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21.1.07



Começou hoje a votação para o Alfred 2006, o prémio da Liga dos Blogues Cinematográficos para os melhores filmes do ano. Votam os membros activos da Liga .

O Alfred 2006 tem vinte categorias:
filme do ano, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, elenco, roteiro original, roteiro adaptado, cena do ano, filme de estréia, filme brasileiro, fotografia, montagem, direção de arte, trilha sonora, canção, som, efeitos visuais e pior filme.

O Alfred acontece em duas etapas:
Na primeira, de 21 de janeiro até 3 de fevereiro, os integrantes votarão em cinco nomes para cada uma das categorias.
Na segunda etapa, de 5 até 11 de fevereiro, os integrantes escolherão entre os cinco mais votados em cada categoria.

Concorrem ao Alfred todos os filmes lançados em circuito comercial no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2006 que tenham data de lançamento original de no máximo cinco anos antes do ano em questão. Para 2006, valem apenas os filmes lançados de 2001 a 2006. Filmes relançados em circuito, que participaram de mostras e festivais, exibidos apenas em sessões especiais e pré-estréias ou lançados diretamente em DVD não são elegíveis, mesmo quando inéditos em circuito. A lista completa de lançamentos está no blogue da liga.

Brevemente postarei aqui as minhas escolhas. Entretanto, os mais curiosos podem espreitar os vencedores de 2003, 2004 e 2005.

Conversa de Café


18.1.07

Aos doze e tantos



Neste início de ano ando a ver mais filmes que me escaparam o ano passado, que estreias de 2007. Para já, uma boa surpresa: este 'aos doze e tantos', segundo filme de Michael Cuesta e que passou por cá algo despercebido.
É assim uma espécie de cruzamento entre 'Magnolia' e 'Mean Creek', não atingindo o nível do primeiro, mas sendo muito melhor que o segundo. Entra pelo dia a dia de três pré-adolescentes, a quem a morte de um amigo (e irmão, num dos casos) acaba por mudar definitivamente. O que o filme capta tão bem são os seus problemas, simultaneamente tão comuns aos dos adultos (o não saber lidar com a diferença; as obsessões; até a solidão) e tão diferentes (ainda não sabem que as coisas não dependem apenas da nossa vontade). É neste sentido que referi 'Magnolia': o filme fala da vida de todos nós, da frágil teia que construimos e que se chama sociedade, mas põe no seu centro miúdos e não adultos.
Definitivamente, depois dos bons indícios dados em 'L.I.E.', Michael Cuesta confirma que é um realizador a ter em atenção.
Twelve and holding, E.U.A., 2005. Realização: Michael Cuesta. Com: Conor Donovan, Zoe Weizenbaum, Jesse Camacho, Jeremy Renner, Michael C. Fuchs, Joseph Foster, Annabella Sciorra

17.1.07

Os abutres têm fome



Um filme de Don Siegel em que uma pessoa volta e meia pensa se não estará a ver um filme de Billy Wilder? É verdade: acontece neste primeiro encontro entre Siegel e Clint Eastwood, um ano antes de ‘Dirty Harry’. E não se pense que Eastwood não faz o habitual papel de lonely ranger. O que se passa é que anda por lá Shirley MacLaine a baralhar as coisas: na primeira cena aparece meia nua, mal se tapando com o hábito de freira e mais não digo. Nem sequer falarei das semelhanças entre esta Irmã e uma tal de Irma La Douce...
‘Os abutres têm fome', filme magnífico, é o western que Billy Wilder nunca realizou.
Two mules for sister Sara, E.U.A., 1969. Realização: Don Siegel. Com: Shirley MacLaine, Clint Eastwood, Manuel Fábregas, Alberto Morin.

