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30.12.06

Blogosfera 2006



Os meus bloggers preferidos:

Política & Cultura: Eduardo Pitta e também Ivan Nunes

Cultura: Ricardo Gross

Cinema: Hugo Alves e também Peeping Tom

Sem classificação: maradona

Acontecimentos blogosféricos:
Os jantares das pataniscas (onde fiz bons amigos, apesar de me sentir um penetra no meio de todos aqueles experts musicais) e a mailing list da Liga dos blogues (nunca recebi tantos mails na vida! Um mail a perguntar se um filme é de 19441 ou 42, ou se uma actriz num determinado filme é principal ou secundária dá origem em média a umas 20 respostas e contra-respostas!)

E ainda:

Leitor mais amável: António Rosa

Link
mais surpreendente: Blasfémias (quem será o cinéfilo?)

Até para o ano.

Top Livros Cinema




A ideia era divagar um pouco sobre a (não) edição de livros de cinema em Portugal, mas o adiantado da hora e o cansaço não o permitem. Estive a rever 'Uma história de violência', o meu filme do ano - de longe - e apercebi-me que o final é muito mais aberto do que aquilo de que eu me lembrava (Maria Bello nem chega a olhar para Vigo Mortensen...) . Vai daí apetecia-me deambular à volta deste filme, mas não quero deixar este top para trás, é um pretexto para, não direi divulgar, mas lembrar alguns livros. Ficam então os títulos e autores, sem nenhuma ordem especial, e comentário breves:

- O que Sócrates diria a Woody Allen, de Juan Antonio Rivera (Fenda). Sobre este já escrevi. O autor entretanto lançou um segundo volume, intitulado 'Carta abierta de Woody Allen a Platón', que ainda não não tem tradução portuguesa, mas se pode encontrar no El Corte Inglés - serve-se menos do cinema que o primeiro e incide mais sobre teoria política.

- O meu último suspiro (Fenda) - as memórias de Bunuel, sobre as quais tenciono escrever um post lá para meados de Janeiro.

- Conversas com Pedro Almodóvar , de Frederic Strauss (90 Graus) - ainda só olhei para ele na diagonal, mas não tenho dúvidas em destacá-lo. Pena não se editarem por cá mais livros com cineastas a falar na primeira pessoa.

Três livros importantes, de três editoras diferentes. Menos mau. E agora destaque para dois livros com chancela da Cinemateca, que tem feito um excelente trabalho no campo da edição - bastam as suas Folhas da Cinemateca .

- Otar Iosseliani, vários (Cinemateca) - o destaque vai direitinho para uma longa entrevista com o realizador, nascido na Geórgia quando esta era parte da U.R.S.S., e contemporâneo de Tarkovski, Paradjanov ou Boris Barnet - e que vale cada euro que o livro custa. Alguns breves excertos da entrevista podem ser vistos no blogue de Luis Miguel Oliveira, que a traduziu (aqui, aqui, aqui e aqui). E poder-se-iam citar mais não sei quantos. É imperdível.

- Pier Paolo Pasolini - O sonho de uma coisa (Cinemateca) - um álbum muito completo - e bonito - sobre 'um dos grandes personagens da Itália do século XX' (diz-se na introdução).

29.12.06

Top Ten 2006 (III)



1 - O Tempo Que Resta, de François Ozon

2 - 3... Extremos, de Park Chan-wook, Takashi Miike, Fruit Chan

3 - Match Point, de Woody Allen

4 - Munique, de Steven Spielberg

5 - A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach

6 - O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

7 - Os Três Enterros de um Homem, de Tommy Lee Jones

8 - Carros, de John Lasseter

9 - V de Vingança, de James McTeigue

10 - Faça Favor, de Pierre Salvadori

Allen Douglas

Top Ten 2006 (II)




1 - Marie Antoinette, de Sofia Coppola

2 - Match Point, de Woody Allen

3 - O Novo Mundo, de Terrence Mallick

4 - Romance & Cigarros, de John Turturro

5 - Uma História de Violência, de David Cronenberg

6 - Máquina Zero, de Sam Mendes

7 - A Dália Negra, de Brian De Palma

8 - Os Filhos do Homem, de Alfonso Cuarón

9 - Caché - Nada a Esconder, de Michael Haneke

10 - Manual de Amor, de Giovanni Veronesi


O PUTO

Breves



* Até ao fim do ano, mais tops. Já a seguir os tops dos meus coleguinhas cá do estamine (é verdade, eles existem e estão vivos!). E cheios de surpresas: Allen Douglas este ano pôs filmes americanos no top! E o nosso critico musical favorito, apesar de se ter queixado amargamente do seu isolamento cinematográfico em Trás-os-montes, conseguiu elencar 3 filmes que eu não vi (é verdade, este ano vi menos filmes em sala: aí uns 80). Depois, o top de livros de cinema por cá editados este ano (área que é um miséria em Portugal - mas apesar de tudo parece-me que estes últimos dois anos foram melhorzitos). Finalmente, os meus blogers favoritos.

