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31.1.07

Filmes de Janeiro

A partir de agora, no início de cada mês registarei aqui os filmes que vi no mês anterior. O facto de um blog ser uma espécie de diário (neste caso cinéfilo), aliado ao meu gosto por listas, tops e afins, levou-me a criar esta nova 'secção'. Só isso.
Aqueles filmes sobre os quais não escrevi (a maioria), terão uma classificação - de 0 (péssimo) a 5 (obra-prima).


A oeste nada de novo, Lewis Milestone, 1930 (4)
Platinum Blonde, Frank Capra, 1931 (4)
A mulher desejada, Jean Renoir, 1947 (5)
The clay pigeon, Richard Fleischer, 1949 (3,5)
A pantera cor de rosa, Blake Edwards, 1963 (4-)
La femme infidèle, Claude Chabrol, 1969 (4,5)
Os abutres têm fome, Don Siegel, 1970
O último homem na terra, Boris Sagal, 1971 (1)
Sukeban gerira, Norifumi Suzuki, 1972 (3)
The getaway, Sam Peckinpah, 1972 (4)
Profissão reporter, Michelangelo Antonioni, 1975 (5)
The day of the dead, George Romero, 1985 (2,5)
A barriga de um arquitecto, Peter Greenaway, 1987 (2,5)
Eros, M.Antonioni+S.Soderbergh+Kar Wai Wong, 2004 (2,5)
A minha mãe, Christophe Honoré, 2004 (0)
Sonhar com Xangai, Xiaoshuai Wang, 2005
Aos doze e tanto, Michael Cuesta, 2005
Apocalypto, Mel Gibson, 2006
Babel, Alejandro González Iñárritu, 2006
Body Rice, Hugo Vieira da Silva, 2006
As bandeiras dos nossos pais, Clint Eastwood, 2006
Caos, Toni Giglio, 2006
Assalto e intromissão, Anthony Minghella, 2006
Scoop, Woody Allen, 2006
O terceiro passo, Cristopher Nolan, 2006
Diamantes de sangue, Edward Zwick, 2006

30.1.07

O terceiro passo



Algures neste filme sobre a rivalidade mortal entre dois mágicos, um deles elogia um truque do outro pela sua simplicidade. Infelizmente Nolan não ouviu a sua personagem: ‘The prestige’ é todo baseado num argumento rebuscado que tenta estar sempre um ou dois passos à frente do espectador, que tenta impressioná-lo com piruetas cada vez mais elaboradas, com uma montagem vistosa que anda para trás e para a frente, com uma produção luxuosa, com um cast imponente (até David Bowie faz uma perninha). Infelizmente por trás de todo este aparato não há grande coisa para mostrar: é como um mágico que montasse um número com grandes meios e uma encenação sumptuosa, para no final sair a habitual pomba debaixo do lenço. Nolan já não se deve lembrar de ‘Memento’, que era um filme muito interessante por se basear, por trás da sua aparente complexidade, numa ideia muito simples: filmar a história ‘da frente para trás’. Mas definitivamente esses tempos já lá vão, e de filme para filme o realizador vai diluindo a sua personalidade na máquina industrial. É uma pena sempre que se perde um autor.
The Prestige, E.U.A., 2006. Realização: Cristopher Nolan. Com: Hugh Jackman, Christian Bale, Michael Caine, Scarlett Johansson, David Bowie, Andy Serkis, Rebecca Hall, Piper Perabo.

28.1.07

Scoop



É relativamente consensual: desde 'Crimes e escapadelas' toda a gente acha que Woody Allen anda a fazer filmes menores (uma corrente menos pessimista dirá desde 'As faces de Harry'). Menores no contexto da obra de Allen, bem entendido, que tem aí uma dúzia de obras-primas. Posto isto, cada um tem o seu 'Woody menor' de estimação. 'Match Point' teve mesmo tantos adeptos que foi considerado um 'Woody maior' e foi até visto como um renascimento do realizador. Mas talvez isto se tenha devido ao facto de ser um filme mais sério que as comédias ligeiras que vinha fazendo, pois mais uma vez era uma variação sobre um tema anterior (o crime sem castigo, tratado de forma superior em 'Crimes e escapadelas'). 'Scoop' é mais um destes filmes 'menores', em que Woody volta a terrenos familiares: há uma investigação de um crime (como em 'O misterioso assassínio em Manhattan'), há um mágico (como em 'A maldição do escorpião de Jade), há a upper class Londrina como background, Scarlett Johansson como actriz principal (como em 'Match Point'). E novamente 'Scoop' é um filme inteligente, bonito e com gags de primeira água. E com um excelente elenco, com natural destaque para La Scarlett e, claro, Woody Allen novamente a fazer de si próprio depois de um interregno de dois filmes. Voltando aos tais 'Woodys menores', eu diria que este é de primeira apanha - o que significa que aposto que não vai haver uma dúzia de filmes melhores que este no presente ano...
Scoop, Grã-Bretanha/E.U.A, 2006. Realização: Woody Allen. Com: Scarlett Johansson, Hugh Jackman, Woody Allen, Ian McShane, Romola Garai, Charles Dance, Anthony Head.