16.1.07

As bandeiras dos nossos pais



'When the legend becomes fact, print the legend', diz-se em 'O homem que matou Liberty Valance', um dos maiores westerns da história do cinema (e até um dos maiores filmes da história do cinema). O tema de 'As bandeiras dos nossos pais' no fundo é esse, mas mostrando-nos os danos colaterais dessa máxima. Não importa que os soldados que aparecem na famosa fotografia de Joe Rosenthal não fossem os que arriscaram a vida para pôr a bandeira americana no cume de Iwo Jima. Eles é que ficaram na fotografia e por isso são transformados em heróis pela máquina da guerra, que precisa deles para angariar dinheiro para a sua causa. Mas, ao contrário de James Stewart no filme de Ford, aqui os três soldados não só não estão preparados para serem heróis, como sentem mesmo que estão a colaborar numa impostura. O índio Ira Hayes (o mais americano deles todos, como lhe diz hipocritamente um político) não se sente mesmo nada bem nesse papel e acaba por se afundar.
'As bandeiras dos nossos pais' tem uma estrutura complicada, com três tempos narrativos diferentes e uma montagem complexa. Há uma parte passada no presente (que serve para criar um narrador) e uma que é a parte filme de guerra propriamente dito - a tomada de Iwo Jima - que é naturalmente bem feita e eficaz, mas que não acrescenta nada ao género - é assim algo spielbergiana. Onde o filme falha, porém, é na parte que verdadeiramente interessa ao realizador e a que já aludimos. Aquele sopro trágico que anima as personagens de 'Mystic River' e 'Million Dollar Baby', está aqui tragicamente ausente. A personagem que mais incarna essa inadaptação à condição de herói à força, que mais resiste ao sistema hipócrita que alimenta e se alimenta da guerra (os políticos, as altas patentes, os negócios), Ira Hayes, é demasiadamente simplista e arquetípica. Mal põe os pés em terra, já está a afogar as mágoas no álcool - percebemos, claro, as intenções do realizador, mas pretendíamos ser tocados pela personagem, irmos entrando dentro dela - não porem-nos um cartaz à frente a dizer 'Atenção: inadaptado que se refugia no álcool'.
'As bandeiras dos nossos pais' é assim, na minha opinião, uma obra menor na filmografia dum dos maiores realizadores da actualidade. Mas não deixa de ser interessante ver como é ele a dar esta machadada na máquina da guerra, em tempos de Iraque... A liberdade de pensar por si e fazer o que lhe apetece, ninguém a tira a Clint Eastwood.
Esperemos agora pelo final de Fevereiro para assistirmos à segunda parte do díptico ('Letters from Iwo Jima'), e revermos (ou não) a nossa posição sobre este filme.
Flags of Our Fathers, E.U.A., 2006. Realização: Clint Eastwood. Com: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, Jamie Bell, Barry Pepper, Tom Verica, Paul Walker, Robert Patrick, Neal McDonough, Joseph Cross, Melanie Lynskey.

15.1.07

Body Rice



Uma adolescente deitada na cama fuma cigarro após cigarro. Outra vagueia sem rumo pela paisagem alentejana. São alemãs e vieram para o Alentejo, tal como muitos seus compatriotas ‘problemáticos’, integradas em programas de reinserção social. ‘Body Rice’ acompanha o seu dia-a-dia, que consiste basicamente em não fazer nada. Desenraizados, deslocados, vivem numa espécie de vazio existencial e apatia emocional. Não sabemos se têm esperanças, o que pensam da sua situação, se sairão daqui de modo a ser ‘reinseridos’ na sociedade. Sobre isto o realizador nada nos diz. Limita-se a dar a ver, a filmar estes corpos à deriva no deserto Alentejano. Improvisam-se algumas raves, ouve-se música industrial e electrónica (Einsturzende Neubaten, Xmal Deutchland, etc.), há algum sexo fortuito, mas a vida social fica-se por aí. Durante o filme inteiro não há mais de meia dúzia de diálogos. Não passará despercebido a ninguém que a cena mais calorosa do filme se dá entre uma rapariga e...um robot de brincar.
‘Body Rice’ é mais um filme português que teima em ser diferente. Que parte duma matéria-prima interessante e a trabalha dum modo inesperado - tem-se falado que dilui a fronteira entre cinema e artes performativas, e é uma maneira de pôr as coisas. Quem só entende o cinema como algo narrativo, com princípio, meio e fim, deve-se abster. Quem arriscar, tem direito – no mínimo – ao primeiro OVNI do ano.
Body Rice, Portugal, 2006. Realização: Hugo Vieira da Silva. Com: Alice Dwyer, Luís Guerra, André Hennicke, Pedro Hestnes e Julika Jenkins.

