de sobrenatural, embrulhados numa história algo confusa que se desata (mais ou menos) no final. Nada de muito original nem perturbante, digamos que representa uma certa produção média do género, que atingiu no entanto um elevado nível técnico nestes países. Fico sempre abismado, por exemplo, com a qualidade da fotografia dos filmes asiáticos, e este não é excepção. Seja como for o filme gerou um certo culto e, segundo li algures, vem aí o inevitável remake hollywoodiano...
Janghwa, Hongryeon / A Tale of Two Sisters, Coreia do Sul, 2003. Realização: Kim Ji-Wun. Com: Im Su-jeong, Yeom Jeong-a, Kim Kap-su, Mun Geun-yeong, Pak Mi-hyeon, Wu Gi-hung, Lee Seung-bi, Lee Dae-eon.

10.12.06

Borat



Sacha Baron Cohen vai buscar o seu modus operandi a duas fórmulas já testadas com sucesso. A primeira é a dos 'apanhados' da TV: as pessoas gostam de se rir de 'pessoas como elas' apanhadas em situações embaraçosas; a segunda baseia-se numa máxima de Michael Moore: a melhor maneira de ridicularizar alguém com opiniões polémicas é pôr-lhe um microfone à frente e, com uma pequena ajuda, deixar que ela se auto-enterre. Posto isto, diga-se que "Borat: Aprender Cultura da América para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão" tem uma cena francamente engraçada (a do rodeo) e duas ou três piadas avulsas mais conseguidas, que não chegam para erguer o filme do humor boçal, rasteiro e primário, em que está atolado a maior parte do tempo. E que não mete piada nenhuma. Não percebo o porquê de tanto barulho à volta disto...
Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, E.U.A., 2006. Realização: Larry Charles. Com: Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Pamela Anderson.

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"Eu detestara Kids, detestei ainda mais Ken Park, a cena em que a miserável criatura espanca os avós era-me insuportável, o realizador repugnava-me ao mais alto grau, e foi com certeza essa repulsa sincera que me obrigou a falar do caso embora desconfiasse que Esther o apreciava por hábito, por conformismo, por ser cool aprovar a representação da violência nas artes, de que ela gostava dele sem um verdadeiro discernimento, como gostava de Michael Haneke por exemplo, sem sequer se aperceber que o sentido dos filmes de Michael Haneke, doloroso e moral, se situava nos antípodas do dos filmes de Larry Clark."

"(...) entre todos os comerciantes do mal, Larry Clark era um dos mais comuns, dos mais medíocres, simplesmente por tomar sem pudor o partido dos jovens contra os velhos, (...) em suma, Larry Clark e o seu abjecto cúmplice Harmony Corine não passavam de dois dos espécimes mais penosos - e artisticamente mais miseráveis - da ralé nietzschiana que há muito proliferava no campo cultural, e não podiam em caso algum ser colocados no plano de pessoas como Michael Haneke (...)"

Michel Houellebecq in "A possibilidade de uma ilha"

"[Michel Houellebecq] é o escritor contemporâneo de quem me sinto mais próximo: vivo no mesmo mundo deste homem. Mesmo que não tenha nada a ver com ele, o seu mal-estar é o mesmo que o meu."

Michael Haneke in Libération [citado na contracapa da edição de "Extensão do domínio da luta"

Mais sobre Houellebecq, incluindo as suas contribuições cinematográficas, no Blogue de Lauro António

7.12.06

Quanto me amas?



'Quanto me amas?' parece que foi feito de propósito para ilustrar todos os lugares-comuns que qualquer pateta ignorante repete alegremente sobre os filmes franceses: que as actrizes têm que se despir e que tem que haver muita conversa de chacha e pseudo-filosofia. Bertrand Blier pretende ser paródico, mas apenas consegue ser patético e realiza aquele que é certamente o filme mais irritantemente mau do ano.
Combien tu m`aimes?, França/Itália, 2005. Realização: Bertrand Blier. Com: Monica Bellucci, Bernard Campan, Gérard Depardieu, Jean-Pierre Darroussin, Edouard Baer, Farida Rahouadj, Sara Forestier.

