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23.12.06

Braga, cidade aberta?



Vem no suplemento Y do Público de ontem, uma reportagem sobre o deserto cultural que é a cidade de Braga, 20 anos depois da movida dos anos 80. As pessoas entrevistadas dão uma muito boa ideia do estado das coisas, e lá vão citando as excepções à modorra em que a cidade se vai alegremente arrastando (com destaque para a reabertura do Teatro Circo depois de umas obras faraónicas). Curiosamente (ou talvez não, já lá vamos), ninguém cita esse verdadeiro oásis que é o Filme de Culto dos Cinemas Cinemax, vulgo Bragashopping. Com uma sessão diária, às 19h15, com rotação semanal, é a única hipótese de se verem em Braga filmes que fujam ao habitual circuito comercial, amplamente dominado pela Lusomundo. Quem não quiser ou não tiver oportunidade de ir ao Porto (cuja diversidade cinematográfica também já teve melhores dias, como não me canso de repetir) pode assistir aqui a filmes da Atalanta, e não só, que geralmente não estão disponíveis fora do eixo Lisboa-Porto, mas mais mês menos mês acabam por cá aparecer (e a espera acaba por ser um mal menor). Houve mesmo dois ou três filmes que por aqui passaram sem terem sequer estreado no Porto. O problema é que... quase ninguém vai a estas sessões. Já cheguei a estar sozinho numa sessão, e a maior parte das vezes a assistência não ultrapassa a meia dúzia de pessoas. Já na anterior vida do Teatro Circo, que tinha uma programação cinematográfica que fugia ao mainstream (e que pelos vistos agora desapareceu de vez) a situação era igualmente confrangedora: éramos sempre a mesma mão mal cheia de almas penadas presente. Não é difícil imaginar o futuro: qualquer dia acabam-se os filmes de culto, e então lá começarão as pessoas (que agora não os vão ver) a lamuriar-se. Se numa terra com 17.000 estudantes universitários, só uma dúzia de curiosos se interessam por ver algo que não seja o Jurassic Park, quem se admira de as coisas serem o que são?
Adenda: Os meus amigos A.Durães e Sofia protestaram comigo: claro que referiram os filmes de culto! Pura e simplesmente critérios editoriais do jornal deixaram essas palavras de fora. Está esclarecido.

20.12.06

Top Ten 2006



1. Uma história de violência, de David Cronenberg

2. Eu, tu e todos os que conhecemos, de Miranda July

3. The Departed – Entre inimigos, de Martin Scorcese

4. Walk the line, de James Mangold

5. Miami Vice, de Michael Mann

6. O Novo mundo, de Terrence Malick e A Senhora da água, de M.Night Shyamalan

7. A Lula e a baleia, de Noah Baumbach e Uma família à beira de um ataque de nervos, de Jonathan Dayton e Valerie Faris.

8. A comédia do poder, de Claude Chabrol

9. Escolha mortal, de John Hillcoat

10. Dália negra, de Brian de Palma

19.12.06

Da batota



No comentário áudio a Sin City, incluído nos extras do respectivo dvd, há uma muito interessante conversa entre Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Tarantino, recorde-se, realizou uma das cenas do filme (a viagem de carro de Clive Owen e Benicio del Toro). Segundo conta Rodriguez, tudo começou com uma proposta sua: ele faria a banda sonora de Kill Bill 2 à borla e em troca Tarantino participaria num filme seu. Rodriguez queria que Tarantino experimentasse trabalhar com tecnologia digital, algo que este achava uma blasfémia, mas a que acabou por ser tentado. Sin City era o filme ideal para o fazer: foi todo filmado em digital, com uma técnica denominada 'croma' (green screen) que consiste em filmar os actores em frente a um ecrã verde, sendo os cenários e outros elementos adicionados durante a pós-produção. Tarantino diz que quando viu o filme em croma lhe pareceu uma peça de Sartre! Aliás o seu comentário é totalmente diferente do de Roberto Rodriguez. Este fala num tom calmo e professoral, transmitindo grande autoconfiança e profissionalismo. O filme foi realizado no seu estúdio, com a tecnologia referida, e Rodriguez além de realizar, também se encarregou da fotografia, da montagem, e supervisionou os efeitos especiais. O seu comentário incide sobretudo em explicações técnicas ou de produção: como convenceu primeiro Frank Miller a embarcar no projecto, e depois Bruce Willis, Mickey Rourke, etc. Um aspecto interessante que ele revela é que a única forma de reunir este cast impressionante foi ter os actores segundo a sua disponibilidade, pelo que na grande maior parte das cenas estes não chegaram a contracenar uns com os outros, foi tudo feito durante a montagem! O comentário de Tarantino é todo noutra onda. Com a sua voz esganiçada de puto excitado, começa logo pela sua peculiar cinefilia, revelando que se inspirou em Dario Argento para a sua cena. Mesmo para explicar aspectos técnicos, recorre a uma história passada durante a realização de Cães Danados, ou então conta como Jean-Pierre Melville já usava uma certa técnica que o digital veio facilitar. E às tantas dá-se um diálogo que mostra bem as diferenças entre os dois realizadores, muitas vezes postos no mesmo saco (esclareço que sou fã de Tarantino e que olhava de cima para Roberto Rodriguez até Sin City, de que gostei bastante). Cito por alto, que não tenho o dvd à mão, e o que interessa é a ideia. Com uma genuína curiosidade Tarantino pergunta como é que Rodriguez fez uma determinada cena, algo do género como é que conseguiu que uma actriz não fechasse os olhos. Rodriguez explica que fez um 'truque', baseado na montagem, ao que Tarantino exclama entre o irónico e o chocado: mas isso é batota! Ao que lhe responde calmamente Rodriguez: [no cinema] tudo é batota.