* Uma adenda/correcção ao post 'Braga, cidade aberta'.

27.12.06

20,13



Não percebo muito bem o que Joaquim Leitão pretendeu com este filme. É todo construído em suspense, mas em boa verdade este quase não existe: desde o inicio que se sabe da existência do caso homossexual, e desde uma determinada cena que se sabe quem matou quem, sendo a cena final explicativa desnecessária. Dir-se-á que isto não passa do MacGuffin, sendo o importante para o realizador mostrar o que era a realidade das tropas no ultramar. Bom, o retrato até é conseguido, através de detalhes importantes: os diversos sotaques dos magalas, as suas diversas proveniências sociais, um cast bem escolhido, com actores pouco conhecidos (embora haja ali muita dentadura imaculada a trair as personagens), tudo isto contribui para um inegável realismo. Mas, sinceramente, mesmo se o ambiente é correcto, isso não basta - prova disso é que o realizador puxa a história do suspense muito para lá do mero pretexto narrativo. Dir-se-á então, que também este tom realista, este mostrar as coisas como eram, não era, per si, o objectivo número um do realizador, mas sim 'falar' duma realidade oculta -a homossexualidade entre tropas, com a sua inescapável marca de tragédia. Mas aí também falta qualquer coisa. A que será então a frase chave do filme - "no exército português não há maricas, nem oficiais que matam soldados" - parece artificial na boca de quem a diz, percebemos que foi ali posta como uma espécie de declaração de intenções. Entre estes três 'géneros', o de suspense, o realista e a tragédia, perde-se o realizador e perdem-se as personagens. Fica ainda assim a do Capitão (Adriano Carvalho), acima dos estereótipos. Por ela vale a pena ver '20,13', quanto a mim o mais ambicioso filme de Joaquim Leitão em muitos anos, embora pelo que disse me pareça um filme falhado. Mas antes assim que cair em mais 'Tentações'.
20,13, Portugal, 2006. Realização: Joaquim Leitão. Com: Marco d’Almeida, Adriano Carvalho, Carla Chambel, Maya Booth, Ivo Canelas.

25.12.06

Amor suspeito



Marc rapa o bigode que usa há anos, mas ninguém repara nisso: nem a mulher, nem os amigos, nem os colegas. Mais do que isso: quando ele os interroga espantado, garantem-lhe mesmo que ele nunca teve bigode. 'La moustache' (o título português ganha, no meio de concorrência aguerrida, o prémio de 'tradução' mais estupida do ano) começa em tons de absurdo, passa por momentos kafkianos, e resvala para uma dimensão psíquica, digamos assim, que é a menos interessante. Emmanuel Carrère surpreende-nos enquanto acreditamos que Marc sempre teve bigode, mas quando começamos a perceber que nada neste filme se pode tomar como certo, que coisas que nos são transmitidas como factuais talvez não passem de delírios, a história 'vulgariza-se' um pouco, por assim dizer, e o seu impacto vai esmorecendo. Como estudo sobre a perda de identidade é mais interessante o magnifico 'O adversário', que Carrère escreveu baseado num caso real (é um 'romance de não ficção', à imagem de 'Capote') e foi adaptado duas vezes ao cinema, por Nicole Garcia e Laurent Cantet. Apesar de tudo é uma estreia promissora do realizador Carrère, que sabiamente se esconde atrás do escritor Carrère, fazendo uma espécie de conto fantástico em estilo documental.
La Moustache, França, 2004. Realização: Emmanuel Carrère. Com: Vincent Lindon, Emmanuelle Devos, Mathieu Amalric, Hippolyte Girardot, Cylia Malki.

23.12.06

Braga, cidade aberta?