4.12.06

Obrigado por fumar



'Obrigado por fumar' tem desde logo a atracção de podermos ver um lobbyista em acção, algo normal e aceite nos States, ao contrário da Europa onde estas coisas são feitas debaixo da mesa. Nick Naylor/Aaron Eckhart defende as tabaqueiras e é daquelas pessoas que sabem de cor os 38 estratagemas para ter sempre razão que Schopenhauer inventariou e ainda tem mais uns de reserva no bolso. Quando um oponente leva um adolescente fumador que contraiu cancro a um talk show em que Taylor também participa, este pergunta-lhe com uma lógica irrefutável: 'não acha que seria do nosso interesse que este nosso cliente tivesse uma vida o mais longa possível?' Estes momentos em que a verve de Taylor é deixada à solta são os melhores do filme, que tem ainda um verdadeiro achado nas reuniões dos MOD (merchants of death!) em que ele próprio, um lobbyista das armas (David Koechner) e uma do álcool (Maria Bello) discutem descontraidamente temas como qual dos sectores mata mais gente por dia (ganha de longe o do tabaco). Pena que o filme não possa viver apenas destes momentos, e vá perdendo gás à medida que o argumento se desenvolve, não atingindo as alturas que prometia. Contenta-se em ser uma comédia engraçada e inteligente, quando poderia ter sido uma sátira feroz e mortífera.
Thank You for Smoking, E.U.A., 2006. Realização: Jason Reitman. Com: Aaron Eckhart, Cameron Bright, Katie Holmes, Maria Bello, William H. Macy, Sam Elliott, David Koechner, Robert Duvall, Kim Dickens, Rob Lowe, Adam Brody.

3.12.06

A Rainha



Quase no final do filme, Isabel II desabafa algo do género: 'eles querem glamour, lágrimas e espectáculo - mas eu fui educada a manter os meus sentimentos em privado'. Eles são o povo, claro. O seu povo, que ela deixou de reconhecer após o modo histérico e irracional com que reagiu à morte da Princesa Diana. Pelo contrário, quem estava preparadíssimo para lidar com este novo mundo era o jovem recém-empossado primeiro-ministro Tony Blair. É o primeiro a saltar para a arena, fazendo o discurso fúnebre de Diana, com o famoso 'Princesa do povo' (cortesia do seu influente assessor Alastair Campbell). Fica horrorizado com a inabilidade (ou falta de vontade) da Rainha e dos seus conselheiros em lidar com os media e a opinião pública, e telefona-lhe angustiado a perguntar se já viu a última sondagem (pois...) sobre a monarquia. 'De onde veio esta gente!?' é o comentário que mais se ouve entre o entourage de Blair a propósito de Buckingham Palace.
Stephen Frears filma com placidez, proximidade e convicção estes dias em que algo mudou para sempre, dando-nos (com o contributo insubstituível de Helen Mirren) um magnífico retrato de Isabel II, fria e inteligente, que teve que engolir a seco um mundo onde não se revê. No seu mundo, a forma de lidar com os miudos após a morte da mãe, é envia-los à caça de veado na propriedade Escocesa de Balmoral. Quem também não fica mal na fotografia é Tony Blair, retratado como ambicioso, esperto, sempre atento à opinião pública, mas longe do político cínico e pragmático que se revelou ser. Tem mesmo algo de tocante o seu fascínio pela Rainha. A sua mulher diz-lhe que ele a põe no lugar da sua falecida mãe; ele defende-se dizendo que uma monarquia impopular também prejudicará o seu governo. Mas quem estará mais perto da verdade será Isabel II, que lhe diz: 'você defendeu-me quando eu estava na mó de baixo junto do povo, porque sabe que um dia lhe acontecerá o mesmo. Sem aviso e subitamente'.
The Queen, Grã-Bretanha/França/Itália, 2006. Realização: Stephen Frears. Com: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Alex Jennings, Helen McCrory, Sylvia Syms, Roger Allam, Tim McMullan.