24.1.07

Assalto e intromissão

Depois de ‘Caché’ (franceses e argelinos), depois de ‘Babel’ (americanos e mexicanos e mais uns quantos), eis mais um filme para burgueses ricos e gordos expiarem a sua má consciência ocidental em relação aos imigrantes do terceiro mundo.
Aqui é um jovem arquitecto londrino de sucesso, que planeia requalificar uma zona degradada de Londres (King´s Cross) e prefere não acusar o jovem bósnio que lhe assaltou o atelier e envolver-se antes com a sua mãe, muçulmana. E para desabafar as agruras da vida escolhe uma prostituta de leste, já que com a sua mulher (sueca), não consegue falar. Eu, sinceramente, já não dou para este peditório e achei mesmo ‘Assalto e Intromissão’ do mais bocejante que tenho visto ultimamente. A personagem de Jude Law (que tarda em ter o seu ‘Departed’ e provar que é actor), ora cidadão consciente exemplar, ora cobarde com problemas morais sub-‘Match-Pointianos’, raia mesmo o exasperante. Mas talvez seja eu que não tenho ‘sensibilidade para estas problemáticas’, como já me disseram. Seja.
Quanto ao resto, o que fica para lá do argumento, Minghela sabe do seu ofício e o embrulho é bonito as usual. É sempre um prazer ver Londres no grande ecrã, bem filmada ainda por cima, é bom rever a grande actriz que é Juliette Binoche, é óptimo ter notícias de Robin Wright Penn, actriz rara e bela. Quase que vale a pena ver o filme por elas as três.
Breaking and Entering, Grã-Bretanha/E.U.A., 2006. Realização: Anthony Minghella. Com: Jude Law, Juliette Binoche, Robin Wright Penn, Rafi Gavron, Martin Freeman, Ray Winstone, Vera Farmiga, Poppy Roger

22.1.07

Caos



Ainda não terminou o mês 1 e já temos direito ao primeiro heist movie do ano, género que ultimamente não se tem distinguido por dar ao mundo grandes obras-primas, mas que tem os seus fãs (entre os quais me incluo) e vai mantendo a sua quota de mercado. O que dizer então deste 'Caos', escrito e realizado pelo desconhecido Tony Giglio? Brevemente: tem uma realização competente e eficaz; tem um muito bom actor (Ryan Phillippe, que também podemos ver em 'As bandeiras dos nossos pais'), um que se limita a picar o ponto (Wesley Snipes) e um canastrão (Jason Statham); tem um argumento que não desilude (tendo alguns pontos de contacto com 'Infiltrado' de Spike Lee) e que, embora o espectador mais batido não tenha dificuldade em prever a cambalhota final da praxe, até acaba num último fôlego por surpreender. Ou seja: os tais fãs do género não darão o seu tempo por mal empregue; os restantes mortais podem-se abster.
Chaos, Canadá/Grã-Bretanha/EU.A., 2006. Realização: Tony Giglio. Com: Jason Statham, Ryan Phillippe, Wesley Snipes, Justine Waddell, Henry Czerny, Nicholas Lea.

21.1.07



Começou hoje a votação para o Alfred 2006, o prémio da Liga dos Blogues Cinematográficos para os melhores filmes do ano. Votam os membros activos da Liga .

O Alfred 2006 tem vinte categorias:
filme do ano, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, elenco, roteiro original, roteiro adaptado, cena do ano, filme de estréia, filme brasileiro, fotografia, montagem, direção de arte, trilha sonora, canção, som, efeitos visuais e pior filme.

O Alfred acontece em duas etapas:
Na primeira, de 21 de janeiro até 3 de fevereiro, os integrantes votarão em cinco nomes para cada uma das categorias.
Na segunda etapa, de 5 até 11 de fevereiro, os integrantes escolherão entre os cinco mais votados em cada categoria.

Concorrem ao Alfred todos os filmes lançados em circuito comercial no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2006 que tenham data de lançamento original de no máximo cinco anos antes do ano em questão. Para 2006, valem apenas os filmes lançados de 2001 a 2006. Filmes relançados em circuito, que participaram de mostras e festivais, exibidos apenas em sessões especiais e pré-estréias ou lançados diretamente em DVD não são elegíveis, mesmo quando inéditos em circuito. A lista completa de lançamentos está no blogue da liga.

Brevemente postarei aqui as minhas escolhas. Entretanto, os mais curiosos podem espreitar os vencedores de 2003, 2004 e 2005.