16.12.06

O Paraíso, Agora!



Apesar de cada uma das três personagens principais de 'O Paraíso, Agora!' representar obviamente um ponto de vista (palestiniano) do conflito israelo-palestiniano, vemo-las ainda assim como seres de carne e osso e não meros estereótipos - e este é o primeiro trunfo do filme. Ambos os bombistas-suicidas, Khaled e Said, têm dúvidas, mas os seus motivos e comportamentos são muito diferentes. Há duas cenas fundamentais para os percebermos: Khaled depois de uma primeira tentativa abortada de ler o seu último discurso para uma câmara, à segunda esquece o papel e recomenda à mãe o melhor local para comprar filtros para a água. Não obstante estar sempre a falar em Ala, até ao fim é-lhe difícil esquecer os assuntos mundanos. Said é diferente: na sua suposta última noite, não resiste a ir a casa de Suha, a mulher por quem provavelmente está apaixonado. Depois de sair, pára e lança-lhe um último olhar. Este não é de hesitação. Said, filho de um colaboracionista que foi executado quando ele era ainda miúdo, sabe que o que vai fazer é inevitável; será talvez um vislumbre do que poderia ter sido a sua vida se a história não se lhe tivesse atravessado à frente. Pelo contrário Suha, filha de um herói, não tem dúvidas nenhumas: violência gera mais violência e o caminho não é aquele - mas não há nada que possa fazer. O segundo trunfo do filme é este: Hany Abu-Assad está mesmo interessado nos conflitos interiores das suas personagens, todas têm a sua simpatia e talvez todas reflictam alguma parte de si, do que ele pensa como palestiniano. Não há aqui uma história a preto e branco. Mas o facto de ser Said quem sobressai como a mais forte personagem do filme, aquela para onde se dirige a simpatia do espectador, não pode deixar de ser visto como uma nota pessimista do realizador. Said talvez nem acredite muito que a sua acção mude alguma coisa - mas entre não fazer nada e executá-la, não hesita. O seu destino era esse.
Paradise Now, França/Alemanha/Holanda/Israel, 2005. Realização: Hany Abu-Assad. Com: Kais Nashef, Ali Suliman, Lubna Azabal, Amer Hlehel, Hiam Abbass.

13.12.06

A ler



Este post de João Lopes. Vale a pena ler na íntegra, mas gostaria de salientar a seguinte passagem que subscrevo palavra por palavra (sublinhado meu):

Vive-se, hoje em dia, uma crise profunda na percepção/recepção do pensamento crítico (a que, como é óbvio, os próprios críticos não serão estranhos). Não é entenda-se, uma crise por causa de “bons” ou “maus” críticos — o crítico “certo” para um espectador será sempre o crítico “errado” para o espectador do lado. E só quem queira menosprezar a sua própria inteligência poderá querer (ou crer) que o exercício da crítica, no cinema ou em qualquer outra área, funcione como uma verdade evangélica. É uma crise que se liga com a indiferença dominante pela contradição, pela criatividade como dinâmica de contradições, pela pluralidade dos filmes e da vida. É, acima de tudo, uma crise cultural que promove a infantilização generalizada de olhares e comportamentos. E é sempre triste descobrir que há espectadores que não querem pensar a SUA relação com os filmes, preferindo viver o cinema como um exercício de fanatismo clubista. Nesse sentido, é a cinefilia (não o cinema) que está a morrer.

Um Mundo Catita



Inspirada em séries como THE OFFICE ou CURB YOUR ENTUSIASM, brevemente numa televisão perto de si... UM MUNDO CATITA.

Esta série será uma ficção sobre a vida e obra de Manuel João Vieira, famoso actor, pintor e candidato à presidência, vocalista de grupos como Enapá 2000 ou Irmãos Catita. Composta por seis episódios de 30 minutos cada, a série será filmada em suporte de alta definição (HD) e película (16mm), num investimento significativo na qualidade de imagem.