12.1.07

Sonhar com Xangai



Penso que foi Stendhal quem disse que os actos banais do quotidiano se tornam relevantes se tiverem lugar numa época histórica especial. Lembrei-me desta 'máxima' ao ver este filme. Aqui se conta o dia a dia de Qing Hong, uma adolescente como outra qualquer: as suas prioridades são sair à noite com as amigas, experimentar uns sapatos de salto alto, namoriscar. E, claro, colidem com as do pai: este quer que ela estude para entrar na universidade e sair da aldeola onde vivem. Aliás ele próprio quer regressar para Xangai, donde veio há vinte anos atrás para trabalhar numa fábrica, na sequência de um programa governamental.
As angustias e divertimentos de Qing Hong tornam-se relevantes por espelharem o clima de abertura que se respirava na China dos anos 80, na sequência das reformas promovidas por Deng Xiaoping. Os jovens usam calças à boca de sino, ouvem rock and roll, organizam-se em gangs, vão a festas clandestinas. Quase nos esquecemos que estamos na China comunista e não numa qualquer cidadezita de qualquer outro país. Só nos lembramos quando na escola proíbem as calças à boca de sino; ou quando na fábrica do pai de Qing Hong, não o deixam partir; ou, claro, quando passa pelas ruas um carro com um altifalante a anunciar...as execuções que vão ter lugar nesse dia!
'Sonhar com Xangai' torna-se assim um filme interessante nesta atenção 'realista' que dá aos pequenos ventos de mudança que iam soprando por essa época (e que iriam culminar meia dúzia de anos depois em Tiananmen), embora não ultrapasse a mediania competente a nível cinematográfico.
Sem deslumbrar, é ainda assim uma boa alternativa à dieta hollywoodiana que nos vai sendo quase exclusivamente servida...
Qing Hong / Shanghai Dreams, China, 2005. Realização: Wang Xiaoshuai. Com: Gao Yuanyuan, Li Bin, Yan Anlian, Wang Xueyang e Qing Hao.

10.1.07

Father

[Paisà] The first film by my father, Roberto Rossellini, that I remember watching as a child. I had some girlfriends tell me afterwards they were bored, so I was ashamed. Then, later, I heard some adults mumbling the same sentiments. But when I revisited this picture as a teenager I got to make up my own mind about it. I could barely handle the emotional surprise that accompanied my realisation that my father really knew what he was doing. I had been secretly and shamefully short-changing him for years, and now, without saying a word to me, he was telling me through this film that he was a force to be reckoned with, a force that for me would never go away!


Isabella Rossellini in Time Out - 1000 films to change your life

9.1.07

Mother

[Notorious] My personal favourite of all my mother's movies. I think even the title opens up so many emotional compartments for me, for I was born during my mother's notoriety as Hollywood infidel and continental usurper. When I was old enough to understand Hitchcock's movie, I felt Cary Grant was victimising mother as much as the rest of the public was. Later I conveniently chose to understand that film industry hostility as the same species of lust and jealousy which inflamed Grant's character, and I felt less a victim on my mother's behalf and more proud of her, and of her character, for doing what she believed in - what was only right to do. After all, how is a daughter to resent her own mother for falling in love with her father? Anyway, this movie has blurred the borders between movies and real life, and confused me in all the right ways for as long as I’ve lived - and, I pray, will continue to do so. It's also a really good movie, I think.
Isabella Rossellini in Time Out - 1000 films to change your life

8.1.07

Babel



'Babel' sofre de um pecado original: sendo um filme político, a parte política é a menos interessante. As autoridades (americanas, claro) são sempre autoritárias, insensíveis e arrogantes - neste campo é tudo maniqueísta e bastante irritante. Basta isto para anular o interesse do filme? Eu penso que não. 'Babel' tem tantas qualidades como tem defeitos, e estes até só se manifestam lá para o final do filme. Felizmente o que fica no meio não é um mero pretexto para as tais conclusões políticas, ou se o é consegue estar para lá disso. Iñárritu é um bom contador de histórias, de histórias humanas, de seres humanos de carne e osso, sejam adolescentes surdas-mudas que moram numa Tóquio futurista e pop (e que talvez simbolize como nenhuma outra metrópole os valores do capitalismo 'ocidental'), sejam miúdos perdidos nos montes marroquinos. Tirando Brad Pitt e Cate Blanchett, que são pouco mais que bonecos, gostei das outras personagens, gostei do 'segmento Tóquio', gostei do 'segmento México' até aos incidentes 'políticos' da fronteira, gostei do 'segmento Marrocos', até à parte 'política' do tiroteio com a polícia. Não é por acaso que o melhor filme de Iñárritu continua a ser 'Amor Cão': aí não há grandes pretensões filosóficas (como no dispensável '21 gramas'), nem políticas (como aqui), mas apenas vontade de contar histórias do quotidiano, à maneira de alguma tradição contista americana. Quanto ao resto, o realizador mexicano filma muito bem (mesmo algumas partes filmadas a la teledisco em Tóquio fazem sentido), e domina na perfeição a técnica das histórias entrelaçadas, que noutros realizadores já cansa (veja-se o caso de 'Crash').
Seja como for, o facto de partir como grande favorito à corrida dos Oscares, não deixa de revelar algum masoquismo por parte da academia americana...
Babel, E.U.A., 2006. Realização: Alejandro González Iñárritu. Com: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael García Bernal, Adriana Barraza, Boubker Ait El Caid, Tarchani Said, Rinko Kikuchi, Kôji Yakusho, Elle Fanning, Nathan Gamble.