Conversa de Café


18.1.07

Aos doze e tantos



Neste início de ano ando a ver mais filmes que me escaparam o ano passado, que estreias de 2007. Para já, uma boa surpresa: este 'aos doze e tantos', segundo filme de Michael Cuesta e que passou por cá algo despercebido.
É assim uma espécie de cruzamento entre 'Magnolia' e 'Mean Creek', não atingindo o nível do primeiro, mas sendo muito melhor que o segundo. Entra pelo dia a dia de três pré-adolescentes, a quem a morte de um amigo (e irmão, num dos casos) acaba por mudar definitivamente. O que o filme capta tão bem são os seus problemas, simultaneamente tão comuns aos dos adultos (o não saber lidar com a diferença; as obsessões; até a solidão) e tão diferentes (ainda não sabem que as coisas não dependem apenas da nossa vontade). É neste sentido que referi 'Magnolia': o filme fala da vida de todos nós, da frágil teia que construimos e que se chama sociedade, mas põe no seu centro miúdos e não adultos.
Definitivamente, depois dos bons indícios dados em 'L.I.E.', Michael Cuesta confirma que é um realizador a ter em atenção.
Twelve and holding, E.U.A., 2005. Realização: Michael Cuesta. Com: Conor Donovan, Zoe Weizenbaum, Jesse Camacho, Jeremy Renner, Michael C. Fuchs, Joseph Foster, Annabella Sciorra

17.1.07

Os abutres têm fome



Um filme de Don Siegel em que uma pessoa volta e meia pensa se não estará a ver um filme de Billy Wilder? É verdade: acontece neste primeiro encontro entre Siegel e Clint Eastwood, um ano antes de ‘Dirty Harry’. E não se pense que Eastwood não faz o habitual papel de lonely ranger. O que se passa é que anda por lá Shirley MacLaine a baralhar as coisas: na primeira cena aparece meia nua, mal se tapando com o hábito de freira e mais não digo. Nem sequer falarei das semelhanças entre esta Irmã e uma tal de Irma La Douce...
‘Os abutres têm fome', filme magnífico, é o western que Billy Wilder nunca realizou.
Two mules for sister Sara, E.U.A., 1969. Realização: Don Siegel. Com: Shirley MacLaine, Clint Eastwood, Manuel Fábregas, Alberto Morin.

16.1.07

As bandeiras dos nossos pais



'When the legend becomes fact, print the legend', diz-se em 'O homem que matou Liberty Valance', um dos maiores westerns da história do cinema (e até um dos maiores filmes da história do cinema). O tema de 'As bandeiras dos nossos pais' no fundo é esse, mas mostrando-nos os danos colaterais dessa máxima. Não importa que os soldados que aparecem na famosa fotografia de Joe Rosenthal não fossem os que arriscaram a vida para pôr a bandeira americana no cume de Iwo Jima. Eles é que ficaram na fotografia e por isso são transformados em heróis pela máquina da guerra, que precisa deles para angariar dinheiro para a sua causa. Mas, ao contrário de James Stewart no filme de Ford, aqui os três soldados não só não estão preparados para serem heróis, como sentem mesmo que estão a colaborar numa impostura. O índio Ira Hayes (o mais americano deles todos, como lhe diz hipocritamente um político) não se sente mesmo nada bem nesse papel e acaba por se afundar.
'As bandeiras dos nossos pais' tem uma estrutura complicada, com três tempos narrativos diferentes e uma montagem complexa. Há uma parte passada no presente (que serve para criar um narrador) e uma que é a parte filme de guerra propriamente dito - a tomada de Iwo Jima - que é naturalmente bem feita e eficaz, mas que não acrescenta nada ao género - é assim algo spielbergiana. Onde o filme falha, porém, é na parte que verdadeiramente interessa ao realizador e a que já aludimos. Aquele sopro trágico que anima as personagens de 'Mystic River' e 'Million Dollar Baby', está aqui tragicamente ausente. A personagem que mais incarna essa inadaptação à condição de herói à força, que mais resiste ao sistema hipócrita que alimenta e se alimenta da guerra (os políticos, as altas patentes, os negócios), Ira Hayes, é demasiadamente simplista e arquetípica. Mal põe os pés em terra, já está a afogar as mágoas no álcool - percebemos, claro, as intenções do realizador, mas pretendíamos ser tocados pela personagem, irmos entrando dentro dela - não porem-nos um cartaz à frente a dizer 'Atenção: inadaptado que se refugia no álcool'.
'As bandeiras dos nossos pais' é assim, na minha opinião, uma obra menor na filmografia dum dos maiores realizadores da actualidade. Mas não deixa de ser interessante ver como é ele a dar esta machadada na máquina da guerra, em tempos de Iraque... A liberdade de pensar por si e fazer o que lhe apetece, ninguém a tira a Clint Eastwood.
Esperemos agora pelo final de Fevereiro para assistirmos à segunda parte do díptico ('Letters from Iwo Jima'), e revermos (ou não) a nossa posição sobre este filme.
Flags of Our Fathers, E.U.A., 2006. Realização: Clint Eastwood. Com: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, Jamie Bell, Barry Pepper, Tom Verica, Paul Walker, Robert Patrick, Neal McDonough, Joseph Cross, Melanie Lynskey.