O lançamento está previsto para o Verão de 2007, com ante-estreia pública no início do próximo ano.

Mais aqui.

12.12.06

5 minutos de fama







Este blogue ficou no TOP 10 da categoria Melhor Blog Temático 2006, na votação promovida pelo Geração Rasca. Desde que Crash ganhou o Oscar de melhor filme o ano passado, que não se via algo ser tão escandalosamente sobrevalorizado! Mas claro que agradecemos na mesma a quem votou em nós.

11.12.06

História de duas irmãs



Salvo raras excepções, o sector 'filmes de terror' em Hollywood está reservado ao mercado teen. Praticamente só se faz a enésima variação de 'Scream' ou uma nova adaptação de um qualquer jogo de computador. Não admira assim que os exemplares mais estimulantes do género nos últimos anos tenham vindo das cinematografias asiáticas, incluindo nomes como Takashi Miike ou mesmo Park Chan-wook (alargando um pouco o conceito de filme de terror). 'História de Duas Irmãs', realizado em 2003 pelo sul coreano Kim Ji-Wun, foi o vencedor do Grande Prémio do Fantasporto no ano seguinte e devido a um daqueles mistérios em que as distribuidoras portuguesas são pródigas, apareceu nas salas este ano. Apesar deste e dos vários outros prémios que recebeu (além de ter sido um grande êxito de bilheteira na Coreia), o filme é apenas razoável. Encaixa no chamado horror psicológico, vivendo de sugestões, fantasmas entrevistos e alguns toques de sobrenatural, embrulhados numa história algo confusa que se desata (mais ou menos) no final. Nada de muito original nem perturbante, digamos que representa uma certa produção média do género, que atingiu no entanto um elevado nível técnico nestes países. Fico sempre abismado, por exemplo, com a qualidade da fotografia dos filmes asiáticos, e este não é excepção. Seja como for o filme gerou um certo culto e, segundo li algures, vem aí o inevitável remake hollywoodiano...
Janghwa, Hongryeon / A Tale of Two Sisters, Coreia do Sul, 2003. Realização: Kim Ji-Wun. Com: Im Su-jeong, Yeom Jeong-a, Kim Kap-su, Mun Geun-yeong, Pak Mi-hyeon, Wu Gi-hung, Lee Seung-bi, Lee Dae-eon.

10.12.06

Borat



Sacha Baron Cohen vai buscar o seu modus operandi a duas fórmulas já testadas com sucesso. A primeira é a dos 'apanhados' da TV: as pessoas gostam de se rir de 'pessoas como elas' apanhadas em situações embaraçosas; a segunda baseia-se numa máxima de Michael Moore: a melhor maneira de ridicularizar alguém com opiniões polémicas é pôr-lhe um microfone à frente e, com uma pequena ajuda, deixar que ela se auto-enterre. Posto isto, diga-se que "Borat: Aprender Cultura da América para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão" tem uma cena francamente engraçada (a do rodeo) e duas ou três piadas avulsas mais conseguidas, que não chegam para erguer o filme do humor boçal, rasteiro e primário, em que está atolado a maior parte do tempo. E que não mete piada nenhuma. Não percebo o porquê de tanto barulho à volta disto...
Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, E.U.A., 2006. Realização: Larry Charles. Com: Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Pamela Anderson.

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"Eu detestara Kids, detestei ainda mais Ken Park, a cena em que a miserável criatura espanca os avós era-me insuportável, o realizador repugnava-me ao mais alto grau, e foi com certeza essa repulsa sincera que me obrigou a falar do caso embora desconfiasse que Esther o apreciava por hábito, por conformismo, por ser cool aprovar a representação da violência nas artes, de que ela gostava dele sem um verdadeiro discernimento, como gostava de Michael Haneke por exemplo, sem sequer se aperceber que o sentido dos filmes de Michael Haneke, doloroso e moral, se situava nos antípodas do dos filmes de Larry Clark."

"(...) entre todos os comerciantes do mal, Larry Clark era um dos mais comuns, dos mais medíocres, simplesmente por tomar sem pudor o partido dos jovens contra os velhos, (...) em suma, Larry Clark e o seu abjecto cúmplice Harmony Corine não passavam de dois dos espécimes mais penosos - e artisticamente mais miseráveis - da ralé nietzschiana que há muito proliferava no campo cultural, e não podiam em caso algum ser colocados no plano de pessoas como Michael Haneke (...)"

Michel Houellebecq in "A possibilidade de uma ilha"

"[Michel Houellebecq] é o escritor contemporâneo de quem me sinto mais próximo: vivo no mesmo mundo deste homem. Mesmo que não tenha nada a ver com ele, o seu mal-estar é o mesmo que o meu."

Michael Haneke in Libération [citado na contracapa da edição de "Extensão do domínio da luta"

Mais sobre Houellebecq, incluindo as suas contribuições cinematográficas, no Blogue de Lauro António