Vem no suplemento Y do Público de ontem, uma reportagem sobre o deserto cultural que é a cidade de Braga, 20 anos depois da movida dos anos 80. As pessoas entrevistadas dão uma muito boa ideia do estado das coisas, e lá vão citando as excepções à modorra em que a cidade se vai alegremente arrastando (com destaque para a reabertura do Teatro Circo depois de umas obras faraónicas). Curiosamente (ou talvez não, já lá vamos), ninguém cita esse verdadeiro oásis que é o Filme de Culto dos Cinemas Cinemax, vulgo Bragashopping. Com uma sessão diária, às 19h15, com rotação semanal, é a única hipótese de se verem em Braga filmes que fujam ao habitual circuito comercial, amplamente dominado pela Lusomundo. Quem não quiser ou não tiver oportunidade de ir ao Porto (cuja diversidade cinematográfica também já teve melhores dias, como não me canso de repetir) pode assistir aqui a filmes da Atalanta, e não só, que geralmente não estão disponíveis fora do eixo Lisboa-Porto, mas mais mês menos mês acabam por cá aparecer (e a espera acaba por ser um mal menor). Houve mesmo dois ou três filmes que por aqui passaram sem terem sequer estreado no Porto. O problema é que... quase ninguém vai a estas sessões. Já cheguei a estar sozinho numa sessão, e a maior parte das vezes a assistência não ultrapassa a meia dúzia de pessoas. Já na anterior vida do Teatro Circo, que tinha uma programação cinematográfica que fugia ao mainstream (e que pelos vistos agora desapareceu de vez) a situação era igualmente confrangedora: éramos sempre a mesma mão mal cheia de almas penadas presente. Não é difícil imaginar o futuro: qualquer dia acabam-se os filmes de culto, e então lá começarão as pessoas (que agora não os vão ver) a lamuriar-se. Se numa terra com 17.000 estudantes universitários, só uma dúzia de curiosos se interessam por ver algo que não seja o Jurassic Park, quem se admira de as coisas serem o que são?
Adenda: Os meus amigos A.Durães e Sofia protestaram comigo: claro que referiram os filmes de culto! Pura e simplesmente critérios editoriais do jornal deixaram essas palavras de fora. Está esclarecido.

20.12.06

Top Ten 2006



1. Uma história de violência, de David Cronenberg

2. Eu, tu e todos os que conhecemos, de Miranda July

3. The Departed – Entre inimigos, de Martin Scorcese

4. Walk the line, de James Mangold

5. Miami Vice, de Michael Mann

6. O Novo mundo, de Terrence Malick e A Senhora da água, de M.Night Shyamalan

7. A Lula e a baleia, de Noah Baumbach e Uma família à beira de um ataque de nervos, de Jonathan Dayton e Valerie Faris.

8. A comédia do poder, de Claude Chabrol

9. Escolha mortal, de John Hillcoat

10. Dália negra, de Brian de Palma

19.12.06

Da batota



No comentário áudio a Sin City, incluído nos extras do respectivo dvd, há uma muito interessante conversa entre Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Tarantino, recorde-se, realizou uma das cenas do filme (a viagem de carro de Clive Owen e Benicio del Toro). Segundo conta Rodriguez, tudo começou com uma proposta sua: ele faria a banda sonora de Kill Bill 2 à borla e em troca Tarantino participaria num filme seu. Rodriguez queria que Tarantino experimentasse trabalhar com tecnologia digital, algo que este achava uma blasfémia, mas a que acabou por ser tentado. Sin City era o filme ideal para o fazer: foi todo filmado em digital, com uma técnica denominada 'croma' (green screen) que consiste em filmar os actores em frente a um ecrã verde, sendo os cenários e outros elementos adicionados durante a pós-produção. Tarantino diz que quando viu o filme em croma lhe pareceu uma peça de Sartre! Aliás o seu comentário é totalmente diferente do de Roberto Rodriguez. Este fala num tom calmo e professoral, transmitindo grande autoconfiança e profissionalismo. O filme foi realizado no seu estúdio, com a tecnologia referida, e Rodriguez além de realizar, também se encarregou da fotografia, da montagem, e supervisionou os efeitos especiais. O seu comentário incide sobretudo em explicações técnicas ou de produção: como convenceu primeiro Frank Miller a embarcar no projecto, e depois Bruce Willis, Mickey Rourke, etc. Um aspecto interessante que ele revela é que a única forma de reunir este cast impressionante foi ter os actores segundo a sua disponibilidade, pelo que na grande maior parte das cenas estes não chegaram a contracenar uns com os outros, foi tudo feito durante a montagem! O comentário de Tarantino é todo noutra onda. Com a sua voz esganiçada de puto excitado, começa logo pela sua peculiar cinefilia, revelando que se inspirou em Dario Argento para a sua cena. Mesmo para explicar aspectos técnicos, recorre a uma história passada durante a realização de Cães Danados, ou então conta como Jean-Pierre Melville já usava uma certa técnica que o digital veio facilitar. E às tantas dá-se um diálogo que mostra bem as diferenças entre os dois realizadores, muitas vezes postos no mesmo saco (esclareço que sou fã de Tarantino e que olhava de cima para Roberto Rodriguez até Sin City, de que gostei bastante). Cito por alto, que não tenho o dvd à mão, e o que interessa é a ideia. Com uma genuína curiosidade Tarantino pergunta como é que Rodriguez fez uma determinada cena, algo do género como é que conseguiu que uma actriz não fechasse os olhos. Rodriguez explica que fez um 'truque', baseado na montagem, ao que Tarantino exclama entre o irónico e o chocado: mas isso é batota! Ao que lhe responde calmamente Rodriguez: [no cinema] tudo é batota.